O soldado interior (a parte crítica)

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O soldado interior tem armaduras, uma couraça rígida, sólida e grossa. Esse soldado não deixa ninguém entrar, não deixa luz entrar, pessoas e sentimentos. Esse soldado protege o interior de todo e qualquer prejuízo e intromissão do coração. É um soldado valente e destemido. Tem muita força mas, no fundo, é frágil e está cansado. Esse soldado espera a rendição para poder Ser, para poder vestir roupas mais leves, e curar os ferimentos que essa couraça lhe infligiu, carregada por vários anos, tal carapaça dura.

O soldado levou anos numa missão, proteger o interior de ferimentos causados pelo exterior, por outras pessoas e por tudo o que representasse uma vulnerabilidade, um risco de colapso ou sofrimento. Quando esse soldado desperta eu não sei, mas muitas vezes, desperta nas pessoas mais sensíveis, com um coração amoroso, empáticas e preocupadas com os outros, com a maldade no mundo e nas pessoas. Então o soldado abre um olho, apercebe-se de que essa menina ou menino precisa de ajuda, e encarrega-se de os proteger.

Só que o soldado, arraigado de tanta disparidade no comportamento dos outros, decide que toda a gente é uma ameaça, a proximidade é perigosa e a confiança não se pode praticar. Então cria umas muralhas poderosas, altas e escarpadas à volta de quem quer proteger. E aí o coração fica guardado e longe de qualquer tentativa de ataque. Mas, depois de anos, o soldado vai envelhecendo, vai sentindo-se cada vez mais sozinho, cansado e sem saída e a vulnerabilidade desperta do seu encantamento, espreguiça-se e olha em volta para todas aquelas ruínas causadas pelo soldado.

Assustada, e meio indignada, confronta o soldado. Ele, ao princípio, ergue o peito para dizer que tinha de ser assim, mas a vulnerabilidade olha-o bem fundo nos olhos, com uma expressão zangada, e ele baixa o olhar e reconhece que talvez tenha sido demasiado duro, demasiado zeloso. A vulnerabilidade, enternecida pela honrosa intenção do soldado, acarinha-o, compreensiva, e diz-lhe que ele pode chorar, ele já não precisa ser valente e que, juntos, vão proteger o castelo. Mas de uma forma diferente, plantando flores, abrindo entradas, dando festas e bailes, decorando o interior de grinaldas e candelabros de luz.

O soldado morre de medo com esta ideia, mas permite-se. E ao permitir-se, algo muda. Todo o castelo se enche de luz! O soldado nem queria acreditar. Esfrega os olhos e percebe como a vulnerabilidade é bela, e ela estende-lhe um gracioso sorriso: “Vês, era só abrires os olhos e sentires com o coração, já aqui estava tudo”. A luz, a beleza, a protecção.

A vulnerabilidade, em si, é uma força quando compreendida e quando usada com a força do coração. Encerra em si a pureza, a gentileza, a amorosidade, a doçura e a graciosidade. Mas também a ingenuidade e puerilidade que, em conjunto com a maturidade e sabedoria do trabalho interior, formam uma força absoluta – a força do Guerreiro da Luz, a da Mestria Pessoal e a da figura protectora em vez do soldado.

A figura protectora é algo diferente, integrado, reconhecido, consciente e maleável. É a voz benevolente do alerta, do sobreaviso, mas uma voz gentil, suave. Uma voz doce e aceitante, flexível, tolerante e que diz mais sim que não, ou então “porque não?”. É uma voz que ensina a viver, a aproveitar, a sentir, a amar, a rir, a conversar, abrir-se. É uma voz de abertura, entrega ao fluxo da vida. E essa voz é bela e genuína, é pura e vem de um sítio amoroso. Do centro da interligação entre o coração e a mente. E é aí que nasce a mais bela das relações connosco: a do amor próprio e aceitação incondicional do que é e do que já foi.

Aos porquês

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Às pessoas que se questionam, que perdem tempo e energia vital a questionarem-se obsessivamente sobre as vicissitudes da vida: porque é que me aconteceu isto? Porque eu fui fazer aquilo? Porque dei ouvidos àquela pessoa? Porque tomei esta decisão?  Porque é que aquela pessoa me fez aquilo? Porque é que me acontece sempre isto? Porque é que não consigo sair desta situação? Porque é que atraio sempre o mesmo tipo de pessoas? Porque é que não tenho amigos? Porque é que não consigo arranjar namorado? Porque isto, porque aquilo…

Compreendo a preocupação, o sofrimento e a angústia deste questionamento e de todas as situações subjacentes, mas um questionamento vazio de respostas pode levar à loucura e estados depressivos e ansiogénicos persistentes.

O porquês, de facto, podem vir a nunca ter respostas. E há porquês que até têm respostas, mas, por vezes, não são as desejadas, não queremos acreditar nelas, aceitá-las ou mesmo compreendê-las porque são dolorosas demais. Até podemos não ter consciência, seja por autoproteção seja por autosabotagem (fenómenos inconscientes e automatismos psíquicos), das respostas por detrás de todos esses porquês. Mas uma coisa sei, quando o pensamento é circular, ruminativo, altamente racionalista, não conduz a soluções. Conduz a sofrimento, ódio, raiva, irritabilidade, acidez e corrosão orgânica.

A ruminação mental, termo que nós psicólogos utilizamos, dirige o foco do pensamento para a crítica de uma situação problema, gerando pensamentos negativos e emoções associadas, como culpa, remorso, vergonha ou raiva. É a melhor forma de mantermos a memória do problema activa e presente constantemente. Focar-se no passado, e principalmente numa situação que já passou e que não tem volta a dar, é a melhor forma de ficarmos deprimidos e de nos bloquearmos para viver no agora, permitindo novas situações, pensamentos e sentimentos virem ao nosso encontro.

A essas pessoas, um despertar faz-se necessário. De viverem no aqui-agora, de que tudo o que foi é apenas uma memória e reflexo da pessoa que eram naquela altura, com as capacidades, nível de entendimento, compreensão e consciência para actuar de uma determinada forma, agir, pensar, sentir e decidir.

Uma actualização constante é necessária. Actualização no sentido de ser capaz de se manter no presente, e imaginar a linha de tempo do momento presente para o futuro, fazendo um reset ao passado, integrando-o, compreendendo-o e aceitando-o incondicionalmente. Se não for possível, terapia pode ser necessária para se encaixarem esses factos e memórias, organizando e arrumando os processos internos relativos a esses factos ou memórias sem dor ou mágoa.

Não só, trabalharem-se os aspectos dissonantes, os bloqueios de base, as histórias que contamos a nós mesmos sobre quem somos ou deveríamos ser, sobre os outros, a vida e o mundo. Muitas vezes são essas as crenças que nos limitam a viver aquilo que realmente queremos. Precisamos de ir ao encontro desses esquemas mentais, ressignificá-los, desprendermo-nos deles, e seguirmos na direcção de um novo potencial, repleto de novas escolhas, decisões, pensamentos, sentimentos e emoções, e, dessa forma, novas e diferente vivências do que aquelas que vivemos até então.

Às vezes o mundo pode ser um lugar difícil

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Quando somos super protegidos quando crianças, quando vivemos sob uma redoma e nos evitam de tomar contacto com todo e qualquer transtorno possível, quando nos mostram o mundo lá fora como algo assustador e não nos permitem errar, cair, sofrer, e tudo nos é dado como garantido, muitas vezes temos dificuldade em crescer, amadurecer ou ter resiliência e tolerância perante a frustração e o erro. E pode, mesmo, vir a existir o medo de viver, de sofrer ou de errar (perfeccionismo).

Pais autoritários, exigentes e perfeccionistas, normalmente educam filhos que se tornam inseguros, perfeccionistas, autoexigentes e com baixa tolerância ao erro e à frustração. É um facto, constatável por variadas investigações, de que os estilos parentais influenciam estas características na descendência. Se pensarmos que estes pais exigem a perfeição nos filhos (boas notas, comportamento exemplar, ausência de descuidos ou erros, etc.), é normal que estes filhos possam vir a ter dificuldades em lidar com o erro e a frustração, seja académico, profissional, relacional ou social. E o que é a vida se não tentativa e erro e frustração constante?

Tenho assistido a imensas pessoas a sentirem um peso enorme para corresponder a estas expectativas irrealistas de perfeição, desenvolvendo inflexibilidade e rigidez mental perante as várias dificuldades da vida diária com colegas, companheiros, perante as tarefas corriqueiras no trabalho, perante o estudo, perante o enfrentar de responsabilidades, e perante tantas outras coisas que exigem leveza, descontracção, flexibilidade e abertura.

Uma cliente, um dia destes dizia: “Claro que tenho medo de enfrentar a vida! Até quando era criança e ia pular o muro para ir apanhar fruta ao outro lado, vinha a minha avó para me ajudar a passar para o outro lado para eu não cair ou aleijar-me.” E isto representa bem esta sobreprotecção, que no fundo, indica: “Cuidado, cautela, atenção! Viver é perigoso! Não vais querer cair ou falhar, isso não é permitido ou tolerável. Tu não és capaz de fazer isso sozinha, vais precisar sempre de ajuda”.

Estas crianças crescem com este estigma, de que dependem dos outros, de que devem estar sempre alertas, de que precisam de aprovação de outrém, de que o mundo é um lugar assustador, cheio de desafios e armadilhas e, principalmente, que não podem estar sozinhas no mundo pois não serão capazes de superar os desafios. E, de repente, fobias, medos, ansiedade, pânico, dúvida, incerteza e insegurança.

A estas pessoas, seja por estes motivos ou outros, cabe o desafio do crescimento: cair, errar, levantar-se, aprender a depender de si e das suas capacidades; ser capazes de se reerguer das cinzas, desprender-se das crenças herdadas ou transmitidas de incapacidade, e perceberem que é saudável e desejável ir à luta, fracassar as vezes que forem necessárias, bater com a cabeça, aprender e, com isso, amadurecer, entrar na adultez e provar-se a si mesma de que é capaz, de que é possível; criar couraça como lhe chamo – criar resistência e força, força pessoal. Pular o muro, no fundo. Do que era, para o que é.

Destino vs livre arbítrio

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Sou eu que comando o meu navio ou ele é comandado pelas águas da vida? Sou eu que decido o meu destino, o meu caminho e vivências, ou ele está traçado à nascença?

Há quem acredite que temos um plano, ou uma missão nesta terra. E eu acredito que sim: crescer, aprender, evoluir, amadurecer, amar o próximo (pais, mães, companheiros e companheiras, irmãos e irmãs). Há quem diga que temos a missão de limpar karmas, que é o mesmo do que amar o próximo… Praticar o perdão, a aceitação, a superação de obstáculos e mágoas.

O que prefere acreditar? Que é você que decide ou que é decidido por si? Este jogo da vida, as lições que nos passam pelo caminho, tudo aquilo que temos de aprender.

Mais do que uma discussão filosófica, eu acredito que a liberdade é um mito. Que o livre arbítrio é uma falácia. Nós, na verdade, vivemos na ilusão de que somos livres, mas se pensarmos bem, temos a liberdade de fazer isto ou aquilo, ir aqui ou ali, mas mesmo em um supermercado só podemos escolher por um limitado número de iogurtes de morango, por exemplo. Ou um número limitado de caminhos ou estradas, quando vamos para algum lado.

Mesmo a roupa que vestimos, o estilo que usamos, os penteados, maquilhagem, até os sapatos, os sítios onde vamos, o que comemos, é altamente determinado por tendências que são decididas por alguém que não nós, pela cultura, pela sociedade, pelas figuras públicas, pela tradição, pelo nível de consciência, etc. Os nossos comportamentos e escolhas, são influenciados 90% das vezes por motivos inconscientes.

O que é que isto quer dizer? Que nos são dadas ou apresentadas determinadas opções, tendências, possibilidades, e aí entra a nossa escolha, do que aceitar ou não, mesmo das crenças sobre a vida, sobre a morte, sobre a vida noutros planetas, reencarnação ou outros temas. Tanta coisa nos foi dada já “mastigada” que no fundo nós muitas das vezes apenas repetimos padrões, crenças, pensamentos e comportamentos.

Tudo o que fomos aprendendo ao longo das nossas vidas, em conjunto com a nossa personalidade e temperamento, predetermina aquilo que temos tendência a escolher, a preferir, a nos atrair. Cores, profissões, religião, estilo de música, companheiros, amigos, etc.

Portanto, até que ponto somos assim tão livres? Até que ponto as coisas não estão já, de certa forma, encaminhadas para nós? Ou nós nos encaminharmos para elas, no sentido de sermos um software altamente complexo e condicionado por uma série de factores e nos dirigirmos numa determinada direção de acordo com as componentes e programação pré instalada e também a que vai sendo instalada (por nós, pelo que encaixamos sobre as nossas vivências e pelo que observamos e aprendemos) na nossa psique sobre a forma de crenças, esquemas mentais, hábitos e comportamentos adquiridos.

Temos a capacidade e o poder, sim, de tomar consciência do nosso rumo, das nossas decisões, dos nossos padrões, hábitos, comportamentos, tipos de pensamentos e emoções que vamos tendo diariamente e a cada momento. E com essa consciência, “moldar”, alterar ou melhorar o nosso rumo, o nosso caminho, ou “destino”, porque o que é que significa destino mesmo? Um local onde chegamos. E esse local é determinado pelas nossas escolhas de cada dia, pelos sentimentos, pelos pensamentos que temos sobre nós, o mundo e os outros (perspectiva cognitivista) e pelo que decidimos fazer acerca desses pensamentos e acerca do que a vida nos vai dando a cada momento em termos de possibilidades, caminhos e potenciais de futuro. Temos o livre arbítrio de moldar o nosso destino. Mas ele encerra em si todas as lições que temos de aprender e ultrapassar para que possamos velejar sem empecilhos e dificuldades.