Love, Simon (acerca do filme e da adolescência)

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A adolescência não é período fácil. Há todo um mundo a acontecer fora e dentro. Há uma necessidade tremenda de pertencer, de não se destacar para não ser notado, criticado ou ridicularizado. Os amigos são as coisas mais importantes do mundo, porque com eles temos um grupo de pertença, de partilha e de protecção. Sem eles falta uma estrutura, uma barreira em relação aos outros, e o adolescente fica sozinho.

A perspectiva dos pais, as limitações impostas, os castigos, as regras, a limitação de tempo de redes sociais/telemóvel ou computador, têm um impacto brutal, e o adolescente sente-se tremendamente injustiçado, desrespeitado, com um impacto imaginado de perda de alguma coisa. Perder uma novidade, ficar temporariamente excluído, perder a participação em algo onde “todos” estão, etc.

Impacto imaginado quer dizer que tudo é assunto de vida ou de morte na adolescência. Há segredos, confissões, sentimentos que se partilham e são o maior tesouro do mundo. Há graves traições também, de confiança, de inconfidências com terceiros, e terceiros que espalham a toda uma escola, e a partir daí, gozo, humilhação, vergonha, de coisas simples ou até pequenas mas que, para estes jovens, se revestem da maior importância.

A adolescência não é pêra doce. É uma fase de criação e experimentação de independência e de identidade. Começamos a perceber quem somos, quais os nossos gostos, interesses, expectativas, orientações, vontades e desejos. Há muita fantasia e ilusão também, há um acreditar em tudo o que os amigos dizem e querer seguir tendências, modas, trejeitos e formas de falar, lá está, para pertencer, para ser igual. É todo um movimento para o exterior, um desejo de participar e ser aceite, como tal, há que seguir as regras, normas e condutas desses mesmos grupos.

Engraçado como o movimento dos 20 para cima é exactamente o contrário, descobrir quem sou eu sem o grupo, sem os amigos. O que quero? O que gosto? O que quero criar? Qual o estilo pessoal que quero ter? O que quero parecer? Como o fazer? Nessa década já há mais experimentação com o “eu” individual, há o questionamento da máscara que se colocou na adolescência para parecer e pertencer ao grupo.

Na adolescência a identidade é criada por comparação e imitação. Treinamos as pessoas que queremos ser através dos nossos modelos de referência e de valoração, que são os nossos amigos ou os jovens de destaque na escola, e é exactamente na escola que é a nossa aprendizagem social mais marcante. É lá que tudo se passa. É lá que crenças são criadas sobre nós, sobre os outros, sobre o mundo e como o futuro deve de ser, desejado ou imaginado. Claro que em casa idem aspas. Mas na escola é o modelo real, é o palco onde tudo se assiste e se treina.

Quanto ao filme em si, de onde foi inspirado este texto, retrata a vida de um grupo de amigos, incidindo especificamente na experiência de um dos rapazes do grupo que descobre ser gay mas tem vergonha de dizer aos amigos, e, na tentativa de esconder para evitar as consequências temidas, acaba por participar num rol de mentiras que o prejudica gravemente junto dos amigos, que se chateiam com ele e se afastam (temporariamente).

O filme está muito giro e a família do rapaz é uma delícia, nomeadamente na reacção à confissão da orientação sexual. Os amigos perdoam, ele arranja namorado e fica tudo bem, mas o que me inspirou foi mesmo a lembrança do quanto é difícil viver esta etapa da vida com tanto peso que é dado aos outros, e o quanto os outros podem prejudicar, gravemente, a autoestima de quem poderá estar mais fragilizado, com consequências duradouras.

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