E Deus criou a mulher – feridas ancestrais

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Eva de seu nome. Das costelas de Adão. E daí surge o mito e a percepção distorcida de que a mulher precisa do homem, de ser co-dependente dele, de que lhe deve obediência e surgiu para lhe satisfazer todas as necessidades. E serve a mulher para procriar e cuidar do homem. O pecado original foi a mulher ter sido curiosa (e influenciável) e ter experimentado ceder à tentação e morder a maçã. Outro mito e percepção distorcida criada com esta metáfora: a mulher é a mãe de todo o pecado e foi ela que trouxe a desordem à criação.

Estes mitos foram implantados na psique colectiva e são difíceis de “arrancar”. A culpa e a necessidade de castigo que existem na psique feminina continuam a persistir aos dias de hoje. A necessidade de se subjugarem e se manterem estóicas na presença de relações abusivas surge desta crença enraizada de que a mulher deve ser persistente, cuidar, ficar, estar presente, ser submissa, aceitar as condições impostas por terceiros.

Até aos dias de hoje persistem crimes hediondos contra a liberdade e autodeterminação da mulher. Violações em massa, agressões, mutilação, indústria pornográfica e cinematográfica, sem falar da indústria da música, que sexualiza e objectifica cada vez mais a mulher e as nossas crianças e jovens estão a assistir a isto e a imitarem esses modelos.

As mulheres que estão sozinhas, sem relações, sofrem imenso porque não encontram companheiro, porque é esperado que elas casem e tenham filhos. Essa foi a missão terrena atribuída à mulher. E quando elas não encontram parceiro e não reproduzem? Não cumpriram a missão. E uma angústia e falta de propósito se apodera, ou pode apoderar, destas mulheres. Mesmo as independentes. Há sempre a “célula mãe”, ou “célula primordial” que activa esta memória.

De facto, o seu poder reprodutivo é incontestável. A mulher pode gerar vida. A mulher tem um dom incrível. Mas ainda existe na psique masculina a lembrança de que a mulher serve para os satisfazer. Os homens olham para mulheres atraentes na rua com luxúria, com olhares indiscretos, com piropos e comentários depreciativos, não solicitados e não desejados. Homens de certa idade ainda olham para jovens adultas com desejo, jovens que poderiam ser filhas deles.

E aqui continua a haver desigualdade. A mulher tem-se actualizado, tem-se “modernizado” e “masculinizado” também. As mulheres são os novos homens, de certa forma, numa tentativa de serem competitivas e não sofrerem também com o que é esperado delas, que não conseguem, ou não querem, concretizar muitas das vezes. E isto cria feridas profundas. Dúvida, insegurança. É um novo modelo ou forma de estar. E tudo o que é novo, leva um tempo até se ajustar e normalizar.

Mas voltando ao início. A dentada na maçã, no fundo, representa a necessidade da mulher de se individualizar. De ser independente, de decidir por ela. E todos estes séculos tentou, arduamente, esse propósito. E chegamos aos dias de hoje. A mulher moderna. A mulher moderna com feridas ancestrais, carregando no seu ventre o legado da mãe, avó, e todas as mulheres antes dela, que foram menosprezadas, violentadas, atormentadas, perseguidas, queimadas vivas, torturadas e utilizadas como objectos e bode expiatório da maldade humana.

Este tema toca-me profundamente e não sou ninguém para interpretar as escrituras sagradas, mas há um profundo simbolismo oculto nessas escrituras que devem ser vistas a uma nova luz, sem tomar partidos de masculino versus feminino. Mas sim no direito de todos os seres vivos à equidade, liberdade, respeito e dignidade.

Que o facto de ser mulher não represente menos do que ser homem. Ambos devem chegar a um estatuto de equilíbrio e respeito pelas forças arquetípicas que cada um representa. Cada um trazendo o melhor que diz respeito a cada polaridade. Honrando-se e respeitando-se. E que a mulher não precise, jamais, de carregar a culpa por querer ser livre e independente de conceitos e obrigações perpetuadas através dos milénios.

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