Apoio e protecção

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– Devo apoiar ou dar protecção à criança? O que é melhor? São coisas diferentes ou é a mesma coisa?

– Deves apoiar… Protecção dá a entender que precisas proteger a criança a todo o custo de sofrer, de errar, e colocá-la, novamente, numa redoma, para que não se magoe…

– Mas ela precisa disso!

– Precisa? Ou és tu que precisas de te sentir segura e protegida?

– Talvez…

– Então eu sugiro que apoies essa criança no processo dela, no crescimento, estando presente só no que é necessário para que ela, daqui para a frente, possa crescer por ela própria, cometer os erros que tem de cometer, porque a vida, no fundo, é isso… Tentativa e erro. É assim que aprendemos. Se lhe retirarmos essa liberdade, e espaço, ela nunca vai aprender a subsistir por ela mesma e estará, para sempre, dependente de ti e da tua protecção…

Este diálogo surgiu no decorrer de um exercício de criança interior. Óbvio que se tivermos filhos devemos apoiá-los e protegê-los no que eles necessitarem. Mas a protecção não deve ser superprotecção. Todas as crianças precisam de uma forma de protecção, pois são seres indefesos que precisam, e são dependentes de nós até determinada idade. Precisam também de ter liberdade e espaço para cometer os seus erros e aprenderem com as consequências, mas perceberem, igualmente, que podem ir mais além. Que é possível e desejado.

Na sobreprotecção, ensinamos o medo, a dependência, a falta de confiança, a insegurança e a ansiedade, a expectativa temerosa. Se não dermos asas a uma criança, ou as cortarmos sucessivamente, teremos um adulto medroso, ansioso, com dificuldades de enfrentamento ou assertividade, com falta de firmeza pessoal ou autoconfiança, que duvida de si mesmo. Há sempre excepções e todas as pessoas podem ultrapassar os seus medos e as suas limitações, se assim o quiserem e treinarem para isso.

Todas as pessoas com quem trabalho sabem que sou apaixonada pelos exercícios da criança interior. Todos beneficiaríamos de os fazer, para contacto com todas as formas de vulnerabilidade e sentimentos sobre nós mesmos. Acolher todas as nossas partes com amor é o exercício mais curativo que conheço. O delicado equilíbrio entre o dar espaço e liberdade, e proteger ou defender é um movimento de dar e refrear. Também precisamos de nos desafiar, de nos exceder, por vezes. E isso não pode ser feito numa medida de protecção e contenção constantes.

Há mergulhos no vazio e em precipícios, que não sabemos onde vão dar ou no que vão resultar, mas que precisamos de dar. Ao nos expormos mais e mais, enfrentarmos o que é de enfrentar, criamos resistências, forças, capacidades, qualidades, e autoconfiança, autoestima, quando nos provamos a nós mesmos que é possível ser mais, fazer diferente e chegar onde sonhamos. Dar o salto é a melhor forma de crescer, para fora e para dentro. Atreva-se a fazê-lo e veja os resultados que pode trazer para a sua vida.

As mães (ou pessoas) narcísicas

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As mães narcísicas, mas também os pais, os filhos, irmãos, a tia, a avó ou o sogro ou a sogra, são personagens difíceis. Perfis inflexíveis, irredutíveis, altivos, com incapacidade de assumir o erro, ou pedir desculpas. São as eternas vítimas, que ninguém compreende ou dá o valor suficiente, pessoas orgulhosas, por vezes manipuladoras (com ou sem consciência disso), que esperam obediência, submissão e correspondência dos seus familiares. Correspondência a desejos, caprichos e necessidades, porque este tipo de pessoas só consegue ver as suas próprias necessidades.

Sim, são o tipo de pessoas egocêntricas, cuja estrutura de personalidade está moldada de uma determinada forma, que não lhes permite flexibilidade, empatia, compaixão por outros, introspecção ou espírito crítico sobre si. Fazê-lo é altamente destruturante e ameaçador para estes perfis. Estas estruturas estão organizadas sobre si mesmas sob a forma de defesa e protecção, “eu vs o mundo ou os outros”. Não existe meio termo. Estas pessoas não têm a capacidade de ver para além do seu próprio conceito, ideia, crença ou expectativa.

Estas pessoas têm altas expectativas sobre os outros, sem qualquer tipo de merecimento, por vezes. Ou seja, não fazendo nada em concreto para merecer o suporte ou o apoio de outras pessoas, nomeadamente dos familiares, que tentam desesperadamente agradar ou aquiescer às vontades, muitas vezes, exageradas ou impensadas, relativamente ao bem-estar de outros. O que quer dizer que só as suas próprias necessidades importam e devem ser, a todo o custo, satisfeitas.

A consequência de não se prestar vassalagem é o desprezo, a vitimização, a retirada de amor ou afecto, a indiferença e a culpabilização (e às vezes, alguma forma de vingança pessoal). Estas pessoas não aceitam ou respeitam, ou sequer compreendem, a noção de espaço pessoal ou limites. Quebram todos eles, todos os protocolos porque não há a capacidade de se colocarem no lugar do outro ou de se questionarem sobre os próprios actos ou atitudes. Tudo é justificado. “Se não fazes o que preciso, não mereces o meu amor”, é o pensamento inconsciente e a atitude que ostentam.

Como se lida com estas pessoas? Primeiro há que identificar o padrão patológico de funcionamento relacional destas pessoas, observar, e afastar-se emocionalmente. Tratar com cordialidade, respeito, mas assertivamente, mantendo limites claros. Não entrar em discussões ou argumentações fúteis. A pessoa narcísica vai gostar? Não, não vai. Normalmente há a fase de amuo, de queixas a quem quiser ouvir, e, posteriormente, agir como se nada se tivesse passado, nunca, jamais, assumindo a culpa sobre o que seja ou mencionando o assunto novamente.

As outras pessoas devem acomodar-se, não mencionar mais o sucedido, e o reino voltará novamente à paz, com este rei ou rainha tirano, com dupla moral. Há aqui um complexo de governante, aristocrata ou deidade. “Eu acima de tudo o resto”. Não há a capacidade de olhar para dentro, reconhecer o erro e emendá-lo. Mesmo que haja, há a dificuldade em assumi-lo e pedir desculpas por ele.

Pode quebrar-se este ciclo vicioso e pode evadir-se deste reinado, só tem de aprender a dizer não, a reconhecer as suas próprias necessidades e fazer aquilo que é justo, e certo para si. Você não tem a responsabilidade perante aquela pessoa, se essa pessoa é adulta. Cada um deve assumir o papel que é seu, e ser responsável por ele. Quando não é capaz de tal responsabilidade, não pode ser você a suportar esse mesmo papel.

Como quem quebra correntes, há a necessidade de reconhecer o seu valor, aquilo que precisa para ser feliz e fazê-lo, a todo o custo, sem se deter sob a ameaça de amuo, vitimização ou culpabilização da outra parte. Mesmo que essa outra parte não pareça compreender, ou aceitar as suas necessidades. Na verdade, não precisa fazê-lo. Só você pode viver a sua vida, preferencialmente, sem se sentir culpada. Caso não consiga romper esses grilhões sozinha, procure ajuda para poder desconstruir estes conceitos.

Aquilo que tomamos como certo

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Aquilo que tomamos como certo não nos deixa evoluir. Há que questionar, ter espírito crítico. Se nos submetemos a tradições ou hábitos culturais, podemos estar a repetir as mesmas coisas, e da mesma forma, desde os tempos medievais. E é o que acontece em relação a muitas práticas modernas, com origens nesses milénios atrás.

Falo dos funerais/velórios. Fui a um recentemente e fiquei chocada com a disposição da sala do velório: o caixão no meio, cheio de flores em cima, e cadeiras/sofás dispostos de cada lado, fazendo duas filas. As pessoas sentadas em um dos lados, todas viradas para o caixão e sentadas lado a lado.

Primeiro, não promove a circulação de pessoas, o convívio e o diálogo. As pessoas ficam a olhar para o vazio, ou para o nada, imersas em pensamentos sobre a sua própria existência e finitude, pensamentos sobre outras pessoas que já partiram, e memórias de outros funerais e perdas. Fica tudo encerrado em si mesmo e não há partilha de sentimentos.

Quando alguém chega, todos olham, e essa pessoa terá de cumprimentar um por um, respeitando a ordem da fila dos bancos, mesmo que não conheça, e sentar-se como todos os outros, com o máximo de discrição possível para não perturbar o estado de ânimo. Há silêncio, fechamento, introspecção e vazio.

Segundo, ninguém come. O corpo chega às horas que chegar e o limite é a meia-noite para se estar ali. As pessoas vão chegando, prestando as suas condolências, sentando-se, e o martírio é aguentar estoicamente até que se fechem as portas da morgue. Penso que deveria de haver águas e acepipes e as cadeiras estarem dispostas de forma diferente, de forma a todos poderem circular e conversar, estarem em pé e haver movimento.

Os funerais na América são assim, e na Irlanda nem se fala, é uma festa autêntica. Mas o povo português é pesado nos seus rituais de morte, quase masoquista. Há uma cruz que se deve carregar, um sofrimento auto imposto, há as mulheres carpideiras que, graças a Deus não devem ter sabido deste funeral, para irem chorar as mortes de quem nem conhecem, porque é tradição e, na tradição, deve ser feito (porque sim).

Não sei quando se instalou tal tradição dos velórios (quem quiser saber mais sobre o assunto pode ler aqui), mas o que é certo é que me parecem desactualizados e desenquadrados da vida moderna. Toda a gente aquiesce e se submete a essa tradição, sem saber nem como nem porquê, sem se questionar. Eu só sei que quando lá entrei só pensei em levantar toda a gente, mudar a disposição das cadeiras e pôr toda a gente a falar, despertando todos daquele transe do “estamos aqui, temos de sofrer e lamentar quem partiu”, mesmo que não conheça bem a pessoa e esteja ali só para apoiar a família.

Mas como eu apenas questiono as tradições e não participo na sua mudança ou transformação, não fiz nada disso. Questiono-me por todas as coisas que tomamos como certas, que, na realidade, são a massa e a estrutura de todas as sociedades e culturas. São aquelas coisas fáceis e simples, que já estão instituídas e apenas temos de seguir e comparecer. De certa forma ajuda, a organizar e sustentar a nossa vida social, mas intrigou-me profundamente.

Considerando que a última vez que tinha ido a um funeral foi há cerca de 20 anos, percebi que as coisas mantêm-se. Apesar de não me identificar com estas práticas, vejo que elas são necessárias para manter a ordem e a estrutura. As pessoas precisam habituar-se à ideia que aquela pessoa já não vai estar cá, assegurando-se disso no velório, fazendo as suas últimas despedidas e permitindo que essa despedida seja feita de forma gradual enquanto se caminha atrás do caixão e, no momento final, quando o caixão entra no chão para ser enterrado, ou então colocado em um gavetão, que é depois encerrado.

E são essas as tradições na hora da morte, os nossos rituais meio macabros, necessários de alguma forma, mas não sem necessidade de reformulação, a meu ver. E quem diz rituais fúnebres, diz outro tipo de tradições que, se não contestadas ou questionadas, são repetidas até à eternidade. Mas os costumes e tradições mudam, evoluem, transformam-se, e ainda bem. Sem mudança não há evolução.

Nós crescemos, mudamos, evoluímos, transformamo-nos e, como tal, as tradições e os costumes devem acompanhar. Sem mudança não há transformação nem crescimento. As sociedades também precisam disso. Claro que há estruturas difíceis de mudar, a política, o ensino e a religião, por exemplo. A própria mentalidade é onde reside a capacidade, ou não, de mudança. É mudando mentalidades que se podem introduzir alterações e mudanças a estruturas.

Quem está no poder, procura esse mesmo poder. E quem procura esse poder, normalmente, são estruturas rígidas, obsoletas e inflexíveis. Podemos ver alguns presidentes de grandes impérios como representativos do que estou a dizer. E quem está no poder não pretende mudanças, vejamos a indústria petrolífera, por exemplo. Em extinção. Quantas fontes de energia alternativa já foram descobertas e testadas entretanto?

Uma sociedade informada, esclarecida e consciente, tem a capacidade de introduzir a mudança. Pouco a pouco, contestando, questionando-se, pensando, reflectindo, fazendo diferente, pode fazer-se muito. Podemos fazer muito com muito pouco, apenas com a nossa capacidade crítica sobre o que é instituído. Falar sobre isso, seguir correntes de mudança, sermos ecológicos, preocupados, reduzirmos o consumismo, introduzindo pequenas mudanças. Se cada indivíduo transformar a sua forma de viver, pode transformar o mundo com o seu exemplo.

Somos seres sociais, e, como tal, aprendemos com o exemplo. Se mais e mais pessoas seguirem uma determinada tendência, ou introduzirem determinadas mudanças de estilo de vida, mais e mais seguem o exemplo. Se “contaminarmos” mais e mais pessoas com as nossas mudanças, mais e mais pessoas vão passar a pensar, e ver, como nós. E aí sim, se dá a verdadeira evolução, e revolução. De ideais, valores e hábitos.

O mês de dezembro

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O mês de dezembro é um mês especial. Encerra em si vários potenciais ou ideais: a família e o futuro. Na virada do ano, há quem faça anos, somando ao, por vezes, forçado ajuntamento de Natal, e ao contemplar o que se fez ao longo do ano, revendo conquistas (ou não) e projectando-se no novo ano. E isso pode trazer alegria e felicidade, ou, pelo contrário, frustração, tristeza ou desilusão.

Para muitas pessoas, esta altura é o terror. Há famílias que não têm um funcionamento caloroso ou harmonioso. Há casas e pessoas pouco acolhedoras, famílias ou elementos com os quais podemos não nos identificar, famílias separadas, pessoas separadas, e tem de se cumprir a tradição, senão o mundo colapsava. Prendas obrigatórias que têm de se comprar, nem que seja para o sobrinho-cunhada-afilhado-mãe-namorado-melhor amiga, sei lá.

Há uma certa obrigatoriedade de se viver o Natal. Há os jantares de amigos, de colegas, de trabalho. Há o frenesim das compras, das prendas, das comidas. As ruas estão decoradas, os shoppings cheios, as pessoas cheias de “Boas Festas” nos lábios e na intenção. Bolos rei por todo o lado, azevias, filhós e pais natal.

Peripécias de Natal à parte, que são só dois dias (na verdade, uma noite e metade de um dia), o que ainda traz mais peso (mas menos stress do que o Natal) é mesmo o Novo Ano. Com o fim do ano vem o balanço de tudo o que se fez, conquistou ou deixou de conquistar. Pode vir culpa, recriminação, tristeza, desânimo por isso, ou, por outro lado, alegria, entusiasmo, apreço, autoconfiança e optimismo.

Consoante como correu o ano em termos de trabalho, saúde e relacionamentos, se fizemos o que nos propusemos ou não, se mantivemos o foco ou não, se concretizámos desejos ou aspirações ou não, vai determinar o nosso estado de ânimo nesta época. Se aconteceu, ou fizemos mais do mesmo, vamos ter uma sensação de que ficámos em falta, em falta para nós e para com algum compromisso interior que não honrámos.

Independentemente de como se sentiu, queixo para cima! Todos os dias são uma nova oportunidade de criar expectativas, por favor não tenha medo de as criar para não se desiludir, vale sempre a pena quando insistimos naquilo que queremos, seja uma relação, uma forma diferente de se relacionar consigo, um novo hábito, tornar-se saudável, comer equilibradamente, perder uns quilos, ser feliz. Todos merecemos.

O novo ano vai servir para isso, sacudir o pós dos planos, da tal bucket list, criar objectivos, sejam eles quais forem. Decidir as férias e o que fará nesses dias, seja um passeio, uma viagem algures, tirar um curso, fazer um retiro, ler aqueles livros que tem na prateleira à espera que seja o dia de os ler. Há que criar expectativas, planos, senão o que é o futuro senão um deserto existencial, uma folha em branco ou uma continuidade do que se passou?

Serve para todos, em todos os contextos. Pode preferir que o futuro seja essa página em branco, que na verdade é. Mas também pode lá colocar marcos, milestones, de sítios onde quer chegar em termos de desenvolvimento pessoal, concretizações profissionais ou outras, você escolhe.

Há que ter a visão para lá chegar, aproveitando para trabalhar a sua relação consigo e com os aspectos familiares que não estão tão bem em si, arranjando forma de se conciliar com a família que tem, caso seja necessário. Por isso, que esta altura sirva para, ao menos, isso. Chegar a decisões de melhoria ou alteração de padrões que não lhe trazem satisfação.

Ser mãe e pai das emoções

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Sim eu sei, elas são chatinhas, corrosivas, impertinentes, birrentas, perturbam a nossa paz, aparecem sem serem convidadas, permanecem mais tempo do que é necessário e, quando estamos descansados, voltam uma e outra vez, até ao infinito. Engane-se quem julgue que um dia isso acaba ou acalma, não é verdade. Por mais trabalho de autodesenvolvimento que faça, as emoções fazem parte da nossa malha e serão eternas companheiras.

As emoções fazem parte de nós, da nossa humanidade. Algumas emoções já foram estudadas/comprovadas nalguns animais, mas é o que nos faz ser humanos e é o que nos faz sentir. Servem de alarme, de aviso, de lembrete e servem para nos mostrar o mundo, sentirmos o mundo, as situações e as pessoas. Servem para antecipar e para apreciar os momentos. Vêm de um sistema ancestral, um sistema límbico.

Nós não gostamos de estar tristes, revoltados, com raiva, ou frustrados. Chamamos-lhes emoções negativas: ficamos tristes por nos sentirmos tristes, frustrados porque estamos frustrados, e revoltados porque nos sentimos desanimados. Costumo dizer que podemos criar um espaço entre o que sentimos e o que pensamos, entre a emoção e a racionalização dessa emoção, que é o que costumamos fazer. Como tal, mantemos por mais tempo do que o necessário esta mesma emoção, e a isso, podemos dar o nome de sofrimento (quando é uma emoção dita “negativa”).

Mas mais que criar esse espaço, bastante útil e necessário, a meu ver, é acolhermos essas emoções, tal como um pai ou mãe amorosos acolheriam os seus filhos apoquentados com alguma coisa. E esta é a beleza da autoestima e autoaceitação também: não criarmos resistências ou defesas em relação às emoções, ou então elas acumulam-se que nem lixo emocional ou bichinhos papões debaixo da cama, povoando os nossos sonhos e provocando os nossos medos.

Quando nos permitimos sentir sem julgamento, criando o tal espaço, podemos, de seguida, acolher essas emoções, deixando-as ser exactamente como elas são. Ruidosas, desesperadas e espaçosas. Quando lhes sorrimos e dizemos: “está tudo bem, conta lá, o que se passa?”, elas choramingam em nós, libertando-se do peso e transformando-se em algo leve, até que se dissipam, não deixando quase memória.

As emoções deviam ser assim, aceites, acolhidas e reverenciadas, sendo ouvidas e compreendidas, que é, no fundo, o que elas pedem: compreensão e acolhimento. Ao fazermos isso, permitimos que a tempestade passe, não nos levando com ela. Se racionalizarmos, estamos a criar mais e mais do mesmo, indo rebuscar no baú das memórias, porque é isso que o cérebro faz, pesquisa por associações semelhantes e traz mais do mesmo. Se pararmos o circuito, as emoções não se detêm em nós, et voilá! De bem com a vida novamente.

Biblioteca de conhecimento

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Eu acredito que temos em nós uma biblioteca de conhecimento incognoscível. Uma pasta de arquivos infinitos ou imensuráveis ou várias pastas, com vários arquivos. Tal biblioteca gigante, com um interior tão cheio e rico dos mais variados tipos de livros, capas e contracapas.

Livros vermelhos, livros cinzentos. Pergaminhos, livros compridos, livros pesados. Livros puídos, livros misteriosos. Livros com poeira, livros brilhantes, livros bonitos. Livros assustadores e livros em branco.

Neles existem o nosso passado, o nosso presente e o nosso futuro, sob a forma de potencial e histórias possíveis com os mais variados desfechos. Quanto mais exploramos, crescemos e nos arriscamos, mais fortes ficam esses potenciais. Da mesma forma que quanto mais nos aproximamos de uns, outros perdem-se pelo caminho, apagam-se ou esmorecem.

Nessa biblioteca consta também o nosso passado, todas as personagens que fomos, todas as histórias em que participámos, neste e noutros tempos, porque a nossa existência é feita de vários tempos e ciclos.

Na hipnose podemos revisitar essas histórias, recordar e sarar as dinâmicas aí contidas. Recordar, perceber e cicatrizar, ou resgatar, as personagens que fomos e pudemos ser. Podemos visitar essa biblioteca, pedir para os seus arquivos ficarem disponíveis ou as partes que são importantes para o nosso trabalho de cura.

Ao acedermos às várias partes dessa biblioteca, acedemos às nossas várias partes também, todas as partes que nos compõem e explicam a nossa história e porque somos como somos, agimos como agimos, sentimos como sentimos. Nessa biblioteca, o desconhecido faz-se conhecido, o que se perdeu na memória recorda-se novamente, o que não se perdoou pode agora perdoar-se.

A biblioteca é o nosso conhecimento, recordado ou não, presente ou não, consciente ou não. Nessa biblioteca encerram-se várias chaves, vários portais para várias partes de nós. Temos toda uma vida para a explorar, tal como temos toda a vida para desfolhar todos os livros que nos podem ajudar a chegar lá, a esse sítio ao qual queremos chegar.

O que todos queremos

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O que todos queremos não é fama, riqueza, aparecer na TV, ser famoso. O que nós na realidade queremos é reconhecimento. Merecimento, aceitação e pertença. Queremos que nos vejam pelo que na realidade somos, pela nossa verdade, capacidades e características. Queremos ser aceites por isso, nas nossas falhas e limitações também.

Não importa se temos todo o dinheiro do mundo, carros, casas, negócios e pessoas à nossa volta, se tudo o que nos falta é o amor de outro ser humano, o amor desinteressado, sincero e abnegado. Todos queremos ser vistos, ouvidos, reconhecidos e compreendidos. Todos queremos fazer parte de algo, de um grupo de pertença, de uma família. Queremos fazer o que gostamos, queremos ser felizes, amar e ser amados.

Queremos ser alguém também, sim, mas quem só vive de aparências, tem todo um vazio que não consegue preencher com bens. Tudo o que se acumula e alcança pode não ser mais do que algo para ocultar, substituir ou distrair da dor, da falta de amor, de reconhecimento, seja de si para si como dos outros por si.

A dor e o sofrimento fazem-nos procurar várias formas de escapismo e fuga dessas mesmas sensações e sentimentos. Pode fugir-se através do fundo de um copo ou garrafa, através de fumo, jogo, sucessivos relacionamentos, através do trabalho, ou do que seja. Para não sentir dor somos capazes de tudo. A nossa maior arma é o nosso instinto de sobrevivência. Tanto nos mata a nós, submetendo-nos a situações desagradáveis para nos mantermos vivos ou salvos, como mata a outros e a possibilidade de sermos felizes nos nossos relacionamentos, para nos protegermos.

Na sobrevivência não vivemos, existimos. Fazemos o que nos pedem ou o que achamos que temos de fazer para ganhar o nosso ou mantermo-nos seguros, mantendo-nos, muitas vezes, em sistemas de escravatura emocional, seja no trabalho ou em um relacionamento. Temos medo de ficar sozinhos, desvalidos, desprotegidos. E nesse medo, somos capazes de nos manterem situações inimagináveis.

O que queremos, na realidade, só pode ser encontrado dentro, em nós. Na nossa força pessoal, poder interior, na nossa essência e através dela. O que todos queremos, no fundo, é estima, amor próprio, porque com ele, podemos ser e fazer o que quisermos. Quando, profundamente, nos amamos e aceitamos, não há uma necessidade de agradar e ser agradado (apesar de poder acontecer e isso também ser desejado), não há uma necessidade de impressionar ou mostrar.

O reconhecimento e o merecimento são uma e a mesma coisa, apesar de poderem ser vivenciados e recebidos de variadas formas. O reconhecimento vem de fora, é o que esperamos que os outros vejam em nós e diz respeito à nossa expectativa sobre os outros: que eles reconheçam o nosso valor. O merecimento diz respeito àquilo que achamos que merecemos, consoante o valor que achamos que temos. Também ele pode ser reconhecido ou decidido por outra pessoa.

Para mim, o reconhecimento só é necessário quando achamos que merecemos esse reconhecimento. Se, por nós mesmos, já nos sentirmos merecedores, ou valiosos, pelo que somos ou fazemos, merecedores de sucesso, amor, carinho, felicidade, não precisamos que ninguém reconheça o valor que, no fundo, já sabemos que temos. Agora, se esse valor for condicional ao que os outros reconhecem ou deixam de reconhecer, temos um problema.

Todos queremos ser reconhecidos pelo que somos ou fazemos, certo? Mas se as outras pessoas não o fizerem? O pai, a mãe, o professor ou professora, chefe, patrão ou patroa… Ficaremos para sempre à margem de um desgosto e expectativas defraudadas. Então eu digo; mais que dizer, eu afirmo: você é suficiente, você é merecedor. Não interessa o que dizem/fazem ou deixam de dizer/fazer. Você é digno e você tem valor. Reconheça-o em si. Encontre-o, descubra-o. Tudo o resto deixa de ter importância quando o encontra.