A quem eu sou hoje, um muito obrigada

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Hoje choro por todas as mulheres que deixei de ser, todas as partes que deixaram de existir e deram o lugar a outras. Choro por todos os sonhos, todos os ideais e todos os potenciais não vividos. Todos os romances que não puderam ser, todos os amores interrompidos e todos os caminhos que não pude percorrer.

Choro por todas as eus que existiram, todos os seus sonhos e aspirações, tudo o que quiseram mas não conseguiram. Mas choro, sobretudo, por todas aquelas que quiseram existir mas não lhes foi possível. Todas as possibilidades, todos os potenciais, deram lugar a só um. Constantemente e continuamente, sempre só um caminho pode ser percorrido. O caminho presente, decorrente de todas as escolhas e decisões, de todas as opções possíveis em cada momento.

Somos encaminhados por caminhos sinuosos, quase influenciados, pela nossa mente, pelas nossas dúvidas e pelas nossas certezas a cada momento, pela opinião ou convicções dos outros, pelo nosso coração também, por uma mistura de tudo… E eu cá tenho sofrido vários lutos. Mais do que pessoas ou situações de perda, de mim própria. As várias Paulas que se foram perdendo, que se foram transformando, actualizando em novas versões.

Cada versão que foi substituída – porque duas versões não podem coexistir por tempo indeterminado – deixou um espaço, um vazio, que foi totalmente ocupado por uma nova Paula, mais forte, mais segura, mais confiante, focada, motivada, guiada pela força de cem cavalos, e pela força de todas as barreiras derrubadas, de dor, de autosabotagem, de dúvida, incerteza e insegurança, maculada por todas as coisas que deveria ter feito antes, ou conseguido antes, ou até mesmo deixado de fazer, e não lhe foi possível.

É por essa Paula que choro. Aquela que só conseguiu agora, e por aquela que finalmente conseguiu e que chora por todas as outras. Não sei quanto a vocês, quantas de vocês já foram ou já existiram, mas o processo de morte e renascimento é moroso, custa a largar a velha pele, existe um novo assustador, e um velho que nos vemos a desprender, a deixar para trás. Um velho querido… Uma velha forma de ser, sentir, pensar e agir.

É essa a verdadeira morte e renascimento, ainda em vida, que podemos fazer. Criando novos ciclos. Toda a minha vida até aqui, uma sucessão de morte e renascimento, a cada dia, a cada dia que pensei em desistir, porque nada parecia ser suficiente, nada me parecia fazer chegar lá, àquele sítio que idealizei, sonhei e imaginei. Tantas as lutas, aparentemente inglórias, que travei comigo, com os meus demónios interiores. São tão fortes… Seduzem-nos, aliciam-nos, alimentam-se de dor e sofrimento, e apego, essencialmente apego.

Apego ao que podemos ser a cada momento, que nos leva a acreditar que não é possível mais, que temos limites, que não podemos desejar mais, melhor, querer mais e melhor, porque sim, por causa da fatalidade do destino, pelo karma, porque temos de aceitar o que nos é imposto, por isto, por aquilo, e por tudo aquilo que não sabemos mas tentamos descobrir.

Quantas consultas, terapias, vozes e opiniões formaram e deram forma aos meus limites, limites que eram os limites dessas mesmas pessoas e terapias (e das minhas, ao compreendê-las e escutá-as), das concepções e compreensão dessas mesmas pessoas e terapias, que me diziam que eu tinha de aceitar, que as coisas eram como eram, que se eu trabalhasse ou escavasse o suficiente chegava lá… Mas nunca me disseram que as minhas crenças me criavam a mim, que o que eu acreditava sobre mim moldava o meu destino e o meu caminho, que eu podia recriar-me na medida do meu ideal.

Disseram-me que levava tempo, e eu entendia que o que me estavam a querer ensinar era o conformismo, que era difícil mudar, que tinha de ter calma e esperar. Mas eu mudei… Mudei quando me afastei de todas essas vozes, mudei quando deixei de as ouvir a elas, e passei a ouvir-me a mim, tal rebelde inconformado. Pensei para mim: “não pode ser”, e evadi-me. Evadi-me de conceitos, religião, ideologias, movimentos, correntes, grupos e teorias. Teorias explicativas, encarcerativas. Transformei-me. Julguei ter ouvido a mais, seguido demais, deixado de ser quem eu era (ou podia ser), na tentativa de me descobrir e descortinar.

Na verdade, o que descobri foi: eu sou quem eu quero ser e naquilo que me quero tornar. Quando a minha voz começou a ser mais forte de que todas as outras, eu mudei. Eu mudei de dentro para fora e eu passei a Ser. Ser mais quem eu era, menos o que outras pessoas pensaram que eu podia ser, ou me diziam que eu poderia ser. Passei a não me conformar, não me conformar com os limites auto(ou não)impostos. A contestar, a desacreditar de palavras mansas, de frases feitas, de convicções alheias.

E agora sou mais eu. Não sem erros ou defeitos, mas aquilo que posso ser. Despojada de falsas ideologias, espero. Todas as pessoas e todas as terapias fizeram parte da massa que me constituía e me dava força e forma. Todas elas me forçaram a rebentar com as costuras, a rebentar os diques da minha alma e do meu coração. Também da minha mente, que, ainda aturdida, olha com espanto o resultado.

E isso, meus amores, é tudo o que vos desejo. Rompam com limitações! Sejam quem são, sem limites. Não permitam que ninguém vos diga quais os vossos. Já basta aqueles que acreditamos que temos.

(Publicado hoje, mas escrito há uns dias atrás, antes do final do ano, em forma de despedida de 2018).

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