O parto da mãe

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Quando nasce um bebé, também nasce uma mãe. Antes do parto, mas também durante o parto, alguns medos podem existir: serei capaz de ser boa mãe? Correrá tudo bem? O meu/minha filho/a irá gostar de mim? Iremos dar-nos bem, ter uma boa relação? Irei conseguir vincular-me ao bebé? Irei conseguir amamentar…?

Estas e outras questões, mas também: o meu corpo irá mudar? Quais são as consequências físicas da gravidez e do parto em si? Como irá ficar a sexualidade entre mim e o meu/minha companheiro/a? Irei perder a libido? Irei conseguir descansar? Ter tempo para cuidar de mim ou da casa nos primeiros tempos? Como irei fazer tudo isso com um bebé pequeno?? Como é ficar sem tempo e sem descanso? Serei capaz…?

A mulher ao “dar à luz” perde a sua individualidade e a sua independência nos primeiros anos, de certa forma. Nada é como antes. Não há a mesma disponibilidade, em termos de tempo e energia, para todas as coisas que, dantes, poderiam acontecer mais facilmente, em termos de cuidar de si, ter tempo para o companheiro ou companheira, tempo para sair, cuidar da casa, etc.

Essas coisas já todos sabemos, não são novidade e em vários sítios se pode ler sobre o assunto. O que quero falar hoje é sobre a mãe, na mulher gestante e na mulher parideira. Já houve o tempo em que as mulheres eram resumidas à sua capacidade reprodutiva. Hoje em dia é, essencialmente, uma escolha, normalmente ponderada, que é equacionada relativamente ao estado da relação, ao estado económico ou financeiro lá de casa e a nível do momento profissional que se vive.

Tudo certo até aqui. Uma mulher pode querer muito ser mãe, pode ter todas essas condições reunidas, mas não existe sem medos nem dúvidas. No momento do parto, ela dá o máximo de si, todo o seu esforço e sacrifício físico, psicológico e emocional, para trazer vida ao mundo. Mas com essa vinda, há uma morte. Morte do que foi até ali, morte daquela mulher que era só mulher. Nasce agora a mulher-mãe, a mulher cuidadora, a fera protectora.

Nesse parto, há dor e transição, nesse momento é a despedida de tudo o que foi, como foi. Há, a partir dali, um contracto implícito sob a vida daquele ser que vem ao mundo, que significa: eu irei cuidar de ti até à morte. Nascem as preocupações, os cuidados, o amor incondicional. Esse amor está pleno de potencial sofrimento também. Medo da perda do bebé, da criança, do jovem e do adulto, por alguma doença ou acidente. Medo da possível distância, medo de alguma coisa poder correr mal, medo da rejeição, medo do não saber.

Traumas de infância, traumas relacionados com a educação que se teve, o não querer repetir os erros dos pais, o medo de repetir padrões inconscientes, o excesso de consciência do possível impacto que os próprios comportamentos possam vir a causar, medo da interferência das próprias emoções na saúde psicológica da criança… A lista é imensa. Eu acho que ter uma criança não se faz sem medo nem sem coragem, ou muita força de vontade e de querer. Não pode ser uma decisão leve ou irreflectida.

Então, nesse momento, no parto, a mãe também ela está a nascer, sair da carapaça de mulher, para dar à luz uma mãe, uma cuidadora, uma educadora, um novo papel, a acrescentar aos que já tem. Não se faz sem dor ou sacrifício também. Às custas do seu próprio corpo, a mente é levada ao limite dos anos vindouros. Será desafiada, testada na sua paciência, na sua resiliência, na sua capacidade de prover, nutrir e responder a provocações e desafios próprios das várias idades.

A mãe nasce… A mulher renasce com um novo papel, despe-se de si e das suas necessidades como únicas e soberanas, para dar tudo aquilo que tem e que pode a outro ser, que dependerá dela para sobreviver nos primeiros anos. Há o parto do/a filho/a e há o parto da mãe, dois partos num só momento. A partir dali é tempo, tempo para se adaptar, tempo para se reajustar, habituar-se e aprender a ser ela mais 1.

O equilíbrio

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O equilíbrio é uma sucessão de desequilíbrios que se conseguiram conter ou controlar. Ou mesmo uma série de desequilíbrios que se foram sucedendo mas, a seu tempo, deram lugar ao equilíbrio.

Não há equilíbrio sem alguma forma de desequilíbrio. Mas como chegar lá? Qual a fórmula mágica para se atingir o tão almejado “equilíbrio”? Para já, o que é o equilíbrio afinal?

O equilíbrio pressupões sempre uma forma de bem-estar, de neutralidade, sem excesso de um lado ou de outro. Pressupõe sempre um meio, um centro, um atingir de qualquer coisa. Podemos falar em equilíbrio mental, emocional, físico, alimentar, espiritual, relacional, conjugal, profissional, ou mesmo um equilíbrio em todas estas coisas na nossa vida, como um conjunto ou um todo em “equilíbrio”.

O equilíbrio também pressupõe alguma forma de instabilidade. Por definição, equilíbrio é o “estado de um corpo que se mantém, ainda que solicitado ou impelido por forças opostas”, ou então, referente a “harmonia”. Daí a instabilidade: corpo desafiado por forças opostas. E aqui podemos falar de corpo mental, emocional e físico. Ou até mesmo espiritual, se quiserem.

Como sabemos, não podemos existir neste mundo sem “forças opostas”: desafios, lições ou sem a malfadada dualidade. A dúvida, incerteza, insegurança, medo, e por aí afora. Somos seres duais, de razão e emoção, bom ou mau, ser ou não ser, fazer ou não fazer, certo ou errado.

Mas esse fugidio equilíbrio pode ser alcançado, talvez não diariamente ou constantemente, mas podemos cultivá-lo, se quisermos e estivermos dispostos a isso, na maior parte do tempo. Requer algum esforço, persistência e diligência.

Podemos encontrar esse equilíbrio na forma de nos alimentarmos, na forma de nos relacionarmos com os outros e connosco também, tendo algumas práticas ou rotinas de saúde e bem-estar, alguma forma de exercício físico, mas também alguma forma de práticas de relaxamento, meditação ou trabalho interior de auto descoberta.

O equilíbrio pode durar um momento, pode ser uma sensação ou tornar-se num estado ou certeza, a partir do momento em que aceitarmos, em igualdade de direitos (de existência), o seu irmão bastardo, o desequilíbrio. Um não se dá sem o outro. Quando couber em nós a capacidade de aceitar um e outro, estamos a meio caminho para criar essa verdade, o meio ou o centro, onde todas essas partes (dualidades) podem existir, em equilíbrio.

 

 

As mulheres que ficam

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Existem mulheres fantásticas, magníficas, inteligentes, cheias de garra, excelentes mães, excelentes profissionais, não deixam faltar nada a ninguém, mas que, muitas vezes, estão em relações de uma infelicidade estonteante. Ou em relações de vazio, de silêncio, de distância afectiva ou emocional.

Relações vazias de romance, de carinho, de compreensão, afecto, paixão, amor, sentimentos, gestos e atitudes carinhosas. A essas mulheres não as podemos acusar de amar de mais, mas sim, amar de menos… Amar-se de menos.

Há mulheres que não concebem passar a vida sozinhas e ficam em relações porque se não houver essa relação, o que será delas? Há mulheres que ficam porque, de facto, amam uma pessoa, mesmo que essa pessoa não seja merecedora do prato que, diligentemente, apresentam diariamente à hora da refeição, a camisa ou a roupa passada a tempo e horas, e outros exemplos.

Vivemos na era moderna, as mulheres são livres para se relacionarem com quem quiserem, as vezes que quiserem, que ninguém leva a mal. Sim, ainda há críticas e ainda há preconceitos e julgamentos, e ainda há conceitos familiares do patriarcado que se fazem sentir em mentes mais conservadoras. Vivemos numa era em que as mulheres também podem ficar sozinhas, se quiserem. Sem marido, companheiro ou filhos.

Temos todas as escolhas possíveis ao nosso alcance, mas, mesmo assim, há relações forçadas, de obrigação, de subserviência, de culpa, de mágoa, de carência e de dependência (ou “apego”). Mas uma vez, apego à segurança ou conforto de se saber que não se está sozinha, que existe ali alguém, ainda que esse alguém só esteja em corpo presente. Mentes que não comunicam, corações que não se entrelaçam, corpos que não se desejam mais.

E há os casos de tremenda falta de amor… Falta de amor por si, consciente ou inconscientemente. Nesses casos sim, fica-se porque não se pode partir. Aguenta-se ficar, estoicamente, sofrendo-se em silêncio, porque há o quadro, a imagem idealizada de casal ou família perfeita: “eu tenho alguém, eu importo, eu existo e não estou só”.

Mesmo que seja aparência, mesmo que seja porque não se tem a coragem de partir, do como é que vai ser depois, ou “porque assim estou acostumada, e o que é que a minha família irá fazer”, ou até mesmo o medo das consequências, caso o companheiro seja um homem violento…

Tantos os motivos. De qualquer das formas, é uma escolha. É um resolver ficar porque “não quero passar por tudo aquilo que acontecerá, ou sentirei, caso escolha partir, deixar, terminar”. E está certo… O instinto de sobrevivência, ou de protecção aos filhos, é o instinto que temos mais forte em nós.

Esse instinto manda-nos ficar em situações de falta, se for preciso. Falta emocional, falta de carinho. Mas há um lar, uma rotina, um tecto e uma cama onde dormir, comida na mesa e dinheiro ao final do mês, que vai chegando para os gastos.

Há muitas mulheres que ficam por dependência financeira dos maridos, é verdade, ou por escassez de recursos. Mesmo assim há saída, solução. Procura activa de trabalho, pedir ajuda a familiares ou alguém que possa ajudar temporariamente em termos de estadia ou empréstimo de algum dinheiro, procurar ajuda especializada para aconselhamento, orientação…

É possível. E é possível, ainda mais, aprender a amar-se, respeitar-se e julgar-se merecedora de algo bom, algo melhor – sozinha, ou acompanhada. É possível terminar-se esse ciclo ou loop de falta de amor (próprio e do outro). Há que despertar desse transe e fazer por encontrar uma saída. Ainda que custe, vai valer a pena.

O mito do “para sempre”

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Estou a ler um livro muito interessante, de Daphne Rose Kingma, “O futuro do amor”, e nele se fala dos mitos relacionados com amor e relacionamentos. Esperamos que quando nos apaixonamos por alguém, significa que encontrámos o ou a “tal”, e que desse enamoramento, surja uma relação e que essa relação progrida no sentido do casamento ou da união de facto. Viver com a pessoa o resto dos nossos dias e viver uma relação diária sob o mesmo tecto.

Esperamos que, nessa vivência, perdure o “para sempre”. Queremos sentir-nos confortados com a ideia de que teremos um companheiro ou companheira que esteja para tudo, nos compreenda, aceite e acarinhe, estando ao nosso lado nos bons e maus momentos. Alimentamos também a crença de que precisamos alguém para estar ao nosso lado, para que não nos sintamos sozinhos, desvalidos ou desprotegidos. Alguém que nos proteja da dor, do desconforto, da solidão e, inevitavelmente, da morte.

Há uma estranha sensação e expectativa no “para sempre” que nos faz sentir protegidos até da morte (“até que a morte nos separe”), considerando que se o amor é bonito, forte ou firmado em pedra e cal (registo/igreja), nada nos pode separar da pessoa amada, porque há um acordo, quase divino, de que o casamento perdurará para sempre. E nesse para sempre, não há morte. O que é o para sempre senão a eternidade?

Existe esse afã de homens e mulheres procurarem companheiros para a vida. Sim, há quem tema a intimidade e o compromisso, mas há sempre o desejo de encontrar a outra metade da laranja, independentemente do medo da perda, da traição ou do sofrimento que as relações têm o potencial de trazer. Qualquer pessoa sonha em encontrar a pessoa querida e especial que leve todos os males para longe e faça provar de que a felicidade é possível, real e alcançável.

Na procura de viver este mito, esquecemo-nos de que ele foi herdado socialmente e culturalmente. Está enraizado nas nossas células, programado na nossa psique. Desde os nossos ancestrais, que precisavam do casamento ou união de facto para poder sobreviver e prosperar. Antigamente, a esperança média de vida era bem baixa, os recursos eram escassos, as pessoas tinham de, necessariamente, agregar-se, juntar-se, ajudar-se, para poder criar alguma coisa. Eram precisos esforços conjuntos.

Hoje em dia não. Cada um tem o seu papel na sociedade, trabalho, rendimentos, podemos alugar ou comprar casa, carros que nos levam onde precisamos, supermercados onde compramos tudo feito, há creches e escolas, ATL para os miúdos, etc. A sociedade está organizada de forma a providenciar o máximo de independência e liberdade aos seus elementos.

Não precisamos já do casamento. Podemos viver perfeitamente bem sozinhos. Não há já essa necessidade em termos práticos. Apenas emocionais ou afectivos, por não querermos estar sozinhos, querermos um parceiro para a vida, que esteja ali para o que for preciso e nos ajude nas coisas do dia-a-dia.

Mas o que é que este mito provoca na vivência das relações modernas? Frustração, muitas vezes raiva, revolta, sentimentos de impotência e desvalor. Actualmente, não é razoável acreditar ou convencer-se de que é possível o “para sempre”, porque, actualmente, isso não é a norma, mas a excepção.

Vivemos várias relações ao longo das nossas vidas, e convencemo-nos de que, se isso acontece, é porque não estamos a ser capazes de alcançar o que, aparentemente toda a gente tem, ou quer ter: um companheiro ou companheira para o resto da vida (o que, normalmente, até não acontece).

Não há porque manter-se em relações infelizes, abusivas, de desinteresse, ou por medo de se ficar sozinho. Há milhões de pessoas no mundo, vivemos muitos mais anos agora, existem imensas oportunidades de relacionamentos, sob variadas formas, e precisamos começar a encarar a realidade das relações modernas: elas devem existir enquanto são boas, nos fazem bem, se cresce junto, há harmonia, respeito, compreensão, diálogo e todas as coisas necessárias a uma boa relação, que cabe a cada pessoa ou casal decidir.

Como tal, há que desprogramar essa imposição ou condicionamento social. Vivemos em tempos modernos agora, as crenças antigas não se aplicam aqui, ou não se devem aplicar. Devemos considerar a realidade das coisas. O amor é bom, faz-nos bem, é desejado e devemos vivê-lo. Mas talvez tenhamos de nos habituar à ideia de que ele existe condicionalmente, até certo ponto, e tem uma duração variável para cada pessoa, casal ou forma de relacionamento.

Que possamos viver as nossas relações de forma livre, sincera, de coração aberto, sim, mas também, deixá-las partir quando não servem mais o seu propósito, e encarar o estar sozinho como uma condição transitória e não com um fatalismo. Há movimentos nas relações e entre relações.

Tudo é fluxo, tudo se move e transforma. O estar sozinho é condição essencial do ser humano. Somos um, um todo organizado e coerente, uma estrutura autosuficiente. Não precisamos do outro para nos completar, precisamos do outro como companheiro de jornada, se assim nos fizer sentido.

A quem eu sou hoje, um muito obrigada

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Hoje choro por todas as mulheres que deixei de ser, todas as partes que deixaram de existir e deram o lugar a outras. Choro por todos os sonhos, todos os ideais e todos os potenciais não vividos. Todos os romances que não puderam ser, todos os amores interrompidos e todos os caminhos que não pude percorrer.

Choro por todas as eus que existiram, todos os seus sonhos e aspirações, tudo o que quiseram mas não conseguiram. Mas choro, sobretudo, por todas aquelas que quiseram existir mas não lhes foi possível. Todas as possibilidades, todos os potenciais, deram lugar a só um. Constantemente e continuamente, sempre só um caminho pode ser percorrido. O caminho presente, decorrente de todas as escolhas e decisões, de todas as opções possíveis em cada momento.

Somos encaminhados por caminhos sinuosos, quase influenciados, pela nossa mente, pelas nossas dúvidas e pelas nossas certezas a cada momento, pela opinião ou convicções dos outros, pelo nosso coração também, por uma mistura de tudo… E eu cá tenho sofrido vários lutos. Mais do que pessoas ou situações de perda, de mim própria. As várias Paulas que se foram perdendo, que se foram transformando, actualizando em novas versões.

Cada versão que foi substituída – porque duas versões não podem coexistir por tempo indeterminado – deixou um espaço, um vazio, que foi totalmente ocupado por uma nova Paula, mais forte, mais segura, mais confiante, focada, motivada, guiada pela força de cem cavalos, e pela força de todas as barreiras derrubadas, de dor, de autosabotagem, de dúvida, incerteza e insegurança, maculada por todas as coisas que deveria ter feito antes, ou conseguido antes, ou até mesmo deixado de fazer, e não lhe foi possível.

É por essa Paula que choro. Aquela que só conseguiu agora, e por aquela que finalmente conseguiu e que chora por todas as outras. Não sei quanto a vocês, quantas de vocês já foram ou já existiram, mas o processo de morte e renascimento é moroso, custa a largar a velha pele, existe um novo assustador, e um velho que nos vemos a desprender, a deixar para trás. Um velho querido… Uma velha forma de ser, sentir, pensar e agir.

É essa a verdadeira morte e renascimento, ainda em vida, que podemos fazer. Criando novos ciclos. Toda a minha vida até aqui, uma sucessão de morte e renascimento, a cada dia, a cada dia que pensei em desistir, porque nada parecia ser suficiente, nada me parecia fazer chegar lá, àquele sítio que idealizei, sonhei e imaginei. Tantas as lutas, aparentemente inglórias, que travei comigo, com os meus demónios interiores. São tão fortes… Seduzem-nos, aliciam-nos, alimentam-se de dor e sofrimento, e apego, essencialmente apego.

Apego ao que podemos ser a cada momento, que nos leva a acreditar que não é possível mais, que temos limites, que não podemos desejar mais, melhor, querer mais e melhor, porque sim, por causa da fatalidade do destino, pelo karma, porque temos de aceitar o que nos é imposto, por isto, por aquilo, e por tudo aquilo que não sabemos mas tentamos descobrir.

Quantas consultas, terapias, vozes e opiniões formaram e deram forma aos meus limites, limites que eram os limites dessas mesmas pessoas e terapias (e das minhas, ao compreendê-las e escutá-as), das concepções e compreensão dessas mesmas pessoas e terapias, que me diziam que eu tinha de aceitar, que as coisas eram como eram, que se eu trabalhasse ou escavasse o suficiente chegava lá… Mas nunca me disseram que as minhas crenças me criavam a mim, que o que eu acreditava sobre mim moldava o meu destino e o meu caminho, que eu podia recriar-me na medida do meu ideal.

Disseram-me que levava tempo, e eu entendia que o que me estavam a querer ensinar era o conformismo, que era difícil mudar, que tinha de ter calma e esperar. Mas eu mudei… Mudei quando me afastei de todas essas vozes, mudei quando deixei de as ouvir a elas, e passei a ouvir-me a mim, tal rebelde inconformado. Pensei para mim: “não pode ser”, e evadi-me. Evadi-me de conceitos, religião, ideologias, movimentos, correntes, grupos e teorias. Teorias explicativas, encarcerativas. Transformei-me. Julguei ter ouvido a mais, seguido demais, deixado de ser quem eu era (ou podia ser), na tentativa de me descobrir e descortinar.

Na verdade, o que descobri foi: eu sou quem eu quero ser e naquilo que me quero tornar. Quando a minha voz começou a ser mais forte de que todas as outras, eu mudei. Eu mudei de dentro para fora e eu passei a Ser. Ser mais quem eu era, menos o que outras pessoas pensaram que eu podia ser, ou me diziam que eu poderia ser. Passei a não me conformar, não me conformar com os limites auto(ou não)impostos. A contestar, a desacreditar de palavras mansas, de frases feitas, de convicções alheias.

E agora sou mais eu. Não sem erros ou defeitos, mas aquilo que posso ser. Despojada de falsas ideologias, espero. Todas as pessoas e todas as terapias fizeram parte da massa que me constituía e me dava força e forma. Todas elas me forçaram a rebentar com as costuras, a rebentar os diques da minha alma e do meu coração. Também da minha mente, que, ainda aturdida, olha com espanto o resultado.

E isso, meus amores, é tudo o que vos desejo. Rompam com limitações! Sejam quem são, sem limites. Não permitam que ninguém vos diga quais os vossos. Já basta aqueles que acreditamos que temos.

(Publicado hoje, mas escrito há uns dias atrás, antes do final do ano, em forma de despedida de 2018).