Atletas de alta competição

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Relativamente aos nossos pensamentos, eles são circulares, repetitivos, admoestadores, recriminativos e chegam mesmo a tornar-se maçadores. A nossa mente tem um funcionamento vicioso, registamos o mesmo padrão, de forma consistente, ao longo o tempo. Mas chega a uma altura que, se não nos desafiarmos e instigarmos um espírito crítico aos nossos pensamentos, eles sobrepõem-se sobre todo o nosso funcionamento e tornam-se donos e senhores do palco da nossa mente.

Porquê o título do artigo? Penso que as nossas mentes ficam indolentes e preguiçosas com o tempo. Vamo-nos acostumando à mesma rotina, forma de pensar e registar a vida e as situações, colorindo a existência das mesmas cores e formas diariamente e , quando damos por nós, tornámo-nos esta massa amorfa e disfuncional. Pouco harmoniosa ou fluída. Pouco espontânea e com pouca alegria, vida ou cor.

Penso que nos faria bem se nos exercitássemos. Não só fisicamente como mentalmente. Tornarmo-nos atletas de alta competição relativamente ao nosso registo mental. Eliminarmos vícios, velhas formas de pensar e reagir. Administrar a nossa mente eficazmente, questionar os velhinhos pensamentos automáticos negativos que são tão chatinhos.

Tornarmo-nos escriturários eficientes. A nossa mente deve servir ao propósito único de resolver problemas práticos e reais, do dia-a-dia. O resto do tempo pode repousar ou contemplar a própria existência, em vez de produzir lixo mental, subproduto tóxico do questionamento constante e da hipervigilância a tudo o que nos rodeia, intenções e comportamentos dos outros, do nosso próprio valor e de tudo o que nos costumamos questionar.

Ao ser atleta de alta competição, o nosso cérebro não só é eficaz como é disciplinado, focado, motivado, prático e pragmático. Tem fibra e tem firmeza. É saudável e torna-se um músculo oleado e pronto a ser utilizado de forma concisa e para o que foi treinado: fazer o que tem a fazer, sem todos os desvios que costuma percorrer nos meandros do pensamento ruminativo. Cérebro atleta é cérebro desejável na utilização de todas as funções e sistemas corporais. Descansa quando tem de descansar, come quando tem de comer, faz (treina) quando tem de fazer.

Atleta também sabe quando parar, repousar os músculos, adaptar e ajustar as suas rotinas às diferentes fases do esforço que tem de fazer, competição ou treinos diários e corriqueiros. Atleta consciente no respeito às suas necessidades e pedidos do corpo, coração incluído. O que quer dizer que processa eficientemente também as emoções à medida que elas vão decorrendo, arrumando e optando o que fazer com elas, sem deter mais do que o necessário com cada uma.

O martelo e o cinzel

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Somos construtores da nossa história. Tal Michelangelo, com martelo e cinzel, a esculpir a nossa estátua. A nossa aparência, os nossos contornos, o nosso ambiente emocional e mental. A cada dia construímos e desconstruímos uma série de coisas, pensamentos, ideias, objectivos, projectos, sonhos e decisões.

Todos os dias podemos modificar ou alcançar algo, podemos transformar-nos, transformar o nosso dia e o nosso futuro ou o nosso rumo. Nós somos uma obra em construção constante. Engane-se quem pensa que estagnamos ou paramos de crescer quando nos tornamos adultos ou quando atingimos determinado estádio. Isso era em gerações antigas. Na actualidade o mundo está em transformação e actualização constante.

A tecnologia não pára. A ciência e medicina também não. Como tal, a mente humana está em constante mudança e evolução, cada vez mais rapidamente. Como negar a evolução da espécie? Se o nosso caminho se dá em sucessivos avanços e retrocessos, mas jamais ficamos na mesma.

Assim somos nós individualmente. Um conjunto volúvel de emoções e pensamentos que dão forma ao nosso veículo físico ou forma de o conduzir. Podemos levá-lo para onde quisermos ou acreditarmos ser possível levar. Que possamos despertar para essa ideia e possibilidade: podemos esculpir, a cada dia, a vida que queremos e a pessoa que desejamos ser, transformando o que não gostamos em algo que seja melhor para nós. Se até a pedra se molda, também nós o podemos fazer.

A pele que nos reveste

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Todos os dias a usamos, a hidratamos ou não, cuidamos dela ou não. O que é certo é que é o maior órgão do corpo. E nela carregamos as marcas de quem somos. A idade que temos. Os traumas que possamos ter tido. As cicatrizes, as rugas, os sinais. A cor da nossa identidade e estado emocional. A saúde do nosso corpo.

A pele representa a barreira entre nós, o nosso interior, e o mundo exterior. Debaixo dela uma complexidade de funções e estruturas: os músculos, ossos e órgãos. A pele é a primeira linha de defesa do nosso corpo em relação ao mundo exterior.

E quando essa pela é afectada? Eczemas, urticária, psoríase, lúpus, vitiligo, acne, rosácea e uma miríade de afectações cutâneas. Quando estamos envergonhados ou excitados o calor sobe-nos ao rosto, e a outras partes do corpo também. Quando temos calor ou frio, há manifestações da pele: suor ou calafrios. Quando nos queimamos ou picamos nalgum sítio, a pele dá o alerta de um sinal de perigo.

Mas quando a pele dá sinais de alerta quando as causas não são físicas?

A irritabilidade, zanga, ressentimento, ódio, culpa e tristeza prolongada são algumas das emoções que interferem na nossa saúde física. E quem diz pele, pode dizer uma série de outras estruturas que podem ficar “danificadas” pela frequência energética de cada uma dessas emoções. As emoções têm “frequências”, o nosso organismo é como uma complexa orquestra que funciona sob um determinado timbre, ou vibração, de acordo com o que estamos a sentir ou a pensar (uma coisa influencia a outra).

Esse timbre, quando prolongado no tempo, ou mantido consistentemente, influencia o funcionamento do nosso corpo. A mente a influenciar o corpo. Sabemos disso agora. Essa frequência pode ser a causadora de cancros, problemas cutâneos, inflamações nas articulações (fibromialgia), obstipação, alergias, arritmias e hipertensão, para mencionar alguns exemplos.

Essa frequência muda a vibração natural da célula. A Física Quântica começa a estudar e entender melhor estas correlações. Quando a célula vibra a uma frequência diferente daquela originalmente programada (o funcionamento normal e saudável da célula), a saúde muda. A proliferação ou multiplicação celular sofre alterações e, às vezes, mutações patológicas. Muitas delas são herdadas é verdade, mas podem ser precipitadas pelo funcionamento mental, para além dos nossos hábitos de vida (alimentação, praticar ou não alguma forma de exercício físico, consumo de álcool e tabagismo, por exemplo) e factores ambientais, como poluição.

Irritabilidade traz coceira, urticária. Zanga ou ódio trazem vermelhidão na zona do peito/pescoço. Rancor e ressentimento fazem as veias ficarem salientes. As emoções afectam a nossa parte física. O ramo da psicossomática estuda isso mesmo. Pessoas hipocondríacas reagem aos sintomas da ansiedade como se de algo grave se tratasse no seu cérebro ou corpo. Quantas pessoas vão parar ao hospital com sintomas de um ataque de pânico?

Penso que cada vez mais se faz necessário uma educação psicoemocional ao cidadão comum mas também à comunidade médica. Estas questões são trasnversais a todas as pessoas. Todo o ser humano tem emoções e sofre com elas. A perspectiva médica tem de mudar e não mandar estas pessoas de volta para a sua vida normal com a indicação de ansiolíticos ou antidepressores após um ataque de pânico, ou em casos de depressão, luto ou trauma.

Não precisamos, só, de cuidar da pele, ou da nossa aparência. Precisamos cuidar do nosso interior. Fazer o que chamo de higiene emocional diária. Da mesma forma que fazemos a higiene física. Daí a psicologia e outras formas de terapia. Para alguém nos ajudar a fazer exactamente isso: cuidar do nosso interior. Sejamos jardineiros e jardineiras da nossa saúde psicológica (das nossas células) para que ela possa apresentar os mais belos frutos e flores e, com isso, a radiância da nossa aparência, de dentro para fora.

“A tua dor é maior do que a minha”

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Quando as pessoas desabafam, tentam relativizar a sua dor, trauma, tristeza, mágoa ou outras emoções que tais com frases como: “eu sei que há pessoas em situações piores, não sei como isto me pode afectar tanto…”, “isto não merece esta reacção, eu não deveria estar assim por este motivo”, “já foi há tanto tempo, não me deveria sentir assim ainda…”, numa comparação com o mundo cruel e actual lá fora. Mas neste artigo, quero falar do terrível mundo das nossas emoções pessoais, íntimas e intransmissíveis.

Relativamente a situações do passado, há algumas que ficam registadas sob a forma de “pequenos traumas”, como lhes chamo. Sem falar em catástrofes, acidentes, mortes, violações, humilhações públicas ou outras situações altamente traumáticas e, muitas vezes, definidoras de personalidade, comportamentos e atitudes, que podem acontecer em qualquer idade, e todos estamos sujeitos a elas, querendo ou não. São situações que fogem do nosso controlo.

Aqui estou a falar daquela crítica ou comentário que uma amiga, pai, mãe, colega ou professor fez na escola que nos magoou imenso. Uma brincadeira que os colegas fizeram connosco, uma traição real ou imaginada na nossa adolescência, com uma amiga ou namorado ou aquela pessoa em quem confiámos e de repente fez algo que não esperávamos. Uma fofoca, uma mentira, uma amiga que de repente deixou de ser a nossa melhor amiga porque ficou mais próxima de outra rapariga e nunca mais nos falou.

Coisas que nos acontecem, coisas pequenas, coisas inumeráveis que nos aconteceram numa idade em que estávamos a consolidar ou a construir a nossa personalidade, as nossas crenças sobre nós, sobre o mundo e sobre os outros. Idade em que não teríamos estrutura, capacidade de abstracção ou de distanciamento perante os acontecimentos, e tudo ficaria marcado como grandes leis como: “as pessoas não são dignas de confiança, logo, não posso confiar em ninguém”, “eu sou inútil”, “não sou suficientemente bom/suficientemente interessante”, “as mulheres/os homens serão sempre traidores”, etc.

Mas também todas as coisas que nos continuam a acontecer aos dias de hoje que podem causar os mesmos sentimentos ou reacções. Não somos máquinas. Magoamo-nos, desiludimo-nos e somos sensíveis ao comportamento e palavras dos outros.

Contudo, numa idade adulta, com a maturidade da idade adulta, podemos dizer: “oh mas isso não foi assim tão importante, como me posso lembrar disto ainda?” ou “como é que isto me pode afectar?”, ou às vezes, afirmações mais peremptórias como: “se isto me aconteceu é porque as pessoas são mesmo assim”, mesmo quando uma situação só aconteceu uma vez.

Estou a lembrar-me de vários casos de rompimentos amorosos/separações ou desilusões amorosas, em que as pessoas que foram “deixadas” pelos companheiros ou namorados, sejam eles homens ou mulheres, sentiram essa “troca” não só como traição, mas como rejeição, abandono e engano. E muitas vezes essas separações, dessa forma, levam a sentimentos de “sou um fracasso”, “se esta pessoa fez isto comigo, é porque não sou digno de ser amado/não sou suficientemente interessante”, “não mereço ser amado ou ser feliz”, “ninguém me quer” ou “ninguém mais vais gostar de mim” e outras generalizações do género.

E quem diz separações amorosas diz comentários críticos ou certos comportamentos dos pais, professores, amigos, irmãos ou de toda e qualquer figura que exerça influência nas nossas vidas. Pessoas importantes para nós, pessoas de quem gostamos ou temos em consideração. Tudo o que é dito ou feito por um perfeito estranho não nos afectará da mesma forma comparativamente a se for por uma pessoa imersa nas nossas vidas em termos de significado. Significado ou importância que essa pessoa tem para nós.

Mesmo assim, quando a autoestima de uma pessoa é frágil, qualquer comentário, atitude ou comportamento menos apropriado de terceiros, pode ajudar a esta pessoa confirmar os seus sentimentos ou pensamentos de desvalor ou desmerecimento, mas só quando esses sentimentos, crenças ou pensamentos já existem.

Estando a desviar-me do tema principal, quero falar da valorização ou desvalorização que damos a coisas pequenas. Todas as situações que nos afectaram, mesmo quando achamos que não poderíamos ou deveríamos ter dado todo esse valor a essas situações. Elas importam. Elas estão lá, existiram e magoaram partes frágeis nossas. Partes em desenvolvimento. E quando crescemos, essas partes continuam em nós, agregam-se, ou são agregadas, a todas as outras partes que vão sendo desenvolvidas em nós. É isso o crescimento ou maturação de um ser humano. Não só em termos de estruturas físicas e orgânicas, mas também em termos de estruturas psíquicas, mentais e emocionais.

Tudo faz parte do nosso corpo emocional, e todas essas coisas entram para o nosso corpo de dor. Estruturas essas que se tornam rígidas, como crenças e leis sobre o mundo, sobre nós e os outros. E de repente, amargura, baixa autoestima e autoconfiança, rancor, ressentimento, falta de alegria, espontaneidade, etc. Quantos de nós encerram em si estas pequenas dores definidoras do nosso estado de defesa contra o mundo?

Trabalho diariamente com várias pessoas cheias de armaduras, couraças, sistemas complexos de defesa, de separação, de alienação, de protecção. Eles foram gerados por todas essas e muitas outras coisas que falei. O que para mim pode ser perfeitamente insignificante, para si pode não o ser. Aquilo que ultrapasso facilmente, pode não ser tão facilmente ultrapassável para si. Principalmente quando recalcamos: “isto não importa, siga para a frente”.

É com essas “partes moles”, sensíveis e magoadas que quero falar. Precisam ser ouvidas, ficaram em eco todo este tempo numa sala escura, sem ninguém as ouvir. No fundo, temos de ser fortes, não podemos dar ouvidos a essas partes fracas e vergonhosas de nós. Mas elas são como pequenas facas, pequenas farpas que minam o nosso bem-estar. E essas partes precisam ser reconhecidas, por mais pequenas e insignificantes que possam ter sido. Trata-se de acolhimento, aceitação, perdão, dar colinho, compreensão. O mesmo que precisamos fazer quando uma criança pequena está triste, assustada ou confusa.

Você importa. Essas partes também. Fazem parte da complexa tapeçaria que somos. E quando damos um ponto menos bem feito, ou um ponto fica defeituoso, toda a tapeçaria fica defeituosa. Com a terapia, podemos ir lá desfazer esse nó, esse ponto singelo, com um olhar novo, diferente, integrado, compreensivo e do alto de uma sabedoria e maturidade diferente, uma maturidade actual. Vamos reenquadrar e ressignificar essa experiência, emoção ou crença. E isso, tem um poder genial. De transformar a nossa vida e em como a sentimos.

Portas da nossa infância

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Num dos exercício de encontro com o Autosabotador Interno eu perguntava: “Porque é que ele existe?”. Ao que a cliente respondia: “Existe porque ele está ligado a falsas crenças e raízes ancestrais”. “E o que é preciso fazer?”, continuava eu.  “Abrir as janelas da mente”, respondia ela.

E que janelas da mente eram essas? As que, mais do que abertas, precisavam ser substituídas. Perras, velhas, tal porta de entrada da casa de infância. Porta essa que não protegia o suficiente, não era segura, a pintura estava gasta. As raízes ancestrais estavam aqui representadas pelos medos da infância, pelas “verdades” adquiridas então.

As portas da nossa infância encerram em si muitos segredos, guardam os mistérios insondáveis da nossa mente. Por detrás dela está o pequeno ser em crescimento que aprendeu a criar leis sobre a vida, sobre si próprio e sobre os outros. Como as coisas têm de ser, o certo e o errado. Nesse crescimento, dentro e fora dessas portas, a vida vai existindo, as experiências e aprendizagens vão-se sucedendo. E o pequeno ser a aprender, a observar, a construir esquemas mentais e crenças associadas.

Um dia esse ser cresce, coloca em prática esses esquemas, crenças e leis, que, entretanto, se tornam rígidas e inflexíveis. Mais tarde, essas crenças tornam-se desactualizadas ou impraticáveis, trazendo muito sofrimento. Nesse sofrimento, o pequeno ser questiona-se: de onde vêm? Porquê? E aí entra o processo terapêutico de autoconhecimento. De facto, que leis existem em si? Que crenças limitadoras estão a exercer o seu poder?

Resta, então, questionar essas crenças. Olhar para elas sob uma nova luz, a luz da maturidade e nível de consciência actual. Mais do que questionar, contestar as crenças enraizadas, tal era daninha que se vai reproduzindo e criando novas crenças ao redor da crença base ou crença mãe. E assim funcionam os pensamentos, as associações que vamos criando e, com elas, os tais esquemas mentais ou formas-pensamento.

As crenças são como crianças malandras. Quando educadas com seriedade e sabedoria, serão crianças curiosas, exploradoras e com espírito crítico. Não irão deixar nada nem ninguém diminuí-las ou duvidar do seu valor. Podem questionar-se, mas, com uma reflexão breve e profunda, vão espantar as poeiras da dúvida e tomar decisões sobre os próprios pensamentos, e, com essas decisões conscientes, formar ou consolidar esquemas fortalecedores, inteligentes e eficazes, como uma mente feliz deve funcionar.

A expetativa de sucesso

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Quando vemos pessoas bem sucedidas, podemos invejá-las, julgando que a vida delas é fácil, ou glamorosa, ou que têm tudo, são inteligentes, capazes e competentes. Mas ninguém vê as inseguranças, fracassos, erros, mudanças de direcção, os “nãos” que ouviram, as portas que se fecharam, as noites sem dormir, as dúvidas no caminho, a vontade de desistir.

O caminho para o sucesso, ou para a realização (pessoal ou profissional), faz-se tortuosamente. Tem percalços, vales, montanhas, planícies, mares, rios e pontes suspensas. Tem o desequilíbrio, o medo, o desafio, a promessa, a vontade, o desejo, a perda, a desilusão. É preciso coragem, força de vontade, resistência ou resiliência, tolerância ao erro e à frustração, determinação, foco e motivação.

Primeiro é preciso querer, criar objectivos e visão de futuro: onde quero chegar? Depois, perceber o que é necessário para chegar lá: Como? Mas também o Porquê. Qual a minha motivação? Porque quero fazer isto? Chegar à raiz da necessidade e da vontade. A seguir, acção prática, comportamento, ir à procura, fazer, concretizar, procurar. Começar com uma decisão e depois planear os vários passos ou tarefas e, a cada semana, executar algumas delas.

Podem fazer-se diversos tipos de planos, planos de dieta, planos de treino/exercício físico, planos terapêuticos (o que quero trabalhar em mim), planos de negócios (estudo de mercado, identificar necessidades, apresentar um produto novo ou inovador, etc), plano de estudos, etc. Todos os planos começam num ponto de partida. E todos eles podem ir sendo revistos a cada etapa. Podem dar-se mudanças de direcção ou mesmo mudanças de caminho. Mas todas essas hipóteses começam com uma vontade: a de chegar mais além, a de chegar mais longe, conquistar mais isto ou aquilo, criar esta ou aquela coisa.

Pode parar-se pelo caminho diversas vezes para se contemplar o plano (a estrada ou caminho) e decidir qual o melhor passo a dar na etapa seguinte. E assim, a pouco e pouco, vai-se chegando onde se quer chegar, e o horizonte da meta, vai ficando cada vez mais perto. Ou então, novas metas podem ir sendo criadas também. O que é certo é que nos fortalecemos pelo caminho, aumentamos a nossa autoconfiança e a nossa autoestima. Ganhamos experiência, conhecimento e, no final, sabedoria e contemplação pela missão que realizámos. Saibamos também parar para apreciar a viagem e não só o fim dela.

A perda e a dor

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E todos aqueles planos que fizemos com uma pessoa com quem não vamos estar mais?

O que fazer a todas as situações não vividas e quando todos os projectos sonhados são arquivados de vez?

Fica um buraco, uma dor, um vazio. Um buraco negro que suga toda a alegria ao redor. Muitas vezes, mais do que a perda em si, fica o espaço por ocupar de todos esses planos, projectos e sonhos por viver.

Como se preenche esse vazio? Como se supera essa dor? Quando demos tudo por uma pessoa, quando essa pessoa representava tanto para nós, quando cultivámos uma relação com toda a cor e sabor. Um familiar que parte desta terra levando consigo todo o carinho e amor por nós, todo o conforto de um colo e palavras gentis; quando um parceiro ou parceira decide abandonar o barco, levando consigo toda a esperança?

Como fica esse barco? À deriva. Por semanas, meses ou anos. Abandonado, rejeitado, incompreendido, triste, desvalido e desesperançado. O mar parece uma coisa infinita, o horizonte de luz uma realidade longínqua. A profundidade algo avassalador e intransponível, um oceano de dor e mágoa povoa essas águas. Tudo parece inerte e sem vida, um sem fim de água. Falo das águas emocionais, do tormento psíquico, da dor integral que se sente. Uma dor que nada faz melhorar.

Mas a dor tem um fim. Um chão ou um tecto. Um finalmente. Tal metal pesado a afundar nesse mar escuro. Sempre chega ao fundo. Ao fim de uma jornada, de um tormento. Quando a âncora chega ao fundo do mar, o barco estabiliza. Organiza-se, reorienta-se. Pode levar tempo até que a corda se gaste e o fundo se alcance. Mas nessa altura cabe ao marinheiro ajustar a rota, recolher o que precisa para seguir viagem e velejar rumo a esse horizonte de luz para que possa, por fim, chegar a terra novamente, pisar o campo de tulipas que o espera do outro lado.

Tulipas vermelhas, vermelho da cor do sangue, da paixão, do movimento, das emoções terra, cor da vida, pois do vermelho viemos. Do ventre, do potencial, do fluir e pulsar do coração e circulação sanguínea. Voltaremos a amar, a sentir, a ter alegria, a viver. Mas também é preciso desejar. É preciso querer e aceitar a vida de volta, aquilo que ela encerra para nós novamente. Há sempre mais para viver, experimentar. Temos é de estar receptivos e disponíveis para tal.

Não é fácil sentir essa receptividade ou disponibilidade novamente depois de sermos feridos Temos de abrir o coração novamente, permitindo-nos sentir de novo. E também ser feridos de novo, pela flecha da perda e da dor. Mas vale a pena. Sempre vale a pena sentir. Viver. Senão, estaremos sempre encerrados na mesma cave. Encerrados num porão da mente. É uma escolha. A vida é inesperada, imprudente, errática por vezes, inconstante, e nunca se sabe onde nos leva. Ficar no mesmo sítio é seguro e confortável.

A dor, tal como o medo, é um sistema de alerta, de segurança e de defesa. Protege-nos de nos magoarmos e ferirmos de novo. Mas a dor é um cárcere, e não é um cárcere amigo. Porque culpa, critica, espezinha e escarnece. Torna-se uma identidade própria, com corpo e mente. E ilude-nos, faz-se passar por nós. Contamos tantas vezes a mesma história de como fomos derrotados, traídos, enganados, etc. que acreditamos que somos essa figura, essa personagem.

Declaremos o fim da ditadura desse ser em sofrimento, que só se alimenta de mais sofrimento. Dêmos espaço à dor quando há perdas ou derrotas, sim, mas o espaço suficiente. Quando ela nos trava de vivermos, sentirmos e experimentarmos o doce aroma e sabor do novo, está na altura de termos uma conversa com essa dor: entendo-te e aceito-te, fizeste parte do meu caminho, mas agora deixo-te ir. Reverencio o teu papel, faço o luto de quem és e de quem foste. Exististe e tiveste o teu sentido de existir. Mas agora precisas ir… Para que entre o Novo, o Belo e o Sentir novamente. Porque te podes transformar nesses três potenciais.

E aí a dor resigna-se e pode voltar a adormecer novamente.