Perfeccionismo e tolerância

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O perfeccionismo é uma coisa muito comum. A necessidade de controlo e a baixa tolerância ao erro também. O sermos muito críticos e duros connosco também e deriva tudo do mesmo lugar: cultura e educação ou repetição de padrões.

Os nossos pais tiveram educações muito severas, não esquecer que os nossos ancestrais são de uma época pré 25 de abril, e os nossos pais têm as influencias ditatoriais que experimentaram na primeira mão ou através dos próprios pais, neste caso nossos avós. Principalmente para quem tem actualmente cerca de 30 anos ou mais, vem como prole de uma geração sofrida, trabalhadora, humilde e submissa à lei ou autoridade vigente.

Nós somos uma geração reivindicativa, que nasceu em liberdade e cujos pais já puderam dar outro tipo de condições, como pagar estudos superiores, dar brinquedos, etc. Somos uma geração digital, com cultura, formação, conhecimento e liberdade de expressão e de movimentos. Tivemos a vida facilitada, de certa forma. Não falo aqui de excepções, que sempre as há, mas nós somos a geração de transição.

Transição de quê? De hábitos, costumes e tradições. O que dantes não era permitido agora já o é. O que era proibido tornou-se banal. Podemos ser quem quisermos, fazermos o que quisermos (dentro das normas) e ir onde quisermos, com toda a liberdade possível. Mas somos fruto da geração pré 25 de abril… O que quer dizer que ainda carregamos em nós memórias, registos ou padrões recebidos culturalmente que são passados pela educação que temos em casa, mas também fora dela.

Essa educação ensinou-nos, de certa forma, a termos medo do sucesso, da atenção, da glória ou prosperidade. Ensinou-nos que temos de baixar a cabeça, ser obedientes, suportar a crítica ou autoridade. Temos de ser humildes e cumprir as regras, o que nos é dito. Não podemos ser vaidosos ou egoístas, devemos dar o corpo ao trabalho, trabalhar até nos ser possível trabalhar, receber o que nos pagam e contentarmo-nos com isso, vivendo uma vida mais ou menos remediada.

Devemos seguir o molde tradicional de estudar, arranjar um trabalho, constituir família e ir de férias ocasionalmente, ocupando-nos dos créditos habitação e automóvel. Isto é o modelo do passado, aquele modelo que ainda repetimos ou tentamos repetir. Porquê? Porque é que isso é o correcto e o universal? Está escrito na bíblia. Teve de se criar uma organização social de forma ao povo estar controlado e ter comportamentos previsíveis. E assim se estruturam culturas e sociedades.

Estou a ser muito redutora aqui mas é para fazer um enquadramento à coisa. Então onde encaixa aqui o tema do perfeccionismo e a tolerância? Somos perfeccionistas porque fomos educados para evitar o erro (e o castigo, consequentemente) a todo o custo. Para evitarmos o castigo (e o erro) controlamo-nos ou monitorizamo-nos constantemente, ainda assim não tenhamos um deslize irremediável para as nossas vidas.

Nós humanos fazemos de tudo para evitar a dor, o desconforto, então protegemo-nos. Que melhor forma de proteção arranja a nossa querida mente? Fazer tudo de forma a não errar: perfeccionismo. Com o perfeccionismo, carregamos todos um soldado interior hipervigilante, descontente, crítico, ríspido e empedernido que nos tem sempre debaixo de olho. É uma questão de vida ou de morte, falhar não é aceitável. Errar é motivo de uma grande repreensão.

Mas o que é a vida senão tentativa e erro? Fracasso, frustração e desilusão? Tem todas as coisas boas, mas não podemos passar sem o resto, toda a panóplia de emoções do branco ao preto. Errar é humano. As nossas mentes precisam aprender que já não vivemos numa ditadura. Que podemos viver livremente e não estamos sob o escrutínio de ninguém, nenhum governo, sem ser o nosso.

Precisamos aprender a tolerância. Exercitar a tolerância. Tolerância a nós, à nossa mente primitiva que aprendeu assim, tolerância ao erro e ao fracasso e tolerância à vida, a quem nos ensinou ou aprendeu que tinha de ser de determinada forma. Forma essa que já não cabe mais em quem somos ou podemos ser actualmente.

Eu voto na actualização do “governo mental” para um governo liberal, positivo, empoderador, tolerante e benevolente. Crítico sim, mas uma crítica que nos leva ao crescimento e evolução e não ao sofrimento ou à dúvida sobre o nosso valor e quem podemos ser.

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