“As relações servem para nos fazer felizes”

balloons-892806_960_720

Este pensamento leva à expectativa (e à ilusão) de que a outra pessoa deve ser responsável pela forma como nos sentimos e que tem a obrigação de nos dar o que queremos ou achamos que precisamos. Ninguém deve ter o propósito de nos fazer felizes, satisfazer todos os nossos critérios e caprichos. Podem querer fazê-lo e isso não está errado, se for mútuo, se ambas as pessoas se quiserem bem uma à outra e gostarem de agradar. Actos de carinho e de apreço são desejáveis.

Em primeiro lugar, NÓS somos responsáveis pelas nossas emoções e em como nos sentimos. As outras pessoas, com os seus comportamentos, atitudes e acções podem contribuir para um menor ou maior estado de felicidade é verdade, mas as relações servem o seu propósito quando nos ensinam, nos fazem crescer, amadurecer. O objectivo único de nos fazer felizes é um objectivo muito pobre e mal estruturado. Pedir só felicidade é algo ingénuo e pueril (e quase infantil também).

Quando somos crianças recebemos todo o apoio, carinho e amor possível da nossa família (ou assim deveria ser em todos os casos), sem sequer o pedirmos ou expressarmos, e muitas vezes, mesmo antes de acharmos que precisamos. Simplesmente temos todas as nossas necessidades básicas satisfeitas sem ter de pedir ou de pensar nelas. As figuras de cuidado “adivinham” as nossas necessidades, aturam-nos as birras, dão-nos o que precisamos e tudo o que fazemos é perdoado mais ou menos facilmente.

Falo de casos ideais. Quando crescemos depositamos essas expectativas no companheiro ou companheira. Há uma fase inicial em que tudo é belo e expressam-se as melhores qualidades de ambos os lados. Quando as pessoas se juntam, ou os anos de relação se acumulam, cai-se na rotina e no automatismo. Muitas vezes há uma perda gradual na comunicação. O tal automatismo pressupõe aquela pessoa já nos conhecer e, como tal, é suposto saber o que precisamos e quais as nossas necessidades sem ter de dizer.

Mas as relações são uma via de mão dupla. “Não dou porque também deixaste de me dar, dizer, mostrar”. “Não fazes o que preciso, fico à espera, desiludo-me, olho para ti de forma diferente, respondo mal, ou deixo de falar, amuo, o que seja, na esperança de que percebas que preciso algo”. “Porque não me perguntas? Porque não olhas para mim e adivinhas o que é?”. E aí, infelicidade, desilusão. Porque depositamos as esperanças de um amor compreensivo, tolerante, aceitante, harmonioso, simples, fácil, descomplicado… Tudo o que tivemos enquanto crianças.

Quando digo que as relações são uma via de mão dupla é que, enquanto adultos numa relação, nunca (mas mesmo nunca) se deve deixar de comunicar, dialogar, expressar o que se sente, olhar para a outra pessoa nos olhos, olhar e ver o que lá está, o que essa pessoa também precisa, perguntar, afinar, esclarecer, clarificar, etc. Dos maiores pilares nas relações: a comunicação. Temos responsabilidade pela nossa felicidade mas também pela felicidade do casal. De se encontrarem interesses comuns, de se encontrarem numa boa conversa, de terem objectivos comuns, sonhos comuns, de construírem esse caminho, trilhado lado a lado e não de costas voltadas.

Espectro da felicidade

electrocardiogram-2858693_960_720

O que mais pergunto às pessoas é o que elas precisam ou procuram. As respostas que mais oiço são: “Quero ser feliz! Ou então: “Quero paz interior”. Eu própria, toda a vida, quando via uma estrela cadente ou me pediam para fazer um desejo, sempre pensava para mim mesma que resposta poderia ser mais abrangente, então pedia ao universo: “Quero ser feliz”.

Não é assim tão fácil… Mas percebo agora que o “ser feliz” é uma construção, não um estado. Comparo a felicidade a um espectro que passa por altos e baixos, “ondas”, algo mutável e inconstante, tal como são todas as nossas emoções. As emoções são estados transitórios, como tal, também elas voláteis, como marés por vezes, outras como um candeeiro lava, com aquelas bolas a subir e a descer, mais ou menos rapidamente, maiores ou mais pequenas, cada uma com a sua cor e intensidade.

Como se constrói a felicidade? Vai-se construindo… Dia após dia, alias, a cada dia, a cada decisão, atitude, enfrentamento ou afastamento do que nos causa mal, a cada acto de autocuidado e autorespeito, a cada sentimento que nos permitimos sentir por nós: merecimento, perdão, estima, aceitação, compreensão, etc.

A felicidade também se constrói em momentos com os amigos, socialização, coisas que gostamos de fazer, hábitos saudáveis como exercício físico, alimentação equilibrada e diversificada; ir a sítios novos, viajar, tudo o que nos dê prazer enfim, bem como pensamentos altruístas ou elevados, sobre nós, a vida, o mundo e os outros.

Pensamentos elevados é o segredo. Quem tem pensamentos elevados não pode estar infeliz. Pode sentir-se triste momentaneamente, mas se acreditarmos que o melhor está para vir, que vamos conseguir superar o que for preciso, que temos os recursos, as capacidades e estamos no caminho de algo bom e algo que podemos construir, o espectro da felicidade pode até ter altos e baixos, mas sempre conseguimos picos: picos de concretização de objetivos, de superação de desafios, de aceitação de aspectos nossos e da nossa realidade. Picos de felicidade. E esses podem ser cada vez mais frequentes ou regulares. E isso, para mim, já é ser (suficientemente) feliz.

Níveis ou patamares de consciência

mejores-juegos-plataformas-retro

Costumo comparar o nosso progresso ou evolução com o jogo do Super Mário. Quem lembra? Da mesma forma que o bonequinho ou a personagem tinha de chegar ao final de cada nível, ia tendo desafios pelo caminho. Umas vezes apanhava uns cogumelos e crescia um pouco e ficava mais forte mas ao mesmo tempo também tocava ou era tocado por objetos (cogumelos e afins) que o derrotavam ou o faziam retornar a um tamanho um pouco menor.

No final de cada nível haveria sempre o desafio maior, que custávamos a passar. Fazíamos imensas tentativas para passar cada nível, mas a cada vez que tínhamos de retroceder e começar de novo, era cada vez mais fácil passar esse nível. “Apanhávamos-lhe o jeito” e passar cada nível ia sendo mais e mais rápido. E depois chegávamos ao último nível, o temido dragão que tínhamos de matar. Essa era a tarefa mais árdua. Até lá mergulhávamos em mares, passávamos grutas, voávamos por cima de nuvens, percorríamos vales e saltávamos no vazio, mas o dragão era a tarefa mais difícil.

Na vida as coisas não são assim tão lineares, mas de facto temos vários dragões ao longo da nossa existência, maiores ou mais pequenos, de diferentes tamanhos, formas e cores, que apresentam os seus desafios particulares, e a cada “dragão” que conseguimos superar, ou cada grande bloco de desafios que conseguimos superar, atingimos o que chamo de “plateau” ou patamar de consciência ou evolução pessoal.

Os desafios podem ser vários: profissionais, pessoais, relacionais, familiares, saúde, o que seja. Podem representar pessoas, estados de humor, formas de funcionamento e de pensamento, estados físicos, fobias, medos, etc. É tudo aquilo que para nós representa uma dificuldade, um limite, um bloqueio. Eu acredito que todas as formas de terapia possam ajudar, seja psicologia, hipnoterapia, meditação, mindfulness, reiki, exercício físico, ou outras, principalmente se forem utilizadas conjuntamente ou de forma complementar.

Aqui, mais que tudo, importa força de vontade e convicção (convicção é a palavra a frisar). Convicção de que se pode ultrapassar o problema, seja ele qual for. Acreditar que é possível, acreditar que se consegue. Não consigo colocar por palavras o necessário que é a força do pensamento e da crença: “Eu sou capaz. Eu vou ser capaz. Isto é possível.”. Quando se tem esse pensamento, não há dragões, vales, montanhas ou mares que nos possam demover ou derrotar.

E aí, depois do dragão “chacinado”, vencido ou derrotado, minha gente, o céu é o limite para vocês. Força a todos e todas aquelas que lutam diariamente com os seus dragões. Procurem ajuda para motivação, força, ferramentas, estratégias e recursos porque vão precisar. Todos precisamos. Depois pode repousar-se durante uns tempos num vale de conquista e celebração, de reagrupar esforços e descansar pacificamente. Novas batalhas sempre se avizinharão, mas desta vez, com outra estrutura e resistência, sabedoria e conhecimento.

Pessoas Mestre

35427466_10156639053462474_8188650342926254080_n

Aquelas pessoas que nos ensinam, ainda que não da melhor forma:

  • o namorado agressivo, paranóico, obsessivo, ciumento, etc.
  • o pai alcoólico e violento ou ausente
  • a mãe dependente, fria ou castradora
  • a amiga egocêntrica, crítica ou que cobra afeto e atenção
  • ao professor ou professora que rebaixa, desdenha, envergonha ou humilha
  • aos vizinhos coscuvilheiros, maledicentes e intrometidos
  • todas as pessoas que deixaram marca enfim

São pessoas que vêm para nos edificar, clarificar, mostrar o caminho, com quem podemos aprender o malfadado perdão, o enfrentamento, a afirmação, a autoconfiança, a insurgência e a rebeldia pessoal.

Pessoas espelho, ou pessoas mestre, são aquelas com quem podemos, a duras penas, aprender. Crescer. Há também pessoas mestre que nos ensinam com compaixão, amorosidade, gentileza, doçura e delicadeza. Que nos tocam o coração com beleza e magia, positivismo e leveza.

A todas elas um muito obrigada. Serviram bem o seu propósito nas nossas vidas, a mostrar o caminho ou direção – de maior amor próprio, de desapego, de crescimento e maturidade. Não temos de ficar presas a elas, nem lhes devemos obrigação. Liberdade é o caminho, liberdade de aprender, colher a lição e partir.

Eu futuro

35437347_10156639053782474_8189105824207994880_n

Pessoalmente gosto de acreditar na ideia de que existe uma linha de tempo imaginária, transversal, onde passado, presente e futuro existem em um só ponto do aqui-agora e que tudo está a acontecer neste preciso momento. Quando fazemos “regressões” penso que mergulhamos nessa linha, ou melhor, “acedemos” a essa linha, como se sintonizássemos uma frequência, tal canal de rádio e aí acedemos a toda a informação possível sobre nós. Claro que este fenómeno só é possível num estado alterado de consciência, transe ou estado meditativo, como lhe quiserem chamar.

De todas as vezes que senti ganhar força, alento, coragem, ânimo, a dar mais um passo, tentar novamente, o que seja, sempre ouvi uma vozinha doce dentro de mim que me dizia: “vá… continua, está quase!” com um sorriso e uma sensação de amparo e alivio, de esperança. Agora penso que essa voz era o meu eu atual, ou na altura, o meu eu futuro, que sabia onde podia chegar, o que poderia alcançar, o eu que sabe que existe, sim, uma luz ao fundo do túnel e um tesouro no fim do arco-íris.

Nas minhas terapias gosto sempre de pedir auxílio a esse eu futuro, de cada pessoa que atendo, para que esse eu sábio, lance luz ao momento atual que a pessoa está a vivenciar. Para dar esse alento e força. Nós hipnoterapeutas chamamos a esse processo de pseudo orientação no tempo, neste caso, futuro. O eu que já passou todas as circunstâncias atuais e passadas e sabe mais e melhor. Um eu integrado, radiante e pacífico. Podem chamar-lhe o Eu Superior se quiserem. Pois cá para mim somos maiores e mais grandiosos do que as nossas circunstâncias, emoções, pensamentos e fisicalidade.

Penso que a nossa consciência coexiste numa espécie de plano superior, que abraça e alcança realidades muito maiores e transcendentais do que aquilo que vivenciamos, tocamos, cheiramos e sentimos com os sentidos físicos. Acredito que viajamos para esses planos à noite quando dormimos e sonhamos, e ligamo-nos a outras realidades, universos e planos. Penso que a vida fica mais fácil assim, acreditar neste tipo de possibilidades. Que somos viajantes das estrelas e astronautas de sonhos. Penso também que o nosso eu futuro está sempre ali, a acenar e a dar-nos forças, em todos os momentos. Basta parar para escutar.

Magnólias brancas (ao perdão)

magnolia-2768552_960_720

O perdão. Como se dá o perdão? Como se concede? Como se sente? Como se chega lá?

Das coisas mais difíceis de fazer porque para podermos perdoar, alguém teve de nos magoar profundamente no mais intimo de nós, porque senão, seria fácil perdoar… Desculpar, relevar, ignorar, ser indiferente.

O real perdão deve ser concedido a todas as partes de nós que possamos achar que falharam, que erraram, que deviam ter sido diferentes, a todos os momentos em que tiveram de decidir, de optar por caminhos, mais ou menos tortuosos e que, escolheram da forma mais acertada possível a cada momento.

Não me canso de frisar isto. A todo o momento e a todo o instante tomamos a única opção possível, dado o nosso nível de entendimento, conhecimento, experiência, maturidade, consciência, temperamento, traços de personalidade, circunstâncias e possibilidades disponíveis.

Com o passar do tempo, com mais experiência, conhecimento e maturidade – e principalmente, conhecimento dos fatos após ter decorrida a experiência – é muito fácil opinar, criticar, julgar, condenar. A nós ou às escolhas ou comportamentos de outras pessoas.

O coração é como uma casquinha de noz, colocamos a raiva à volta dele (exoesqueleto ou parte dura) e no interior está toda a volubilidade das emoções como a tristeza, o pesar, a vulnerabilidade e a dor. Para perdoar há que partir a casquinha e sentir tudo o que lá está e decidir (sublinhar a palavra decidir) enterrar essa dor. Desfazer-se dela.

Dói muito desapegar-se de uma dor, mais ou menos antiga, mais ou menos querida. Libertar a dor de uma perda, traição ou o que for, é um luto em si. Uma dor companheira, amiga, que ajudou a sobreviver, a ir em frente, a “esquecer”. Como se liberta tal dor? Quando decidimos abdicar dela. Tal como se deixa um filho pequeno dar os seus primeiros passos ou ir para a universidade longe.

Deixa-se ir assim, com o coração apertado mas sabendo que se está a fazer o melhor de nós, para essa parte nossa, que tanto precisa de ser livre, voar, e partir. Dói, mas é uma dor necessária. E a todas as pessoas que nos magoaram ou partiram o nosso coração? Enviar-lhe peónias ou magnólias brancas em sinal de reconhecimento: sei que me magoaste, que me feriste – com ou sem intenção – mas não quero mais carregar este ódio ou esta dor da perda por ti…

E como quem se despede de um velho amigo, de um velho livro ou pedaço de papel, uma jóia de família ou peça de roupa querida, deixamos ir…. Para que se possa reciclar, reinventar ou transformar em pó de estrelas ou terra de chão.

À Coragem

flowerpot-2756428_960_720

Às pessoas que atendo que vêm tão arrasadas, fragilizadas e debilitadas, que me mostram as suas feridas, vulnerabilidades, raivas, ódios e desgostos.

A todas as pessoas que procuram terapia, que estão dispostas a fazer essa (difícil) travessia. Cruzar mares e intempéries emocionais, ver de perto tudo aquilo que quiseram esconder para ninguém ver, tudo aquilo que guardaram anos a fio no baú das memórias e vivências, trancado no porão ou sótão da mente.

À coragem de ver, sentir, reprocessar, colocar no lugar e arrumar a casa. Limpar veias, células e órgãos de dor, mágoa, pesar e arrependimento.

É com gosto, orgulho e grande privilégio que assisto a esse processo e acompanho a luta e a bravura destes seres, sendo-me permitido ajudar, guiar ou orientar o processo, um trabalho que levo muito a peito e muito a sério.

À coragem e à confiança de deixarem esse processo nas minhas mãos, de levar, de mostrar, de explorar o seu interior. Só me posso sentir muito agradecida e sensibilizada por todas as histórias que tenho a oportunidade de conhecer de perto e a fundo.

Aos gritos abafados, às vozes gritantes, aos cortes na Alma, à vida interrompida, caminhos ceifados, lutos impossíveis e perdas de parte de si.

À coragem, discernimento, consciência, inteligência, vontade e força de ultrapassar, conseguir, curar, lavar, limpar, apaziguar toda essa dor e toda essa angústia, tristeza, passado atormentado e futuro incerto.

Para vós vai a minha admiração, respeito e reverência. Que eu possa pegar em todas as aflições e transformá-las num canteiro de flores arrumadas e perfumadas.