As nossas partes

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As nossas partes são várias. São memórias, são emoções, sentimentos, pensamentos, fantasias, desejos, frustrações, mágoas, sonhos e ilusões. As nossas partes são confusas, por vezes. Atropelam-se, são impacientes, caprichosas e querem fazer-se ouvir. Têm necessidades e vozes próprias. Têm personalidade e habitam-nos de forma desconcertada. Essas partes chegam a dominar-nos, fazer-nos acreditar que são elas, principalmente o caso dos pensamentos e emoções. Esses dois grandes núcleos sobre os quais não me canso de falar. São eles que nos definem e nos fazem dirigir as nossas acções neste ou naquele sentido.

Falo sempre no sermos observadores dos nossos processos mentais e emocionais, esses dois nossos aspectos que entram muitas vezes em contradição. Somos razão e emoção mas a razão por vezes tenta prevalecer, ou às vezes é a emoção que quer levar a dela avante. E nesses casos transformamo-nos ou apropriamo-nos desses pensamentos ou dessas emoções como se de uma identidade própria se tratassem. Mas não são. Os pensamentos são processos mentais, as emoções são processos emocionais. Processos. O que quer dizer que não são a nossa identidade. Não nos definem a menos que o queiramos.

Pensamentos são projecções mentais, ruminações, elaborações ou conceptualizações sobre assuntos, circunstâncias, pessoas ou sobre nós mesmos. Emoções são emanações dos nossos sentimentos, afectos ou relativas aos nossos processos mentais. O que quer dizer que se dirigem no sentido do que estamos a pensar. As emoções acompanham os pensamentos. Sabendo deste circuito, podemos observá-lo, estarmos atentos e sermos consciência fria, voz imparcial do que se está a passar.

Qual o perfil do observador interno? Essa voz fria da consciência de que falo é uma voz presente, omnipresente na realidade. Sempre atenta, perseverante, inteira, sábia, intemporal e não julgadora. Uma voz que aconselha, orienta, sempre vigil. Quase como uma brisa, uma energia que nos habita dentro. Dentro do ser, das entranhas. Acredito que quando treinamos a nossa verticalidade, como gosto de chamar, encontramos essa presença em nós.

Já agora, o que é a “verticalidade” para mim? É um alinhamento que fazemos connosco mesmos, sentirmo-nos conectados a um todo organizado e presente em nós. É uma prática do nosso centro, da nossa essência. É encontrarmos um equilíbrio dentro, um espaço ou sentimento de presença, acolhimento. É sentirmos o nosso interior como um lago pacífico, a nossa parte que está sentada em posição de lótus, serena e benevolente, com um sorriso gentil nos lábios e uma expressão de concentração natural.

Este centro, para mim, é como um cerco físico não só dos nossos pensamentos e emoções, que brincam em recreios diferentes mas interligados e interconectados, movimentando-se entre eles como crianças cheias de vida e de cor, muito concentradas no que estão a fazer e alheias ao que se passa fora desses recreios, mas também do espaço que existe entre esses recreios e os nossos limites físicos ou cerco exterior. Existem, portanto, dois cercos mais pequenos que são constituídos pelo nosso campo mental e pelo campo emocional, e existe um jardim fora, delimitado por uma cancela ou pequena amurada, que são os nossos limites ou o cerco mais exterior.

O que falo aqui é em podermos circular entre esses dois recreios, sermos a pessoa adulta, consciente e tranquila, que observa, rega as flores, e se senta no muro, contemplando. Não sendo nem emoção nem razão, só observadora. Mestre da vida e de si, não precisa de nada nem ninguém. Assiste às estações a irem e virem sem, contudo, mudar a sua postura. Simplesmente é. Simplesmente está.

Quando encontramos essa presença, podendo sê-la, incorporando-a, dominamos a arte de ser e de estar em nós. Pode não ser constantemente que consigamos estar nessa verticalidade, mas, sabendo onde encontrá-la ou como cultivá-la, podemos conectar-nos a esse estado de ser. E nessa energia calma, pensamentos e emoções entram em alinhamento, como que em pausa, suspensos no éter, regressando aos sítios certos ou esfumando-se sem razão de ser.

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