O orgulho e a rendição

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O que é que o orgulho impede?

Impede o perdão

Impede a aceitação

Impede o amor

Impede a doçura

Impede a vulnerabilidade

O orgulho é como uma capa vil e dura que colocamos perante as emoções e sentimentos. Impede-nos de sermos, sentirmos e permitirmos a vida a fluir em nós. Por detrás do orgulho está a delicadeza, a gentileza, a sensibilidade e a vulnerabilidade. O orgulho, o ego, a personalidade, a mente, são tudo partes de um mesmo esquema: o nosso mecanismo de defesa, o que existe entre nós e os outros. Por medo de sermos feridos, rejeitados, abandonados, enganados, considerados como fracos ou  ridículos, erguemos uma couraça de resistência aos sentimentos e emoções.

Sentimentos e emoções perante os outros, sejam família, sejam companheiros românticos, sejam conhecidos, colegas de trabalho ou até amigos. Quando alguém nos fere de alguma forma, aprendemos a fechar o coração e aprendemos a defender-nos, fechando-nos e filtrando as emoções, não nos permitindo sentir demasiado. O ressentimento, a raiva, a revolta, a indiferença e o desprezo são primos afastados do orgulho. Antes esses sentimentos do que tristeza, angústia ou mágoa. Mas debaixo de todos eles, estão exactamente esses sentimentos.

O orgulho é uma figura, uma personagem, de semblante duro, impenetrável, irredutível, inflexível e altamente castradora. No fundo, o orgulho é o nosso soldado. “Orgulho ferido” é uma expressão muito usada para representar isso mesmo: um ataque à nossa dignidade e vulnerabilidade. Se pode ser ferido é porque existe. Temos em nós o orgulho, temos em nós essa qualidade, atributo ou característica. Ele existe em nós como muralha, como defesa desse outro aspecto nosso mais frágil, que é o nosso sentimento, a nossa necessidade de aprovação, de pertença, aceitação e segurança.

A rendição surge como algo novo, e acho que estamos todos a tentar aprender o que é isto. Rendermo-nos ao que não podemos mudar, rendermo-nos ao medo de sofrer, ao não pertencer ou não ser aceites. Sendo quem somos, sentindo o que temos a sentir, sem necessidade de protecção. Vamos mesmo assim, vivemos mesmo assim, independentemente das consequências. O não saber, o não poder controlar, o permitir sentir, o permitir viver, sem máscaras, sem ilusões, mas também sem arrogância, sem fachada nem defesas.

A linguagem universal

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Quando falamos da mente, falamos de um lugar de raciocínio, crítica, julgamento, orgulho, vingança, resolução de problemas e enumeração de dissabores. Quando somos mentais, somos frios, distantes, somos pre-conceito, somos passado, explanação e explicação de porquês. Somos também “adivinhação”, somos pré-determinação, traçamos cenários possíveis e imaginários para o futuro, sem razão de ser. Ou melhor, com a razão de querer perceber, ditar e comandar o que vai acontecer, ainda assim não nos escape algo.

Quando falamos do coração, da emoção, somos tempestade, somos momento, somos sentimento, sentido ferido ou não. Somos também acolhimento, afecto, alegria, impulsividade e espontaneidade. Somos brincadeira, somos amuo, somos leveza ou profundidade. A calma encontra-se, ou pode encontrar-se, tanto na mente como no coração. Há coisas que a mente faz que o coração não pode fazer, e vice versa. Eles são almas gémeas, complementares. Não vivemos sem razão tal como não vivemos sem emoção. Não vivemos sem mente nem sem coração.

O que é certo é que, a maior parte das vezes, somos até mais mente do que emoção, e isso pode ser um problema. Tudo o que recalcamos, tudo o que não nos permitimos sentir, de bom ou de mau, se pode instalar no nosso corpo, nos nossos órgãos e sistemas. Como tal, a mente pode, sim, fazer adoecer o corpo, quando a mente se torna ditadora e toda a alegria e espontaneidade se vão embora, ou ficam aprisionadas. O coração, por outro lado, liberta, diz, manifesta-se. Mas também, se formos só emoção, a mente afoga-se e não pode ser prática e resolver problemas nem concentrar-se nas soluções ou caminhos.

Há que haver um equilíbrio entre estes dois sistemas. Mas o que quero falar aqui hoje é da comunicação. Há aquela que é feita puramente da mente, como algumas conversas que temos, palestras ou cursos que façamos, quando alguém fala do que é relativo a conhecimento, factos e teoria. Há a comunicação directa da emoção, quando estamos alterados, irritados, tristes, angustiados e nos queixamos, reclamamos ou nos chateamos a sério com alguém. Pode também haver uma comunicação integrada, em que as duas partes estão presentes, e essa é a linguagem mais assertiva que podemos ter. Expressamos o que pensamos, mas também o que sentimos, de forma calma, lógica e coerente.

A linguagem do coração, porém, é uma linguagem curativa. Tem a capacidade de apaziguar, perdoar, chegar ao outro, compreendê-lo e devolver o que corresponde a cada qual. Só o coração pode transformar o que foi feito, dito ou acontecido. Na terapia podemos falar, explorar, perceber, analisar, compreender e encaixar informação. O verdadeiro trabalho começa quando se fecham os olhos e entramos no reino da emoção e no reino das memórias e do passado. É lá que está o que o coração pode tratar, trazendo à mente e ensinando a curar, aceitar, integrar e transcender. Uma coisa é perceber, outra coisa é sentir.

A linguagem universal todos conhecem, é a linguagem do coração, da emoção pura. Quando nos compadecemos com a morte da princesa Diana, quando sentimos pelos foragidos das guerras de poder entre impérios, quando vemos animais maltratados, quando olhamos para algo que nos emociona. Essa linguagem não tem palavras, é composta de sentimentos e sensações. É algo que vai directo ao coração.

Quando tocamos no outro através do coração, magia pode acontecer. Essa linguagem todos conhecem, não precisa palavras, basta um olhar, uma compreensão. Sentir o outro e compreendê-lo, aceitá-lo como é. E isso, só o coração pode fazer (porque a mente pode arranjar mil motivos e explicações que atrapalham todo o processo).

Na hipnose, ou nos exercícios realizados com a hipnose, a linguagem do coração guia, acompanhada pela mente, sempre presente e observadora – e muitas vezes temos de a driblar ou pedir-lhe licença para se poder processar um determinado assunto mais doloroso – e quando ela aceita, o coração pode fazer o seu trabalho. Só através do coração podemos fazer as pazes com tudo o que foi, aceitar os outros como são, aceitar tudo o que é, como é, sem resistências. Estando presentes nesse alinhamento mente-coração.

O receber, a abundância e o merecimento

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Nutrição, receber, ser nutrido, merecer nutrição. Tudo relacionado com a mãe: a mãe que dá a vida, a mãe que dá alimento, a mãe que providencia a vida, a sobrevivência e a segurança; a mãe que nutre. Nutrição é tudo isso. Nutrição é a função da mãe: dar, alimentar, acolher, acarinhar, trazer conforto e segurança, trazer calor. Quando isso é negado ao bebé, ou há um “corte” nessa nutrição, uma rejeição, um abandono, um não amamentar, não cuidar, não dar atenção (muitas vezes por falta de tempo), fica uma sensação de não merecimento.

Não poder receber = não merecer receber, é a mensagem escutada no inconsciente da criança. Na vida adulta esta criança pode vir a debater-se com questões de falta de abundância ou prosperidade, não vingar na vida, não achar que merece amor ou felicidade, não conseguir ter estabilidade financeira ou relacional, ou pode ter falta de autoestima. Muitas podem ser as consequências do amor negado à criança. E atenção, o amor negado pode ser meramente imaginado: por falta de tempo, por uma educação mais funcional e menos afectiva, por uma mãe mais prática e menos emocional, uma mãe ocupada profissionalmente ou com outros filhos, pode originar a noção ou sensação de abandono ou rejeição.

Como tal, a criança não se sentiu devidamente nutrida (atenção, carinho, reconhecimento). Falemos do reconhecimento. A criança precisa de muita validação. Precisa sentir, em todos os momentos, apreciação, aceitação e acolhimento. Muitas vezes, os pais, ocupados, não dão a devida atenção a alguns momentos e necessidades das crianças. A mente infantil, voltada apenas para si própria, não pode compreender estes fenómenos complexos das necessidades e dificuldades de um adulto, nem sempre competente na leitura das necessidades emocionais da criança. Como tal, vão-se formando “mal entendidos” na mente da criança.

A mente da criança faz associações directas: “Dá-me atenção, gosta de mim. Alimenta-me, gosta de mim. Brinca comigo, gosta de mim”, e por aí afora. Quando isto não acontece, há uma imediata sensação de rejeição por parte do ego infantil, e isso pode vir a manter-se pela idade adulta. Mas e o que fazer a respeito? Tomar muita consciência destes factores. Que relação teve com a sua mãe, ou com as figuras cuidadoras. Pai, avô, avó, tio, tia… Todos são representações de carinho e afecto. Quando não correspondem às expectativas da criança, esta pode ficar ferida, ressentida.

Na terapia abordamos estas questões, averiguamos, exploramos os padrões educacionais, a gravidez da mãe, o parto, a amamentação, o lidar da mãe com a criança, com as suas necessidades mais básicas de afecto e nutrição. Ao observarmos esses aspectos, podemos perceber de onde vêm muitos dos sentimentos ou crenças de desvalorização de si, da incapacidade de concretizar objectivos, de autosabotagem, etc. É um caminho esse, o da autodescoberta e apreciação destes padrões. Depois disso, é fazer um trabalho de resgate, perdão, contemplação e aceitação da mãe como é, como foi, com o que foi capaz de ser, de estar e de dar.

 

Porque nos mantemos nas relações

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Há vários motivos que fazem as pessoas manterem-se em determinadas relações de falta ou excesso. Falta de carinho, compreensão, aceitação, comunicação, cumplicidade ou intimidade. Excesso de controlo, violência, ciúme, medo ou insegurança.

Falemos do medo: o medo origina quase tudo isso. A inconsciência e imaturidade sócioemocional também. Ora o medo pode ser de quê? Medo da perda, da rejeição, do abandono, da traição e da solidão. Medo de ficar sozinho, medo de mais ninguém gostar de si, medo de não encontrar mais ninguém, medo da desaprovação de outros, da crítica da sociedade ou da família, medo do que outros podem dizer, pensar ou achar, medo de desapontar, de desiludir… Medo de tudo e mais alguma coisa.

Há quem não se aperceba, não confie ou não acredite que há relações que podem ser boas, completas e harmoniosas. Há quem não conheça exemplos assim. Há quem tenha a convicção de que os relacionamentos são de uma determinada forma, como tal não podem ser diferentes desse modelo ou padrão e então vão-se mantendo. “Isto eu já conheço, como tal mais fale ficar aqui (é mais seguro)”.

Viemos de uma história de relacionamentos porque sim, de obrigação, de tradição, de obediência ao modelo sóciocultural, de dependência, de exigências e expectativas. Um modelo rígido e estanque que não promove a liberdade dos seus elementos. Temos ao nosso dispor histórias de dor e sofrimento, de submissão, de obediência, de separação e de conformismo. Separação de elementos que estão juntos fisicamente mas que emocionalmente estão completamente segregados, separados, distantes, não complementares.

A tradição de utilidade do casamento está obsoleta. Não precisamos mais casar ou viver juntos como forma de sobrevivência (salvo alguns casos que não vou mencionar aqui hoje). A mulher emancipou-se, os estudos até mais tarde e o investimento da carreira, associado à capacidade de adiar a maternidade, revolucionou a fórmula vigente dos relacionamentos. Já todos sabemos isso. Como tal, porque permanecer num relacionamento que, à partida, não apresenta benefícios, interesses em comum, cujos elementos estão distantes, não comunicam, não se gostam ou não se identificam já um com o outro?

Para além do medo, há questões ainda mais inconscientes que representamos nas nossas relações, padrões familiares, padrões de funcionamento, crenças e convicções, bem como comodismo. A nossa mente foi programada, ou habituada, a mantermo-nos naquilo que é conhecido. O que é conhecido, para nós, o que é familiar, é seguro. Representa manutenção da sobrevivência. Todas estas questões estão inculcadas nas nossas células primitivas, no nosso sistema límbico ou emocional. A nossa genética obriga-nos a ficar, a sentirmo-nos seguros e protegidos no seio de uma relação, ainda que infeliz.

O mecanismo de sobrevivência fala mais alto. Sobrevivência física e emocional. A componente física, económica ou funcional da nossa sobrevivência até se pode manter sem companheiro/a, mas e a emocional, como fica? O espectro da solidão paira sobre todos nós: “Quem vai cuidar de mim quando estiver doente? Quem me acompanhará na velhice? Quem estará comigo para me socorrer em caso de necessidade? Quem me vai ouvir quando estiver triste? Quem estará para mim quando precisar? Com quem falar quando chego a casa? Com quem posso partilhar a vida, os momentos?”. Tudo isto nos influencia.

Queremos manter-nos num determinado funcionamento, num determinado padrão conhecido, uma fórmula segura. Fomos ensinados que a dois era melhor apesar de, a maior parte das vezes, até podemos não ter constatado isso. Fomos ensinados que estar sozinho é mau, não é seguro. Fomos ensinados que precisamos sempre de alguém, a depender de alguém de alguma forma: sozinhos não é suficiente, não nos bastamos nem nos podemos bastar. Contudo, sozinhos vivemos se for preciso.

A dependência afectiva ou emocional do outro é tão grande que há quem se veja em situações indesejadas, infelizes e incompletas, durante mais tempo do que o esperado. O autoconhecimento, para mim, é a melhor forma de compreendermos estes padrões e porque se mantêm. Perceber as nossas carências, as nossas crenças e convicções, as nossas expectativas do que é possível ou não, do que esperamos ou não e do que acreditamos sermos merecedores ou não.

Que todos, sem excepção, possamos fazer essa jornada rumo ao nosso autoconhecimento e autodesenvolvimento para que possamos transformar as relações de hoje e amanhã, actualizando essas relações para modelos positivos, fortalecedores, harmoniosos e felizes. É possível. Todos, mais ou menos, estamos a fazer isso. Todos somos exemplo e todos temos a capacidade de mudar. Mudar a forma como pensamos e mudar a forma como nos relacionamos uns com os outros.

Aos pais que nos deram a vida

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Devemos agradecer. Pelo simples facto de nos terem dado a oportunidade de existir, estar nesta terra, ter-nos sido dada vida, de viver e respirar. Ao pai porque pôs a semente, à mãe que foi o canteiro. A bênção de estar cá, de poder ser gente, de poder sentir, de ser carne e osso, corpo vivente. Conscientemente ou inconscientemente, de forma desejada ou não desejada, estamos cá. Somos gente, somos pessoa. somos existência e potencial. Somos material das estrelas, matéria divina, carne e osso, somos mente e emoção.

Aos pais que nos trouxeram a esta vida, ao mundo, um muito obrigada. Um reconhecimento e uma vénia. Hoje vos reconheço, hoje vos sinto como oportunidade, como intenção, como casal, como ventre, como vontade, como portal. Através de vocês vim, através de vocês conheci o mundo, conheci a vida, conheci a família, o sentimento, o cuidado, o carinho, a preocupação, a pertença. O primeiro contacto com o mundo foram vocês, a porta para a escola,  conhecimento e o crescimento. Através de vocês pude estudar e crescer, viajar, ser gente, ser pessoa. Ser alguém neste mundo.

Através de vocês estou aqui, estou cá, estou, sou. Sou uma mistura de quem me trouxe, quem me criou, quem me educou. E nesse reconhecimento, reconheço-me, as minhas partes, as minhas partículas, as componentes da minha personalidade e do meu ser como um todo. Todas as ramificações, o funcionamento da minha mente e da minha psique, o meu corpo, a minha genética, as informações lá codificadas, os anos e séculos de história, de linhagem, linguagem e pensamento.

Hoje vejo, hoje reconheço e hoje honro. Honro quem fui e quem sou, mas também quem posso ser mais, para além de tudo isso. Tanta coisa nos compõe, nos formula e desordena. Somos uma constelação de factores, de componentes, circunstâncias e informações que registamos, para o bem e para o mal. Com o tempo, com contemplação, com reverência e introspecção, conseguimos deslindar tudo isso e compreender, aceitar, integrar e agradecer por tudo isso.

Não se faz esse caminho sem descontentamento, revolta, indignação, incompreensão, rebeldia, resistência e rejeição. Primeiro constatamos as semelhanças ou divergências, depois entramos em estado de choque ou negação. A seguir revoltamo-nos com o que herdámos, seja em termos de temperamento, personalidade, características, situações de vida, dificuldades, faltas, carências ou excessos (de crítica, de protecção, de zelo, de ausência, perfeccionismo, autoritarismo, cuidado ou carinho). Vamo-nos apercebendo de tudo isto à medida que vamos crescendo e que vamos tomando mais e mais consciência do nosso comportamento ou padrões de funcionamento e pensamento.

Mas há uma altura para fazer as pazes com esse passado, legado ou herança. Somos quem somos, um conjunto daquilo que nos compõe. Somos a nossa família, somos os nossos pais, somos os seus antepassados. Somos os seus padrões mentais, emocionais e comportamentais. Temos o resto da vida para desconstruir transformar e transcende-los. Podemos fazê-lo. O primeiro passo é reconhecê-lo, o segundo é aceitá-lo, o terceiro é mudá-lo: ficar com o que é nosso e o que nos faz sentido, devolver o que não precisa de nos pertencer em termos de crenças, convicções e comportamentos, e integrar tudo na nossa verdade, em jeito de conclusão.

Juntar o que de melhor recebemos, transformar o que foi menos bom, é disfuncional, não funciona mais ou não é mais actual ou funcional para nós, e com isso construir a nossa identidade, junto com o novo que podemos introduzir para que a receita fique completa e possamos evoluir para lá do que foi aceite e conhecido como normal, como a norma, e que não tem de ser mais.

Tu és a pessoa que sempre procuraste

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Se ainda não vos disse isto, digo-vos agora, de coração aberto:

A ti querida mulher, que sofres, que buscas, que te sentes só, perdida, mal amada ou correspondida. Se procuras um companheiro, um amante, um namorado ou marido que te compreenda, aceite, que te ame, que te cuide, que te apoie, que seja um suporte, que seja estabilidade, que seja consciente, evoluído, companheiro e amigo. Tu que te feres, te magoas e enganas com homens que não são bons para ti, que não te fazem feliz, completa. Tu tens de aprender isto: tu és suficiente, tu tens valor, tu podes fazê-lo, tu bastas, tu importas.

Anos de educação e socialização baseadas no critério de procura de companheiro, de evitamento da solidão, de concretização de objectivos matriarcais ou patriarcais de casamento e vida a dois, de falta de uma parte tua, de não seres completa sem um homem, ouve: tu és completa, tu não precisas nada mais do que tu, da tua convicção, da tua segurança, do teu apoio, do teu carinho, das tuas palavras meigas para ti própria. Tu podes ter melhor. Algo melhor existe, está aí, à espera que chegues lá.

Tu, mulher, tens em ti tudo o que precisas para seres feliz, independente, completa. Podes fazer tudo o que quiseres sozinha, sem companhia. Podes preferir tê-la, e está tudo certo, mas não te sintas menos do que suficiente quando não a tens, quando desejas e não consegues ter o que almejas. É possível tudo isso, mas tens de ser aquilo que procuras. Tens de ter em ti o que procuras, o que proclamas como necessário. Não podes ferir os homens com pedras, com palavras, com esquemas, com enganos, com seduções. Não podes ficar só porque sim, porque é seguro.

Podes crescer, podes evoluir, podes trabalhar em ti. Lê, escreve, fala com outras mulheres, faz terapias variadas, cursos, workshops. Descobre os teus talentos, os teus dons, a tua missão, aquilo que gostas. Explora-te, os teus gostos, interesses, sonhos, corpo e sexualidade. Vive tudo isso inteira, contigo. Faz o que gostas, corre atrás disso, descobre o que é, explora. Explora os teus potenciais, as tuas dores, os teus desafios. Cruza a zona de conforto, cruza os teus mares, as tuas emoções.

Sê quem tu és, por favor. Fazes um deserviço à humanidade quando negas ao mundo o que és, porque é o que vieste para ser. Com tudo, dá tudo o que puderes, recebe tudo o que for para ti, rejeita o que não te faz bem, o que não te acrescenta, o que te limita. Não precisas limitar-te, não precisas calar-te. Expressa a tua verdade SEMPRE. Sê quem és SEMPRE. Sendo inteira, atrais pessoas inteiras, aliás: só te podes interessar por pessoas inteiras sendo inteira. Entendes? Isto é fundamental.

A linhagem materna

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Existe um útero colectivo de onde todas descendemos. Uma linhagem de mulheres que fomos, que foram as nossas antepassadas, as mulheres da nossa família, incluindo tias, mãe, avós, mães e avós das avós. Existe um registo energético, uma memória de acontecimentos passados, um diário de bordo que herdamos de todas as vivências traumáticas dessas mulheres, ou registo kármico se lhe quiserem chamar assim.

Há tantas coisas que não compreendemos mas o que é certo é que, através da hipnoterapia e exercícios regressivos, conseguimos aceder a memórias, conteúdos, sensações, emoções e histórias que não parecem ser a nossa, mas que acabam por ser. O sangue, a cadeia de ADN, a transmissão genética é um legado, uma carga imensa de informação que ainda nem começámos a entender e conseguir descodificar completamente.

Nós somos esse legado, esse conjunto de informação genética. E essa informação genética não contém apenas características físicas como tom de pele, cor dos olhos e do cabelo, altura, etc. Herdamos também predisposições, gostos, aversões, medos, características de personalidade e temperamento, que são dos nossos pais, tios e avós ou bisavós. E essas características psicológicas ou padrões de funcionamento emocional, são a bagagem inconsciente que recebemos, uma programação implícita celularmente. Não nascemos no vazio nem viemos a este mundo em vazio.

Na nossa caixinha cerebral, genética e celular, borbulham milhões de informações. Umas que se vão fortalecendo com a educação e com a socialização, outras que vão degenerando por não serem estimuladas, aceites ou acolhidas por nós de alguma forma. E esses padrões de funcionamento psicológico ou emocional vêm de aquisições dos nossos antepassados, da nossa família, da nossa árvore genealógica. Esses padrões resultam de experiências de vida, de configurações específicas derivadas de aprendizagens, pensamentos e crenças criadas por alguém antes de nós.

Não é à toa que damos por nós a sermos parecidos com familiares nossos que até nem participam tanto assim nas nossas vidas diárias. Como tal, não é só da educação ou observação de padrões de funcionamento ou comportamento, que nos tornamos quem somos. Podemos chamar a isso transmissão genética ou informação mitocondrial, principalmente de agentes femininos.

O óvulo que é fecundado contém em si informação variada sobre a mãe e todas as mulheres que vieram antes dela. O espermatozóide que fecunda o óvulo contém todas as informações relacionadas com o pai. Penso que a evolução da espécie humana deriva de essas células altamente especializadas, serem uma conjunção de tudo o que houve até ali de informação pertinente para transmitir à próxima geração. E às tantas isto até é demais para a nossa mente processar de tão complexo ou espantoso.

Com tudo isto quero dizer que sim, nós herdamos um legado de dor das nossas mães, nós mulheres. Os homens herdam o legado do masculino antes deles. E tudo isso está cá dentro, dentro de nós, para ser explorado e trabalhado. Conseguimos detectar esses padrões através de pensamentos, comportamentos e atitudes que temos. Através de doenças, desconfortos, dores, vícios e inconsistências. Temos todos trabalho a fazer, nós somos a geração que tem mais informação e terapias disponíveis. Toca-nos a nós reconhecer  aquilo que precisa ser reconhecido para podermos avançar de forma diferente, consciente e inteira. Sem mácula.