Acerca do luto

 

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Quantas vezes perdemos pessoas que amamos? Decepções, aquele amor que julgamos ser para sempre, um familiar que partiu, um animal de estimação, aquele amigo que mudou de escola, aquele alguém que viajou para não mais ser visto e cujas cartas ou notícias escassearam até deixarem de existir. Tantas são as situações de perda na vida de uma pessoa, incontáveis mesmo. Perdas reais e perdas imaginárias. Perdemos também fantasias, criamos possibilidades que nunca se chegam a concretizar. Essas também são perdas. Perdas de algo que nunca pode vir a ser. E essas são grandes perdas também. E deixam mossa. Pedaços nossos que não têm a possibilidade de existir (ideias, sonhos, projectos, etc.)

Queremos ser fortes e sermos vulneráveis nunca foi o forte da nossa espécie. Não deixamos espaço à vulnerabilidade. Ninguém quer ser fraco não é verdade? Temos de ser soldados, sermos valentes, fortes, destemidos. Não aceitamos a fraqueza, a insegurança, o não saber. Quando tudo o que sabemos fazer melhor é não saber; não saber com o que contar, não saber o que será do amanhã, do nosso futuro. Podemos projectar mas nada, na verdade, é certo. Quantas são as voltas que a vida dá à volta do globo da nossa existência?

É bom amar, faz-nos sentir que pertencemos a algo, que estamos cá a fazer alguma coisa importante, que a vida faz sentido, tem sentido. Mas o amor também tem a outra face da moeda. A dor, a decepção, desilusão. Porque o amor também é isso, ilusão. Criarmos ilusão do que é para ser, como ser, com quem ser. E nem sempre as coisas correm como esperamos que sejam. É exactamente aí que entra a dor. A desilusão. O processo de luto: algo que queríamos muito, que julgámos ser nosso, estar ali, de repente deixa de estar, de ser, de corresponder aos nossos mais íntimos anseios.

Aqui entra o amor. Quanto maior a profundidade do sentimento, maior a dor da perda. Podemos amar várias pessoas ao longo da nossa vida mas na verdade o sentimento em si é só um, tal como a alegria ou a tristeza, que sentimos diversas vezes, por variados motivos. O amor é um só mesmo sentimento, objecto desse amor é que pode variar. O objecto do amor é aquele para onde direccionamos o nosso sentimento.

Então e o que fazer com a dor da perda do objecto? Digeri-la… Tal como se digere uma comida pesada, que passa lentamente pelo nosso tubo digestivo, provoca danos mais ou menos duradouros, vai queimando por dentro, nos angustia durante tempo indeterminado, pode provocar sequelas, levar-nos ao chão com dores, à cama doentes e nem a medicação ajuda, e tudo o que podemos fazer é deixar acontecer. Deixar passar, até que um dia já não doa tanto, possamos recuperar, voltar a sair, a viver, comer normalmente de novo – ainda, por vezes, com o receio que aconteça novamente – e aí vamos com mais calma, apalpando território, experimentando novamente aqueles ingredientes ou alimentos e criarmos novamente tolerância a eles, até percebermos que não nos vão fazer mal.

Mal comparado é uma convalescença, o luto. Não tem tempo predeterminado para acontecer ou parar. O que prolonga o luto são os pensamentos e ideias às quais nos agarramos. E aí temos de falar de perdão. O perdão nasce da aceitação do que foi. Fora dele estão a raiva, revolta, tristeza e ansiedade, o choque e a negação também. Todas as fases e cores dessas emoções e sensações. Quem perdoa é o coração. Jamais a mente. A mente é vingativa, quer respostas, acertos de contas, vinganças e karmas. Quer sair por cima da situação. O perdão é leve e profundo, eficaz, solene, repleto de fases e camadas também.

Amor – perda – dor – luto – perdão – aceitação. Heis o processo.

Podemos sair do passado mas como tirar o passado de nós?

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Tantas coisas que guardamos dentro, mais do que as que conseguimos perceber. Quando damos por nós, uma espécie de tampa se abre e lá está tudo, do mais pequeno ao maior. Naquelas noites que não conseguimos adormecer. Naqueles momentos em que algo nos passa e tudo o que a nossa mente pode fazer é projectar aquele filme que não vemos há muito tempo, estupefactos como isso ainda tem um impacto tão grande em nós.

Pois é, somos feitos de micro e macro passado. Micro são as pequenas coisas, situações, memórias soltas, coisas de pouca importância mas que que colam tudo o resto. Macro passado são as grandes coisas, acontecimentos, momentos, blocos de memórias, a nossa identidade no fundo: o que nos fez ser como nós, a nossa história discorrida num fio de eventos, com causalidade e consequência. Tudo o que nos marcou e influenciou nesta ou naquela direcção.

Podemos trabalhar-nos, ir mais além, chegar mais à frente, distrair-nos, iludir-nos, tentar relevar, recalcar, mas sempre há aquela âncora que nos puxa para trás. Saibamos honrá-la, soltá-la, permitir que ela se solte, reunir os pedaços quebrados e partir no horizonte da felicidade. Da liberdade. Fazendo disso o melhor que possamos, a cada momento nascendo de novo e decidindo o que levar ou não. O que manter apertado no nosso coração ou não.

Memórias são como pássaros soltos, devem ir e vir ao sabor da maré, ficando um pouco mais ou um pouco menos, mas nunca se detendo, na realidade. Trazem e levam o que é deles, não deixando nada para trás do que o vento do que já passou.

O que se faz na consulta de hipnoterapia? 

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Quando a pessoa está em sofrimento, deprimida, ansiosa, preocupada, com dificuldades em dormir, concentrar-se, etc. e começa a perceber que sozinha não está a conseguir lidar ou ultrapassar qualquer que seja a situação emocional e pessoal que está a viver, pensa em pedir ajuda e começam as dúvidas: o que será melhor para mim? Será que a hipnose poderá ajudar? Ou só psicologia é suficiente?

Com a quantidade de terapias que existem actualmente, todas complementares na minha opinião, podemos considerar que quando o problema é grave e não vai lá com medicação, meditação, reiki, mindfulness ou outras técnicas, é porque existem problemas/traumas/crenças/aspectos emocionais de base que precisam ser “digeridos”, trabalhados e reestruturados. E é aí que entram a psicologia e a hipnoterapia.

A consulta de hipnoterapia é simples, existe uma conversa inicial em que a pessoa expressa como se está a sentir e o que a levou a esse estado de sofrimento ou alteração emocional (normalmente é o que leva as pessoas a marcar uma consulta), o terapeuta dá um feedback, um reenquadramento do que é dito, no fundo devolvendo o que a pessoa disse de forma empática e compreensiva, explicando seguidamente como a hipnoterapia pode ajudar e que tipo de exercícios podem ser propostos para resolver, ultrapassar ou amenizar o problema.

No final dessa conversa e entendimento, há lugar à prática de hipnose, exercícios de relaxamento físico e mental, seguidos de exercícios de visualização, imaginação e resolução de problemáticas. Eu gosto de usar a simbologia de “arrumar a casa”, ir à “cave” ou ao “sótão” da memória ou da mente, ver o que lá está em conflito ou discórdia e reorganizar, ressignificar e tranquilizar.

O paciente está sempre em controlo do que se está a passar, está consciente e desperto, só que envolvido mentalmente no exercício. O terapeuta vai dando sugestões e o exercício vai decorrendo de forma interactiva entre o paciente e o terapeuta. Normalmente todas as pessoas ficam admiradas com a facilidade que é imaginar e sentir com estes exercícios, reprocessando e organizando emocionalmente tudo aquilo que vai surgindo de forma natural.

De certa forma nós já levamos a vida a imaginar, recordar, projectar no futuro, preocupar, sofrer com antecipação, etc. Na hipnoterapia é utilizada esta nossa capacidade natural de pensar e elaborar sobre situações para resolver conflitos interiores, ou aspectos não resolvidos.

De qualquer das formas, vale sempre experimentar. A primeira consulta serve para isso. Se não quiser avançar ou realizar os exercícios, pode sempre ficar pela conversa construtiva e serão utilizadas ferramentas da psicologia apenas.

“Os diamantes de água”

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Texto de uma cliente sobre o processo terapêutico dela 

Estabelecei os marcos e olhai os horizontes.
Prendei os barcos e soltai as amarras.
Afundai os alicerces e cerrai os punhos.
Todos mentiram ao dizer que era fácil.

Fácil é espalhar as pedras e voltar as costas.
Fácil é olhar para o lado e ignorar as ondas.
Fácil é desejar as montanhas e falar das conchas.

Fixai o medo, enfrentai a vastidão,
Levantai as almas, caminhai de mãos dadas. Aceitai as perdas, a luta e as pausas.
Todos mentiram ao dizer que era difícil.

Difícil é navegar a profundidade,
Abrir um castelo, construir as pontes.
Difícil é abusar da coragem, juntar as areias,
Devolver os escudos e proteger as margens.

Voltai para dentro, ignorai as nuvens,
Deitai fora as certezas, abraçai as dúvidas.
Plantai sementes, arrancai as raízes.
Todos falaram do que sabem, mas ninguém sente o que disse.

Existem diamantes de água;
Marés tensas, correntes densas e corações tristes.
Existem a luz, a transparência e o brilho.
A escuridão, o desespero e o vazio.
Nada nos pertence. Tudo gira, tudo corre, tudo volta, tudo vive.

JC

O Som do Silêncio

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Quando te perguntas o que virá, tentas adivinhar o futuro, como será, o que terá nele, quem, que situações; quando tentas planear, saber, perceber, prever… Foges do presente, do agora, da paz e da plenitude emocional que esse momento te pode proporcionar. Estar aqui-agora é uma façanha. Cada segundo é em si passado, presente e futuro. Quando te projectas para depois, horas, meses, dias ou anos, sais da imensidão de ti. Circulas no plano mental e emocional. Devem fazer-se planos concretos, traçar objectivos, desejos e sonhos. Mas falo da fantasia. Essa onde mergulhamos inúmeras vezes, e está certo. Agora quando vives apressada/o, procurando incessantemente respostas, os porquês, os comos, os quem, quando… Escuta. Para. Ouve para lá do ruído mental. Ouve a Eternidade que te habita. Sê o Oservador que há em ti. Aquela voz perene, solene, que te diz: já aqui está tudo o que precisas. Já És tudo o que precisas. Já tens tudo o que te faz falta… Para além disso, podes sempre mergulhar na profundidade desse Silêncio e Seres esse silêncio, transformares-te nesse silêncio, nesse vazio. Seres o Vazio. Aí és Tudo. Aí tornas-te intemporal. Imortal. Um com a existência. 

Doenças psicossomáticas e emoções não digeridas

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Como é que funciona perante o stresse diário ou quando uma situação requer uma resposta emocional mais intensa? Como lida com sentimentos como a tristeza e a raiva? Perdoa com facilidade ou tem a tendência de guardar mágoa e rancor?

Doenças psicossomáticas são doenças físicas provocadas por um estado emocional alterado e prolongado. O corpo faz esforços constantes no sentido de conservar-se em equilíbrio e quando não nos expressamos através da linguagem verbal, o corpo encarrega-se de apresentar o seu próprio discurso: o dos sintomas e das doenças.

O ser humano funciona como um todo, não sendo possível a separação entre mente e corpo. Sendo assim, processos físicos não estão dissociados de processos mentais, o que quer dizer que a qualidade de nossos pensamentos e sentimentos irão repercutir na qualidade de nossas emoções e, assim, o físico pode adoecer devido a emoções mal processadas.

A grande maioria das perturbações psicossomáticas que desenvolvemos estão associadas a sentimentos negativos como ressentimento, raiva, ódio, inveja, tristeza, mágoa, culpa, frustração, medo e falta de perdão. Normalmente o perfil psicológico de pessoas com somatizações intensas são aquelas que costumam ser mais angustiadas, rancorosas, reprimidas, tensas, ansiosas, inflexíveis e controladoras.

O recalcamento dessas emoções pode enganar a mente, mas não o corpo, que reage a esses processos inconsciente expressando-se por uma linguagem fisiológica, a da doença ou dos sintomas por vezes inexplicáveis. Por isso a psicoterapia, e principalmente a regressão de memória, tem sido uma excelente auxiliar no tratamento e prevenção das doenças, pois tem a finalidade de tornar consciente aquilo que está por resolver, possibilitando ao paciente a resolução dos seus conflitos internos.

Desta forma, as emoções negativas devem ser trabalhadas, visto que nos envenenam lentamente, minando o sistema imunitário e fragilizando o nosso organismo. Em consequência, criamos abertura para o desenvolvimento de algumas doenças, tais como ulcera gástrica, dores músculo-esqueléticas como a fibromialgia; doenças cardíacas, respiratórias, auto-imunes e até mesmo cancro.

Vale a pena refletir na qualidade das emoções que estamos a gerar e alimentar diariamente. O melhor que podemos fazer por nós é trabalhar a tristeza e a raiva, ressignificar acontecimentos difíceis ou traumáticos, posicionando-nos como agentes ativos no processo de superação de situações dolorosas. Devemos trabalhar cada mágoa e ressentimento, libertando-nos das amarras que nos prendem ao sofrimento.

Aqui segue uma lista das doenças que normalmente estão associadas a causas psicossomáticas (podendo ser causadas, mantidas ou exacerbadas por processos psicossomáticos):

– Distúrbios Cardiovasculares: doença coronária, enfarte do miocárdio e hipertensão.

– Distúrbios Respiratórios: hiperventilação (sensação de falta de ar, tonturas e taquicardia) e asma.

– Distúrbios Imunológicos: doenças auto-imunes, perturbações alérgicas, cancro.

– Distúrbios Gastrointestinais (um dos locais mais comuns de sintomas psicossomáticos): síndrome do cólon irritável, úlcera no estômago ou duodeno, doença de Crohn, colite ulcerativa.

– Distúrbios Cutâneos: prurido (coceira), psoríase e outras dermatites como eczema, hiperidrose (sudorese excessiva), urticária.

– Artrite Reumatóide: inflamações articulares e estruturas associadas.

– Distúrbios Endócrinos: alterações na glicémia (Diabetes), perturbações na tiróide (hipertiroidismo ou hipotiroidismo).

– Dores Crónicas: por inflamação e tensão constante.