A super-mulher

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A super-mulher faz tudo, é valente, forte e destemida, leva tudo à frente, é capaz de tudo, resiste a tudo. A super-mulher está para tudo, para todos. A super-mulher não chora, não descansa, não baixa a guarda, não abranda o ritmo. A super-mulher está sempre em movimento, num corre-corre constante. A super-mulher é assim todo o tempo, é energética e combativa, resistente e opinativa. A super-mulher não se fica. A super-mulher é extremamente racional, ponderada, sensata. A super-mulher põe as emoções de lado e aparece sempre com um sorriso e expressão determinada e confiante.

Mas a super-mulher também é frágil, tem vulnerabilidades como outro qualquer ser humano. Tem necessidades e precisa parar, abrandar o ritmo, por vezes. Precisa descansar e chorar, se for preciso. Mas a super-mulher não consegue fazê-lo, não. A super-mulher quando vem à consulta está cansada, saturada, exausta. A super-mulher quando vem à consulta diz que não consegue chorar, sentir. Mas tudo o que sente é tristeza e não percebe de onde vem. A super-mulher viveu muito tempo debaixo da sua capa de super herói e aguentou demais, demasiado tempo.

O que esta mulher precisa de aprender é aceder às suas emoções, permiti-las, permitir-se senti-las. Permitir-se descansar, repousar, fazer as coisas a outro ritmo, a outra velocidade. Esta mulher precisa aprender a respeitar os ciclos, as estações do seu ser emocional. Precisa despir a capa e substituí-la com vestes mais leves e permeáveis, porque esta mulher não se permite sentir, muita das vezes. Não se permite sentir a fraqueza, a dor, a mágoa, a tristeza, o cansaço, a si mesma, na verdade. Não se sentido a si mesma, não se permitindo ser também a sua parte vulnerável, cria esta couraça dura e resistente, que a faz afastar de si mesma e, por vezes, dos outros também.

Ao acontecer esse afastamento da sua essência, do seu ser emocional, esta mulher desliga-se, muitas vezes, da realidade de si mesma. Vive em piloto automático. “Parar é morrer” é o seu lema, porque não se permite sentir, parar, ou ficar no vazio de ser ou estar sem actividade. Mas esse estar no vazio ou estar em nós, é o exercício de maior plenitude e encontro que podemos ter. Então esta mulher até tem dificuldade em descansar, a maior parte das vezes. Porque o descanso implica reduzir a actividade, a velocidade, o ritmo, e “desligar” os sistemas cerebrais, sempre activos.

O desafio na terapia com estas mulheres, ou mesmo homens, é fazê-las aceitar esse abrandamento de ritmo, cruzar os braços ou aligeirar a armadura e baixar as armas. Sentir as emoções que lhes fluem debaixo do corpo, debaixo da carapaça. Ir ao encontro delas mesmas. Da essência que lhes teima em falar. Parar e ouvir, escutar os sussurros da alma.

Precisam aprender a reconhecer as necessidades emocionais e físicas também. Porque quando estas pessoas procuram terapia, o corpo já está a dar de si. Já tem queixas psicossomáticas que os médicos não conseguem explicar. E nesse momento a mente deprime. O corpo entra em colapso, recusa-se a dar passo. E estas mulheres, revoltadas, não aceitam os limites que o corpo está a impor actualmente.

E eu digo: sim, parar não é morrer, parar é descansar, é bom e faz falta. A depressão que se instalou? É porque deu demais em demasiado tempo ou demasiadas vezes. Não consegue explicar o porquê da depressão? Olhe para os últimos anos da sua vida. Quando foi a última vez que parou, descansou, usufruiu de estar simplesmente sem fazer nada? De ter tempo de qualidade para si? Sem estar sempre em actividade? Que situações emocionais enfrentou? Perdas, separações, mudanças, cuidar de outros…

A capacidade física, mental e emocional é limitada. Precisamos aprender a reconhecer os nossos limites, porque quando eles são ultrapassados, a mente vai sinalizar. E normalmente é em estado limite e aí o organismo deprime, a mente deprime, perde as capacidades, as faculdades normais. A mente precisa repousar e o corpo também. Nessa altura é altura para as emoções serem atendidas.

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