Às vezes o mundo pode ser um lugar difícil

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Quando somos super protegidos quando crianças, quando vivemos sob uma redoma e nos evitam de tomar contacto com todo e qualquer transtorno possível, quando nos mostram o mundo lá fora como algo assustador e não nos permitem errar, cair, sofrer, e tudo nos é dado como garantido, muitas vezes temos dificuldade em crescer, amadurecer ou ter resiliência e tolerância perante a frustração e o erro. E pode, mesmo, vir a existir o medo de viver, de sofrer ou de errar (perfeccionismo).

Pais autoritários, exigentes e perfeccionistas, normalmente educam filhos que se tornam inseguros, perfeccionistas, autoexigentes e com baixa tolerância ao erro e à frustração. É um facto, constatável por variadas investigações, de que os estilos parentais influenciam estas características na descendência. Se pensarmos que estes pais exigem a perfeição nos filhos (boas notas, comportamento exemplar, ausência de descuidos ou erros, etc.), é normal que estes filhos possam vir a ter dificuldades em lidar com o erro e a frustração, seja académico, profissional, relacional ou social. E o que é a vida se não tentativa e erro e frustração constante?

Tenho assistido a imensas pessoas a sentirem um peso enorme para corresponder a estas expectativas irrealistas de perfeição, desenvolvendo inflexibilidade e rigidez mental perante as várias dificuldades da vida diária com colegas, companheiros, perante as tarefas corriqueiras no trabalho, perante o estudo, perante o enfrentar de responsabilidades, e perante tantas outras coisas que exigem leveza, descontracção, flexibilidade e abertura.

Uma cliente, um dia destes dizia: “Claro que tenho medo de enfrentar a vida! Até quando era criança e ia pular o muro para ir apanhar fruta ao outro lado, vinha a minha avó para me ajudar a passar para o outro lado para eu não cair ou aleijar-me.” E isto representa bem esta sobreprotecção, que no fundo, indica: “Cuidado, cautela, atenção! Viver é perigoso! Não vais querer cair ou falhar, isso não é permitido ou tolerável. Tu não és capaz de fazer isso sozinha, vais precisar sempre de ajuda”.

Estas crianças crescem com este estigma, de que dependem dos outros, de que devem estar sempre alertas, de que precisam de aprovação de outrém, de que o mundo é um lugar assustador, cheio de desafios e armadilhas e, principalmente, que não podem estar sozinhas no mundo pois não serão capazes de superar os desafios. E, de repente, fobias, medos, ansiedade, pânico, dúvida, incerteza e insegurança.

A estas pessoas, seja por estes motivos ou outros, cabe o desafio do crescimento: cair, errar, levantar-se, aprender a depender de si e das suas capacidades; ser capazes de se reerguer das cinzas, desprender-se das crenças herdadas ou transmitidas de incapacidade, e perceberem que é saudável e desejável ir à luta, fracassar as vezes que forem necessárias, bater com a cabeça, aprender e, com isso, amadurecer, entrar na adultez e provar-se a si mesma de que é capaz, de que é possível; criar couraça como lhe chamo – criar resistência e força, força pessoal. Pular o muro, no fundo. Do que era, para o que é.

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