“A tua dor é maior do que a minha”

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Quando as pessoas desabafam, tentam relativizar a sua dor, trauma, tristeza, mágoa ou outras emoções que tais com frases como: “eu sei que há pessoas em situações piores, não sei como isto me pode afectar tanto…”, “isto não merece esta reacção, eu não deveria estar assim por este motivo”, “já foi há tanto tempo, não me deveria sentir assim ainda…”, numa comparação com o mundo cruel e actual lá fora. Mas neste artigo, quero falar do terrível mundo das nossas emoções pessoais, íntimas e intransmissíveis.

Relativamente a situações do passado, há algumas que ficam registadas sob a forma de “pequenos traumas”, como lhes chamo. Sem falar em catástrofes, acidentes, mortes, violações, humilhações públicas ou outras situações altamente traumáticas e, muitas vezes, definidoras de personalidade, comportamentos e atitudes, que podem acontecer em qualquer idade, e todos estamos sujeitos a elas, querendo ou não. São situações que fogem do nosso controlo.

Aqui estou a falar daquela crítica ou comentário que uma amiga, pai, mãe, colega ou professor fez na escola que nos magoou imenso. Uma brincadeira que os colegas fizeram connosco, uma traição real ou imaginada na nossa adolescência, com uma amiga ou namorado ou aquela pessoa em quem confiámos e de repente fez algo que não esperávamos. Uma fofoca, uma mentira, uma amiga que de repente deixou de ser a nossa melhor amiga porque ficou mais próxima de outra rapariga e nunca mais nos falou.

Coisas que nos acontecem, coisas pequenas, coisas inumeráveis que nos aconteceram numa idade em que estávamos a consolidar ou a construir a nossa personalidade, as nossas crenças sobre nós, sobre o mundo e sobre os outros. Idade em que não teríamos estrutura, capacidade de abstracção ou de distanciamento perante os acontecimentos, e tudo ficaria marcado como grandes leis como: “as pessoas não são dignas de confiança, logo, não posso confiar em ninguém”, “eu sou inútil”, “não sou suficientemente bom/suficientemente interessante”, “as mulheres/os homens serão sempre traidores”, etc.

Mas também todas as coisas que nos continuam a acontecer aos dias de hoje que podem causar os mesmos sentimentos ou reacções. Não somos máquinas. Magoamo-nos, desiludimo-nos e somos sensíveis ao comportamento e palavras dos outros.

Contudo, numa idade adulta, com a maturidade da idade adulta, podemos dizer: “oh mas isso não foi assim tão importante, como me posso lembrar disto ainda?” ou “como é que isto me pode afectar?”, ou às vezes, afirmações mais peremptórias como: “se isto me aconteceu é porque as pessoas são mesmo assim”, mesmo quando uma situação só aconteceu uma vez.

Estou a lembrar-me de vários casos de rompimentos amorosos/separações ou desilusões amorosas, em que as pessoas que foram “deixadas” pelos companheiros ou namorados, sejam eles homens ou mulheres, sentiram essa “troca” não só como traição, mas como rejeição, abandono e engano. E muitas vezes essas separações, dessa forma, levam a sentimentos de “sou um fracasso”, “se esta pessoa fez isto comigo, é porque não sou digno de ser amado/não sou suficientemente interessante”, “não mereço ser amado ou ser feliz”, “ninguém me quer” ou “ninguém mais vais gostar de mim” e outras generalizações do género.

E quem diz separações amorosas diz comentários críticos ou certos comportamentos dos pais, professores, amigos, irmãos ou de toda e qualquer figura que exerça influência nas nossas vidas. Pessoas importantes para nós, pessoas de quem gostamos ou temos em consideração. Tudo o que é dito ou feito por um perfeito estranho não nos afectará da mesma forma comparativamente a se for por uma pessoa imersa nas nossas vidas em termos de significado. Significado ou importância que essa pessoa tem para nós.

Mesmo assim, quando a autoestima de uma pessoa é frágil, qualquer comentário, atitude ou comportamento menos apropriado de terceiros, pode ajudar a esta pessoa confirmar os seus sentimentos ou pensamentos de desvalor ou desmerecimento, mas só quando esses sentimentos, crenças ou pensamentos já existem.

Estando a desviar-me do tema principal, quero falar da valorização ou desvalorização que damos a coisas pequenas. Todas as situações que nos afectaram, mesmo quando achamos que não poderíamos ou deveríamos ter dado todo esse valor a essas situações. Elas importam. Elas estão lá, existiram e magoaram partes frágeis nossas. Partes em desenvolvimento. E quando crescemos, essas partes continuam em nós, agregam-se, ou são agregadas, a todas as outras partes que vão sendo desenvolvidas em nós. É isso o crescimento ou maturação de um ser humano. Não só em termos de estruturas físicas e orgânicas, mas também em termos de estruturas psíquicas, mentais e emocionais.

Tudo faz parte do nosso corpo emocional, e todas essas coisas entram para o nosso corpo de dor. Estruturas essas que se tornam rígidas, como crenças e leis sobre o mundo, sobre nós e os outros. E de repente, amargura, baixa autoestima e autoconfiança, rancor, ressentimento, falta de alegria, espontaneidade, etc. Quantos de nós encerram em si estas pequenas dores definidoras do nosso estado de defesa contra o mundo?

Trabalho diariamente com várias pessoas cheias de armaduras, couraças, sistemas complexos de defesa, de separação, de alienação, de protecção. Eles foram gerados por todas essas e muitas outras coisas que falei. O que para mim pode ser perfeitamente insignificante, para si pode não o ser. Aquilo que ultrapasso facilmente, pode não ser tão facilmente ultrapassável para si. Principalmente quando recalcamos: “isto não importa, siga para a frente”.

É com essas “partes moles”, sensíveis e magoadas que quero falar. Precisam ser ouvidas, ficaram em eco todo este tempo numa sala escura, sem ninguém as ouvir. No fundo, temos de ser fortes, não podemos dar ouvidos a essas partes fracas e vergonhosas de nós. Mas elas são como pequenas facas, pequenas farpas que minam o nosso bem-estar. E essas partes precisam ser reconhecidas, por mais pequenas e insignificantes que possam ter sido. Trata-se de acolhimento, aceitação, perdão, dar colinho, compreensão. O mesmo que precisamos fazer quando uma criança pequena está triste, assustada ou confusa.

Você importa. Essas partes também. Fazem parte da complexa tapeçaria que somos. E quando damos um ponto menos bem feito, ou um ponto fica defeituoso, toda a tapeçaria fica defeituosa. Com a terapia, podemos ir lá desfazer esse nó, esse ponto singelo, com um olhar novo, diferente, integrado, compreensivo e do alto de uma sabedoria e maturidade diferente, uma maturidade actual. Vamos reenquadrar e ressignificar essa experiência, emoção ou crença. E isso, tem um poder genial. De transformar a nossa vida e em como a sentimos.

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