E Deus criou a mulher – feridas ancestrais

dance-1940245_960_720

Eva de seu nome. Das costelas de Adão. E daí surge o mito e a percepção distorcida de que a mulher precisa do homem, de ser co-dependente dele, de que lhe deve obediência e surgiu para lhe satisfazer todas as necessidades. E serve a mulher para procriar e cuidar do homem. O pecado original foi a mulher ter sido curiosa (e influenciável) e ter experimentado ceder à tentação e morder a maçã. Outro mito e percepção distorcida criada com esta metáfora: a mulher é a mãe de todo o pecado e foi ela que trouxe a desordem à criação.

Estes mitos foram implantados na psique colectiva e são difíceis de “arrancar”. A culpa e a necessidade de castigo que existem na psique feminina continuam a persistir aos dias de hoje. A necessidade de se subjugarem e se manterem estóicas na presença de relações abusivas surge desta crença enraizada de que a mulher deve ser persistente, cuidar, ficar, estar presente, ser submissa, aceitar as condições impostas por terceiros.

Até aos dias de hoje persistem crimes hediondos contra a liberdade e autodeterminação da mulher. Violações em massa, agressões, mutilação, indústria pornográfica e cinematográfica, sem falar da indústria da música, que sexualiza e objectifica cada vez mais a mulher e as nossas crianças e jovens estão a assistir a isto e a imitarem esses modelos.

As mulheres que estão sozinhas, sem relações, sofrem imenso porque não encontram companheiro, porque é esperado que elas casem e tenham filhos. Essa foi a missão terrena atribuída à mulher. E quando elas não encontram parceiro e não reproduzem? Não cumpriram a missão. E uma angústia e falta de propósito se apodera, ou pode apoderar, destas mulheres. Mesmo as independentes. Há sempre a “célula mãe”, ou “célula primordial” que activa esta memória.

De facto, o seu poder reprodutivo é incontestável. A mulher pode gerar vida. A mulher tem um dom incrível. Mas ainda existe na psique masculina a lembrança de que a mulher serve para os satisfazer. Os homens olham para mulheres atraentes na rua com luxúria, com olhares indiscretos, com piropos e comentários depreciativos, não solicitados e não desejados. Homens de certa idade ainda olham para jovens adultas com desejo, jovens que poderiam ser filhas deles.

E aqui continua a haver desigualdade. A mulher tem-se actualizado, tem-se “modernizado” e “masculinizado” também. As mulheres são os novos homens, de certa forma, numa tentativa de serem competitivas e não sofrerem também com o que é esperado delas, que não conseguem, ou não querem, concretizar muitas das vezes. E isto cria feridas profundas. Dúvida, insegurança. É um novo modelo ou forma de estar. E tudo o que é novo, leva um tempo até se ajustar e normalizar.

Mas voltando ao início. A dentada na maçã, no fundo, representa a necessidade da mulher de se individualizar. De ser independente, de decidir por ela. E todos estes séculos tentou, arduamente, esse propósito. E chegamos aos dias de hoje. A mulher moderna. A mulher moderna com feridas ancestrais, carregando no seu ventre o legado da mãe, avó, e todas as mulheres antes dela, que foram menosprezadas, violentadas, atormentadas, perseguidas, queimadas vivas, torturadas e utilizadas como objectos e bode expiatório da maldade humana.

Este tema toca-me profundamente e não sou ninguém para interpretar as escrituras sagradas, mas há um profundo simbolismo oculto nessas escrituras que devem ser vistas a uma nova luz, sem tomar partidos de masculino versus feminino. Mas sim no direito de todos os seres vivos à equidade, liberdade, respeito e dignidade.

Que o facto de ser mulher não represente menos do que ser homem. Ambos devem chegar a um estatuto de equilíbrio e respeito pelas forças arquetípicas que cada um representa. Cada um trazendo o melhor que diz respeito a cada polaridade. Honrando-se e respeitando-se. E que a mulher não precise, jamais, de carregar a culpa por querer ser livre e independente de conceitos e obrigações perpetuadas através dos milénios.

Responsabilidade espiritual

beautiful-16736_960_720

Tantas pessoas ditas “espirituais”, tantos discursos espiritualizados, tantas imagens e frases “espirituais”abundam nas redes sociais e nos discursos de muita gente. Tanta gente a trabalhar-se a esse nível também, com diferentes níveis de entendimento e consciência sobre a matéria.

O discípulo dito espiritual deve ser persistente, disciplinado, não julgador, deve purificar a sua mente e corpo de substâncias densas como o álcool e o tabaco, drogas e medicamentos, carne e produtos alimentares provenientes de produção de sofrimento animal ou humano. Deve exercitar a paciência, o perdão, o não julgamento e a transcendência do pensamento, sendo a mente subordinada às altas instâncias da alma.

Isto é ser um iniciado no percurso espiritual. Mas todos nós somos humanos, todos nós erramos, somos julgadores, temos preconceitos, a nossa mente pode ser vilipendiosa e crítica por vezes. Condenamos comportamentos alheios, ditamos opiniões e comentários acerca da vida das pessoas que nos rodeiam e mesmo daquelas que não conhecemos. Ficamos aborrecidos e chateados, criamos apegos a pessoas, empregos, situações e estilos de vida. Comemos e bebemos de tudo um pouco. Assistimos a programas, filmes e séries violentos, temos vícios e pensamentos destrutivos. Somos humanos.

Ser humano é ser errante, é ser dual. É ser terreno, ter corpo de dor e de desejos. Ter luxúria, orgulho, inveja e ciúme. É ter todas essas características e mais. É ter também a doçura, a candura, gentileza, compaixão, amor, carinho e todas as coisas bonitas que um coração humano é capaz de produzir a favor do bem. E todos somos espirituais. Todos somos habitados por uma matéria de energia superior, a alma, o espírito, a consciência, o eu superior, o que quiserem.

Vejo tanta gente a descobrir o caminho da espiritualidade, a comprar livros de autoajuda, a fazer terapias, mas depois a ser tão cruel em pensamentos e palavras. A julgar o próximo, quando este não se encontra “ao mesmo nível”, jorrando opiniões e explicações não solicitadas, acerca de um conhecimento e percepções incompletas, num estatuto de superioridade (e arrogância) espiritual.

O conhecimento espiritual é vasto, complexo. Deve ser incorporado, experimentado. Deve meditar-se sobre ele, aprofundá-lo e praticá-lo. Colocá-lo em prática na realidade diária, individualmente. Ter responsabilidade sobre ele. Não é dizer meia dúzia de lugares comuns e frases feitas que se interpreta o comportamento humano, as necessidades individuais de desenvolvimento de cada um. Praticar a aceitação e humildade torna-se das maiores necessidades actuais em termos da relação com os outros.

Não julgar que se sabe de tudo, que se sabe o que a outra pessoa pode precisar, de que forma precisa e em que rapidez o precisa fazer. Cada um está no seu patamar ou nível de desenvolvimento, entendimento e consciência. Cada um deve fazer o seu percurso ao seu ritmo. Não precisamos fazer todos a mesma coisa, da mesma maneira e à mesma velocidade, ou chegar ao mesmo sítio. Não podemos descobrir a “pólvora” e gritar eureka! Não é por se perceber meia dúzia de verdades que nos tornamos experts na matéria.

A consciência (autoconhecimento) quando amplia, faz-nos ver mais claramente o comportamento dos outros e o nosso também, as consequências directas e indirectas desse comportamento. Faz-nos ver a relação entre as coisas, temos maior clareza e discernimento. Mas que isso não nos torne superiores, que usemos esse conhecimento, sim, para nós, nas nossas vidas pessoais e íntimas. Que tenhamos práticas espirituais, seja meditar, orar, ler ou fazer retiros. Mas para nós. Que isso seja para nos melhorarmos como pessoas, seres humanos. Não para exercer influência ou ter poder sobre os outros.

Chama-se a isso ter responsabilidade, ou ética, espiritual. Sermos conscientes, humildes, simples, observadores. O conhecimento (e opinião) não solicitado pode ser devastador para outra pessoa, que esteja frágil ou insegura. Há a teoria de os outros serem os nossos espelhos, através dos quais podemos observar e monitorizar o nosso próprio comportamento, atitudes e formas de agir. Verdade, esses espelhos “devolvem-nos” o que estamos a reflectir, e podemos ver com mais clareza. Mas esses espelhos não devem servir para reflectir a imagem de Narciso, que precisa de ver a sua beleza (ou conhecimento e verdades absolutas recentemente adquiridas) reflectida nos outros.