O mito do “para sempre”

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Estou a ler um livro muito interessante, de Daphne Rose Kingma, “O futuro do amor”, e nele se fala dos mitos relacionados com amor e relacionamentos. Esperamos que quando nos apaixonamos por alguém, significa que encontrámos o ou a “tal”, e que desse enamoramento, surja uma relação e que essa relação progrida no sentido do casamento ou da união de facto. Viver com a pessoa o resto dos nossos dias e viver uma relação diária sob o mesmo tecto.

Esperamos que, nessa vivência, perdure o “para sempre”. Queremos sentir-nos confortados com a ideia de que teremos um companheiro ou companheira que esteja para tudo, nos compreenda, aceite e acarinhe, estando ao nosso lado nos bons e maus momentos. Alimentamos também a crença de que precisamos alguém para estar ao nosso lado, para que não nos sintamos sozinhos, desvalidos ou desprotegidos. Alguém que nos proteja da dor, do desconforto, da solidão e, inevitavelmente, da morte.

Há uma estranha sensação e expectativa no “para sempre” que nos faz sentir protegidos até da morte (“até que a morte nos separe”), considerando que se o amor é bonito, forte ou firmado em pedra e cal (registo/igreja), nada nos pode separar da pessoa amada, porque há um acordo, quase divino, de que o casamento perdurará para sempre. E nesse para sempre, não há morte. O que é o para sempre senão a eternidade?

Existe esse afã de homens e mulheres procurarem companheiros para a vida. Sim, há quem tema a intimidade e o compromisso, mas há sempre o desejo de encontrar a outra metade da laranja, independentemente do medo da perda, da traição ou do sofrimento que as relações têm o potencial de trazer. Qualquer pessoa sonha em encontrar a pessoa querida e especial que leve todos os males para longe e faça provar de que a felicidade é possível, real e alcançável.

Na procura de viver este mito, esquecemo-nos de que ele foi herdado socialmente e culturalmente. Está enraizado nas nossas células, programado na nossa psique. Desde os nossos ancestrais, que precisavam do casamento ou união de facto para poder sobreviver e prosperar. Antigamente, a esperança média de vida era bem baixa, os recursos eram escassos, as pessoas tinham de, necessariamente, agregar-se, juntar-se, ajudar-se, para poder criar alguma coisa. Eram precisos esforços conjuntos.

Hoje em dia não. Cada um tem o seu papel na sociedade, trabalho, rendimentos, podemos alugar ou comprar casa, carros que nos levam onde precisamos, supermercados onde compramos tudo feito, há creches e escolas, ATL para os miúdos, etc. A sociedade está organizada de forma a providenciar o máximo de independência e liberdade aos seus elementos.

Não precisamos já do casamento. Podemos viver perfeitamente bem sozinhos. Não há já essa necessidade em termos práticos. Apenas emocionais ou afectivos, por não querermos estar sozinhos, querermos um parceiro para a vida, que esteja ali para o que for preciso e nos ajude nas coisas do dia-a-dia.

Mas o que é que este mito provoca na vivência das relações modernas? Frustração, muitas vezes raiva, revolta, sentimentos de impotência e desvalor. Actualmente, não é razoável acreditar ou convencer-se de que é possível o “para sempre”, porque, actualmente, isso não é a norma, mas a excepção.

Vivemos várias relações ao longo das nossas vidas, e convencemo-nos de que, se isso acontece, é porque não estamos a ser capazes de alcançar o que, aparentemente toda a gente tem, ou quer ter: um companheiro ou companheira para o resto da vida (o que, normalmente, até não acontece).

Não há porque manter-se em relações infelizes, abusivas, de desinteresse, ou por medo de se ficar sozinho. Há milhões de pessoas no mundo, vivemos muitos mais anos agora, existem imensas oportunidades de relacionamentos, sob variadas formas, e precisamos começar a encarar a realidade das relações modernas: elas devem existir enquanto são boas, nos fazem bem, se cresce junto, há harmonia, respeito, compreensão, diálogo e todas as coisas necessárias a uma boa relação, que cabe a cada pessoa ou casal decidir.

Como tal, há que desprogramar essa imposição ou condicionamento social. Vivemos em tempos modernos agora, as crenças antigas não se aplicam aqui, ou não se devem aplicar. Devemos considerar a realidade das coisas. O amor é bom, faz-nos bem, é desejado e devemos vivê-lo. Mas talvez tenhamos de nos habituar à ideia de que ele existe condicionalmente, até certo ponto, e tem uma duração variável para cada pessoa, casal ou forma de relacionamento.

Que possamos viver as nossas relações de forma livre, sincera, de coração aberto, sim, mas também, deixá-las partir quando não servem mais o seu propósito, e encarar o estar sozinho como uma condição transitória e não com um fatalismo. Há movimentos nas relações e entre relações.

Tudo é fluxo, tudo se move e transforma. O estar sozinho é condição essencial do ser humano. Somos um, um todo organizado e coerente, uma estrutura autosuficiente. Não precisamos do outro para nos completar, precisamos do outro como companheiro de jornada, se assim nos fizer sentido.

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