Diálogo de sombras

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Nós temos em nós todas as cores do mundo, todas as emoções e sentimentos. Para as personalidades mais rígidas ou inflexíveis, talvez esses espectro se reduza para metade, pois estas pessoas não se permitem viver ou sentir tudo aquilo que pode ser sentido ou vivido. Mas eu quero falar de cores hoje, de emoções, sentidos e sensações. Tudo o que podemos sentir.

Todos temos em nós também um jogo de luz e sobra, dualidade, bom e mau, positivismo e negativismo, dia e noite, tristeza e alegria. Sabem quantas emoções produzimos por dia? Muitas. Imensas. Muitas pessoas chegam até mim e dizem-me (as mulheres principalmente): “eu devo ser bipolar…”. Bipolaridade é uma doença severa e incapacitante, mas todos temos polaridades, claro. Dualidade. Lado luz e lado sombra.

A teorias espiritualistas falam disso, dessas duas polaridades que carregamos em nós. Expressas pelo consciente e pelo inconsciente, a meu ver. Claro e escuro. O consciente é tudo o que é reconhecido, aceite, conhecido. Inconsciente é algo dúbio, escondido e rejeitado, muitas das vezes. O consciente é luz, superfície, jovial ou leve. O inconsciente é sombra, escuro, profundo e denso.

Muitas emoções derivam do inconsciente, de memórias e situações arquivadas. Muitas emoções derivam também do consciente, dos pensamentos produzidos a cada momento. Mas os pensamentos derivam de crenças maioritariamente inconscientes. As crenças são os grandes blocos que devemos desconstruir e questionar. Podem até ser substituídas ou alteradas, e esse é o grande trabalho da psicologia cognitivo-comportamental.

O diálogo de sombras ocorre, ou pode ocorrer, quando nos cruzamos com pessoas ou situações que mexem connosco, nos desafiam, põem à prova. Esse diálogo pode ser feito conscientemente, questionando-nos, questionando as nossas sombras, limitações, bloqueios, dificuldades ou toda e qualquer tensão ou desconforto que surge. Esse desconforto é master em mostrar-nos um caminho ou uma entrada até nós.

Porque é que essa pessoa o afecta tanto? Porque é que essa situação é tão difícil para si? Porque é que não é capaz disto ou daquilo? O que o prende ou limita? De onde vem? Medo de quê? De quem? Onde aprendeu o que pode ou não pode fazer? Deve ou não fazer, ser ou não ser?

Tantas dúvidas nos atormentam. Devemos entrar nessa sombra, nesse escuro existencial, que contém todas as respostas que precisamos. Precisamos parir-nos a nós próprios, de dentro para fora. Iniciar uma revolução interior, abrir todas as portas e janelas, com tempo, calma e segurança, com alguém que o possa fazer connosco para não irmos sozinhos. Redescobrir-nos, maravilharmo-nos com a contemplação da nossa própria existência.

Somos seres belos e grandiosos, escondidos por capas, camadas e máscaras de convenções sociais e culturais, camadas de dor e densidade, ocultas de todos, até de si. Comecemos por remover essas máscaras, camadas e capas de defesa e protecção que fomos acumulando, mais uma vez, com calma e segurança. Espantar os demónios, medos ou fantasmas que nos habitam, dançarmos com a luz que nos habita, iluminando os recantos escuros da nossa mente e coração.

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