Aquilo que tomamos como certo

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Aquilo que tomamos como certo não nos deixa evoluir. Há que questionar, ter espírito crítico. Se nos submetemos a tradições ou hábitos culturais, podemos estar a repetir as mesmas coisas, e da mesma forma, desde os tempos medievais. E é o que acontece em relação a muitas práticas modernas, com origens nesses milénios atrás.

Falo dos funerais/velórios. Fui a um recentemente e fiquei chocada com a disposição da sala do velório: o caixão no meio, cheio de flores em cima, e cadeiras/sofás dispostos de cada lado, fazendo duas filas. As pessoas sentadas em um dos lados, todas viradas para o caixão e sentadas lado a lado.

Primeiro, não promove a circulação de pessoas, o convívio e o diálogo. As pessoas ficam a olhar para o vazio, ou para o nada, imersas em pensamentos sobre a sua própria existência e finitude, pensamentos sobre outras pessoas que já partiram, e memórias de outros funerais e perdas. Fica tudo encerrado em si mesmo e não há partilha de sentimentos.

Quando alguém chega, todos olham, e essa pessoa terá de cumprimentar um por um, respeitando a ordem da fila dos bancos, mesmo que não conheça, e sentar-se como todos os outros, com o máximo de discrição possível para não perturbar o estado de ânimo. Há silêncio, fechamento, introspecção e vazio.

Segundo, ninguém come. O corpo chega às horas que chegar e o limite é a meia-noite para se estar ali. As pessoas vão chegando, prestando as suas condolências, sentando-se, e o martírio é aguentar estoicamente até que se fechem as portas da morgue. Penso que deveria de haver águas e acepipes e as cadeiras estarem dispostas de forma diferente, de forma a todos poderem circular e conversar, estarem em pé e haver movimento.

Os funerais na América são assim, e na Irlanda nem se fala, é uma festa autêntica. Mas o povo português é pesado nos seus rituais de morte, quase masoquista. Há uma cruz que se deve carregar, um sofrimento auto imposto, há as mulheres carpideiras que, graças a Deus não devem ter sabido deste funeral, para irem chorar as mortes de quem nem conhecem, porque é tradição e, na tradição, deve ser feito (porque sim).

Não sei quando se instalou tal tradição dos velórios (quem quiser saber mais sobre o assunto pode ler aqui), mas o que é certo é que me parecem desactualizados e desenquadrados da vida moderna. Toda a gente aquiesce e se submete a essa tradição, sem saber nem como nem porquê, sem se questionar. Eu só sei que quando lá entrei só pensei em levantar toda a gente, mudar a disposição das cadeiras e pôr toda a gente a falar, despertando todos daquele transe do “estamos aqui, temos de sofrer e lamentar quem partiu”, mesmo que não conheça bem a pessoa e esteja ali só para apoiar a família.

Mas como eu apenas questiono as tradições e não participo na sua mudança ou transformação, não fiz nada disso. Questiono-me por todas as coisas que tomamos como certas, que, na realidade, são a massa e a estrutura de todas as sociedades e culturas. São aquelas coisas fáceis e simples, que já estão instituídas e apenas temos de seguir e comparecer. De certa forma ajuda, a organizar e sustentar a nossa vida social, mas intrigou-me profundamente.

Considerando que a última vez que tinha ido a um funeral foi há cerca de 20 anos, percebi que as coisas mantêm-se. Apesar de não me identificar com estas práticas, vejo que elas são necessárias para manter a ordem e a estrutura. As pessoas precisam habituar-se à ideia que aquela pessoa já não vai estar cá, assegurando-se disso no velório, fazendo as suas últimas despedidas e permitindo que essa despedida seja feita de forma gradual enquanto se caminha atrás do caixão e, no momento final, quando o caixão entra no chão para ser enterrado, ou então colocado em um gavetão, que é depois encerrado.

E são essas as tradições na hora da morte, os nossos rituais meio macabros, necessários de alguma forma, mas não sem necessidade de reformulação, a meu ver. E quem diz rituais fúnebres, diz outro tipo de tradições que, se não contestadas ou questionadas, são repetidas até à eternidade. Mas os costumes e tradições mudam, evoluem, transformam-se, e ainda bem. Sem mudança não há evolução.

Nós crescemos, mudamos, evoluímos, transformamo-nos e, como tal, as tradições e os costumes devem acompanhar. Sem mudança não há transformação nem crescimento. As sociedades também precisam disso. Claro que há estruturas difíceis de mudar, a política, o ensino e a religião, por exemplo. A própria mentalidade é onde reside a capacidade, ou não, de mudança. É mudando mentalidades que se podem introduzir alterações e mudanças a estruturas.

Quem está no poder, procura esse mesmo poder. E quem procura esse poder, normalmente, são estruturas rígidas, obsoletas e inflexíveis. Podemos ver alguns presidentes de grandes impérios como representativos do que estou a dizer. E quem está no poder não pretende mudanças, vejamos a indústria petrolífera, por exemplo. Em extinção. Quantas fontes de energia alternativa já foram descobertas e testadas entretanto?

Uma sociedade informada, esclarecida e consciente, tem a capacidade de introduzir a mudança. Pouco a pouco, contestando, questionando-se, pensando, reflectindo, fazendo diferente, pode fazer-se muito. Podemos fazer muito com muito pouco, apenas com a nossa capacidade crítica sobre o que é instituído. Falar sobre isso, seguir correntes de mudança, sermos ecológicos, preocupados, reduzirmos o consumismo, introduzindo pequenas mudanças. Se cada indivíduo transformar a sua forma de viver, pode transformar o mundo com o seu exemplo.

Somos seres sociais, e, como tal, aprendemos com o exemplo. Se mais e mais pessoas seguirem uma determinada tendência, ou introduzirem determinadas mudanças de estilo de vida, mais e mais seguem o exemplo. Se “contaminarmos” mais e mais pessoas com as nossas mudanças, mais e mais pessoas vão passar a pensar, e ver, como nós. E aí sim, se dá a verdadeira evolução, e revolução. De ideais, valores e hábitos.

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