A necessidade de cura do masculino

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Vivemos numa sociedade profundamente doente. Isso manifesta-se na natureza, na relação que mantemos com ela e as alterações climáticas, queiramos quer não, são uma manifestação da relação pouco saudável que temos com o meio ambiente: em relação à água (excesso de utilização, desperdício e poluição), ao solo (agricultura agressiva, poluição, desflorestação), ao ar (poluição através dos combustíveis de transportes aéreos, automóveis e embarcações), aos animais (violência, extinção por caça e outros factores, consumo excessivo, etc.), e tudo aquilo pelo qual não terei a capacidade de elaborar aqui.

Não só exploramos violentamente, e pouco conscientemente, o ambiente, como vivemos relações pouco saudáveis uns com os outros, mais principalmente connosco e com as nossas emoções. Toda a ferida acarreta uma dor. Normalmente a ferida vem da noção da falta de amor, abandono, rejeição, humilhação, desprezo ou não aceitação. Vem da falta de se sentir amado, aceite e compreendido. Vem da falta de capacidade de reconhecer as próprias necessidades porque, provavelmente, elas não foram ouvidas ou reconhecidas antes por figuras importantes (pais, progenitores, cuidadores).

Este documentário da foto, “The mask you live in”, foi das coisas mais brilhantes que vi: o reconhecimento das feridas nos meninos que se tornam adolescentes e homens. O que lhes foi ensinado a serem – e a não serem (o que é aceitável na sua conduta e o que não é aceitável) – e o resultado sociológico e psicológico desse ensinamento. Não poderei dizer melhor o que lá está, penso que todas as pessoas deveriam ver o documentário. O que percebo é que os nossos meninos estão profundamente feridos com as feridas que ainda estão latentes no masculino, no ser homem e o que isso deve representar.

Podemos ser pais atentos, amorosos, presentes, disponíveis e conscientes, mas a sociedade lá fora ainda não é inteiramente assim. Estamos a curar e a transformar milénios de dor e sofrimento, de rejeição do feminino e da vulnerabilidade (ser vulnerável, ter sentimentos), milénios de abuso de poder, dominação e agressão de homens em relação a mulheres. Conceitos de que para se ser bem sucedido, tem de ter muitas mulheres, ser líder, ter dinheiro (status), onde o parecer ser é mais importante que o ser.

Estamos todos profundamente feridos enquanto sociedade, enquanto homens e mulheres que sofrem por conceitos sem sentido que são perpetuados ainda hoje nos meios de comunicação social, nas publicidade que assistimos, nos videoclips de música, onde há sexismo, violência e objectificação de corpos, tanto de homens como de mulheres. Estamos profundamente feridos nas coisas que esperamos dos homens e das coisas que esperamos da mulher. Temos expectativas que são preconceitos, estereótipos, do que uma mulher e um homem devem ser, fazer ou querer fazer.

Há um leve despertar, vários grupos a trabalharem efectivamente na mudança. Eu sinto a mudança a acontecer, os homens e as mulheres a despertarem de um longo sono, ou hibernação, e a questionarem-se sobre o que é ser homem, o que é ser mulher. A questionarem os conceitos, os estereótipos, e a tentarem encontrar a sua voz e o seu papel no mundo apesar desses conceitos e estereótipos. A tentarem encontrar a sua verdade e a expressarem essa verdade no mundo.

O que sei é que homens e mulheres querem o mesmo. Homens e mulheres têm sentimentos e emoções. O homem precisa reconciliar-se com a figura paterna e com as feridas por ele, o pai, deixadas. O pai está ferido, logo o filho está ferido também. Não há hipótese de construirmos um mundo melhor e mais equilibrado, eliminando toda a forma de violência de género e uns contra os outros, sem se curarem estas feridas na psique humana, no nosso corpo de dor individual e enquanto elementos pertencentes a uma família ferida.

A mulher precisa curar-se pelas feridas infligidas pelo masculino através dos séculos. O homem precisa perdoar-se a ele próprio pela violência cometida contra a mulher e contra ele próprio, pois só fere quem está ferido. Somos a cultura e as gerações que assistem a este rompimento com os véus que limitam a consciência. Ela está aí, como um amanhecer, para que todos vejam, todos se ergam para hastear a bandeira da paz e gritar para o mundo: basta de violência, olho para mim para poder compreender o outro; curo-me a mim para que as gerações futuras possam ser curadas também.

O bullying na maternidade

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bullying em variados contextos, na escola, no local de trabalho, ou em todos os sítios onde sejamos expostos a violência, ameaça, coerção ou comportamentos cujo objectivo é intimidar ou dominar uma outra pessoa de alguma forma, de forma consistente ou repetitiva. Muitas vezes somos nós quem o faz e nem percebemos, em comentários, críticas, ou julgamentos constantes a alguém que nos é próximo.

Na maternidade tenho assistido a isso de forma recorrente, nomeadamente a temas que estão em discussão pública actualmente, como o caso da amamentação (durante quanto tempo e de que forma), da alimentação (açúcar, veganismo, etc.) e do parto em si (cesariana ou natural). Cada pessoa defende a sua posição de forma acérrima, e muitas vezes, defende-a contra todas as outras posições que são tomadas por outras mulheres.

Não vou falar em fundamentalismo, vou falar em ódio e desaprovação. Não é concebível a crítica destrutiva, ou o julgamento de outras mulheres só porque estas tomam medidas ou opiniões diferentes. Se a mulher está a ser acompanhada por uma equipa de saúde – e sabemos que actualmente o nascimento de uma criança está rodeado de profissionais, médicos e enfermeiros – e, para além do mais, está consciente e informada acerca das escolhas que tem disponíveis, porquê a desaprovação?

Não vivemos já nos tempos de caça às bruxas, mas as mulheres nem sempre são amigas no que toca a respeitar outras nas suas decisões, sentimentos e perspectivas. Fico completamente abismada com comentários que vejo nas redes sociais em grupos relacionados com a maternidade, nos conteúdos e ódio implícito. Há acusações, impropérios e críticas veladas. Cada mulher se sente no direito de opinar sobre as decisões da próxima. E sim, todas temos opinião, todas nos colocamos perante os assuntos e os temas a favor ou desfavor. Todas temos os nossos motivos.

Todas somos diferentes, temos diferentes ambições, diferentes expectativas, crenças e medos distintos umas das outras. Muitos são parecidos e comuns, mas cada pessoa é em si um universo e lida com a maternidade com os recursos, ferramentas e conhecimentos que tem ao seu dispor. Para além de todos os receios e expectativas, suas e dos outros, a futura mãe tem um sem fim de vozes críticas e opiniões sempre a persegui-la e a fazer-se sentir culpada com as suas escolhas. Parece que, independentemente do que escolha fazer, ou como, tem sempre a discórdia de algum lado.

Mulheres, sejamos amigas, compreensivas e tolerantes com a próxima. Exercitemos a paciência, a contenção e a aceitação daquilo que nem sempre compreendemos. Devemos unir-nos e não separar-nos. Devemos amparar-nos, ajudar-nos, e não ferir-nos, excluirmos. Não é a nossa função dar o parecer ou condicionar a outra mulher nas suas decisões, mas apoiar, dialogar, aconselhar profissionais competentes que o possam fazer.

Podemos ler livros, podemos consultar diversos especialistas, ter acompanhamento médico, fazer o curso de preparação para o parto, e só aí ser aconselhada, recolher informação fundamentada e decidir, decidir o que sente ser mais correcto para si e para esse momento que está a viver. Não só, permanecer firme perante as opiniões contraditórias e dizer não à culpa. Está a fazer o melhor que pode, de acordo com o que sabe e o que tem de informação disponível neste momento. E, para além de tudo isso, siga o seu instinto. Acredito que ele está sempre certo.

O terapeuta não é um amigo

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Pense na posição de um terapeuta? Quais são as funções do terapeuta? As tarefas? O papel que o terapeuta deve ter nas suas consultas? Qual o seu código de ética e de conduta? Qual o comportamento correcto que o terapeuta deve assumir? Ser imparcial, neutro, empático, não julgar, não criticar, não condenar, não dar opiniões ou palpites pessoais, não conduzir a pessoa em determinada direcção que ache mais correcta ou dizer ao cliente o que tem ou deve fazer.

Muitas pessoas procuram no terapeuta um amigo em quem possam confiar os seus segredos, com quem possam desabafar livremente, com quem se possam sentir à vontade. E sim, com um terapeuta deve sentir-se completamente à vontade para falar de todos os assuntos que o perturbem. Mas o terapeuta é um profissional que deve manter o seu distanciamento de alguma forma, o terapeuta é com quem está a estabelecer uma relação comercial: o terapeuta oferece determinado serviço que o cliente está a pagar.

Ou seja, há uma troca. O terapeuta presta o serviço para o qual foi contratado e o cliente paga esse serviço. O terapeuta só pode trabalhar consigo as suas questões estando presente e em sessão. Em sessão são recolhidas todas as informações relativas ao que quer ultrapassar, modificar ou resolver, e é em sessão que elas podem ser abordadas, discutidas e trabalhadas.

Fora da sessão, e do seu horário de trabalho, o terapeuta é cidadão comum. Tem amigos, família, companheiro ou companheira, tem de ir às compras, responder a mensagens e telefonemas, gerir a sua agenda, gerir as suas tarefas diárias e a sua casa também. Tem também os seus problemas, as suas situações do dia a dia, e tem também necessidade de descanso. O terapeuta não é o amigo das horas vagas com quem pode desabafar, daí existirem duas categorias distintas: a do terapeuta, e a do amigo ou familiar.

Com um amigo podemos desabafar a qualquer hora, sempre que esse amigo esteja disponível e o queira fazer. O amigo é diário de bolso, o terapeuta é diário de bordo. A terapia, ou cada sessão, é o momento que o terapeuta reserva para si. Na terapia faz-se a reciclagem de crenças, bagagem e padrões que já não servem para si. A terapia tem um propósito, há objectivos, tem uma função de fazer crescer, evoluir, transformar. Desabafo é jogar fora, é ventilar problemas, e faz falta e é necessário, mas com um amigo. Com um terapeuta encontram-se soluções.

Há situações de emergência emocional, de desespero, em que se contactam os psicólogos ou terapeutas, no sentido da contenção emocional, do apaziguamento momentâneo, do poder voltar a si novamente para poder reflectir e encontrar uma saída ou uma possibilidade para o dilema actual. Fora isso, desabafos consecutivos fora de horas, ou a toda a hora, saem da esfera da relação que se deve de ter com o terapeuta. Quando o terapeuta está fora da sua hora de serviço, é pessoa tal como você. Também tem as emoções e questões pessoais para por em ordem.

Há que encontrar os tempos de trabalhar em si, de ser ouvido, de fazer silêncio, de estar sozinho, de falar, de esperar. Ter cuidado com as expectativas para o terapeuta. O terapeuta não é um salvador supra humano, que tem de estar sempre disponível. O terapeuta tem trabalho para além das consultas, precisa também de desligar de problemas. Para além do mais, há sempre o trabalho oculto do terapeuta, que não é visto ou reconhecido: há que ler, estudar, meditar, descansar, aprender e também ser ouvido.

Cada pessoa deve ocupar o seu lugar no mundo e na sua esfera pessoal. Ter essa divisão bem clara. E ao terapeuta também cabe o papel de ser assertivo e manter o seu distanciamento ou neutralidade. Não o estranhe se o terapeuta afirmar a sua posição claramente. Ao terapeuta cabe o direito de não responder, ou não responder imediatamente a todas as solicitações. Não é humanamente possível. No tempo das redes sociais estes limites difundem-se. Contudo, continuam a haver limites.

O que verdadeiramente conta num relacionamento

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Comunicação. Respeito. Tolerância. Flexibilidade. Entendimento.

Quantos relacionamentos se perdem por falta destes atributos? Há relacionamentos à deriva, tal barcos desatracados que se deixam ir com a maré. E, quando dão por eles, migraram em direcções opostas. Quando voltam a olhar um para o outro, não se reconhecem.

Para fazer um relacionamento crescer e perdurar é preciso duas coisas fundamentais: inteligência e consciência. Poderia escrever cem textos sobre relacionamentos e ter sempre alguma coisa a acrescentar, porque é um tema de uma complexidade gigante. Ou talvez de uma simplicidade surpreendente, mas que as palavras são insuficientes para resumir. Talvez até existam demasiadas palavras para descrever o que não deveria ser tema de interpretação ou escrutínio. Mas nós somos assim, queremos clarificações, teorias, explicações e justificações.

Já escrevi em tempos um artigo sobre os atributos principais do amor, penso que eram cinco… Posso elaborar longas listas sobre atributos ou ingredientes necessários, mas no fundo, o que é verdadeiramente necessário, é saber olhar para nós. Ver o outro na sua essência e no seu funcionamento natural. Entendermo-no a nós e sabermos ler o outro tal como nos lemos a nós.

Isto leva a um sem fim de projecções, mas não tem mal, somos só seres humanos a jogar o jogo da vida na terra, do ser humano, com personalidade, feitio e temperamento, que reage à personalidade, feitio e temperamento do outro. Querem falar do Ego? Sim, ele existe para fazer reparos, para nos chamar à atenção. Existe para Reagir ao outro. Se não houvesse esse processo de reacção ao que nos dizem ou fazem, como evoluiríamos?

Não tem mal estarmos a aprender… Somos todos juvenis no que toca a amor e relacionamentos. Com quem seja, com os nossos animais, com filhos, com família, com colegas, com clientes, com maridos e mulheres. Temos de gerir (e digerir) as nossas emoções enquanto nos relacionamos com outros, também eles seres emocionais, seres mentais, seres com as suas limitações. Todos somos limitados no nosso entendimento, de certa forma. O nosso entendimento é pessoal, subjectivo, relativo a memórias, vivências e crenças.

Como ser flexível e benevolente num mundo de crítica e julgamento? Num mundo de máscaras, defesas e feridas? Trabalho interior. Ser todas essas qualidades, trabalhá-las na nossa relação connosco. Olhar benevolentemente para o outro, com atenção, com consciência plena. Serenar os nossos sentidos e mente. Ser gentil, mesmo quando a nossa mente grita impropérios. Ser compreensivos, praticar a tolerância e a subtileza da paciência. Respeitar o tempo de si e do outro, para evoluir, para aprender. Comunicar, falar, passar a mensagem – e não discutir, criticar, condenar ou julgar.

Neste entendimento, e nestes movimentos, podemos chegar mais facilmente ao outro e o outro a nós. Não se faz sem tensão, desafio, desacordos e dificuldade. Nem todos os momentos são rosas e arco-íris. Temos de passar por isso. Somos um veleiro a cruzar os mares das emoções e dos pensamentos, nossos e do outro. Porém, é bom saber que temos velas para ajustar aos ventos que sopram para nos testar. Que as saibamos manejar em proveito do crescimento mútuo.

Amor, tempo e morte

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“Amor, Tempo e Morte. São estas as três abstracções que conectam todos os seres humanos na terra. Tudo o que desejamos, tudo o que tememos não conseguir, tudo o que no fim acabamos por comprar, porque no final do dia, nós ansiamos por amor, desejamos ter mais tempo e tememos a morte.”

Filme com Will Smith, Kate Winslet e outros artistas de peso, fala-nos da morte de um ente querido e a revolta que isso traz. No fundo fala sobre a perda, sobre o vazio, sobre a solidão e sobre a desilusão, frustração e impotência relacionada com a impermanência: as coisas que amamos (ou queremos) nem sempre ficam ou permanecem.

No caso do filme, o actor principal passa pelo luto da filha de 6 anos e todo o processo de negação, dor e sofrimento. Escreve cartas para o Amor, para o Tempo e para a Morte. Como quem se revolta com Deus e com o Destino, rejeita o amor, questiona a morte e o tempo.

Todos nós nos podemos relacionar com este tema, com a importância que tem cada um desses conceitos. O amor que todos desejamos sentir e que sintam por nós – a aceitação, carinho e acolhimento que o amor nos traz. O tempo para poder ser, para poder desfrutar, para poder crescer e envelhecer. A morte que tudo leva, como um buraco negro, e que não podemos controlar – todas as pessoas que nos leva, o facto de ser inevitável para todos nós, o não saber o que vem depois, quando vai acontecer…

De facto, todas essas três coisas estão interligadas, conectam-nos, afastam-nos e amedrontam-nos. Nem sempre queremos olhar ao tempo que passa e ao tempo que resta – nunca sabemos quanto. Nem sempre nos conseguimos entregar ao amor, olhar de frente para ele e vivê-lo plenamente como ele merece – temos medo. A morte como libertação, como alívio do sofrimento – não a percebemos nem aceitamos, mas é o desapego máximo da vida.

Todos queremos ser plenos, sentir, ser felizes. Mas a falta de Amor dilacera-nos o coração, a falta de tempo não nos permite viver tudo o que gostaríamos como gostaríamos, e a morte leva-nos o controlo por absoluto. Vivendo em amor pleno, incondicional, vivendo em Aceitação Máxima do que É e pode ser a cada momento, vivendo com o Tempo que temos, morrendo a cada dia para o que pensávamos ser, é o desafio.

Que possamos viver em amor próprio e ao outro (aceitação e respeito ao outro e a nós, nos nossos variados momentos), na plenitude de cada momento (atenção plena no Presente), respirando cada morte de cada dia e de cada ser que decidiu partir (seja por plano de alma, seja por força das circunstâncias mundanas). Só assim podemos encontrar alguma decência na Vida.

Telegramas da mente

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Há palavrinhas que são como telegramas. Vêm para nos deixar uma mensagem e para se evaporarem logo depois. Falo de pensamentos, daqueles automáticos, e muitas vezes negativos, relativos a medos e preocupações. Vêm, deixam o alerta e vão embora. Mas nós, na nossa inconsciência, ficamos presos a esse pedaço de informação que chegou, e construímos-lhe uma história, damos-lhe pernas e braços e eles ganham vida, tal bonecos animados na nossa mente.

Essas personagens ganham corpo e volume, tornam-se caprichosas e arrogantes, ocupam espaço e sentem-se donas e senhoras. Ruidosas, começam uma narrativa muito própria. Decidem os contornos da história, segredam enredos e tramas. Deixamos de perceber de onde vem o quê. Mas essas personagens. da mesma forma que foram construídas, podem ser desconstruídas.

Temos de lhes adivinhar os contornos, ver onde se escondem e como se mascaram, perceber as suas origens, o que lhes deu corpo e vontade. A nossa mente tem insondáveis formas de nos fazer reféns. Estes telegramas, como lhes chamo, não precisam de passar disso mesmo: alertas da nossa mente, dos nossos sentidos e da nossa programação subliminar – aquele código com que nascemos. Podemos apanhar-lhe a informação que deixam, mas não a precisamos manter activa.

Para isso, há que desactivar a programação que analisa e interpreta ao detalhe cada pedaço de informação. Da mesma forma que detectamos cheiros ou sons, assim devem ser as preocupações da mente, não as deixar no ambiente de trabalho mais do que o tempo suficiente. Devem vir para termos atenção a algo e nós, ao captarmos essa informação, cabe-nos informar os “centros de detecção de fumo” da nossa mente: hey está tudo bem, eu estou a tomar conta da ocorrência, não é preciso alarme.

Princípio da não reactividade

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Há um livro que se chama “Os Quatro Acordos”, de Don Miguel Ruiz. É um livro muito conhecido que fala em quatro verdades: seja impecável com as suas palavras, não tome nada como pessoal, não faça suposições, e faça sempre o seu melhor. O autor decompõe estes quatro princípios sucintamente, como um código de conduta para guiar as relações e evitar sofrimentos desnecessários.

Baseada num desses princípios, eu comecei a elaborar a teoria da não reactividade: não reagir ao que o outro diz, inspirada pelo princípio da observação e da atenção plena, técnica do Mindfulness. Ou seja, para evitar irritação, raiva, frustração sentir-se ofendido ou provocado, e mesmo para evitar ser impulsivo no seu comportamento, podemos criar um espaço entre o que o outro diz e o que nós fazemos ou dizemos.

Perante o comportamento dos outros nós temos sempre um posicionamento, atitudes, comportamentos ou algo a dizer. Muitas vezes, há pessoas e situações que nos deixam com os cabelos em pé, seja com o marido, o filho, a colega, a amiga, a mãe, a irmã, ou até com o condutor da frente. Nessas situações, muitas vezes, o que a pessoa diz ou faz não é com o intuito de nos ofender, magoar ou atacar. Muitas vezes reagimos ao que nos dizem ou fazem de acordo com a interpretação que damos a essa situação, e nem sempre estamos correctos (viés de interpretação).

Quando um filho faz uma birra, ele não está a fazer para nos prejudicar ou perturbar propositadamente, provavelmente está ali uma emoção que a criança não consegue digerir. Um condutor que vai atrás e buzina porque abrandámos ou quase parámos na estrada à procura de estacionamento, está a alertar-nos que deveríamos avisar com um pisca o que vamos fazer. Uma pessoa que está chateada com alguma coisa, ou está de mau humor, e responde de forma dura e seca, não está a fazê-lo porque não gosta de si e não o respeita. Alguém que passou na rua e não o cumprimentou, pode ir distraída e não ter reparado em si.

E tantos e tantos outros exemplos. A maior parte das vezes, a comunicação verbal, ou mesmo a não verbal, não passa a mensagem correcta devido a esse viés de interpretação que fazemos. A leitura emocional ou mental que fazemos do comportamento e das palavras dos outros, nem sempre corresponde à verdade ou à verdadeira intenção do outro. São apenas leituras e interpretações nossas.O que quer dizer que nos podemos enganar ao interpretar o que os outros nos estão a tentar dizer, ou o que os outros estão a fazer.

Independentemente das interpretações relativas aos outros, o que quero mesmo falar é nas nossas reacções ao outro, e ao que o outro faz ou diz. Podemos ficar calados, podemos reagir intempestivamente ou impulsivamente e dizer o que nos passa pela cabeça, sem filtro, ou podemos falar calmamente e ponderadamente. Podemos até responder de forma evasiva e sair airosamente da situação. Qualquer que seja a nossa escolha, ou comportamento, ele deve ser resultado disso mesmo: uma escolha.

O princípio da não reactividade assenta na atenção, na consciência e na escolha de palavra, atitude e comportamento. No fundo, adequar a nossa resposta ao outro de forma a usarmos a coerência e a ponderação. Nem sempre é fácil fazer isto, podemos não querer magoar o outro ou podemos não perceber que podemos ferir o outro com as nossas palavras, ou mesmo o tom que usamos, e normalmente nem sempre estamos cientes do efeito que as nossas palavras podem ter no outro (não estamos nele para sentir o que o outro sente quando ouve o que dizemos).

A comunicação é um processo mais complexo do que se pensa, e tem tantos leitores como interpretações. Quer isto dizer que para cada mensagem, existem imensas possibilidades de leitura da nossa parte e da parte do outro com quem nos comunicamos. Tem várias nuances, atenuantes e agravantes. A linguagem encerra em si imensos significados  e cada pessoa faz uso dela da forma mais pessoal possível. Somos todos tão diferentes e o que para nós é normal, para o outro pode ser ofensivo.

O melhor que há a fazer, quando quer ser o mais neutro e impassível possível, é isso mesmo. Ouvir o outro atentamente, estar atento aos seus processos mentais e emocionais, às suas próprias crenças e convicções, e poder dar uma resposta que não contenha julgamento, crítica, altercação ou projecção. No fundo, não reagir ao outro, ao que o outro diz ou faz, mas sim responder ou agir segundo a sua verdade e a sua consciência, sem ataque e sem ofensa, mantendo a sua estabilidade e a sua integridade.