Porque nos mantemos nas relações

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Há vários motivos que fazem as pessoas manterem-se em determinadas relações de falta ou excesso. Falta de carinho, compreensão, aceitação, comunicação, cumplicidade ou intimidade. Excesso de controlo, violência, ciúme, medo ou insegurança.

Falemos do medo: o medo origina quase tudo isso. A inconsciência e imaturidade sócioemocional também. Ora o medo pode ser de quê? Medo da perda, da rejeição, do abandono, da traição e da solidão. Medo de ficar sozinho, medo de mais ninguém gostar de si, medo de não encontrar mais ninguém, medo da desaprovação de outros, da crítica da sociedade ou da família, medo do que outros podem dizer, pensar ou achar, medo de desapontar, de desiludir… Medo de tudo e mais alguma coisa.

Há quem não se aperceba, não confie ou não acredite que há relações que podem ser boas, completas e harmoniosas. Há quem não conheça exemplos assim. Há quem tenha a convicção de que os relacionamentos são de uma determinada forma, como tal não podem ser diferentes desse modelo ou padrão e então vão-se mantendo. “Isto eu já conheço, como tal mais fale ficar aqui (é mais seguro)”.

Viemos de uma história de relacionamentos porque sim, de obrigação, de tradição, de obediência ao modelo sóciocultural, de dependência, de exigências e expectativas. Um modelo rígido e estanque que não promove a liberdade dos seus elementos. Temos ao nosso dispor histórias de dor e sofrimento, de submissão, de obediência, de separação e de conformismo. Separação de elementos que estão juntos fisicamente mas que emocionalmente estão completamente segregados, separados, distantes, não complementares.

A tradição de utilidade do casamento está obsoleta. Não precisamos mais casar ou viver juntos como forma de sobrevivência (salvo alguns casos que não vou mencionar aqui hoje). A mulher emancipou-se, os estudos até mais tarde e o investimento da carreira, associado à capacidade de adiar a maternidade, revolucionou a fórmula vigente dos relacionamentos. Já todos sabemos isso. Como tal, porque permanecer num relacionamento que, à partida, não apresenta benefícios, interesses em comum, cujos elementos estão distantes, não comunicam, não se gostam ou não se identificam já um com o outro?

Para além do medo, há questões ainda mais inconscientes que representamos nas nossas relações, padrões familiares, padrões de funcionamento, crenças e convicções, bem como comodismo. A nossa mente foi programada, ou habituada, a mantermo-nos naquilo que é conhecido. O que é conhecido, para nós, o que é familiar, é seguro. Representa manutenção da sobrevivência. Todas estas questões estão inculcadas nas nossas células primitivas, no nosso sistema límbico ou emocional. A nossa genética obriga-nos a ficar, a sentirmo-nos seguros e protegidos no seio de uma relação, ainda que infeliz.

O mecanismo de sobrevivência fala mais alto. Sobrevivência física e emocional. A componente física, económica ou funcional da nossa sobrevivência até se pode manter sem companheiro/a, mas e a emocional, como fica? O espectro da solidão paira sobre todos nós: “Quem vai cuidar de mim quando estiver doente? Quem me acompanhará na velhice? Quem estará comigo para me socorrer em caso de necessidade? Quem me vai ouvir quando estiver triste? Quem estará para mim quando precisar? Com quem falar quando chego a casa? Com quem posso partilhar a vida, os momentos?”. Tudo isto nos influencia.

Queremos manter-nos num determinado funcionamento, num determinado padrão conhecido, uma fórmula segura. Fomos ensinados que a dois era melhor apesar de, a maior parte das vezes, até podemos não ter constatado isso. Fomos ensinados que estar sozinho é mau, não é seguro. Fomos ensinados que precisamos sempre de alguém, a depender de alguém de alguma forma: sozinhos não é suficiente, não nos bastamos nem nos podemos bastar. Contudo, sozinhos vivemos se for preciso.

A dependência afectiva ou emocional do outro é tão grande que há quem se veja em situações indesejadas, infelizes e incompletas, durante mais tempo do que o esperado. O autoconhecimento, para mim, é a melhor forma de compreendermos estes padrões e porque se mantêm. Perceber as nossas carências, as nossas crenças e convicções, as nossas expectativas do que é possível ou não, do que esperamos ou não e do que acreditamos sermos merecedores ou não.

Que todos, sem excepção, possamos fazer essa jornada rumo ao nosso autoconhecimento e autodesenvolvimento para que possamos transformar as relações de hoje e amanhã, actualizando essas relações para modelos positivos, fortalecedores, harmoniosos e felizes. É possível. Todos, mais ou menos, estamos a fazer isso. Todos somos exemplo e todos temos a capacidade de mudar. Mudar a forma como pensamos e mudar a forma como nos relacionamos uns com os outros.

Aos pais que nos deram a vida

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Devemos agradecer. Pelo simples facto de nos terem dado a oportunidade de existir, estar nesta terra, ter-nos sido dada vida, de viver e respirar. Ao pai porque pôs a semente, à mãe que foi o canteiro. A bênção de estar cá, de poder ser gente, de poder sentir, de ser carne e osso, corpo vivente. Conscientemente ou inconscientemente, de forma desejada ou não desejada, estamos cá. Somos gente, somos pessoa. somos existência e potencial. Somos material das estrelas, matéria divina, carne e osso, somos mente e emoção.

Aos pais que nos trouxeram a esta vida, ao mundo, um muito obrigada. Um reconhecimento e uma vénia. Hoje vos reconheço, hoje vos sinto como oportunidade, como intenção, como casal, como ventre, como vontade, como portal. Através de vocês vim, através de vocês conheci o mundo, conheci a vida, conheci a família, o sentimento, o cuidado, o carinho, a preocupação, a pertença. O primeiro contacto com o mundo foram vocês, a porta para a escola,  conhecimento e o crescimento. Através de vocês pude estudar e crescer, viajar, ser gente, ser pessoa. Ser alguém neste mundo.

Através de vocês estou aqui, estou cá, estou, sou. Sou uma mistura de quem me trouxe, quem me criou, quem me educou. E nesse reconhecimento, reconheço-me, as minhas partes, as minhas partículas, as componentes da minha personalidade e do meu ser como um todo. Todas as ramificações, o funcionamento da minha mente e da minha psique, o meu corpo, a minha genética, as informações lá codificadas, os anos e séculos de história, de linhagem, linguagem e pensamento.

Hoje vejo, hoje reconheço e hoje honro. Honro quem fui e quem sou, mas também quem posso ser mais, para além de tudo isso. Tanta coisa nos compõe, nos formula e desordena. Somos uma constelação de factores, de componentes, circunstâncias e informações que registamos, para o bem e para o mal. Com o tempo, com contemplação, com reverência e introspecção, conseguimos deslindar tudo isso e compreender, aceitar, integrar e agradecer por tudo isso.

Não se faz esse caminho sem descontentamento, revolta, indignação, incompreensão, rebeldia, resistência e rejeição. Primeiro constatamos as semelhanças ou divergências, depois entramos em estado de choque ou negação. A seguir revoltamo-nos com o que herdámos, seja em termos de temperamento, personalidade, características, situações de vida, dificuldades, faltas, carências ou excessos (de crítica, de protecção, de zelo, de ausência, perfeccionismo, autoritarismo, cuidado ou carinho). Vamo-nos apercebendo de tudo isto à medida que vamos crescendo e que vamos tomando mais e mais consciência do nosso comportamento ou padrões de funcionamento e pensamento.

Mas há uma altura para fazer as pazes com esse passado, legado ou herança. Somos quem somos, um conjunto daquilo que nos compõe. Somos a nossa família, somos os nossos pais, somos os seus antepassados. Somos os seus padrões mentais, emocionais e comportamentais. Temos o resto da vida para desconstruir transformar e transcende-los. Podemos fazê-lo. O primeiro passo é reconhecê-lo, o segundo é aceitá-lo, o terceiro é mudá-lo: ficar com o que é nosso e o que nos faz sentido, devolver o que não precisa de nos pertencer em termos de crenças, convicções e comportamentos, e integrar tudo na nossa verdade, em jeito de conclusão.

Juntar o que de melhor recebemos, transformar o que foi menos bom, é disfuncional, não funciona mais ou não é mais actual ou funcional para nós, e com isso construir a nossa identidade, junto com o novo que podemos introduzir para que a receita fique completa e possamos evoluir para lá do que foi aceite e conhecido como normal, como a norma, e que não tem de ser mais.

Tu és a pessoa que sempre procuraste

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Se ainda não vos disse isto, digo-vos agora, de coração aberto:

A ti querida mulher, que sofres, que buscas, que te sentes só, perdida, mal amada ou correspondida. Se procuras um companheiro, um amante, um namorado ou marido que te compreenda, aceite, que te ame, que te cuide, que te apoie, que seja um suporte, que seja estabilidade, que seja consciente, evoluído, companheiro e amigo. Tu que te feres, te magoas e enganas com homens que não são bons para ti, que não te fazem feliz, completa. Tu tens de aprender isto: tu és suficiente, tu tens valor, tu podes fazê-lo, tu bastas, tu importas.

Anos de educação e socialização baseadas no critério de procura de companheiro, de evitamento da solidão, de concretização de objectivos matriarcais ou patriarcais de casamento e vida a dois, de falta de uma parte tua, de não seres completa sem um homem, ouve: tu és completa, tu não precisas nada mais do que tu, da tua convicção, da tua segurança, do teu apoio, do teu carinho, das tuas palavras meigas para ti própria. Tu podes ter melhor. Algo melhor existe, está aí, à espera que chegues lá.

Tu, mulher, tens em ti tudo o que precisas para seres feliz, independente, completa. Podes fazer tudo o que quiseres sozinha, sem companhia. Podes preferir tê-la, e está tudo certo, mas não te sintas menos do que suficiente quando não a tens, quando desejas e não consegues ter o que almejas. É possível tudo isso, mas tens de ser aquilo que procuras. Tens de ter em ti o que procuras, o que proclamas como necessário. Não podes ferir os homens com pedras, com palavras, com esquemas, com enganos, com seduções. Não podes ficar só porque sim, porque é seguro.

Podes crescer, podes evoluir, podes trabalhar em ti. Lê, escreve, fala com outras mulheres, faz terapias variadas, cursos, workshops. Descobre os teus talentos, os teus dons, a tua missão, aquilo que gostas. Explora-te, os teus gostos, interesses, sonhos, corpo e sexualidade. Vive tudo isso inteira, contigo. Faz o que gostas, corre atrás disso, descobre o que é, explora. Explora os teus potenciais, as tuas dores, os teus desafios. Cruza a zona de conforto, cruza os teus mares, as tuas emoções.

Sê quem tu és, por favor. Fazes um deserviço à humanidade quando negas ao mundo o que és, porque é o que vieste para ser. Com tudo, dá tudo o que puderes, recebe tudo o que for para ti, rejeita o que não te faz bem, o que não te acrescenta, o que te limita. Não precisas limitar-te, não precisas calar-te. Expressa a tua verdade SEMPRE. Sê quem és SEMPRE. Sendo inteira, atrais pessoas inteiras, aliás: só te podes interessar por pessoas inteiras sendo inteira. Entendes? Isto é fundamental.

A linhagem materna

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Existe um útero colectivo de onde todas descendemos. Uma linhagem de mulheres que fomos, que foram as nossas antepassadas, as mulheres da nossa família, incluindo tias, mãe, avós, mães e avós das avós. Existe um registo energético, uma memória de acontecimentos passados, um diário de bordo que herdamos de todas as vivências traumáticas dessas mulheres, ou registo kármico se lhe quiserem chamar assim.

Há tantas coisas que não compreendemos mas o que é certo é que, através da hipnoterapia e exercícios regressivos, conseguimos aceder a memórias, conteúdos, sensações, emoções e histórias que não parecem ser a nossa, mas que acabam por ser. O sangue, a cadeia de ADN, a transmissão genética é um legado, uma carga imensa de informação que ainda nem começámos a entender e conseguir descodificar completamente.

Nós somos esse legado, esse conjunto de informação genética. E essa informação genética não contém apenas características físicas como tom de pele, cor dos olhos e do cabelo, altura, etc. Herdamos também predisposições, gostos, aversões, medos, características de personalidade e temperamento, que são dos nossos pais, tios e avós ou bisavós. E essas características psicológicas ou padrões de funcionamento emocional, são a bagagem inconsciente que recebemos, uma programação implícita celularmente. Não nascemos no vazio nem viemos a este mundo em vazio.

Na nossa caixinha cerebral, genética e celular, borbulham milhões de informações. Umas que se vão fortalecendo com a educação e com a socialização, outras que vão degenerando por não serem estimuladas, aceites ou acolhidas por nós de alguma forma. E esses padrões de funcionamento psicológico ou emocional vêm de aquisições dos nossos antepassados, da nossa família, da nossa árvore genealógica. Esses padrões resultam de experiências de vida, de configurações específicas derivadas de aprendizagens, pensamentos e crenças criadas por alguém antes de nós.

Não é à toa que damos por nós a sermos parecidos com familiares nossos que até nem participam tanto assim nas nossas vidas diárias. Como tal, não é só da educação ou observação de padrões de funcionamento ou comportamento, que nos tornamos quem somos. Podemos chamar a isso transmissão genética ou informação mitocondrial, principalmente de agentes femininos.

O óvulo que é fecundado contém em si informação variada sobre a mãe e todas as mulheres que vieram antes dela. O espermatozóide que fecunda o óvulo contém todas as informações relacionadas com o pai. Penso que a evolução da espécie humana deriva de essas células altamente especializadas, serem uma conjunção de tudo o que houve até ali de informação pertinente para transmitir à próxima geração. E às tantas isto até é demais para a nossa mente processar de tão complexo ou espantoso.

Com tudo isto quero dizer que sim, nós herdamos um legado de dor das nossas mães, nós mulheres. Os homens herdam o legado do masculino antes deles. E tudo isso está cá dentro, dentro de nós, para ser explorado e trabalhado. Conseguimos detectar esses padrões através de pensamentos, comportamentos e atitudes que temos. Através de doenças, desconfortos, dores, vícios e inconsistências. Temos todos trabalho a fazer, nós somos a geração que tem mais informação e terapias disponíveis. Toca-nos a nós reconhecer  aquilo que precisa ser reconhecido para podermos avançar de forma diferente, consciente e inteira. Sem mácula.

Os 7 pecados capitais

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Sabe quais são? São eles: a gula, a luxúria, a inveja, a ira, a preguiça, a avareza e o orgulho. Sabem quando começou a ser elaborada uma lista de pecados? No século IV. Esta lista de 7 pecados foi apresentada no século XIII. E porque foi criada esta lista? Para fazer cumprir os 10 mandamentos que a igreja católica tinha como regras base de moral e conduta apropriada na vivência dos relacionamentos entre as pessoas.

Ainda hoje são vistos como pecados, e atributos ou características que não devemos ter. Cada pecado capital tem uma virtude oposta, a temperança, a castidade, a caridade, a paciência, a diligência, a generosidade e a humildade. Sabendo disto, percebemos claramente que não conseguimos viver só com as qualidades mais elevadas que podemos ter e que existem como possibilidade.

Nem sempre conseguimos ser pacientes, às vezes vamos estar zangados. Por vezes cobiçamos o que é dos outros, queremos igual. Gostamos dos nossos prazeres mundanos, como a comida e a bebida, que nos faz juntar com amigos e família. Por vezes gostamos de estar sem fazer nada, cedendo ao desejo da indulgência e da procrastinação. Muitas vezes ficamos feridos, magoados, e não queremos dar o braço a torcer. Também podemos ficar contentes e satisfeitos com conquistas nossas. Por vezes não queremos partilhar o que é nosso e queremos mais, somos ambiciosos, procuramos conquistar e ganhar mais do que temos actualmente.

Então eu digo, se vivermos sem isso, o que nos resta? O que é feito do nosso mundo emocional e corpo de desejos que herdámos quando chegámos a este mundo? É incompatível sermos o que somos e termos de rejeitar partes naturais ao ser humano. A ideia de pecado é uma ideia religiosa, e a religião foi criada para regular o comportamento humano, muitas vezes considerado como depravação, corrupção ou perversão.

Se não houvessem essas características consideradas como pecados, não haveria evolução tecnológica, médica ou científica. Todos tinham o mesmo, da mesma forma. Não haveria propagação da espécie, reprodução. Não teríamos nada a não ser valores e princípios. Viveríamos sem esperar mais nada, sem tentar mais nada.

Talvez esteja a exagerar, mas eu não sei como seria o mundo sem esses atributos naturais à espécie humana. Talvez fosse um mundo pacífico (só poderia ser), talvez fosse um mundo perfeito, mas nós não somos perfeitos, não podemos ser, não nos é possível. A própria humanidade contém em si a imperfeição, a impermanência, o defeito, a crítica, o julgamento, a dúvida, a insegurança, o medo. E isso faz-nos ter comportamentos ou condutas que nem sempre são as melhores. O medo de perder faz-nos fazer as coisas mais incríveis contra nós e contra outros. As guerras são filhas do medo, a divisão é filha do medo, a culpa e o castigo são filhas do medo.

E de medo em medo nós somos reféns, reféns de vícios que nos disseram que não poderíamos ter, mas procurar esses vícios é natural em nós. Então como resolver este dilema? Eu acho que se aprendêssemos a ser tolerantes, benevolentes e aceitantes de nós e das nossas emoções e necessidades (são elas que nos propulsionam a procurar os tais “vícios da carne” e da mente), poderíamos conseguir muito mais. A rejeição de atributos em nós não nos faz chegar mais longe. A aceitação e o acolhimento sim.

Que possamos fazer as pazes com os nossos vícios, olhar para eles, trabalhá-los, libertar o que está na origem de algumas dependências ou comportamentos que não são bons para nós nem para outros, como fumar, consumir drogas, beber em excesso, refugiar-se em corpos alheios, comer ou comprar compulsivamente, ser arrogantes e prepotentes, por exemplo. Tudo o que está em excesso ou em falta revela uma fragilidade, e é aí que podemos intervir. Não negar o que é nosso ou está em nós, mas aceitar que existe e que pode ser regulado de alguma forma, bem como transformado e até transcendido, se for preciso.

O parlamento da mente

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No parlamento da mente sentam-se várias vozes. As vozes da discórdia, da oposição e do contra, mas também as vozes que incentivam à mudança, que dizem que é possível e que se pode conseguir estas e aquelas coisas. Há as vozes enaltecedoras mas também as vozes críticas. Há o julgamento, o preconceito, a dúvida, a incerteza, a insegurança, mas também pode haver a alegria, o entusiasmo, a esperança, a fé e a calma. Tantas as vozes que é difícil contar. Umas vezes são umas que prevalecem, outras vezes são outras. Demasiadas vozes em nós.

É difícil, por vezes, fazer valer a voz da confiança e da determinação. Temos vários aspectos a coexistir em nós, a nossa mente traz vários argumentos e contra argumentos sobre uma variedade de situações. Muitas vezes não é só a mente e a parte racional a comandar, é também a parte inconsciente e emocional. O medo é uma das principais vozes do inconsciente, uma parte fundamental da nossa mente e que acaba por nos limitar imenso também.

O medo faz parte da nossa programação. É a voz que alerta para os perigos, que nos faz ser cautelosos. Mas ele começou a ocupar demasiado espaço em nós e nós permitimos que isso acontecesse. O nosso medo é a soma dos medos dos nossos antepassados, dos nossos pais, dos nossos amigos, do local onde moramos, da cultura a que pertencemos e das circunstâncias que nos envolvem. De criança nos ensinam a ter medo: “não vás por aí, não faças isso, cuidado com estranhos, não corras que tropeças, vê lá que te vais aleijar” e muitos exemplos destes. Aprendemos, então, a moderação, a contenção e a sensatez.

Há educações tais, de um perfeccionismo e controlo extremo. Os pais podem ser mais ou menos autoritários, mais ou menos controladores, o que é certo é que aprendemos sempre uma boa dose de medo. Mesmo que sejamos destemidos, ficam gravadas aquelas vozes, conselhos ou ameaças de que se andarmos completamente à vontade, algo de ruim pode acontecer. E isto é poderoso, todas as coisas que se armazenam no inconsciente e que se transformam em crenças, convicções ou padrões de funcionamento que nem sempre conseguimos ver de onde descendem.

O que é certo é que todas essas vozes que nos constituem são importantes, todas têm o seu lugar e todas têm o seu direito de existir e serem respeitadas, ouvidas e levadas em consideração. Não vale a pena tentar suprimir uma parte sua de forma agressiva, tentando ignorá-la, recalcando ou castrando. Essa voz, ou essa parte não desaparece. Pode ficar atrofiada, mas fica ignorada. Tudo o que fica ignorado, não desaparece nem deixa de ter um certo efeito em nós. Para sermos completos, inteiros, íntegros, isso não pode acontecer. Não podemos rejeitar partes nossas, é quase indecente.

Então o que podemos fazer? Regular a dominância de certas vozes sobre as outras. Todas se podem expressar livremente. O medo, a incerteza, a insegurança, a arrogância, a crítica, o pessimismo… Porquê? Eles fazem parte e só por fazerem parte já importam – são necessárias, senão não existiam. Mas para além dessas vozes, há as outras, a da determinação, da concretização, da superação, da gentileza, da aceitação… Há uma voz que sim, pode sempre fazer o trabalho de moderação, que é a voz firme da Consciência. Ela sim, central a todas as outras, regulando a participação de cada uma. A consciência trabalha lado a lado com a Presença, e juntas podem levar esse parlamento a bom porto e a um entendimento entre todas as partes.

“A perfeição não existe”

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Pois eu tenho cá para mim que sim, que existe. Existe nos momentos, em objectos, em certos alimentos ou bebidas (há pouco tempo soube de um concurso de barista para o melhor café do mundo, que seria tirado com a maior perfeição possível), em estados emocionais, em certas partes nossas ou qualidades que podemos ter e que nos valem em muitas situações, em relações que conseguimos estabelecer com certas pessoas que vão cruzando no nosso caminho, e, essencialmente, na natureza. E isto é o que me cruza a mente neste momento.

Existe uma cama feita perfeitamente, aquele bolo com a cobertura perfeita, o equilíbrio de sabores e texturas de algumas comidas, aquele chá delicioso, aquele pôr do sol ou saída com os amigos de doer a barriga de rir que nos faz chegar a casa tão mas tão saciados e satisfeitos, aquele dia de praia maravilhoso que nos deixa com uma sensação de paz e plenitude… Como não existe a perfeição no mundo? As flores, já olharam bem para elas? O universo, inteligentemente elaborado? O funcionamento do corpo humano? Ena, tantos os exemplos.

Onde não existe perfeição é em tudo o que podemos fazer ou ser. Não podemos ser sempre perfeitos, fazer sempre tudo bem feito, em todos os momentos. Não vamos encontrar a perfeição em tudo o que vemos, provamos ou sentimos. Não podemos ser constantemente perfeitos e conseguir sempre a perfeição, ter sempre momentos e sentimentos perfeitos, isso é que não é possível. Podemos tentar, mas isso vai desgastar-nos. Se podemos tentar fazer sempre o melhor possível em todos os momentos? Isso sim, para mim é perfeição suficiente. Estar presentes, conscientes, fazer o melhor, trabalharmos em nós, superarmos o que nos limita… Isso é fazer o melhor.

Afinarmos os nossos comportamentos e atitudes, respondermos da melhor forma possível aos outros e a nós, sabermos dividir o que é a esfera pessoal e a profissional, dividindo esses lados nossos de forma e vivermos um e outro plenamente quando é para viver um ou outro. A minha definição de perfeição é a aceitação de tudo o que é, tudo o que foi e tudo o que pode vir a ser.

Quando fazemos as pazes connosco, com os outros que nos magoaram, com o que já vivemos, da forma que vivemos, podemos alcançar uma certa forma de plenitude, e isso, para mim é viver em harmonia. Harmonia, para mim, é perfeição suficiente nesta existência. Isso e poder ver a perfeição das coisas vivas. Ter o prazer da contemplação, poder sentir o êxtase numa caminhada, num mergulho no mar, ou numa outra actividade prazerosa. Ter prazer na leitura, de apreciar uma tarde numa varanda ou terraço algures, aquele filme especial que mexeu connosco…

Tantas as formas de perfeição à nossa volta. Não chegam sempre, nem todos os dias. Não há constância ou permanência da felicidade nem na perfeição. Então eu digo: não tente atingir o inatingível numa correria desenfreada. Tudo o que tentamos agarrar com muita ânsia nos escapa. Tudo o que não procuramos por vezes nos acha. Permita-se viver no presente, usufruir do que tem, conquistar o que é importante para si e sentir o que é para sentir. E é esta a perfeição que nos é possível experimentar enquanto seres humanos nesta terra.