A perda e a dor

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E todos aqueles planos que fizemos com uma pessoa com quem não vamos estar mais?

O que fazer a todas as situações não vividas e quando todos os projectos sonhados são arquivados de vez?

Fica um buraco, uma dor, um vazio. Um buraco negro que suga toda a alegria ao redor. Muitas vezes, mais do que a perda em si, fica o espaço por ocupar de todos esses planos, projectos e sonhos por viver.

Como se preenche esse vazio? Como se supera essa dor? Quando demos tudo por uma pessoa, quando essa pessoa representava tanto para nós, quando cultivámos uma relação com toda a cor e sabor. Um familiar que parte desta terra levando consigo todo o carinho e amor por nós, todo o conforto de um colo e palavras gentis; quando um parceiro ou parceira decide abandonar o barco, levando consigo toda a esperança?

Como fica esse barco? À deriva. Por semanas, meses ou anos. Abandonado, rejeitado, incompreendido, triste, desvalido e desesperançado. O mar parece uma coisa infinita, o horizonte de luz uma realidade longínqua. A profundidade algo avassalador e intransponível, um oceano de dor e mágoa povoa essas águas. Tudo parece inerte e sem vida, um sem fim de água. Falo das águas emocionais, do tormento psíquico, da dor integral que se sente. Uma dor que nada faz melhorar.

Mas a dor tem um fim. Um chão ou um tecto. Um finalmente. Tal metal pesado a afundar nesse mar escuro. Sempre chega ao fundo. Ao fim de uma jornada, de um tormento. Quando a âncora chega ao fundo do mar, o barco estabiliza. Organiza-se, reorienta-se. Pode levar tempo até que a corda se gaste e o fundo se alcance. Mas nessa altura cabe ao marinheiro ajustar a rota, recolher o que precisa para seguir viagem e velejar rumo a esse horizonte de luz para que possa, por fim, chegar a terra novamente, pisar o campo de tulipas que o espera do outro lado.

Tulipas vermelhas, vermelho da cor do sangue, da paixão, do movimento, das emoções terra, cor da vida, pois do vermelho viemos. Do ventre, do potencial, do fluir e pulsar do coração e circulação sanguínea. Voltaremos a amar, a sentir, a ter alegria, a viver. Mas também é preciso desejar. É preciso querer e aceitar a vida de volta, aquilo que ela encerra para nós novamente. Há sempre mais para viver, experimentar. Temos é de estar receptivos e disponíveis para tal.

Não é fácil sentir essa receptividade ou disponibilidade novamente depois de sermos feridos Temos de abrir o coração novamente, permitindo-nos sentir de novo. E também ser feridos de novo, pela flecha da perda e da dor. Mas vale a pena. Sempre vale a pena sentir. Viver. Senão, estaremos sempre encerrados na mesma cave. Encerrados num porão da mente. É uma escolha. A vida é inesperada, imprudente, errática por vezes, inconstante, e nunca se sabe onde nos leva. Ficar no mesmo sítio é seguro e confortável.

A dor, tal como o medo, é um sistema de alerta, de segurança e de defesa. Protege-nos de nos magoarmos e ferirmos de novo. Mas a dor é um cárcere, e não é um cárcere amigo. Porque culpa, critica, espezinha e escarnece. Torna-se uma identidade própria, com corpo e mente. E ilude-nos, faz-se passar por nós. Contamos tantas vezes a mesma história de como fomos derrotados, traídos, enganados, etc. que acreditamos que somos essa figura, essa personagem.

Declaremos o fim da ditadura desse ser em sofrimento, que só se alimenta de mais sofrimento. Dêmos espaço à dor quando há perdas ou derrotas, sim, mas o espaço suficiente. Quando ela nos trava de vivermos, sentirmos e experimentarmos o doce aroma e sabor do novo, está na altura de termos uma conversa com essa dor: entendo-te e aceito-te, fizeste parte do meu caminho, mas agora deixo-te ir. Reverencio o teu papel, faço o luto de quem és e de quem foste. Exististe e tiveste o teu sentido de existir. Mas agora precisas ir… Para que entre o Novo, o Belo e o Sentir novamente. Porque te podes transformar nesses três potenciais.

E aí a dor resigna-se e pode voltar a adormecer novamente.

2 thoughts on “A perda e a dor

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