O corpo de dor

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No nosso interior há algo denso e escuro, obscuro, que é, na verdade, a amálgama de todos os nossos sentimentos e emoções. Eckart Tolle fala no corpo de dor, um espaço em nós que, no meu entender, é como um “caldo” de emoções, fluindo dentro de nós, quase como uma botija carregada de materiais voláteis, reativos e inflamáveis. Tóxicos.

Aí guardamos tudo o que se passou na nossa vida, remetemos para o inconsciente da nossa memória e declaramos “resolvido”, ou porque não faz mais sentido manter isso presente ou porque já foi há tanto tempo que não pode estar senão resolvido, afinal não foi mesmo nada de especial, éramos crianças ou jovens e, aparentemente, não nos afetou assim tanto.

Não é verdade. Tudo nos afeta, e muito. Às vezes aquelas situações chatas que metem ofensas, humilhações, culpa, arrependimentos, vergonha, traição, rejeição ou abandono, mesmo que tenhamos sublimado ou relevado, ficam lá. Deixam marcas. Marcas ou gatilhos emocionais. E, de repente, quando fazemos terapia e vamos lá atrás perceber o que causou esta situação atual de medo, bloqueio, fobia, limitação, angústia ou tristeza, vemos histórias há muito passadas e vividas. “Mas como é que isto ainda me pode afetar desta forma?”, perguntam, por vezes, as pessoas com lágrimas nos olhos e visível consternação.

Pois é, está cá tudo. Podemos mudar de casa, de relação, de trabalho, de país ou continente, mas vai tudo connosco, tal génio na lâmpada, que basta uma frição e aparece com todas as respostas prontas. Nós somos essa lamparina brilhante e polida por fora, toda a gente pode ver os nossos sorrisos, as fotos bonitas que colocamos nas redes sociais, a nossa vida agitada e ocupada, mas dentro, bem lá dentro, quem somos? O que nos fere? O que nos acanha?

Temos um admirável mundo por explorar dentro de nós. Tal Júlio Verne, nas suas fantásticas expedições a mundos desconhecidos, temos uma missão a fazer. Mergulhar fundo em nós, limpar todo o lodo emocional que está estagnado, corrompendo a livre circulação de energia, sentimentos e novas emoções, esse lixo emocional que cria âncoras psicológicas, formas de pensar e agir limitadoras e autosabotadoras.

Quando se faz o trabalho, quando se “limpa” esse lodo emocional, esse corpo de dor, podemos ver mais claramente, respirar mais livremente. Tiramos fardos de cima das nossas costas, sentimo-nos mais leves e soltos. Vale a pena fazer essa travessia em nós, para chegar ao outro lado com um sentimento de missão concluída. Aquilo aconteceu, sim, mas já não me afeta mais. E aí somos vitoriosos e podemos seguir sem pesos nem amarras.

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