Padrão dos castigos

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Uma das grandes dificuldades dos professores é manter a calma na sala de aula, a calma dos alunos, ou manter a calma de si mesmos na presença de alunos desordeiros, complicados, barulhentos ou distraídos.

Há quem diga que caras simpáticas não pode ser porque as crianças ou os jovens irão sentir demasiado à vontade e abusar, sendo assim, uma cara mais séria ou carrancuda poderá dar ao professor esse estatuto de que “com este não posso fazer farelo”, e fazer com que a turma esteja mais quieta ou silenciosa.

Há também professores que não se importam nada com isso, e são os professores “porreiros” ou “cool”, desenvolvendo boas relações com os alunos, relações mais informais ou de maior proximidade mesmo fora da aula, em contexto escolar.

De uma forma ou de outra, a infância e a adolescência não é uma altura fácil para os jovens. Muita informação, muitos estímulos, muita transformação, muitas dúvidas, inseguranças, dramas e dificuldades, quer nas notas ou nos estudos, com os colegas, em casa, namoros, etc.

Todos nós já fomos alunos e sabemos o que se passava em nós e nas nossas cabeças quando tínhamos aulas, tínhamos de estudar ou fazer trabalhos, e havia dias em que a concentração ou a vontade não abundavam. Ainda para mais quando estávamos chateados com alguém, ou alguém estava chateado connosco. Amigo, pai, mãe, colega, quem fosse.

As matérias são extensas, os horários também. As relações interpessoais são de uma complexidade estonteante, são jovens ainda a aprender sobre eles, sobre os outros e sobre o mundo. Qual a melhor forma de agir ou reagir perante os acontecimentos, os pais em cima a controlar (ou não) as notas, o tempo nas redes sociais, se podem ou não sair neste ou naquele evento que-por-acaso-até-é-super-importante porque vai não sei quem. O que é dito, o que é feito, os “grupinhos”, os amigos e as amigas, as fofoquices, as intrigas…

Cada dia uma batalha, para o jovem e para o professor, e também para o pai e a mãe. Todos andam cansados, seja por que motivos seja, mas hoje o assunto são os castigos. A conversar com duas pessoas que trabalham com jovens diariamente, uma falava-me de que a forma de manter os alunos com atenção, ou pelo menos quietos, envolvia sempre alguma forma de castigo. No sentido de os próprios alunos esperarem que se chateiem com eles para poderem parar com um comportamento indesejado.

Ser esperado que alguém se chateie. O limite do comportamento como o limite do adulto. O jovem ir até o adulto não poder ceder mais e impor uma consequência. Não é assim que aprendemos? Limites e castigos. Outra das pessoas com quem falei, falava da retirada de uma coisa boa como castigo. Os miúdos que são bons a jogar à bola ou em qualquer outro tipo de desporto, quando não tiram boas notas são impedidos de praticar esse desporto. Ou quando têm teste não podem perder tempo nessa actividade.

Há aqui dois aspectos: quando um aluno não é muito bom nas várias disciplinas mas o é no desporto, não lhe tirem a única coisa em que ele se pode sentir mesmo bom, ou a única coisa de que ele gosta mesmo muito. Não é um bom incentivo. Segundo: quando há teste e torneio, campeonato, jogo, aulas ou treinos de alguma coisa, o estudo deve ser reorientado para ser realizado antes, ou com mais tempo, considerando que o jovem tem aquele compromisso.

O desporto é das coisas mais fundamentais para o bom funcionamento cerebral, autoconfiança e autoestima. Sentimento de pertença, recompensa e autocapacitação. Os limites precisam de existir, consequências também. Mas proibições devem ser utilizadas com precaução e negociações podem ter de acontecer nesses casos. Todos sabemos que não é a proibir um jovem de fazer algo que o vai impedir de fazer esse mesmo algo. Mais vale uma conversa sensata e adulta, com as várias possibilidades de acção e consequência, responsabilizando o jovem das suas condutas.

Apesar deste tema ser extenso e não se limitar nestes parágrafos, penso que uma mudança na atitude parental seria bem vinda. O de acabarmos com os moldes que, no fundo, nos foram transmitidos e herdámos da nossa família. Os tais padrões parentais que falava na entrevista que dei para o Pés na Lua. A aprendizagem pelo medo, pelo castigo, pelo autoritarismo.

Devemos exercitar, sim, o ensino pela gentileza, benevolência, diálogo aberto e franco, bondade, compreensão e aceitação do jovem nas suas dificuldades enquanto ser humano em crescimento. E isto implica presença. Uma presença sólida, sóbria mas gentil. Estar presente em nós, conscientes, para estar presente para o outro e para o que ele precisa.

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