Como trabalhar a autoestima

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Para conquistar a autoestima precisamos de trabalhar três aspectos fundamentais:

  1. Parte física (o corpo – aceitação ou modificação)
  2. Parte emocional (atividades de autoapreço – aumento do bem-estar)
  3. Parte mental (forma de pensar/falar consigo mesma – discurso positivo)

A autoestima, ou amor próprio, é um sentimento que temos por nós, que muitas vezes, está em falta. O gostar de quem somos, do nosso corpo, da nossa personalidade, da nossa maneira de ser e agir. O nos aceitarmos e aprovarmos, o termos bons pensamentos acerca de quem somos, o falar amorosamente connosco.

Apesar de haverem partes em nós que gostamos, como da simpatia, educação ou capacidade empática, por exemplo, que são as qualidades que reconhecemos em nós; ou talvez gostemos dos nossos cabelos, mãos ou sorriso, que são os nossos atributos físicos, temos também as partes que não gostamos: a voz, as pernas, os dentes… Um sei lá de atributos e características, que caem nos campos do “isto eu gosto, isto eu não gosto”, “isto eu aceito, isto eu rejeito”.

E até aqui tudo bem, temos o direito de gostar e de desgostar do que quisermos, mas quando essa rejeição de partes nossas acontece, há o discurso negativista de “eu deveria ser desta ou daquela forma mas não sou”. Comparação, enunciados “deveria” e vozes críticas: as nossas e dos outros.

Considerando que a autoestima é uma parte da nossa identidade que vai sendo construída, valorizada ou desvalorizada, conta muito a forma como falavam e foram falando connosco em pequenos e na adolescência. Pais, vizinhos, primos, tios, professores, amigos, namorado, namorada, irmão, irmã, quem quer que seja do nosso núcleo intimista ou mais alargado, considerado que temos vários círculos de inclusão na esfera social.

Muitas vezes descrevemo-nos como outras pessoas nos descrevem, ou achamos que somos de determinada forma porque os outros nos disseram, pois há as características que reconhecemos em nós e aquelas que os outros nos reconhecem. Muitas vezes também, acontece as outras pessoas nos verem com melhor clareza do que nos vemos a nós próprios, e conseguirem ver qualidade onde só vemos defeitos. Pelo contrário, também podemos ter, ao longo da vida, vozes críticas, de inveja, de ciúmes; vozes autoritárias, inflexíveis, rígidas e castradoras.

Todas essas vozes, nossas e dos outros, nos compõem e todas elas nos definem, de certa forma. Ou porque acreditamos nelas, ou porque foram tão recorrentes que nos apropriamos delas. É importante parar para refletir, ponderar naquilo que são, efetivamente, as nossas qualidades, características e “defeitos” (partes que não gostamos em nós), quais as que queremos manter, quais as que queremos eliminar e quais as que gostaríamos de limar, modificar ou melhorar.

Comecemos com a parte física: o que gostaríamos de alterar em nós? É possível? Eu quero fazer isso? Força! Nutricionista, ginásio, o que seja necessário, procurar ajuda e dar andamento a esse processo. Não dá, não consigo ou não é possível alterar? Aceitar faz-se necessário. Respeitar o corpo, as características desse corpo, aprender a amá-lo, a cuidar bem dele, mimá-lo. Colocar creme, perfume, maquilhagem, fazer massagem, ativá-lo fisicamente, torná-lo saudável, comer de forma equilibrada, fazer caminhadas, natação, yoga… Tantas possibilidades!

Parte emocional: sentir-se bem consigo ou atividades de autoapreço, as que foram mencionadas em cima, mais todas as outras que sejam positivas, enaltecedoras ou agradáveis, que tragam uma sensação de bem-estar, seja exercício físico, fazer uma viagem, passar um fim-de-semana ou fim de tarde num sítio giro, tomar café ou um copo com os amigos, ler um livro, escrever um diário de gratidão, poesia ou pensamentos, ou todas as coisas que goste de fazer. A lista aqui é infinita.

Parte mental: falar de forma branda consigo, falar de forma benevolente e amorosa, com flexibilidade, tolerância ao erro, no fundo como falaria com o seu melhor amigo ou amiga, ou mesmo com uma criança pequena. É fácil ser crítico, difícil é ser amoroso. O nosso discurso interior molda por completo a nossa autoestima. Se só tem pensamentos negativos, tóxicos ou destrutivos, como espera sentir-se? Um caco. Começa por aí o início de uma relação feliz consigo mesma.

O corpo de dor

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No nosso interior há algo denso e escuro, obscuro, que é, na verdade, a amálgama de todos os nossos sentimentos e emoções. Eckart Tolle fala no corpo de dor, um espaço em nós que, no meu entender, é como um “caldo” de emoções, fluindo dentro de nós, quase como uma botija carregada de materiais voláteis, reativos e inflamáveis. Tóxicos.

Aí guardamos tudo o que se passou na nossa vida, remetemos para o inconsciente da nossa memória e declaramos “resolvido”, ou porque não faz mais sentido manter isso presente ou porque já foi há tanto tempo que não pode estar senão resolvido, afinal não foi mesmo nada de especial, éramos crianças ou jovens e, aparentemente, não nos afetou assim tanto.

Não é verdade. Tudo nos afeta, e muito. Às vezes aquelas situações chatas que metem ofensas, humilhações, culpa, arrependimentos, vergonha, traição, rejeição ou abandono, mesmo que tenhamos sublimado ou relevado, ficam lá. Deixam marcas. Marcas ou gatilhos emocionais. E, de repente, quando fazemos terapia e vamos lá atrás perceber o que causou esta situação atual de medo, bloqueio, fobia, limitação, angústia ou tristeza, vemos histórias há muito passadas e vividas. “Mas como é que isto ainda me pode afetar desta forma?”, perguntam, por vezes, as pessoas com lágrimas nos olhos e visível consternação.

Pois é, está cá tudo. Podemos mudar de casa, de relação, de trabalho, de país ou continente, mas vai tudo connosco, tal génio na lâmpada, que basta uma frição e aparece com todas as respostas prontas. Nós somos essa lamparina brilhante e polida por fora, toda a gente pode ver os nossos sorrisos, as fotos bonitas que colocamos nas redes sociais, a nossa vida agitada e ocupada, mas dentro, bem lá dentro, quem somos? O que nos fere? O que nos acanha?

Temos um admirável mundo por explorar dentro de nós. Tal Júlio Verne, nas suas fantásticas expedições a mundos desconhecidos, temos uma missão a fazer. Mergulhar fundo em nós, limpar todo o lodo emocional que está estagnado, corrompendo a livre circulação de energia, sentimentos e novas emoções, esse lixo emocional que cria âncoras psicológicas, formas de pensar e agir limitadoras e autosabotadoras.

Quando se faz o trabalho, quando se “limpa” esse lodo emocional, esse corpo de dor, podemos ver mais claramente, respirar mais livremente. Tiramos fardos de cima das nossas costas, sentimo-nos mais leves e soltos. Vale a pena fazer essa travessia em nós, para chegar ao outro lado com um sentimento de missão concluída. Aquilo aconteceu, sim, mas já não me afeta mais. E aí somos vitoriosos e podemos seguir sem pesos nem amarras.

Uma questão de peso

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O peso é uma soma de fatores:

  • Evolutivos (escassez alimentar vs fartura/abundância)
  • Genéticos (herança)
  • Sociais (convívio e exposição à comida; comemos mais quando estamos em grupo/à noite)
  • Culturais (excesso de hidratos e açúcar, pouca fruta e verduras)
  • Familiares (hábitos e tipos de alimentos privilegiados)
  • Hormonais (toma da pílula, SPM, tiróide)
  • Emocionais (protecção/defesa, ganhos secundários, anorexia – controlo/perfeccionismo)

Das cavernas até aos dias de hoje, muita coisa mudou em termos de alimentação ou hábitos alimentares. Com o avanço tecnológico, deixamos de plantar as terras e criar ou caçar animais para a nossa sobrevivência, para passarmos a ir aos supermercados comprar tudo o que pudéssemos precisar.

Deixamos de comer apenas por mera sobrevivência e necessidade para comer por prazer, por celebração, porque estamos tristes, chateados ou aborrecidos ou simplesmente porque sim, porque nos apetece. Deixamos de comer apenas aquilo que a terra nos dava, para ter acesso a tudo e a toda a hora.

Enquanto espécie, estamos programados para assimilar todas as gorduras e açúcar que pudermos, ainda assim não haja outra altura de seca, fome ou calamidade, onde não teríamos acesso a alimentos novamente. O nosso corpo foi programado assim, para se preparar para períodos de falta e escassez (fator evolutivo).

Não só, o facto de sermos altamente sedentários, trabalhando o dia inteiro normalmente na posição sentada e com pouca atividade física, fez com que a população mundial ganhasse peso a olhos vistos. Com crianças obesas e a maior parte dos adultos com excesso de peso, a obesidade tornou-se numa epidemia e problema de saúde pública a nível mundial.

A facilidade de acesso a alimentos, excesso de exposição a comida e o açúcar introduzido em quase todos os alimentos disponibilizados no supermercado, marcou esta nova era cultural e social. Os hábitos familiares acompanharam a tendência, os sumos, os bolos, bolachas e produtos açucarados no geral que costumam entrar na casa de cada família, bem como a quantidade de cereais refinados e gorduras saturadas que se consomem atualmente, faz com que estejamos a comer em excesso determinados alimentos e menos de outros, como as frutas e verduras.

Se pensarmos num prato típico de restaurante, metade do prato é proteína (a carne ou o peixe) e a outra metade são as batatas e o arroz, e num cantinho lá vem a salada. E como sobremesa um docinho, pois está claro. E em casa repetimos a proeza. Claro que há exceções e há cada vez mais pessoas preocupadas com a forma como comem e nunca assistimos a tanta gente a caminhar na rua ao final do dia, a correr ou a fazer ciclismo, nem a abertura de ginásios em massa, a quantidade de personal trainers que existem bem como blogues e instagrams de comida saudável e malta “fit”, grupos de dietas, etc.

Como tal, já se assiste à tendência de uma sociedade preocupada com o corpo, a saúde e o bem-estar físico. Mas apesar de já estarmos informados do risco de uma alimentação desequilibrada e falta de exercício físico e muita gente já ter começado a tomar medidas em termos de reeducação alimentar e mudança de hábitos de vida, praticando desporto ou tentando ativar-se mais fisicamente, há também alguns fatores que dificultam a perda de peso ou a manutenção de um peso saudável.

Esses fatores, aliados à parte social e cultural, bem como os próprios hábitos que foram sendo criados ao longo das nossas vidas em termos pessoais e familiares e tudo o que já foi falado aqui, trazem impedimentos ao alcançar o corpo de sonho, ou pelo menos a perda daqueles quilos extra. Esses fatores são os que falta falar: genéticos, hormonais e emocionais.

Herdamos um determinado tipo de corpo, disso não podemos fugir, e herdamos também a tendência para ganhar peso ou, pelo contrário, perder peso, com maior ou menor facilidade. E há também os problemas hormonais, como problemas na tiróide, por exemplo, que pode ter uma influência direta no peso; a toma de medicação que pode ter como efeito secundário o ganho de peso, como a medicação corticóide (com cortisona), por exemplo. Neste assunto não me vou alongar, o meu interesse é falar nos fatores emocionais.

Esses, mais que todos os outros, estão dentro de nós e podemos trabalhá-los de forma mais direta, pois são os que influenciam tudo o resto. Principalmente quem tem dificuldade em perder peso, normalmente come emocionalmente. Come para se recompensar de um dia longo ou difícil, come porque está sozinho/a (ou porque se sente sozinho/a), come quando está aborrecido/a, chateado/a, stressado/a ou ansioso/a, triste ou com raiva. A comida serve como anestésico (mascarar a dor ou preencher um vazio emocional) e como autopunição ou autoagressão também.

Isto acontece por autosabotagem, com pensamentos de base “nunca vou ser feliz”, “não vou conseguir”, “não mereço ser feliz/estar bem”, “os outros não merecem que eu esteja bem”, etc. Por vezes sabota-se o processo de perda de peso. Porque perder peso também pode simbolizar estar mais atraente e haver possibilidade de outras  pessoas olharem com interesse e pode ser um problema caso se tenha um companheiro ou companheira ciumento, ou caso se tenha problemas com a intimidade ou a sexualidade, por exemplo.

O excesso de peso serve como uma barreira ou proteção. Há ganhos secundários com o excesso de peso, como atribuir o fracasso ao excesso de peso: é por isso que não consigo ter uma relação, é por isso que os outros não gostam de mim, é por isso que não sou bem sucedido/a, etc. E aqui esconde-se atrás do peso para definir o que é possível ou não. Nem vale a pena tentar aquilo que mais se quer porque há aquele motivo insuperável. Isto pode parecer estranho, mas a nível inconsciente a pessoa tem medo, medo de sair da sua zona de conforto que é limitada por aquele perímetro de “gordura extra” que explica todo o insucesso amoroso, profissional, pessoal ou relacional.

Autopunição e autoagressão quando a pessoa come por frustração, por raiva contra si própria, por não conseguir, por nada valer a pena, porque já tentou tudo e não resolveu, porque é um fracasso e uma inútil – por se sentir assim, desanimada, desesperançosa e sem saída, porque desistiu de tentar e porque se odeia a ela própria muitas vezes.

Autopunição e autoagressão ao se comer demais, para se dizer a si própria que nem vale a pena tentar e, essencialmente, por falta de amor próprio. Quem tem uma autoestima saudável cuida bem de si, o que não quer dizer que não tenha problemas com o peso. Lá está, o peso tem uma componente multifatorial. Como tal, a perda de peso é um processo complexo e deve ser abordado e enquadrado levando em conta todas estas variáveis.

Aqui podem encontrar recomendações da Direção Geral de Saúde para uma alimentação mais equilibrada e aqui o Prato de Harvard, que substitui a velhinha roda ou pirâmide dos alimentos, que nos diz como devemos formar o nosso prato na hora de comer em termos de proporção de cada tipo de alimento.

O cinco atributos do amor

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Aí há tempos saiu um artigo que defendia que as relações que mais duravam dependiam de dois atributos básicos: a generosidade e a bondade. Estudo de John Gottman e sua esposa (se querem ler mais sobre o assunto cliquem aqui). Pensando bem sobre o assunto, julgo que mais que generosidade e bondade, contam também tempo, disponibilidade e investimento.

Tempo para deixar as coisas acontecer, tempo para as duas pessoas se conhecerem, tempo para fazerem coisas juntos/as, tempo para pensar, avaliar, apaixonar e tempo para deixar despertar o amor, um sentimento que não surge de um dia para o outro.

Disponibilidade diz respeito ao próprio facto de estar disponível para o outro – mais do que ter tempo, fazer tempo. Disponibilidade para amar, para a entrega, para a cumplicidade, para sentir; para ter sentimentos com o medo e as defesas que isso pode acarretar. No fundo, disponibilidade emocional ou abertura ao outro.

Investimento relaciona-se com comportamentos e atitudes, o que se faz na direção da pessoa amada. Investimento de tempo, de emoções e sentimentos. É preciso uma boa dose disso. Investir significa estar presente, de corpo e alma (preferencialmente), preocupar-se, fazer o bem, surpreender, acarinhar, conquistar, querer estar junto independentemente das condições.

Como diz no Principezinho de Saint-Exupéry: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Não é só conquistar a pessoa amada passados os primeiros tempos de relacionamento e pronto. É preciso investimento, tempo e total disponibilidade para estar junto daquela pessoa, estar verdadeiramente com alguém.

Generosidade para dar. Dar de si, dar a si mesmo/a. Generosidade para sentir, para se permitir ir, confiar, gostar; generosidade de sentimentos e desejo por aquela pessoa. Generosidade na entrega. É preciso ser mãos largas no amor, dar tudo o que se tem, sem contudo ficar com nada. Dar por dar mas receber também. É preciso ser retribuído, não adianta dar por nada, por quem não quer receber. Aqui falo de um dar que é recebido, que é desejado. Neste desejo mútuo, na generosidade há um movimento recíproco sem esperar nada em troca, agradando por agradar. Dar de forma abnegada, sabendo que se está a fazer o melhor que o coração tem para oferecer.

Bondade pela benevolência, esperar o melhor, querer o melhor para aquela pessoa, ser gentil, amoroso/a. Bondade na sinceridade, honestidade, benevolência, flexibilidade e tolerância, na preocupação e no respeito pelo outro, pelas características e necessidades do outro; dar espaço para ser, permitir que se seja sem crítica ou julgamento. Abertura ao outro.

Estes cinco atributos, na sua essência, desdobram-se para criar algo mágico e necessário: Ser, Estar e Dar. Liberdade para ser, vontade de estar e dar o que se tem de melhor. Uma dança subtil e complexa feita de personalidades, feitios, temperamentos, formas de ser e de se relacionar. Saibamos jogar este jogo delicado com os atributos que lhe são necessários.

O ciclo de vida depois dos 60

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Erik Erickson, na sua teoria dos estádios de desenvolvimento psicossocial, defende que existem 8 estádios ou 8 idades da vida. Vale a pena conhecer essas várias “idades” e as suas crises subjacentes. Na idade adulta serão dois os estádios, o da Generatividade versus Estagnação, dos 30 aos 60 anos (relativo a constituição de família e carreira) e o da Integridade versus Desespero, a partir dos 60 e é deste último que gostaria de falar.

Depois da família constituída, do término da carreira (ou vias de), as pessoas nesta idade deparam-se com algumas questões como: Quem sou eu agora? Qual o meu propósito e utilidade daqui para a frente? O que fazer nos anos que me restam? Qual a minha missão? Usei bem o meu tempo de vida? O que gostaria de ter feito e não fiz? Dentro dos caminhos que tinha disponíveis, será que escolhi os melhores?

Depois dos filhos estarem crescidos e eles próprios casados e com filhos, quando o marido ou companheiro já faleceu ou houve um divórcio ou separação, quando a carreira chegou ao fim e se entrou na reforma, o que fazer com o tempo livre? Quando agora sou só eu? Não existem muitas mais décadas pela frente ou pelo menos não uma vida inteira, não como aos 20 ou aos 30 em que nos julgamos quase imortais, a morte ou o fim de vida não está nas nossas ideias recorrentes, mas sim como conseguir subir na carreira ou ganhar mais dinheiro, mudar de profissão, seguir os sonhos, criar um projeto pessoal ou profissional, viajar, melhorar o nosso estilo de vida, ter filhos , casar, atingir o corpo de sonho, etc.

Nos 60+ utilizam-se todos os travões e a constatação de que o fim da existência poderá estar ao virar da esquina traz uma série de anseios, dúvidas existenciais e um balanço de tudo o que aconteceu até então. O Desespero surge de se achar que não se fez tudo o que se podia, ou não se fez o melhor possível, ou que se deixou muito que fazer ou dizer, que não se aproveitaram oportunidades ou que se perderam muitas possibilidades. Essas consequências podem derivar de excesso de orgulho, zelo, autocontrolo, ambição, falta de discernimento, falta de perdão, e toda uma miríade de motivos relacionados com a nossa complexidade.

Por outro lado, a Integridade surge do sentimento de autorealização pessoal, familiar, relacional ou profissional. Quando a existência em si faz sentido e se pode encontrar satisfação nas concretizações e realizações alcançadas até então;  um sentimento de apreço sobre a sua história de vida, os vários marcos importantes que a constituem, e a sensação que fica é de orgulho, estima e aceitação.

Ainda que não se tenha vivido tudo, ainda que não tenham sido possíveis todas as coisas desejadas, ou algo tenha ficado por dizer ou fazer, o que muda é o enquadramento que a pessoa faz dessas situações, o sentido dado à sua história de vida: que se fez o melhor em todas as situações, que se decidiu sempre no limite da compreensão e consciência, dados os conhecimentos, circunstâncias, experiência e conhecimentos que se tinha na altura.

Penso que se poderia introduzir esta qualidade em todas as fases de vida, principalmente a partir da fase adulta, dos 30 para a frente, quando se começam a questionar as escolhas de vida: Aceitação. Aceitação do que foi e Aceitação do que é e há de vir. Aceitação não é resignação ou conformismo. É aceitação de quem somos e conseguimos ser em cada momento, mais uma vez, dados os conhecimentos, experiência, consciência e possibilidades que temos disponíveis nesse dado momento.

O que fazer daqui para a frente? Dar sentido à sua história de vida. Reescrevê-la ou reenquadrá-la o melhor que pode, apreciando o que tem atualmente, aceitando o que foi, perdoando as ofensas dos outros ou os castigos que se deu a si própria, a culpa de não ter sido melhor, feito melhor ou diferente; aceitação, amor incondicional por quem é agora e por quem foi capaz de ser. Encontrar e sentir esta estima e apreço por si e pela sua vida deve ser tarefa para o resto da vida.

Encontrar o propósito atual também, principalmente se já não trabalha: cuidar de si, com atividades que possa fazer que lhe tragam prazer, em casa ou fora, sozinha ou acompanhada; ir àquele sítio onde sempre quis ir, tratar bem de si e do seu corpo; ter um animal de estimação ou plantas que possa cuidar; começar um curso, fazer um retiro, aprender algo novo, ler aqueles livros que deixou em pausa por não ter tempo, encontrar uma ocupação, um trabalho de voluntariado, conectar-se com outras pessoas através de grupos de caminhadas, religião… A vida continua. Você continua, e os seus interesses, desejos e aspirações também.

A criança interior de 5 anos (a Sábia)

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No trabalho terapêutico com a criança interior, quando revisitamos as partes feridas ou que precisam de atenção dentro de nós, constato muitas vezes que a primeira criança a aparecer é a de 5 anos. E, muitas vezes, esta criança vem alegre, leve, brincalhona, feliz. Cheia de luz e vitalidade. Neste reencontro, as pessoas sorriem afetuosamente por tomarem contato com essa época longínqua das suas vidas, mas é um sorriso emocionado, que por vezes também traz lágrimas e um misto de emoções. Porquê?

Porque essa criança carrega consigo uma lição importante, uma memória fundamental das nossas vidas, que é a de ser simples, brincar, estar aberto para as maravilhas do mundo e da vida e para todas as coisas que nos rodeiam, olhar para elas com novidade e espanto, conseguirmos esse “uau” novamente, esse olhar raso, vazio de significados e conceções e julgamento bom/mau, essa dicotomia que corrói as nossas vidas.

Vivemos num mundo dual, do bom e do mau, escuro e claro, noite e dia, combinações binárias 0 1, frio e calor, ódio e amor, fácil e difícil, e por aí segue o registo. Facilita-nos muito a vida, podermos categorizar dessa forma. Sabermos, à partida, com o que contar. Fomos construídos com uma “firewall”, um sistema de alarme muito bem concebido. Bem demais… Com demasiados alarmes, que vamos adicionando ao longo das nossas vidas como sistema de navegação e orientação: por aqui é bom e seguro, por ali não. Devo de ir por aqui ou ali, mais à frente é proibido. Devo ser deste ou daquele jeito, fazer desta ou daquela maneira… regras, controlo, rigidez mental.

E a criança? Vem trazer essa lembrança do simples, do puro, da inocência. Logo de seguida, claro, são convidadas as outras partes da linha de tempo, as partes que se desiludiram, que aprenderam que o mundo é um lugar difícil e exigente, que as pessoas atraiçoam e podem não ser de confiança, que abandonam e agridem, que abusam ou se ausentam, e isso traz mágoa para o nosso corpo de dor, traz mácula ou a dor primordial: a de não sermos centrais, únicos e especiais e o mundo não existir para nos agradar ou satisfazer os nossos anseios mais profundos. Tal história de Adão e Eva.

Tudo era perfeito e pueril até que a semente de dúvida e da traição veio corromper os seres, que se dividiram e foram conquistar a terra, através da luta e do sofrimento. E assim crescemos nós, baseados neste modelo de superação da mácula primordial para chegar à unificação de todas as partes nossas que possam estar ferias, seja a de 8 anos, 12, 15 ou 21.

Neste trabalho há um convite a honrar e respeitar cada fase de vida, cada parte magoada, revoltada ou rejeitada, com as suas dúvidas e imperfeições. Acarinhar, reverenciar e, principalmente, acolher e resgatar o sofrimento aí latente. Para curar primeiro há que ver, olhar, reconhecer, para depois acolher, mimar, integrar de forma amorosa todas essas partes feridas para que elas possam ser novamente assim: como a e 5 anos.

Script do coração

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Um script é um texto longo de programação que contém uma série de letras, símbolos, palavras, que em si, tudo junto, dá uma fórmula para um conteúdo. Uma configuração de algo concreto. O nosso coração também tem texto. E palavras, muitas, por vezes confusas e contraditórias. É como se tivéssemos um campo no nosso coração que vamos preenchendo com texto e inúmeras linhas de informação que constituem a nossa história inteira, até agora. Uma linguagem própria.

E quando temos essa história demasiado “cheia”? Complexa? Cheia de mistérios, caminhos sem saída, obsoleta? Está na hora de esvaziar… Apagar linhas, segmentos de texto, limpar e reciclar atalhos. Se pudéssemos apagar e escrever tudo de novo, numa programação limpa, sem erros nem viés; numa linguagem clara, assertiva, cheia de diretrizes e novas intenções para nós, bem formuladas; blocos de decretos pessoais (crenças) inteiramente novos, que resultassem em pensamentos positivos, coerentes, claros, bem direccionados – para concretização de objetivos, relações maduras, estáveis e harmoniosas; ligações com os outros simples e descomplicadas. Que mundo maravilhoso seria esse?

Um mundo em que todos se trabalhassem conscientemente, fossem amorosos uns com os outros; uns para os outros. Um mundo em constante evolução, numa espiral para cima, para pensamentos e ações elevadas, de compreensão, tolerância, sabedoria, humildade, transcendência, aceitação, presença no aqui-agora, a trabalhar para um mundo melhor, limpo, saudável, em Respeito para Tudo o que existe entre a terra e os céus.

Seria um mundo maravilhoso. Façamos isso todos os dias, ou sempre que possamos. Sentar para “esvaziar” essa caixa do coração, que se quer vazia de (pré)programação. Todos os dias a tecnologia avança, porquê também não as nossas caixas cardíacas? Para amar mais, sem restrições, sem defesas tão altas que ninguém pode entrar mas também nem pode sair. Por um mundo de beleza onde todos possam ser radiantes por si só.