Uma questão de peso

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O peso é uma soma de fatores:

  • Evolutivos (escassez alimentar vs fartura/abundância)
  • Genéticos (herança)
  • Sociais (convívio e exposição à comida; comemos mais quando estamos em grupo/à noite)
  • Culturais (excesso de hidratos e açúcar, pouca fruta e verduras)
  • Familiares (hábitos e tipos de alimentos privilegiados)
  • Hormonais (toma da pílula, SPM, tiróide)
  • Emocionais (protecção/defesa, ganhos secundários, anorexia – controlo/perfeccionismo)

Das cavernas até aos dias de hoje, muita coisa mudou em termos de alimentação ou hábitos alimentares. Com o avanço tecnológico, deixamos de plantar as terras e criar ou caçar animais para a nossa sobrevivência, para passarmos a ir aos supermercados comprar tudo o que pudéssemos precisar.

Deixamos de comer apenas por mera sobrevivência e necessidade para comer por prazer, por celebração, porque estamos tristes, chateados ou aborrecidos ou simplesmente porque sim, porque nos apetece. Deixamos de comer apenas aquilo que a terra nos dava, para ter acesso a tudo e a toda a hora.

Enquanto espécie, estamos programados para assimilar todas as gorduras e açúcar que pudermos, ainda assim não haja outra altura de seca, fome ou calamidade, onde não teríamos acesso a alimentos novamente. O nosso corpo foi programado assim, para se preparar para períodos de falta e escassez (fator evolutivo).

Não só, o facto de sermos altamente sedentários, trabalhando o dia inteiro normalmente na posição sentada e com pouca atividade física, fez com que a população mundial ganhasse peso a olhos vistos. Com crianças obesas e a maior parte dos adultos com excesso de peso, a obesidade tornou-se numa epidemia e problema de saúde pública a nível mundial.

A facilidade de acesso a alimentos, excesso de exposição a comida e o açúcar introduzido em quase todos os alimentos disponibilizados no supermercado, marcou esta nova era cultural e social. Os hábitos familiares acompanharam a tendência, os sumos, os bolos, bolachas e produtos açucarados no geral que costumam entrar na casa de cada família, bem como a quantidade de cereais refinados e gorduras saturadas que se consomem atualmente, faz com que estejamos a comer em excesso determinados alimentos e menos de outros, como as frutas e verduras.

Se pensarmos num prato típico de restaurante, metade do prato é proteína (a carne ou o peixe) e a outra metade são as batatas e o arroz, e num cantinho lá vem a salada. E como sobremesa um docinho, pois está claro. E em casa repetimos a proeza. Claro que há exceções e há cada vez mais pessoas preocupadas com a forma como comem e nunca assistimos a tanta gente a caminhar na rua ao final do dia, a correr ou a fazer ciclismo, nem a abertura de ginásios em massa, a quantidade de personal trainers que existem bem como blogues e instagrams de comida saudável e malta “fit”, grupos de dietas, etc.

Como tal, já se assiste à tendência de uma sociedade preocupada com o corpo, a saúde e o bem-estar físico. Mas apesar de já estarmos informados do risco de uma alimentação desequilibrada e falta de exercício físico e muita gente já ter começado a tomar medidas em termos de reeducação alimentar e mudança de hábitos de vida, praticando desporto ou tentando ativar-se mais fisicamente, há também alguns fatores que dificultam a perda de peso ou a manutenção de um peso saudável.

Esses fatores, aliados à parte social e cultural, bem como os próprios hábitos que foram sendo criados ao longo das nossas vidas em termos pessoais e familiares e tudo o que já foi falado aqui, trazem impedimentos ao alcançar o corpo de sonho, ou pelo menos a perda daqueles quilos extra. Esses fatores são os que falta falar: genéticos, hormonais e emocionais.

Herdamos um determinado tipo de corpo, disso não podemos fugir, e herdamos também a tendência para ganhar peso ou, pelo contrário, perder peso, com maior ou menor facilidade. E há também os problemas hormonais, como problemas na tiróide, por exemplo, que pode ter uma influência direta no peso; a toma de medicação que pode ter como efeito secundário o ganho de peso, como a medicação corticóide (com cortisona), por exemplo. Neste assunto não me vou alongar, o meu interesse é falar nos fatores emocionais.

Esses, mais que todos os outros, estão dentro de nós e podemos trabalhá-los de forma mais direta, pois são os que influenciam tudo o resto. Principalmente quem tem dificuldade em perder peso, normalmente come emocionalmente. Come para se recompensar de um dia longo ou difícil, come porque está sozinho/a (ou porque se sente sozinho/a), come quando está aborrecido/a, chateado/a, stressado/a ou ansioso/a, triste ou com raiva. A comida serve como anestésico (mascarar a dor ou preencher um vazio emocional) e como autopunição ou autoagressão também.

Isto acontece por autosabotagem, com pensamentos de base “nunca vou ser feliz”, “não vou conseguir”, “não mereço ser feliz/estar bem”, “os outros não merecem que eu esteja bem”, etc. Por vezes sabota-se o processo de perda de peso. Porque perder peso também pode simbolizar estar mais atraente e haver possibilidade de outras  pessoas olharem com interesse e pode ser um problema caso se tenha um companheiro ou companheira ciumento, ou caso se tenha problemas com a intimidade ou a sexualidade, por exemplo.

O excesso de peso serve como uma barreira ou proteção. Há ganhos secundários com o excesso de peso, como atribuir o fracasso ao excesso de peso: é por isso que não consigo ter uma relação, é por isso que os outros não gostam de mim, é por isso que não sou bem sucedido/a, etc. E aqui esconde-se atrás do peso para definir o que é possível ou não. Nem vale a pena tentar aquilo que mais se quer porque há aquele motivo insuperável. Isto pode parecer estranho, mas a nível inconsciente a pessoa tem medo, medo de sair da sua zona de conforto que é limitada por aquele perímetro de “gordura extra” que explica todo o insucesso amoroso, profissional, pessoal ou relacional.

Autopunição e autoagressão quando a pessoa come por frustração, por raiva contra si própria, por não conseguir, por nada valer a pena, porque já tentou tudo e não resolveu, porque é um fracasso e uma inútil – por se sentir assim, desanimada, desesperançosa e sem saída, porque desistiu de tentar e porque se odeia a ela própria muitas vezes.

Autopunição e autoagressão ao se comer demais, para se dizer a si própria que nem vale a pena tentar e, essencialmente, por falta de amor próprio. Quem tem uma autoestima saudável cuida bem de si, o que não quer dizer que não tenha problemas com o peso. Lá está, o peso tem uma componente multifatorial. Como tal, a perda de peso é um processo complexo e deve ser abordado e enquadrado levando em conta todas estas variáveis.

Aqui podem encontrar recomendações da Direção Geral de Saúde para uma alimentação mais equilibrada e aqui o Prato de Harvard, que substitui a velhinha roda ou pirâmide dos alimentos, que nos diz como devemos formar o nosso prato na hora de comer em termos de proporção de cada tipo de alimento.

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