A criança interior de 5 anos (a Sábia)

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No trabalho terapêutico com a criança interior, quando revisitamos as partes feridas ou que precisam de atenção dentro de nós, constato muitas vezes que a primeira criança a aparecer é a de 5 anos. E, muitas vezes, esta criança vem alegre, leve, brincalhona, feliz. Cheia de luz e vitalidade. Neste reencontro, as pessoas sorriem afetuosamente por tomarem contato com essa época longínqua das suas vidas, mas é um sorriso emocionado, que por vezes também traz lágrimas e um misto de emoções. Porquê?

Porque essa criança carrega consigo uma lição importante, uma memória fundamental das nossas vidas, que é a de ser simples, brincar, estar aberto para as maravilhas do mundo e da vida e para todas as coisas que nos rodeiam, olhar para elas com novidade e espanto, conseguirmos esse “uau” novamente, esse olhar raso, vazio de significados e conceções e julgamento bom/mau, essa dicotomia que corrói as nossas vidas.

Vivemos num mundo dual, do bom e do mau, escuro e claro, noite e dia, combinações binárias 0 1, frio e calor, ódio e amor, fácil e difícil, e por aí segue o registo. Facilita-nos muito a vida, podermos categorizar dessa forma. Sabermos, à partida, com o que contar. Fomos construídos com uma “firewall”, um sistema de alarme muito bem concebido. Bem demais… Com demasiados alarmes, que vamos adicionando ao longo das nossas vidas como sistema de navegação e orientação: por aqui é bom e seguro, por ali não. Devo de ir por aqui ou ali, mais à frente é proibido. Devo ser deste ou daquele jeito, fazer desta ou daquela maneira… regras, controlo, rigidez mental.

E a criança? Vem trazer essa lembrança do simples, do puro, da inocência. Logo de seguida, claro, são convidadas as outras partes da linha de tempo, as partes que se desiludiram, que aprenderam que o mundo é um lugar difícil e exigente, que as pessoas atraiçoam e podem não ser de confiança, que abandonam e agridem, que abusam ou se ausentam, e isso traz mágoa para o nosso corpo de dor, traz mácula ou a dor primordial: a de não sermos centrais, únicos e especiais e o mundo não existir para nos agradar ou satisfazer os nossos anseios mais profundos. Tal história de Adão e Eva.

Tudo era perfeito e pueril até que a semente de dúvida e da traição veio corromper os seres, que se dividiram e foram conquistar a terra, através da luta e do sofrimento. E assim crescemos nós, baseados neste modelo de superação da mácula primordial para chegar à unificação de todas as partes nossas que possam estar ferias, seja a de 8 anos, 12, 15 ou 21.

Neste trabalho há um convite a honrar e respeitar cada fase de vida, cada parte magoada, revoltada ou rejeitada, com as suas dúvidas e imperfeições. Acarinhar, reverenciar e, principalmente, acolher e resgatar o sofrimento aí latente. Para curar primeiro há que ver, olhar, reconhecer, para depois acolher, mimar, integrar de forma amorosa todas essas partes feridas para que elas possam ser novamente assim: como a e 5 anos.

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