Carta ao meu anterior eu

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Se eu pudesse escrever uma carta ao meu anterior eu, diria:

Vive mais. Preocupa-te menos. Aproveita mais, tudo vai chegar, a seu tempo. Vais ter tudo aquilo que sonhaste, mas até lá, por favor, vive e sente. Não te recrimines tanto. Não tentes ser tão perfeita, não tenhas medo de errar ou falhar, isso não existe. Não cries tantas expectativas, não sofras tanto por antecipação. Não vale a pena. O sofrimento não vale a pena. Usufrui do que tens, do que és, do que é possível viver a cada momento. Estás a crescer, és um ser em transformação. Não queiras logo tudo, aproveita cada fase, cada ciclo. Vais ter vários. Todos fazem parte, todos são necessários, todos representam uma faceta tua, uma parte tua. Vais crescer, vais amadurecer, vais viver os teus sonhos. Nunca deixes de tentar. Vão haver períodos de actividade que vais amar, vão haver períodos de pausa, de inactividade, de estagnação e pântano emocional. Também eles passam. Vão haver anos de sofrimento, de solidão, de desespero, de angústia, insegurança e incerteza. Também eles fazem parte, e todos eles vão passar. Todos eles, sem excepção. Só porque estás numa determinada fase, não quer dizer que ela se vai manter no tempo. Achamos que tudo o que vivemos até ali é aquilo que vamos continuar a viver o resto da vida. Não é assim. Vais aprender a sair o sofrimento, da perda, da dor, do não saber, do não ter, e todas as questões que te colocas. Vais sair desses emaranhados mentais e emocionais, esses loops constantes de altos e baixos. Vais aprender a sair de cada um deles. Vais ser forte o suficiente sempre, porque na realidade já o és. Tu és forte. Tu és suficiente. Tu és valiosa. Tu és merecedora. Tu consegues. Tu podes. Tu és tudo o que precisas. Já tens em ti tudo o que faz falta e tudo o que precisas para viver os teus sonhos. Tu vais conseguir. Vais sair dessa, vais chegar onde sempre quiseste chegar. Acredita. Confia em ti. Confia no processo. Só te tenho a agradecer por tudo o que fizeste, por todas as dores, por todas as horas de desespero, porque chegaste aqui, hoje, com tudo, completa, inteira, integrada. Tu fizeste o trabalho que eu precisava. Fizeste-me chegar aqui, chegar onde sempre imaginaste, e eu não te poderia estar mais agradecida por todo o amor que dedicaste no processo de ti, da tua criação, da tua gestação, renovação e crescimento. O trabalho doloroso de parto que nunca mais chegava, que levou anos em processo, grávida de ti, anos a fio. Mas acreditaste sempre. E foi isso que nos trouxe aqui, exactamente onde estamos. Exactamente aqui, onde era suposto chegarmos. E agora? Vamos juntas, eu levo-te pela mão. Não precisas mais fazê-lo sozinha. Eu estou aqui. Eu estou aqui para ti. Vamos a isso? A vida começa agora, sempre.

Viver no plano espiritual vs plano real

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Muitas pessoas fazem terapias holísticas, meditam, fazem yoga, tem crenças lindas, convicções e intuição apurada. Dizem frases como: “é um processo, temos de aceitar, temos de pedir ao universo, temos de confiar, temos de agradecer” e etc., mas esquecem-se da parte prática da vida. Não basta visualizar figuras de luz e o futuro que gostariam de “atrair”. Não basta acreditar e confiar. Não basta aceitar. Há que agir, há que colocar planos práticos e objectivos em acção.

Tudo isso é maravilhoso e valioso, fazer esse trabalho interior. Mas lá fora o mundo existe, e você vive nele. Não pode ficar só no plano mental ou espiritual, colocar os seus desejos num quadro, escrever um diário, clarificar as coisas e perceber os porquês. A vida acontece lá fora, não é dentro de nós, no mundo emocional e mental. O mundo real precisa de nós, precisa que façamos, que ajamos. Não podemos só ser, precisamos fazer também, agir, intervir. Não basta só contemplar, conceber, registar. Se quer ver mudanças, precisa fazer acontecer.

Existe o mundo interior e o mundo exterior. Para fazermos mudanças nas nossas vidas, precisamos aliar os dois, trabalhar e funcionar com ambos. No mundo prático nós fazemos acontecer. No mundo interior nós planeamos, gerimos, pensamos, acautelamos. Mas para ser ser humano completo, não basta ficar nas teorias, nos teoremas, no deixar acontecer. Temos de tomar medidas práticas. Há o ser e o fazer. Ambos são necessários, senão acabamos por ficar num sonho cor de rosa, no transe do pensamento positivo, que só por si produz resultados. Não é assim.

O transe do pensamento positivo leva-nos a acreditar que basta pensar, mudar o foco e a energia dos nossos pensamentos, que basta pedir e as coisas acontecem. O transe da espiritualidade leva-nos a pensar que na meditação tudo acontece, que podemos co-criar o nosso universo através da interpretação de símbolos e sinais, que emergem nas meditações e que isso é o caminho, mas não percebemos que realmente é um transe muito bonito, que vemos coisas lindas, mas que na verdade não nos levam a lugar nenhum nem nos fazem sair do lugar. Apenas a nossa percepção muda e expande, e já é uma parte do processo, mas não é tudo.

Para onde gostaria de ir? O que gostaria de mudar na sua vida? O que quer fazer acontecer? Que objectivos tem para a sua vida? Estude, leia, medite, faça todas as terapias. Mas não se fique só nas respostas, estudos e interpretações dos porquês e dos como ou quando. Pense de que forma quer mudar a sua vida, fazê-la crescer e prosperar. Pense no caminho e nas acções que o levam lá.

É com a sua intervenção, com  mudança de atitude, de comportamento, e não só de percepção, que a mudança se faz. É com terapia de base psicológica, é com mudar crenças e convicções. É substituir fórmulas antigas e comportamentos obsoletos, que o levam sempre ao mesmo lugar. É mexer directamente em si, é desconfortável e coloca-o a descoberto. É ver tudo o que o limita. Não substitua isso por cenários lindos e paradisíacos. Isso é ofuscação, é ilusão, é evitamento. Podemos levar anos a fazer isso, mas é saindo para o mundo cá fora, com olhos reais, que podemos transformar a nossa vida.

Amor desafio e amor segurança

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Há quem diga que amor é só um e ponto, mas eu gosto de criar definições, de ver os vários lados de um conceito ou ideia, decompondo-os. Somos humanos, somos duais, como tal não conseguimos experimentar o famoso e infame amor incondicional a todas as horas e a todos os momentos por todas as pessoas e seres que se cruzam no nosso caminho. Isso é viver num plano que não é o desta terra. Nós, simplesmente, não estamos lá. Não é possível ou tão fácil assim.

Nós criamos expectativas que queremos ver correspondidas, temos necessidades que queremos ver satisfeitas. Somos uns pedintes no amor, na verdade. Queremos tudo, tal como tivemos nas barrigas das nossas mães, onde era seguro, cuidavam de nós, éramos nutridos, e vivíamos de forma fusional com outro ser. Ora a primeira ferida é a da separação, quando nascemos (ou quando há a cisão da mónada). No fundo, quando somos “arrancados” do útero materno ou celestial, e somos colocados na vida, na terra, a experimentar os vários sentimentos e emoções, unicamente nossos.

Fica uma confusão. Atribuímos, ao princípio, toda  a responsabilidade do nosso sofrimento no exterior: “o pai é mau, a mãe é má. Não me dão o que eu quero! Sempre e a todas as horas do dia!”. Logo aí há a primeira desilusão. “Dantes tinha tudo, agora esse tudo é-me retirado cruelmente. Não gostam de mim…”. Ferida da rejeição. “Agora não. Agora não tenho tempo, agora não posso. Não sejas assim, não faças isso. Sê mais como o teu irmão ou irmã” e outras interjeições destas levam a criança sentir-se ferida e rejeitada, ainda que essa não seja a intenção dos pais/cuidadores.

E o que isto tudo tem a ver com o tema do texto? O amor desafio é aquele que nos faz crescer, a duras penas. Que nos faz entrar em confronto com as nossas feridas, para que as possamos ver e para que as possamos tratar e cuidar. Há quem não o queira fazer, e é justo. Dá trabalho, é doloroso, fere o nosso ego e, por consequência o nosso orgulho. Percebemos que somos falíveis, vulneráveis. Faz-nos constatar a pequenez do nosso ser. “Afinal não podemos ter tudo sempre como queremos. Afinal temos de crescer, assumir as nossas feridas, dores e mazelas, e elevá-las a outro patamar”. “Mas eu quero que tudo seja como eu imaginei ou idealizei!”, diz o pequeno ego.

Então há duas opções: ficar ou partir. O amor desafio não tem regra, não tem rotina, não tem roteiro fixo. É desafio constante, é mutável, assume várias formas e contornos. É volúvel. Tem várias faces. O amor segurança é o amor que a maior parte das pessoas escolhe, sem saber. Vive do que é conhecido, do que é estabelecido, do que é seguro e confortável. Mantêm as aparências, segue um roteiro predefinido, é previsível e obedece a regras e expectativas.

Quando digo que o amor desafio tem várias faces, é porque se mostra de variadas formas, nos variados desafios. Se não que ser desafiado, não siga este caminho. Se não gosta de ser confrontado, se não gosta de ser visto a todas as cores, fuja a sete pés. Escolha o amor segurança, onde é tranquilo e ninguém o contesta, onde é raso até onde se vai em termos de sentimentos e emoções. Não há o medo da perda, o medo da rejeição, da traição ou perda de interesse. Há apenas protocolo e convenção social. Só precisa dar a cara e fazer a rotina normal, não se questionando até onde está a ir, se quer ir por ali ou gosta de estar ali. Tudo é tomado por garantido.

O amor desafio é uma estrada esburacada por onde seguimos aos solavancos sem ter muito bem a certeza onde estamos a pisar e para onde estamos a ir. Mas uma coisa é certa, o caminho é para a frente. Não é confortável, mas chegamos a destinos que não são conhecidos pela maioria. Vemos paisagens e temos acesso a sentimentos que não parecem ser deste mundo. Mas há que trabalhar. Há que escavar fundo onde em nós falta amor e confiança, onde existe dor e incerteza. Para poder crescer, só assim.

Ego ferido, ego orgulho e ego adulto

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O ego ferido é infantil. Diz: tu feriste-me, como tal não és meu amigo e eu tenho de me proteger de ti. Vou acusar-te de tudo o que me fizeste, vou ter-te como responsável e tu és o culpado daquilo que sinto. Tu és responsável pela minha felicidade e pelo meu bem-estar. És responsável por cuidares de mim, porque eu preciso que cuides de mim e me faças sentir bem. Precisas fazer-me sentir feliz e amado, aceite e acarinhado.

Este é o ego criança, a parte sua que quer colo, que não cresceu nem se quer responsabilizar pelas próprias emoções. Coloca a responsabilidade fora, nos outros, nas circunstâncias e nos azares da vida. É a parte que reage à rejeição, perda ou abandono, com vitimização, neuroticismo e os porquês: “porque é que me fazem isto, porque é que tenho de sofrer tanto, porque me acontecem tantas coisas más…”, falando ou queixando-se e todos os que quiserem ouvir, sentindo um profundo pesar.

O ego orgulho é arrogante e rancoroso. Diz: “o quê? Fizeste-me isto? Ah então vais ver, vou fazer isto e aquilo, vou vingar-me, nunca mais te falo, o universo vai castigar-te, vais ter o que mereces, vou desprezar-te e mostrar indiferença, vou fazer-te sofrer.” O ego orgulho é radical, corta com todos aqueles que foram contra ele, afasta-se, profere impropérios, sente raiva e ressentimento, deseja a vingança.

O ego adulto ou maduro, por outro lado, procura a negociação, a conciliação. Procura a razão, é democrático. Analisa as partes, afasta-se, se for necessário, para contemplar o que precisa ser feito. Para pesar os pós e contras, para tirar as medidas às circunstâncias, para avaliar quem tem razão ou não. Este ego sabe pedir desculpas, sabe assumir o erro, entende-se como parte do problema, sabe dissociar as partes: o que é seu e o que é do outro.

Não quer dizer que todos estes egos não possam todos fazer parte de uma mesma pessoa, e na verdade até existem, se pensarmos bem. Todos temos a nossa parte criança que quer as coisas do nosso jeito, que quer aprovação e validação. O ego orgulho quando nos enfurecemos com alguma coisa ou alguém que nos tirou a razão ou não nos deixou levar a nossa avante quando íamos determinados a que assim fosse.

Sabedoria é deixar esses egos de parte e convidar o adulto à conversa, para moderar a conversa interior com os nossos pensamentos e emoções, porque a seguir à criança ferida, vem o orgulho ferido. Como tal, há que arbitrar as negociações e as conversações, pôr ordem nas hostes e ouvir as partes lesadas, fazendo-las chegar a acordo amigável. Os dois lados precisam ser ouvidos e reconhecidos. A seguir há que conciliar.

Pensem em dois irmãos chateados um com o outro. É igual.

Sinto, logo existo

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“Penso, logo existo”, célebre frase de Déscartes, que simboliza a ênfase dada na razão e na lógica, enquanto epítome do ser humano. Ou seja, porque penso, sou um ser dotado de inteligência e isso faz com que me conheça, me possa valorizar e possa intervir no mundo. Porque penso e tenho inteligência, posso observar-me como ser vivente. É isso que determina a minha existência: o próprio facto de me poder observar, que me faz ser (e sentir) vivo neste mundo.

Passada essa fase histórica, que baseava a nossa existência na lógica e no conhecimento, vivemos agora na era do “sinto, logo existo”, ou não seriam os animais considerados seres sencientes, que são capazes de sentir. Aqui a lógica é colocada na emoção, no sentimento. Porque sinto, vejo-me e reconheço-me como ser inteligente e valioso, pertencente a este mundo e merecedor de existir e ser reconhecido. A tónica agora é baseada no sentir, no mundo dos sentimentos e no mundo das emoções, que estão profundamente feridos na sua base.

Se só o pensar (a mente) não é suficiente para justificar a nossa existência, se só o sentir também é insuficiente, podemos perceber que somos ambos: pensar e sentir. Ambos justificam a nossa existência, fazem-nos sentir vivos, sentir humanos, inteligentes e capazes de intervir activamente no mundo. Mas lá está, estando o pensar e o sentir arraigados em eras de dor e sofrimento, milénios de crenças distorcidas, e emoções baseadas nesses sistemas de crenças, o que somos nós para além disso, se nos quisermos elevar para além dessa polaridade humana emoção-pensamento?

O “sinto, logo existo” representa também o raciocínio emocional: porque sinto é verdade; se estou a sentir, é porque estou certo. Ou seja, o próprio facto de estar a sentir, representa que tenho razão, e o que sinto torna-se então um facto. Tal como temos a racionalização, que é a nossa interpretação da realidade através do pensamento e raciocínio, temos também a “emocionalização”, que é acreditar no que sentimos como sendo a verdade, apesar dos factos ou das evidências apresentadas.

Nós psicólogos cognitivistas falamos em distorções cognitivas, como a generalização e a catastrofização. A  racionalização e o raciocínio emocional são outras delas. O tudo ou nada, os enunciados “deveria”, as conclusões precipitadas e o pensamento mágico são outras dessas distorções. Todas elas implicam uma forma de pensar, perspectiva ou conclusão que não está baseada nos factos ou na realidade em si, por si só, mas na nossa forma de interpretar e “ler” a realidade, de acordo com aquilo que acreditamos e somos capazes de avaliar a cada momento.

Considerando que a nossa capacidade de apreender a realidade é limitada, a realidade como um todo completo e complexo, é difícil fazermos sempre leituras correctas do que acontece à nossa volta, a respeito do comportamento, atitudes e palavras dos outros, visto que vamos analisar e a reagir a isso tudo baseando-nos nas nossas próprias experiências, expectativas positivas e negativas. Nem sempre o que vejo o outro a fazer, ou o outro a dizer, é realmente aquilo que o outro faz ou diz. Ao interpretar esses comportamentos posso estar a incorrer em viés de interpretação.

Como a minha realidade molda a forma como vejo e sinto, mais são as vezes em que tiramos ilações precipitadas ou erróneas, do que aquelas que vemos e sentimos com clareza. Dominar o pensar e o sentir a respeito dos outros não é tarefa fácil, porque para isso temos de nos “ler” e compreender bastante a nós próprios, para perceber em que momentos estamos a fazer raciocínios emocionais ou racionalizações a respeito do outro, e a projectar no outro as nossas próprias inseguranças ou fragilidades e a responsabilizá-lo por isso: “fizeste ou disseste isto ou aquilo, por isso querias dizer isto ou aquilo”.

Falemos então, aqui, das feridas emocionais. Só um ser ferido fica ferido com o que o outro diz ou faz. E, no fundo, quem não está ferido de alguma forma? Todos incorremos nestes erros ou viés de interpretação. Voltado às feridas, de que forma é que estas condicionam a nossa forma de interpretar a realidade? Normalmente lemos as situações de acordo com as nossas experiências, com aquilo que nos foi feito ou dito. Se tenho a ferida da rejeição, por exemplo, posso, muitas das vezes, interpretar o comportamento do outro com rejeição, ainda que o outro não me esteja a rejeitar.

Exemplo: convido um amigo para ir à praia. Esse amigo não quer, ou não lhe apetece, ir à praia nesse dia. Diz que não. Eu sinto-me rejeitado e excluído. Mas isso apenas porque a ferida da rejeição já lá está. Talvez o pai ou a mãe o tenham feito sentir-se excluído em criança. Agora, interpreta o comportamento do outro como rejeição, quando o outro, por algum motivo, não aceita algum convite. Estes e outros exemplos. Como tal, temos todos muitas feridas destas ao longo das nossas vidas. Várias pessoas nos fizeram sentir abandonados, excluídos, rejeitados, magoados, enganados, etc.

Na verdade, o comportamento do outro é apenas o comportamento do outro, independentemente das suas motivações. Nós é que o interpretamos e sentimos de determinada maneira, seja essa interpretação verdadeira ou não (correspondente ou não ao que o outro de facto fez). Confuso? Não é o que o outro faz. É como eu reajo ao que o outro faz. Como eu analiso ou sinto o que o outro faz. Mente e emoção. E a nossa mente está cheia de convicções, crenças e expectativas que podem ser facilmente feridas.

Para concluir, e voltando à questão acima: o que somos nós para além disso, se nos quisermos elevar para além dessa polaridade humana emoção-pensamento? Somos, ou podemos ser, observadores activos dos nossos próprios processos mentais e emocionais. Questionarmo-nos porque o outro realmente nos feriu. Investigar onde, em nós, está a ferida, para que a possamos transcender, deixando o outro ser o outro, e isolando a nossa ferida do que é comportamento alheio. Cuidando da minha ferida, o outro deixa de ter o poder, ou a capacidade, de me ferir.

 

A felicidade está nas suas mãos: as bases para a mudança

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Um erro recorrente, ou uma expectativa muito comum nas pessoas que procuram terapia é: eu preciso de ajuda, o terapeuta pode curar-me e tirar-me desta situação em que me encontro. Sim e não. O terapeuta pode ajudá-lo a sair dessa situação, pode ajudá-lo no processo de cura, com sugestões, com exercícios e com a compreensão do que o está a prender ou bloquear. Mas o terapeuta não é o responsável pela mudança. É você.

A mudança pressupõe sempre isso mesmo: a mudança. Mudança de padrões de pensamento, mudança de comportamento e mudança de perspectiva. Não vai poder sentir-se diferente se não pensar diferente ou se mantiver o mesmo comportamento que o tem mantido no sofrimento.

Ou seja, as bases para a mudança são decisões, no fundo. “Eu tomo decisões sobre a minha vida e eu posso fazê-lo”. Muitas vezes não queremos tomar determinadas decisões porque vão contra o que os outros querem ou esperam de nós, porque podemos ser criticados ou desaprovados, porque é suposto continuarmos como estamos porque é assim que tem sido sempre, porque mudar custa e eu não sei como fazê-lo e tenho medo de o fazer.

Todos somos responsáveis apenas por nós, pela nossa mudança. O terapeuta apenas pode ajudar no processo. Não é responsabilidade do terapeuta o acalmar em todas as situações de crise que surjam a partir daí, é função do terapeuta ensiná-lo estratégias para lidar com a crise, para lidar com as emoções. Não só, ajudá-lo, em sessão, a resolver essas emoções e treinar consigo essas estratégias.

Vejo muitas pessoas a assumirem que o mal que lhes acontece está sempre fora, no que os outros fazem, no que os outros dizem, no estado do mundo, no comportamento dos colegas, da família, do companheiro ou companheira, nos filhos, etc. Só quando assumir a responsabilidade da mudança é que vai poder transcender tudo isso. Assumir-se como o principal agente da mudança e da sua felicidade pode fazê-lo chegar lá.

Muitas vezes há que afastar-se de elementos tóxicos, mesmo que sejam familiares. Pessoas que não contribuem nem podem contribuir para a sua felicidade, pessoas críticas, pessoas que não assumem o erro, pessoas com quem não pode conversar, crescer e evoluir. Pessoas que não lhe podem dar o que precisa: uma palavra amiga, compreensão, aceitação, diálogo, partilha. Pessoas que o ofendem, pessoas que o magoam constantemente.

Não podemos mudar e sentirmo-nos diferentes se mantemos tudo como está. A mudança pressupõe mudança. E essa mudança está sempre nas suas mãos. Pode fazer terapia meses e anos, mas se não tomar decisões rumo ao que quer ser e sentir, nada muda. O que quer ser e sentir até é simples: quero ser feliz. Quero estar em paz. Quero que me respeitem. Quero ser aceite e acarinhado. Quero sentir-me satisfeito e realizado.

Nós temos três esferas: a esfera do eu, a esfera dos outros (dos relacionamentos) e a esfera do trabalho. Quando trabalhamos em nós, podemos modificar as nossas relações e modificar como nos sentimos no trabalho, ou como nos comportamos nas diversas situações de vida. Podemos ter que mexer nas relações, mudar alguma coisa nesse campo, tal como no trabalho. Podemos mudar de trabalho, mudar de departamento ou secção no trabalho. Ou então podemos mudar em nós aquilo que nos incomoda e perturba. Resolver o que nos incomoda e perturba, e trabalharmos autoestima, assertividade e afirmação pessoal e tudo o resto encaixa no eixos.

O trabalho terapêutico é isso mesmo, averiguarmos, explorarmos e entendermos as várias variáveis onde pode assentar a mudança, o que podemos fazer para introduzir a mudança desejada. E sim, uma terapia pressupõe um plano, traçar objectivos e tomar decisões. Se só quiser desabafar e alguém que o ouça, fazer relaxamento, também serve, mas isso não traz mudança. A mudança pede responsabilização, a sua responsabilização sobre as rédeas da sua vida, sobre si próprio, sobre os seus sentimentos, emoções, pensamentos e comportamentos.

É você o principal agente da sua felicidade. Que decisões ou não-decisões tem tomado ou deixado de tomar que travam o seu sucesso na vida? Questione-se, trace um plano, assuma um compromisso para consigo: “eu quero, eu consigo e eu posso fazê-lo”. Assuma quem é, onde está e onde quer chegar. O que precisa para conseguir chegar lá? Procure isso mesmo. Acção, comportamento, decisão. É isto.

Terapia Express

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Quanto tempo leva a criar uma ferida? E não falo das físicas, daquelas que fazemos quando caímos e esfolamos um joelho. Falo das feridas emocionais. Quanto tempo para sangrarem? Cicatrizarem? Quanto tempo para deixarem de doer? Mais, quanto tempo para curarem…? Quanto tempo leva curar uma ferida? Sabem dizer-me? Curar é deixar de doer. Não significa que a marca não fica. Sempre fica. Invisível, na alma e no peito.

Quanto custa a curar uma ferida é a pergunta de ordem. Quanto tempo pode levar uma terapia para curar as suas feridas? Não é imediata, a cura. Por mais avançada, profunda ou adequada que seja a terapia ou o terapeuta, uma ferida primeiro precisa ser vista, reconhecida, percebida, compreendida, aceite. Primeiro precisamos aceitar que temos uma ferida, que ela existe, que ela está ali e está a afectar-nos.

Depois, declarar a intenção de curá-la, fazer o que é necessário, pelo tempo necessário. Pelo tempo necessário. Não se cura uma ferida de repente, só pelo simples facto de que curá-la de repente pode levar-nos a ficar iludidos que tudo está bem, e no mais ligeiro esforço, rebentar as costuras novamente, para abrir a ferida novamente e novo sangue jorrar. Não, para curar uma ferida tem de ser devagarinho, com jeitinho.

A pele da ferida é sensível. Cura-se de fora para dentro. Dentro, ou no meio, é onde está mais ferido. A pele exterior por vezes parece curada, lisa e saudável, mas não se deixem enganar. Um enfermeiro (terapeuta) experiente sabe que por debaixo está aquilo que é purulento, que está doente, que está doendo, que está dilacerando e queimando.

Podemos tentar iludir-nos, podemos querer acelerar o processo, não olhar para o que está ferido, e está tudo certo – está sempre tudo certo. Mas quando não olhamos ou não queremos ver, estamos em negação de uma parte nossa, e ela vai manifestar-se, demore o tempo que demorar. Por isso, por favor, não fuja das suas feridas, não fuja de si.

Não pergunte quantas sessões, quanto tempo de terapia, não diga que não tem tempo, ou que leva muito tempo. Leva o tempo que for preciso. Se não tem tempo, paciência ou vontade, não comece uma terapia. A terapia leva o tempo que for necessário, em respeito por si, pelo seu timing e pelo seu processo. Cada ferida e cada pessoa é diferente. A ferida pede tempo, pede atenção, pede cuidado. Dê-lhe isso mesmo.