Responsabilidade espiritual

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Tantas pessoas ditas “espirituais”, tantos discursos espiritualizados, tantas imagens e frases “espirituais”abundam nas redes sociais e nos discursos de muita gente. Tanta gente a trabalhar-se a esse nível também, com diferentes níveis de entendimento e consciência sobre a matéria.

O discípulo dito espiritual deve ser persistente, disciplinado, não julgador, deve purificar a sua mente e corpo de substâncias densas como o álcool e o tabaco, drogas e medicamentos, carne e produtos alimentares provenientes de produção de sofrimento animal ou humano. Deve exercitar a paciência, o perdão, o não julgamento e a transcendência do pensamento, sendo a mente subordinada às altas instâncias da alma.

Isto é ser um iniciado no percurso espiritual. Mas todos nós somos humanos, todos nós erramos, somos julgadores, temos preconceitos, a nossa mente pode ser vilipendiosa e crítica por vezes. Condenamos comportamentos alheios, ditamos opiniões e comentários acerca da vida das pessoas que nos rodeiam e mesmo daquelas que não conhecemos. Ficamos aborrecidos e chateados, criamos apegos a pessoas, empregos, situações e estilos de vida. Comemos e bebemos de tudo um pouco. Assistimos a programas, filmes e séries violentos, temos vícios e pensamentos destrutivos. Somos humanos.

Ser humano é ser errante, é ser dual. É ser terreno, ter corpo de dor e de desejos. Ter luxúria, orgulho, inveja e ciúme. É ter todas essas características e mais. É ter também a doçura, a candura, gentileza, compaixão, amor, carinho e todas as coisas bonitas que um coração humano é capaz de produzir a favor do bem. E todos somos espirituais. Todos somos habitados por uma matéria de energia superior, a alma, o espírito, a consciência, o eu superior, o que quiserem.

Vejo tanta gente a descobrir o caminho da espiritualidade, a comprar livros de autoajuda, a fazer terapias, mas depois a ser tão cruel em pensamentos e palavras. A julgar o próximo, quando este não se encontra “ao mesmo nível”, jorrando opiniões e explicações não solicitadas, acerca de um conhecimento e percepções incompletas, num estatuto de superioridade (e arrogância) espiritual.

O conhecimento espiritual é vasto, complexo. Deve ser incorporado, experimentado. Deve meditar-se sobre ele, aprofundá-lo e praticá-lo. Colocá-lo em prática na realidade diária, individualmente. Ter responsabilidade sobre ele. Não é dizer meia dúzia de lugares comuns e frases feitas que se interpreta o comportamento humano, as necessidades individuais de desenvolvimento de cada um. Praticar a aceitação e humildade torna-se das maiores necessidades actuais em termos da relação com os outros.

Não julgar que se sabe de tudo, que se sabe o que a outra pessoa pode precisar, de que forma precisa e em que rapidez o precisa fazer. Cada um está no seu patamar ou nível de desenvolvimento, entendimento e consciência. Cada um deve fazer o seu percurso ao seu ritmo. Não precisamos fazer todos a mesma coisa, da mesma maneira e à mesma velocidade, ou chegar ao mesmo sítio. Não podemos descobrir a “pólvora” e gritar eureka! Não é por se perceber meia dúzia de verdades que nos tornamos experts na matéria.

A consciência (autoconhecimento) quando amplia, faz-nos ver mais claramente o comportamento dos outros e o nosso também, as consequências directas e indirectas desse comportamento. Faz-nos ver a relação entre as coisas, temos maior clareza e discernimento. Mas que isso não nos torne superiores, que usemos esse conhecimento, sim, para nós, nas nossas vidas pessoais e íntimas. Que tenhamos práticas espirituais, seja meditar, orar, ler ou fazer retiros. Mas para nós. Que isso seja para nos melhorarmos como pessoas, seres humanos. Não para exercer influência ou ter poder sobre os outros.

Chama-se a isso ter responsabilidade, ou ética, espiritual. Sermos conscientes, humildes, simples, observadores. O conhecimento (e opinião) não solicitado pode ser devastador para outra pessoa, que esteja frágil ou insegura. Há a teoria de os outros serem os nossos espelhos, através dos quais podemos observar e monitorizar o nosso próprio comportamento, atitudes e formas de agir. Verdade, esses espelhos “devolvem-nos” o que estamos a reflectir, e podemos ver com mais clareza. Mas esses espelhos não devem servir para reflectir a imagem de Narciso, que precisa de ver a sua beleza (ou conhecimento e verdades absolutas recentemente adquiridas) reflectida nos outros.

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