Culpa e merecimento

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– O que fez de tão errado para não merecer ser feliz?

– Mas eu acho que mereço ser feliz…

– Sente que merece ser feliz? Então e as escolhas que faz, fazem-na feliz?

– Não…

– Então acha que merece ser feliz, verdadeiramente?

Quem acha que merece ser feliz, quem sente que merece ser feliz, não faz escolhas que a mantenham na infelicidade. Quem sente este merecimento, vai até ao fim do mundo para ter aquilo que quer, aquilo que gosta e aquilo que ambiciona. A culpa é uma das coisas mais difíceis de trabalhar porque envolve o perdão, perdão a mim e/ou perdão a outrem. E nós não fomos ensinados a perdoar e nem sempre sabemos como fazê-lo.

Quem sente culpa, culpa por não corresponder às expectativas, culpa por querer algo diferente para si, algo que não vai de encontro ao que outras pessoas possam achar correto ou aceitar, culpa por ter feito coisas de que se arrepende em relação a si ou a outras pessoas, muitas vezes fica preso a um ciclo de arrependimento, remorso e ódio autodirecionado.

Este tipo de culpa e ódio em relação a si pelo que fez ou deixou de fazer, mantém estas pessoas, muitas vezes, em relacionamentos tóxicos, viciados, de dependência e de infelicidade. Relacionamentos ou situações de dor, carência, falta de retorno ou correspondência. Estas relações podem ser de qualquer tipo: com um namorado ou namorada, marido, mãe, filho, amiga, colega, patrão, etc.

Conscientes ou não deste fenómeno, as pessoas em situação de culpa, remorso ou arrependimento continuam a repetir este modelo, este padrão, não vivendo as coisas que realmente desejam, estando com quem verdadeiramente podem estar, libertando-se de situações ou relações que não são favoráveis e há mesmo pessoas que levem anos e décadas suportando este tipo de forma de relacionamento ou mantendo situações de falta de liberdade pessoal.

A culpa é uma situação complexa de falta de perdão mas também manipulação ou coação emocional ou psicológica e, em casos mais graves, física ou material também, por parte de terceiros. Sejam essas pessoas, como disse, família ou não. A culpa origina-se quando outra pessoa, conscientemente ou não, nos faz sentir culpados por um comportamento nosso, principalmente quando queremos fazer alguma coisa que é contrária ao que essa outra pessoa espera, pretende, ou precisa.

A culpa também pode ser originada porque achamos que devemos fazer determinada coisa, manter-se com determinada pessoa, relação, sítio ou trabalho, por uma questão de justiça, honra, obrigação ou porque dissemos ou prometemos que o faríamos. Então há certos contratos tácitos que elaboramos com estas pessoas ou que elaboramos para nós mesmos, que nos mantêm num tipo de prisão emocional: devo ficar porque prometi, porque esta pessoa precisa, porque serei egoísta se partir, porque esta pessoa me ajudou, porque fiz mal a esta pessoa, porque esta pessoa precisa de mim… Etc, etc.

Das duas uma, ou essa outra pessoa nos liberta e nos concede o perdão incondicional, ou somos nós que perdoamos a pessoa pela ignorância, falta de conhecimento ou consciência por nos querer manter nessa situação de dependência e infelicidade. E quanto a nós: o autoperdão. O perdão incondicional a quem fomos, o que fizemos ou deixamos de fazer. Perdão ao facto de nos termos permitido ficar, mas também o perdão em relação ao que verdadeiramente queremos, na realidade, fazer: partir, deixar ir, desligar, desapegar e sair dessa história ou padrão. Este é o verdadeiro acto de autocapacitação, libertação e amor próprio.

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