Bloqueios de memória

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A memória é um reservatório de informação, de situações vividas, ideais, expectativas, ideias e tudo o que diz respeito ao passado da nossa existência e aprendizagens, sejam elas escolares, familiares, pessoais, afectivas ou emocionais.

A memória é uma das funções da mente, armazenar informação, é isso que nos faz amadurecer e aprender, através de tentativa e erro, observação, modelação ou imitação de comportamento. O desenvolvimento humano, tecnológico, social, médico ou histórico não se faz sem memória, sem esse reservatório de informação que é a memória colectiva. A memória de um povo ou civilização.

Quando nascemos já trazemos em nós um legado de informação codificada e implícita nas nossas células, medos, programação para determinadas competências e capacidades. Nascemos num meio de informação, o próprio útero, alimentação sanguínea pelo cordão umbilical, a placenta, são meios onde circula informação genética. O espermatozóide e o óvulo são informação genética. Código de habilitações e factores genéticos, como cor de olhos, pele, cabelo, nível de inteligência, etc.

O nosso cérebro é um emaranhado de células e massa que sustenta essas células, criando caminhos, estradas, vias rápidas, esconderijos, subterfúgios e centros especializados de funcionamento. O centro da visão, da decisão, das sensações, das emoções, do processamento da informação, o centro de memória… Vários departamentos de armazenamento de informação em cada uma das áreas.

A memória está espalhada por uma série de sítios, codificada com sensações, sentimentos e emoções. Raiz dos medos, fobias, traumas, felicidade e conforto. Nela existem expectativas, esperança, amparo ou desespero. Nela nos baseamos para imaginar, desenhar ou projectar o futuro. Por outro lado, nela nos baseamos para justificar que não é possível a mudança, quando as coisas são de uma determinada forma há demasiado tempo.

Usamos a memória como folha de rascunho, escrevendo por cima uma série de vezes, baseando-nos nesses factos arquivados como projectos a modificar, concretizar ou anular. A base do comportamento é a memória, é devido a ela que nos direccionamos desta ou daquela forma, por este ou aquele motivo. No fundo, a memória é o que nos faz ser quem nós somos. Queremos o que queremos, agirmos como agimos. A memória é simultaneamente fortalecedora da nossa identidade, e limitante no que podemos vir a atingir ou mesmo sentir.

A história de insucessos, fracassos, erros, julgamentos, por vezes é ensurdecedora e devastadora. Traições, mágoas, enganos e desilusões podem minar a nossa autoestima e autoconfiança e fazer-nos deixar de acreditar em nós, no nosso valor e capacidades. Mas podemos superar, tudo se supera, menos aquilo que não é mesmo possível. Mas nós somos possíveis. Nós podemos mudar, apesar da memória de quem fomos até aqui.

Apesar da conversa já ir longa, iniciei este texto com o intuito de falar sobre os bloqueios de memória, no caso de pessoas que não se conseguem lembrar de partes da sua história, ou do que se passou até determinada idade. Não é à toa que o nosso cérebro suprime as nossas memórias, tem de existir sempre um motivo muito forte. Um acidente, traumatismo craniano, ou outros factores físicos podem provocar perda de memória. Medicação, consumo excessivo e prolongado de drogas ou álcool podem exercer o mesmo efeito a longo prazo, prejudicar a memória por deterioração cognitiva, tal como algumas doenças neurológicas.

Mas quero falar de traumas. Físicos ou emocionais. Algo que nos marca e fere profundamente. Há portas dentro de nós que se fecham, em corredores compridos. Portas de várias cores, vários formatos e materiais. Por elas podemos cruzar mundos, dobrar o espaço e o tempo. Aquelas com cadeado são as que guardam a informação mais dolorosa. Apesar disso, tudo nos liberta quando vamos senão com vontade de ultrapassar.

A terapia de regressão de memória encerra uma chave, da qual todos somos portadores. Se quisermos, podemos rodar essa chave na fechadura do que nos prende e limita. Após essa porta encontram-se mundos nossos, mundos que cruzámos, que fizeram parte de nós e da nossa história. Só esses mundos podem apaziguar as nossas dores, quando compreendidos, aceites, perdoados, acalmados e pacificados. Possamos nós ter a coragem de, pela mão, cruzarmos esses limiares de quem fomos e do que sentimos então. A dor do que lá está encerra em si o antídoto para toda e qualquer dor.

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