TAS triste? (Transtorno Afectivo Sazonal)

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Comummente designado por SAD, o Transtorno Afectivo Sazonal (TAS) surge normalmente por volta desta época do ano, quando mudamos para o horário de inverno. Associado com o decréscimo de horas de luz diárias (dias mais curtos) e dias mais cinzentos e chuvosos, o nosso humor pode dar uma reviravolta e sentirmo-nos deprimidos, nostálgicos ou apáticos.

Quando essa condição se mantém, depois do necessário ajuste físico e hormonal quando há mudança de estação da primavera-verão para outono-inverno, trazendo tristeza, falta de energia, maior necessidade de dormir, mais apetite, nomeadamente por doces ou alimentos calóricos, vontade de se isolar, afastando-se de actividades sociais, preferindo ficar em casa debaixo das mantas sempre que pode, pode estar a sofrer deste distúrbio do humor.

Normalmente as pessoas que vivem em países nórdicos têm mais tendência a sofrer deste transtorno, bem como pessoas com bipolaridade, depressão cíclica ou recorrente, considerando que o transtorno afectivo sazonal é um subtipo da depressão. Há maior percentagem de mulheres diagnosticadas com este distúrbio, e ele pode também acontecer na mudança da primavera para o verão, em casos mais raros.

Causas hormonais podem explicar este fenómeno, associado com um decréscimo de vitamina D (transportada pela luz solar), há uma redução dos níveis de serotonina (responsável pela nossa disposição e bem estar geral) nos nossos cérebros, bem como uma maior produção de melatonina (regulação de padrões de sono e humor).

Há várias formas de combater este distúrbio de humor, normalmente através da alimentação (rica e variada), prática de exercício físico, actividades ao ar livre, socialização, fototerapia (terapia através de determinadas lâmpadas que imitam os efeitos da luz solar) e terapia psicológica (terapia cognitivo-comportamental).

Veja aqui mais informações sobre o assunto:

Depressão Sazonal: 10 coisas que precisa saber.

5 sintomas do Transtorno Afetivo Sazonal que você nunca deve ignorar.

O que é a Serotonina? – A molécula da felicidade.

Melatonina – A hormona do “sono”.

O Eterno Agora

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Já sentiram que apesar de acordarmos todos os dias para um novo dia, às vezes mais parece que estamos em loop e repetimos diariamente as mesmas coisas, pensamentos, rotinas, emoções? Tudo bem, temos de facto as nossas rotinas diárias, os nossos trabalhos e responsabilidades a cumprir, mas muitas vezes, passam-se as semanas, os meses e os anos, e, na verdade, nada parece sair do sítio ou mudar verdadeiramente.

Parece que nos arrastamos no tempo, muitas vezes com a expectativa e o desejo de mudar e transformar a nossa realidade, e mesmo que façamos terapia intensivamente, leiamos todos os livros de desenvolvimento pessoal que existem, sejamos pessoas conscientes dos nossos padrões, e ainda assim a mudança vem a pequenos passos, pequenos solfejos que nos dão a ilusão de estarmos a chegar a algum lado, contudo, parece que, na verdade, não saímos do lugar.

Andamos, fazemos, resolvemos,pensamos, meditamos, mudamos a alimentação, introduzimos rotinas saudáveis, o pensamento positivo, as afirmações diárias, tornamo-nos mais assertivos, aprendemos a dizer não, tornamo-nos menos críticos connosco, mais tolerantes ou flexíveis mentalmente, etc. etc., e onde isso nos leva verdadeiramente? Passaremos pela perda inevitavelmente, pela dor e pelo sofrimento. Levamos os embates da vida na mesma, passamos tudo pelo o que toda a gente no mundo passa, mas estamos mais evoluídos mentalmente, conseguimos amplificar a nossa experiência, senti-la e pensá-la de forma diferente.

Até aqui tudo certo. Mas, o que há mais? Acordamos todos os dias, fazemos o que temos de fazer durante anos a fio. Trabalhamos em nós, para o nosso autoconhecimento, mas as experiências e as lições continuam lá. Nunca param de chegar. Mesmo que pensemos que chegámos a algum sítio, a um patamar de evolução, depressa surge outro, e mais outro. Não há sossego, não há paragem. Quem escolhe esta via, muitas vezes sente-se frustrado. Muitas vezes não vê o fim, o fim da dor, o fim da desilusão, o fim dos pensamentos automáticos negativos, a autocrítica, a indulgência e autocomiseração.

De facto, esta nossa experiência humana é mesmo assim. É custosa, é dura, é longa. Cada ano parecem dez. Cada lição subsequente tem o peso de todas as outras, porque elas acontecem em cadeia, sucessivamente, umas após as outras. Têm um efeito cumulativo. Em vez de nos sentirmos mais leves, sentimo-nos mais fundos – não necessariamente mais pesados. Com a expansão da consciência, vem o peso da responsabilidade e da profundidade. Nada é mais o mesmo, contudo tudo continua no mesmo sítio. As pessoas continuam iguais. A realidade permanece inalterável.

Não mudamos o mundo por sermos mais conscientes. Damos passos nesse sentido. Inspiramos ou influenciamos outros, mudamos o paradigma a pouco e pouco. Mas no fim do dia, o mundo continua a girar da mesma forma. Injustiças e crimes continuam a acontecer a todos os níveis em todos os sítios do mundo. Como alguém me dizia ontem: “Não viemos ao mundo para ser felizes, viemos ao mundo para aprender”. E que aprendizagem essa… Não vem fácil.

Há a ilusão da felicidade, que se acontecer isto ou aquilo, tornamo-nos felizes. Que se fizermos isto ou aquilo, tornamo-nos felizes. Como se a felicidade fosse um estádio, um patamar. Não é. É um espectro. Não conseguimos mantermo-nos lá indefinidamente. Contudo, há um eterno agora onde nos podemos conectar a um estado superior, a um estado de expansão de consciência, a um alinhamento com o todo. Só aí não há passado nem futuro. Só aí somos energia, tranquilidade e paz. E isso só é possível porque nesse estado não há mente. Basta acordarmos desse estado ou do estado de sono/sonho de manhã, que tudo se reinicia.

A mente reinicia-se diariamente, activando, com ela, passado e presente. Preocupações, padrões, expectativas e desejos. Como uma inteligência artificial, como aquelas séries do Westworld e outras que tais, todos somos bonecos do destino e das diabruras do “universo”, como é chamada essa malha de energia que nos guia e enreda. Na verdade, todos estamos cá para o mesmo, com o mesmo propósito, evoluir enquanto espécie. Como isso é feito? Com acção e consequência (“karma”), como um jogo absurdo onde todo jogamos sem saber bem as regras, os motivos e as saídas nem como tudo se processa nem porquê, na verdade.

Apenas sei que nos foi dada esta capacidade de nos religarmos com algo superior, com uma consciência superior que nos guia, orienta e aconselha, se pudermos ouvir com atenção os sussurros dessa voz perene. Nesse estado, estamos (somos) completos, plenos. Aí, e só aí, temos uma pausa, uma “saída” para os jogos da mente e arquitectura do destino. Se podemos perpetuar esse estado, sendo humanos vivendo na terra? Não creio. Seria difícil. Talvez algumas pessoas o consigam, temos gurus budistas que parecem conseguir.

Só sei que podemos introduzir esse estado nas nossas vidas, quão frequentemente nos seja possível. Talvez só quando o fizermos tão ou mais recorrentemente quanto as artimanhas da mente, podemos sentir-nos fora desta terra e desta realidade, estando em paz e equilíbrio. Requer disciplina, requer presença, requer consciência de quando saímos ininterruptamente desse estado. Requer intenção e vontade. Requer fazer, esse reconectar com esse estado de totalidade. Requer-nos tudo de nós, um estado de renúncia constante à mente e às suas armadilhas e testes.

O que uma pessoa que já partiu quer que você saiba

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Está tudo bem.
Eu perdoo-te.
Não há nada a perdoar, aliás…
Está tudo certo.
Eu amo-te.
Fizeste o melhor que podias.
Estarei sempre aí, em memória e consciência.
Dei-te o melhor que pude.
Fiz o melhor que pude.
Lamento por tudo aquilo que faltou.
Não estou mais aí, sei que a ausência e a saudade deixam uma falta, um espaço vazio.
Mas, por favor, ocupa-o de algo bom, do amor que tinhas por mim, da admiração, ou daquilo que te deixei.
Todos deixamos algo, um legado. Eu dei-te o meu.
Guarda-o e segue para a Vida, para a frente.
Não me trazes de volta à vida por olhares para trás. Não te quero manter presa na morte, no passado.
Pertences à vida, ao aqui e agora, onde não estou fisicamente.
Sei que é doloroso, mas tens de dizer adeus da minha presença física.
A minha presença etérica, energética, continua sempre contigo, em vida.
Como tal, viverei sempre através de ti.
Preciso que continues, por ti, e por mim.
E pela família que continuas a ter.
Eles precisam de ti.
Não és menos por seguires em frente, rumo à vida e à alegria novamente.
És mais, somos mais.
É para isso que existes e continuas a existir.
Eu sigo também, e tu segues.
Em caminhos e patamares distintos, mas todos seguimos.
Essa é a nossa missão.
Mas juntos seguimos, apesar dos véus que nos separam.
Todos fazemos parte de um colectivo, de uma massa.
E nunca estamos separados, na verdade.
É apenas ilusão.
Estou só aqui deste lado, continuando a minha jornada.
A tua te levará aqui também, por isso é apenas uma questão de tempo até todos estarmos reunidos novamente, não desesperes.
Agradeço a tua lealdade por ficares, mas não precisa mais.
Sinto o teu amor por mim, transforma a tua dor nisso mesmo: em amor apenas.
É apenas amor que nos liga.
É apenas amor que nos deve ligar.

 

Porque é que “deixar ir” não funciona?

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No outro dia estava a pensar neste tema cá com os meus botões, embrenhada nos meus próprios processos emocionais, e surgiu-me uma frase: “To let go you must go through” (trought the pain, the skeletons and the fear). Que quer dizer: “para deixar ir, tens de ir através. Através do medo, dos fantasmas e dos medos”. No fundo, atravessar, o que em nós está guardado e que nos faz sofrer.

Não é com um passo de mágica que enumeramos as coisas em nós que queremos ver extintas e “puff” , elas desaparecem. Por isso é que o deixar ir não funciona. Fazemos afirmações diárias, instalamos o pensamento positivo, recitamos mantras, e todas essas coisas continuam lá, confortavelmente instaladas em nós, olhando para todo esse nosso esforço, a mostrar exactamente que esse não é o caminho.

Como tal, sem passar pelo processo, sem ir fundo nas nossas entranhas onde está o medo e a dor, nada vai embora. Então surgiram-me os seguintes decretos, ou afirmações, para ir mais fundo ainda, reconhecendo, aceitando e transformando:

Eu identifico e transmuto
Tudo em mim que é dúvida e medo eu transmuto
Tudo em mim que é crítica e julgamento eu transmuto
Tudo em mim que é rigidez e falta de flexibilidade eu identifico e transmuto

Tudo o que é culpa, tudo o que é magoa e dor, eu identifico e transmuto
Eu sou confiança
Eu sou aceitação
Eu estou em segurança
Eu crio segurança e discernimento
Eu permito-me passar pelos processos emocionais que me libertam da dor
Não permito dor no meu corpo físico, músculos ou ossos
Transformo a dor em aceitação
As minhas células são amor puro
São energia e frequência elevada
Autorizo a consciência a morar em mim e mostrar o que em mim precisa de cuidado, de atenção, de transformação
Eu sou conhecimento de mim, do meu corpo e das minhas emoções

Eu faço o que precisa ser feito para que tudo o que não é energia elevada possa ser transformado

Crio clareza e consciência de todos os meus processos emocionais e mentais que me têm limitado

Trago-os à luz e transmuto, transformo

Crio abundância e prosperidade na minha vida, ao colocar essa energia em movimento

A cada dia estou mais próxima de mim e dos meus processos internos

Cada dia os reconheço mais e melhor

A cada dia exerço uma força amorosa sobre mim e sobre esses processos

Aceito-vos, vejo-vos e reconheço-vos

E transformo-vos naquilo que melhor vos posso transformar a cada momento.

 

Acredito e defendo que, sem ajuda externa, não conseguimos, sozinhos, fazer este processo. Precisamos de um terapeuta que vá lá connosco e nos ajude a fazer este processo, este movimento. Recomendo psicologia, hipnoterapia e constelações familiares. Estas, para mim, são o top 3 das terapias. Ajuda o reiki, a leitura de aura e a terapia multidimensional, a mesa radiónica ou tarot terapêutico, sem dúvida, mas tudo isso são terapias complementares para o que verdadeiramente precisa ser feito: ser você a lá ir, a escavar fundo na sua mente inconsciente e corpo de dor e retirar a aprendizagem que lá está contida. Ninguém mais pode fazer esse processo por si.

 

O centro apaziguador

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As pessoas que atendo inspiram-me muito. São das consultas que surge a maior parte dos meus textos. Basta uma palavra, uma frase, um sentimento, e “boom”, sai-me algo pelas entranhas que precisa ver a luz do dia através de palavras. Costumo usar a metáfora do “olho do furacão”, ser o centro de tudo, mesmo quando tudo está em movimento caótico. Não podemos controlar uma série de circunstâncias, nem emoções que nos vão surgindo perante as várias situações das nossas vidas, mas há algo que deve ser uma constante: você e a sua consciência, esse centro que a habita.

Falo no feminino porque é com mulheres a maior parte do meu trabalho, apesar de começar a surgir cada vez mais homens em busca de significado, de compreensão e consciência nas suas vidas, e é com prazer que assisto a essa tendência, homens a quererem trabalhar neles mesmos. Ora então, costumo falar muito no conceito de “verticalidade”, nem sei se fui eu que inventei isso, li algures ou alguém me falou. O que é certo é que para mim esse conceito é agregador. Traz uma ideia, ou noção, visual e imagética, de uma linha que nos estabiliza. Pelo menos assim gosto de imaginar.

O centro agregador é uma espécie de sensação, de essência ou centro que existe, ou pode existir, dentro de nós. Tal lago calmo, tal estado de tranquilidade. Como melhor defini-lo? É algo que se sente, que conseguimos criar com algumas práticas. Certamente já sentiu esse “centro” ou energia apaziguadora, pode ser que numa tarde de chuva, enrolada numa manta a beber um chá quente e a ler aquele livro que gosta ou a ver aquele filme especial, pode ser após uma tarde com amigas e depois daquelas conversas boas em que sentimos que tudo fica bem dentro de nós, sei lá, uma variedade de momentos.

Aqui entra o conceito de “horizontalidade”, ou o externo, as forças destabilizadoras ou centrifugas (fuga do centro) que existem fora de nós: os outros, o trabalho, o trânsito, o ambiente, etc. Tudo nos desgasta, tudo nos des-energiza. Lá está, tudo lá fora é o tal furacão, que pode ir mais ou menos depressa, fazer mais ou menos estragos, ser maior ou menor em dadas alturas. E nós, como constante máxima, sendo o centro de tudo isso. A única constante somos nós, mesmo dentro das nossas inconstâncias.

Ser o “olho do furacão” ou esse centro apaziguador que falo, é exactamente encontrar o equilíbrio entre essas forças, entre as várias contradições, mutações e variáveis à nossa volta. Ser uma constante, um centro seguro e estável. Um centro emocional de calma e segurança, ainda que a nossa mente grite impropérios, preocupações e cenários de terror. É pacificá-la, acalmá-la, é ser uma força unificadora das nossas várias partes em desalinho. É, do fundo de nós, dizer: calma, está tudo bem. E acreditar.

Para onde foi a felicidade?

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Falo com imensas pessoas que me dizem: “Mas eu era tão feliz… Tão alegre e espontânea. Dizia tudo o que pensava, brincava e ria… Agora dou por mim a perceber que, a dada altura, comecei a deixar de ser assim, a deixar de me sentir alegre”. O que aconteceu? Para onde foi essa felicidade, essa alegria espontânea, essa pureza? Acho que a palavra é mesmo essa: a pureza, ou falta dela.

Porque digo isto? A pureza relaciona-se com inocência, ingenuidade. Normalmente o que acontece é a vida em si mesma, as relações, os desafios, as responsabilidades, as desilusões. O perceber que há muitas pessoas que são competitivas, invejosas, maldosas, intriguistas, que mentem e enganam. Então generalizamos, por termos tido algumas más experiências, o nosso cérebro regista: “não é seguro confiar”, “as pessoas são más, só querem o nosso mal”, e o nosso sistema de defesa entra em acção, para não mais nos magoarmos.

E é aí que entra a tal quebra, a tal linha que separa o antes e o depois, a alegria e a falta dela. A espontaneidade e a falta dela. A alegria precisa disso mesmo, de espontaneidade. A partir do momento em que não podemos ser naturais, ou espontâneos, cortamos uma parte de nós. Anulamos uma parte de nós, a tal parte pura, natural, inocente. Não quero aqui confundir inocente com ingenuidade. Ser ingénuo pode ser diferente de ser inocente. Podemos ser adultos e, contudo, sermos puros de coração, sentimentos e intenções. Não precisamos ser ingénuos porque temos a experiência, a consciência e a maturidade para percebermos o mundo lá fora, que não tínhamos em crianças.

Agora, o desafio é esse mesmo: em um mundo caótico, onde há injustiça e maldade, mantermo-nos puros e fiéis à nossa essência. “Como se faz isso?”, perguntam vocês. Recuperar das desilusões, erguer os ombros novamente, superar aquilo que foi dito e feito por outros que nos deixou para baixo, dizer “sim” à vida novamente, ir rebuscar a nossa veia marota, brincalhona, respondona se for preciso. Essa parte sua nunca deixou de existir, convide-a para brincar novamente, para fazer parte de quem é actualmente.

Sei que, ou percebo que, os efeitos da vida são cumulativos. As tais desilusões, o peso das várias responsabilidades que carregamos, principalmente quando temos a nossa casa e despesas. Mas é mesmo assim. Primeiro andamos iludidos, que o mundo é lindo e os outros existem para suprir as nossas necessidades, mas não é bem assim. Os outros representam desafios de crescimento. Sem esses desafios não deixaríamos de ser crianças a brincar à existência. Ao crescermos, ferimos e somos feridos. Faz parte. Os outros nem sempre vão agir como gostaríamos. Vamos deixar isso levar o melhor de nós ou vamos fazer com isso o melhor que podemos?

O céu e a terra. O bom e o mau

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E no princípio tudo era luz, tudo era bom, tudo era perfeição. Havia Deus e havia anjos. Até que um anjo se rebelou e se tornou, por oposição, um demónio: o primeiro anjo caído. O que quer dizer que antes de sermos maus, antes somos bons. Ou seja, a base é o bem, a luz, a pureza. O que nos torna maus é, no fundo, o que nos acontece, ou como reagimos ao que nos acontece. Esta é uma história de bom e de mau, de anjos e demónios, e de tudo o que nos quebra e nos faz estar em pólos opostos daquilo que é uma e só coisa: o equilíbrio entre os dois.

Pensando bem nisto, há em todos nós algo de bom e algo de menos bom. O que importa é o que escolhemos fazer a cada momento. Se formos conscientes, e quisermos ser elevados, escolhemos o melhor que podemos fazer em cada momento. Se não formos conscientes nem estamos virados para fazer o bem, não importando a quem, vamos reger-nos por feridas, revolta, ódio, raiva, mágoa ou vingança. E o resultado disso é criar mais feridas, confusão e ódio.

Mas, se todos nascemos puros (“anjos”), o que nos torna “maus”, quebrados? Tudo aquilo que nos fere, que nos magoa. A nossa mente e as suas interpretações, basicamente. Sentimo-nos rejeitados, atraiçoados e abandonados, e em reacção a isso, criamos esquemas mentais, expectativas, formas de pensamento e gatilhos emocionais. Não sei o que aconteceu ao primeiro anjo, e não quero com isto criar uma discussão religiosa ou teológica, mas certamente que estava descontente, não concordava com a forma de fazer as coisas, como tal, “degenerou”. Sentiu-se excluído, incompreendido, não aceite. Os especialistas o dirão.

O que é certo é que alguém que não se sente aceite, compreendido, amado ou acarinhado, fica ferido e, muitas vezes, na inconsciência, fere outros ou a si mesmo. O que percebo aqui é que todos nós, na nossa inconsciência e ignorância de processos psíquicos mais profundos, muitas vezes nos sabotamos, criamos situações de falta, carência e escassez nas nossas vidas. Falta de carinho, presença de outros, compreensão, amor, etc. Há em nós algo sombrio que precisa ser visto, a nossa sombra. O nosso lado incompreendido, não aceite e rejeitado. O lado em nós que não gostamos, os nossos demónios.

O anjo foi primeiro anjo antes de ser demónio, o que significa que o bom é sempre aquilo que pode ser transformado em mau. Mas se partimos sempre do bom, ao bom podemos sempre voltar. O que é certo é que em nós habitam várias forças, por vezes opostas ou contraditórias. Podemos desejar o melhor a outra pessoa e, ainda assim, sentir inveja dessa pessoa, pelo seu sucesso, pela sua alegria, pela sua forma de ser, etc. Podemos sentirmo-nos na pior fase das nossas vidas e, ainda assim, sentir que o melhor está por vir. Estes e muitos outros exemplos.

Aqui o que há a fazer é aceitar esta nossa natureza dual, com uma história, desde os seus primórdios, caracterizada por forças opostas e contrárias, como simbolizado pela bíblia e a história do anjo caído (Lucifer). Eu interpreto essa história como o princípio da dúvida, da incerteza, da insatisfação. A partir daí, seguimos numa busca, de algo bom novamente, que nos faça sentir inteiros. Essa busca é humana, conseguir conciliar os opostos e as contradições em nós. Esse é o trabalho, esse é o caminho – o da integração, o caminho do meio, da consciência e harmonização de todas as nossas partes feridas. Trazê-las à luz e ao amor próprio.