O susto primordial (quando o medo fica registado)

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Quando uma pessoa tem uma fobia, um medo específico, ataques de pânico, ansiedade generalizada, ou outros sintomas relacionados com algum evento específico, memória ou situação traumática, isso cria um registo, um alarme na nossa mente e psique. Esse momento ou situação, fica registado no nosso inconsciente e, muitas situações semelhantes ou com algum tipo de estímulo semelhante ao trauma ou susto primordial, fazem activar as mesmas sensações, emoções ou sentimentos.

Por exemplo, um relacionamento abusivo e violento, uma situação stressante que nos faz suar e quase desmaiar, sensações físicas muito intensas de medo ou angústia numa viagem de carro ou avião, um quase acidente e grande susto, um estado emocional bastante alterado por alguma situação de vida pessoal e estar num centro comercial ou evento com muita gente, uma exposição em público (ida ao quadro na escola, por exemplo) acompanhada por uma humilhação ou gozo por parte de uma professora ou colega, e tantas situações como estas, fazem com que o nosso cérebro registe essas sensações como “premonição” de que algo muito ruim vai acontecer.

Ou seja, estados de grande medo, susto, ansiedade, tensão, stress, agitação e angústia, associadas a determinadas situações, fazem accionar um alarme central na nossa mente com o aparecimento dessas mesmas sensações, mesmo que em menor grau de intensidade, em situações futuras ou locais semelhantes à original, que despoletou todas essas sensações e emoções.

O que quer dizer que, como no exemplo do centro comercial, a pessoa pode ir muito descansada para o centro comercial mas, por algum motivo inconsciente, começa a sentir-se mal no local. E sempre que lá vai, estas estranhas sensações fazem-se sentir. E já que se sente assim num centro comercial, começa a recear lá voltar, ou ir a sítios com muita gente ou movimentação, como feiras, concertos, etc.

Então surge o evitamento e a generalização. A pessoa pensa: “Ok, se me sinto mal em sítios públicos ou com muita gente, é melhor evitar esses mesmos sítios, porque senão vou descontrolar-me.” De um centro comercial, passa para tudo o que são eventos públicos. Da mesma forma, o miúdo que foi gozado ou enxovalhado por colegas na escola quando ia ao quadro, por sabe-se lá que motivos (ser “caixa d’óculos”, “sorriso metálico”, “cenoura”, gordo, magro, baixo, por corar, e um sem fim de exemplos), passa a desgostar, evitar ou enfrentar com imenso mau estar tudo o que é exposição, como apresentações e falar em público.

Aquela pessoa que estava ressacada de uma despedida de solteira ou solteiro, ou doente com gripe, ou com uma gastrite, e vai fazer uma viagem de avião, autocarro ou comboio, sente-se bastante mal e, no futuro, sempre que faz uma viagem, voltam a surgir sensações semelhantes, como náusea, má disposição, agitação, tontura, tremores ou suores… Estão a ver onde quero chegar?

O cérebro é muito bom em accionar alarmes, mas também em criá-los, de forma tão simples como estou a descrever aqui. De facto, a pessoa pode nem se sentir tão mal assim fisicamente, mas pode estar ansiosa por uma série de motivos, e esse evento fica registado como algo a temer. Porque o cérebro faz a seguinte associação: sensações físicas de mau estar – situação actual – alarme para situações futuras semelhantes.

E aqui poderíamos dar imensos exemplos, que todos encaixariam que nem uma luva. O que acontece, é que somos dotados de um sistema de alarme muitíssimo eficiente, que foi herdado dos nossos ancestrais. O nosso sistema límbico é o sistema complexo que gere as nossas emoções, com a amígdala e o hipocampo como “filtros” para a interpretação e leitura de todas as situações com que nos deparamos diariamente. E esses filtros, por vezes, são bem melindrosos, quase como uma delicada teia de aranha que ao menor toque, faz vibrar toda a teia.

Sendo a amígdala a sentinela emocional do nosso corpo e o hipocampo a biblioteca de memórias, essa central representada pelo funcionamento cerebral da amígdala e do hipocampo, faz a associação das memórias e das respostas emocionalmente significativas. Como tal, imaginem, vamos muito bem nalgum sítio, e, de repente, os nossos “alarmes” disparam sem motivo. Mas quando exploramos esses motivos, vemos que uma memória foi guardada com uma emoção dissonante. E é exactamente nessa memória ancestral ou primordial que temos de trabalhar.

E toda esta conversa para vos dizer que a hipnose, trabalhando num estado de relaxamento físico e controlo emocional, faz esta exploração de memórias antigas, quase como um “scanner” ao nosso cérebro e inconsciente, para encontrar essas memórias ou situações e ressignificá-las. Ou seja, guardar essas memórias sem o susto ou medo que elas originalmente causaram. E como se faz isso? “Falando” com essa parte assustada e explicando o que aconteceu, que já não precisa dessa activação toda em situações semelhantes, visto que a emoção era relativa a uma situação do passado. Um susto ou medo que, neste momento, é injustificado no momento presente.

E o cérebro ouve. O cérebro é inteligente e pragmático. Quando falamos com ele assim, ele ouve e regista novo comando, desactivando esses alarmes na nossa central de comandos. A amígdala evoca essa memória, voltando a guardá-la mas sem a emoção. E é isto que quero dizer quando falo em ressignificar. Muitas vezes estas memórias não são conscientes, ou por não nos lembrarmos delas, ou por nunca pensarmos que aquela situação possa ter tido um impacto tão grande em nós. Mas sim, é assim mesmo que o cérebro funciona para nos proteger. Eficazmente demais, por vezes.

 

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