O vazio

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Há uma coisa escura, pesada, sombria e angustiante que se instala no peito das pessoas por vezes. Não se sabe de onde vem nem porquê, mas o que é certo é que, quando se instala, parece sugar toda a alegria de viver e parece que nunca mais se pode ser feliz e que, assim, não vale a pena viver.

Eu considero esse vazio como uma falta de conexão ou uma falta de preenchimento de algo superior, poderoso e fortalecedor: autoestima, o poder de acreditar no melhor, e a presença de nós em nós.

Faltando presença, carinho e aceitação, bem como a crença ou a convicção em algo positivo em relação ao futuro, não pode haver felicidade, plenitude ou harmonia interior. Esse preenchimento é um grande acto de amor próprio, falarmos connosco, resgatarmo-nos dos nossos pensamentos mais sombrios e assustadores, e caminharmos rumo à superação de tudo o que nos consome.

Eu tenho encontrado nas várias terapias e práticas terapêuticas esse senso de pertença (presença) e ligação a algo superior, bem como acolhido todas as partes minhas que andavam tresmalhadas, tristes ou angustiadas. No fundo, acolhendo a angústia e dando-lhe um colo, um porto seguro, um abrigo, ela deixa de ser angustia para ser preenchimento.

Dando amor ao vazio, o que fica no lugar? Um ninho, um colo, uma presença. É isso a que me refiro quando falo em sermos a presença em nós. O nós preencher esse espaço escuro. Levar cor, vida, alegria, positividade, esperança e leveza. Quando a vida ocupa o lugar, não há espaço para a dor, mágoa ou vazio. Ele cessa, transforma-se e não é mais.

Seja vida, seja amor. Coloque-se no centro. Você é o centro. Você é tudo (o princípio e o fim).

A autoestima e a rebeldia de ser quem somos

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Conheço poucas mulheres a considerarem saudável as sua auto-estima. No fundo, o que é uma autoestima saudável? Nutrirmos afecto por quem somos, gostarmos de quem somos, do que vemos em nós (e para isso não temos de gostar de tudo em nós), falarmos gentilmente e pacientemente connosco, automotivarmo-nos constantemente e sermos as nossas próprias “líderes de claque”, as que em primeiro dizem: “Força! Vamos lá! Tu consegues, tu és capaz!”, com toda a convicção do mundo.

É preciso termos convicção, acreditarmos em nós, valorizarmo-nos, encontrarmos beleza em quem somos, até nas nossas fraquezas e vulnerabilidades. Autoestima é aceitação de quem somos a cada momento, mas também quem fomos, o que fizemos ou deixámos de fazer no decurso das nossas vidas. Convicção nas nossas capacidades, no nosso valor enquanto ser humano e ser vivente nesta terra. Encontrarmos o que é melhor em nós, acolher o que não gostamos.

As mulheres têm falta de autoestima porque querem muito ser boas em tudo e ser boas em tudo sempre. Quando não o conseguem, deprimem e sentem-se inseguras, insuficientes. O ser mulher obriga a ter uma boa imagem, ser competente nas várias áreas e estar sempre bem. Quem consegue isso?? É impossível ou sai a um preço muito caro. Há essa exigência nas mulheres, o terem de estar para tudo e para todos, serem elegantes, belas, disponíveis, cuidar dos outros, serem boas mulheres, boas mães, ter um comportamento exemplar-senão-o-que-pode acontecer…

Há sempre uma guilhotina sob a cabeça da mulher: a expectativa dos outros, da sociedade, da família, dos companheiros, sobre o que deve ser uma mulher. Mas também a expectativa da própria mulher sobre si mesma. Fomos ensinadas à humildade, ao obedecer, ao não responder, ao cumprir as regras, a ser subservientes, obedientes, ao não contestar. Como tal, perdeu-se a mulher rebelde, que está a surgir cada vez mais nas mulheres maduras – a não calar, a não consentir, a não fazer porque sim, porque se espera dela, porque é suposto. O que é suposto, afinal?

Então, no fundo, a autoestima é um pouco de rebeldia. Questionar-se sobre os limites autoimpostos. Porque chega a uma altura em que esses limites só existem porque acreditámos neles, seja por convenção, por sobrevivência ou por comodismo (habituação). Sejamos rebeldes, sejamos activistas do nosso bem estar. Questionemos as nossas fraquezas e vulnerabilidades. Dêmos-lhes motivos para crescer, mudar, acreditar. Acreditar em si é o primeiro passo para a autoestima que quer (e merece) ter.

O poder de acreditar

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Hoje uma cliente fez-me relembrar do poder de acreditar nas pessoas. O próprio facto de nós, terapeutas, confiarmos no sucesso e na capacidade daquela pessoa ultrapassar a situação, faz muito. Faz toda a diferença.

Tenho ouvido relatos de pessoas que foram a médicos e terapeutas que as trataram com pouca dignidade e respeito, com pouca confiança e até com antipatia e arrogância. As pessoas não estão mal e a precisar de ajuda porque querem ou porque sim, porque é divertido ou não têm mais nada para fazer da vida.

As pessoas com problemas psicológicos, não são mentirosas, preguiçosas, fracas, com pouca personalidade ou inteligência. Pelo contrário, são pessoas conscientes dos seus problemas, que não querem continuar a tê-los e procuram ajuda para os ultrapassar. Nesse momento relevam a maior valentia e coragem, que é expor-se a outro ser humano, sujeitas a crítica, julgamento ou desvalorização.

Nós terapeutas e comunidade médica, principalmente, devemos tratar estas pessoas com cuidado, com atenção, com carinho e com amor. O que estas pessoas fragilizadas mais precisam é disso: amor. Uma palavra de conforto, de reforço, um “você consegue, você é capaz”.

Nunca deve duvidar do seu valor. Você é valente, você é forte. Você, que sofre diariamente com um problema de saúde mental, que tem resistido até aqui, não desista. Acredite sempre que é possível melhorar, mudar, transformar a situação em que está.

– “Obrigada pela paciência.”, disse ela.

– “Paciência de quê?”, respondi eu.

– “De me escutar, de acreditar em mim e nunca ter desistido de mim”.

E estas palavras ecoaram forte em mim, de saber que o maior tesouro que tenho está ali à minha frente diariamente, que é o coração destas pessoas que depositam em mim a sua confiança, os seus desabafos, as suas partilhas, medos, limitações, segredos, complexos, incertezas e inseguranças.

A todas elas, um muito obrigada pelo voto de confiança e pelas histórias magníficas, processos fantásticos de cura e superação e viagens nas quais me permitem participar diariamente através da hipnose.

O poder de acreditar, o poder da confiança e o poder da escuta. Três grandes poderes que, utilizados sabiamente em seu favor e na terapia, têm a capacidade de salvar o mundo. O seu mundo, e o mundo das pessoas em quem toca no coração. Esse é o poder da mudança e da transformação. Esse é o poder a ter e a utilizar diariamente. Por si. Por todos nós.

A hipnose faz magia?

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A meu ver, quase que faz. Não sendo magia, nem produzindo resultados imediatos, por vezes eles acontecem rapidamente. Muitas vezes assisto a processos fantásticos e mudanças abismais em pouco tempo, que até a mim me surpreendem. Mas cuidado, não é sempre. Há pessoas que estão muito preparadas para acessar a si mesmas, prontas para contornar as resistências da mente e do inconsciente, que se permitem ir e se deixam levar até onde precisarem de ir. Aí torna-se tudo muito mais fácil.

Importa aqui dizer que a hipnose não é um exercício de subjugação do terapeuta sobre o paciente, uma luta de poder nem uma dominação por parte do terapeuta sobre a mente e o livre arbítrio do paciente. A pessoa está, em todos os momentos, consciente do que se está a passar, de forma lúcida, presente e focada. É preciso dizer isto.

Podem haver várias formas de trabalhar, mas esta é aquela que é a mais correcta e a mais ética possível: não haver manipulação do terapeuta sobre o que paciente deve imaginar ou não, sentir ou não, fazer ou não, no decorrer dos exercícios (que são semelhantes a uma meditação guiada – só que interactiva, com a participação activa do paciente).

Quando se vem muito preocupado e expectante com resultados, perde-se muito da essência deste trabalho. A pessoa até pode vir com um objectivo específico para essa consulta, mas a mente (ou o inconsciente) sabe sempre onde nos levar em cada sessão e em cada momento, só temos de a seguir. Se quer resultados imediatos e não tem disponibilidade, vontade, ou paciência para deixar o processo desenrolar-se, a hipnose não é para si.

A hipnose é, em si, uma caminhada, uma jornada de autoconhecimento e autodescoberta. Vai apresentar realidades, crenças, memórias, sensações, sentimentos e emoções que poderia até não estar à espera. E é aí que a hipnose opera a sua mágica: quando não esperamos nada em concreto, o caminho manifesta-se (quando estamos receptivos). E receptividade é a palavra do meio da hipnose.

Há pessoas que vêm à procura de um resultado muito específico, e isso, por vezes, é contraproducente. Mesmo assim, também nesses momentos, tem sido possível desvendar aquilo que a pessoa procura. Não é sempre, mas acontece. Lembro-me de alguns casos de primeiras consultas de pessoas que vinham com a queixa de que não se conseguiam lembrar de um determinado episódio de ou de uma determinada altura das suas vida. E sim, conseguimos acessar a partes e memórias que tinham estado ocultas até então.

A estes fenómenos damos o nome de rememoração, revivicação ou hipermnésia. Se é magia? Não é, mas parece! Daí o misticismo da hipnose. Produz um transe leve ou moderado (apesar de eu preferir a expressão “estado meditativo” ou relaxamento), que permite que estes fenómenos ocorram. Num estado de relaxamento físico e atenção focada, consegue aceder-se a memórias, sentimentos, emoções, pensamentos e crenças que, num estado de vigília normal, se tornam demasiado rápidos e inconscientes para tomarmos conta.

A hipnose é uma ferramenta muito valiosa para facilitar processos terapêuticos, das mais variadas ordens. Mas, tal como qualquer ferramenta terapêutica, é uma via para chegar ao sintoma e às causas do sintoma e não uma cura espontânea em si. Há todo um trabalho a acontecer à volta da técnica da hipnose, de elaboração, exploração, ressignificação e simbolização dos conteúdos que aparecem nos exercícios. Importante fazê-lo com um profissional credenciado e treinado para o efeito, com conhecimentos e práticas no campo da psicologia, preferencialmente.

Como escutar a intuição

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A intuição é um barco, ou caminho, que não leva a lugar nenhum (que queiramos). Para escutar a intuição há que silenciar. Silenciar a mente e as emoções. Fazer a pergunta e escutar, esperar a resposta, quase imediata, de um sítio superior, de um nível acima de nós. Um sim, um não, uma palavra, uma sensação. A intuição não explica muito, diz só as respostas que precisamos, e não as que queremos.

Se estamos num estado de desejo, expectativa ou ideal, contaminamos o processo. Para ouvir a intuição, precisamos de estar num estado de pureza, de contemplação, de aceitação, de receptividade, de permissividade. A maior parte do tempo estamos numa postura reactiva, queremos isto ou aquilo, desta ou daquela maneira. Levamos o tempo em lutas interiores, com as expectativas e o corpo egóico de desejo. O desejo é querer que as coisas sejam de uma determinada forma, como as concebemos, projectamos ou idealizamos.

A intuição não serve para nos alimentar esse corpo de desejos, insaciável, orgulhoso e caprichoso. Quer que o sirvam, quer respostas imediatas, quer saber, quer controlar. No fundo, o corpo de desejo é a nossa necessidade de controlo das situações, da vida, daquilo que vivemos ou vamos viver. Temos uma necessidade quase desesperada de saber, de querer saber, o que o futuro nos reserva, o que vai acontecer. Daí ser tão difícil encontrar vaga em consultas divinatórias.

Então o que é a intuição? É um conhecimento subtil, superior, sempre presente, benevolente, uma voz quente de sabedoria, que se liga com o contínuo espaço-tempo, e que a tudo acede. É um caminho, um portal, uma verticalidade que nos liga a um plano superior de consciência. Há que fazer silêncio para se unir a esse fluxo universal, apartar as águas, entrar nesse registo de receptividade, sem nada querer, sem esperar nenhum resultado. Então a voz vem, a voz cristalina da intuição, que nos diz o que é, o que existe e o que está a ser ou poderá vir a ser.

Já parou para se escutar?

Evitar ataques de pânico (estar presente)

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Estando no corpo, estamos no momento presente. E o que quero dizer com isto? Quem está ansioso, normalmente está preocupado com uma série de coisas da sua vida actual, passada ou futura. Não podemos estar no momento presente e estarmos agitados, tensos ou em ansiedade extrema.

Podemos ter, por exemplo, um encontro importante daqui a pouco (uma entrevista, uma apresentação, etc.), por isso é normal estarmos um pouco ansiosos porque, no fundo, queremos fazer boa figura. Mesmo assim, se nos mantivermos presentes, em nós e no momento, é perfeitamente controlável essa ansiedade.

Não quer dizer que não sintamos ansiedade, não precisamos é que ela seja elevada ou a roçar um ataque de pânico, ou mesmo tê-lo. Não há nada mais fácil do que conter um ataque de pânico. Não virem já as vossas pistolas à minha cabeça! Sei que um ataque de pânico não é pêra doce, é uma sensação devastadora, não se conseguir controlar, pensar que vai morrer, ter um ataque cardíaco, enlouquecer ou ter um AVC. São poucas as sensações tão angustiantes quanto o medo em si, o pânico.

Há o pânico de não ser capaz de melhorar, de ultrapassar, de não ser capaz de fazer alguma coisa, de gerir o trabalho e as responsabilidades (principalmente quem é pai e mãe e tem uma vida profissional muito exigente, por exemplo), e todos os motivos que levam a que a ansiedade suba a níveis altíssimos. Quando isso acontece, um ataque de pânico pode estar ao virar da esquina.

Escrevo várias vezes sobre a ansiedade, e um dos meus últimos textos aqui no blog foi exactamente sobre esse tema, com algumas sugestões para gerir a ansiedade. Hoje quero escrever em concreto estar no momento presente e gerir os momentos de stress, ansiedade ou pânico quando eles acontecem, que é o que costumo fazer nas consultas quando ensino técnicas de gestão da ansiedade/práticas de relaxamento:

1. Barómetro da ansiedade

Imaginar uma escala de 1 a 10. Localizar a sua ansiedade, baixá-la, no mínimo até 5.

2. Contagem decrescente

Contar de 10 até 0, em cada número fazendo uma inspiração e uma expiração (usar com a respiração da coerência cardíaca – inspirar contando até cinco e expirar na mesma contagem, com o objectivo de cada inspiração e expiração terem a mesma duração).

3. Central de alarmes

Imaginar que na mente existem vários alarmes a piscar a vermelho que pode desligar ou mudar a cor (de vermelho para laranja/amarelo e de laranja para verde, por exemplo).

4. Telecomando das emoções

Igualmente, imaginar que tem um comando que pode aumentar e diminuir as emoções, é outra técnica de visualização/imaginação que pode utilizar.

5. Ser como uma árvore

Gosto particularmente desta prática, imaginar o seu corpo como se fosse uma árvore, com um tronco sólido, raízes fundas, e ramos a tocar no céu, com as suas folhagens ao vento. Parece poético mas ajuda a enraizar e imaginarmo-nos fortes mas flexíveis.

Estas são algumas das metáforas ou simbolismos utilizados em consulta, que são práticas que podem ser utilizadas para conter a ansiedade ou um ataque de pânico. São estratégias de gestão e contenção emocional, mas também distracção cognitiva. Se a mente estiver ocupada neste processamento, não está focada nos problemas ou dificuldades.

No fundo, estar presente no corpo é dar-lhe o que ele precisa a cada momento: comandos de estabilização, de reorganização e desimpedimento de pensamentos automáticos negativos.

Em relação aos ataques de pânico, o melhor que se pode fazer é estar consciente do que é o ataque de pânico, quando está para chegar e contê-lo numa fase inicial, quando se começam a sentir os primeiros sintomas de subida de ansiedade: palpitações ou taquicardia, nervoso miudinho, agitação, pensamento acelerado, dificuldade em respirar e sensação de sufoco.

Depois destas sensações, o sistema nervoso vai interpretar os sinais do corpo como se, de facto, algo de muito grave se estivesse a passar. Como tal, dispara os alarmes e aí gera-se o ataque de pânico, quando a mente começa a tentar atribuir causas ao mal estar físico e orgânico. Da racionalização do que se passa, surgem os tais pensamentos: “vou morrer/ter um ataque cardíaco/ter um AVC/vou enlouquecer”. Destes pensamentos, dá-se a escalada do pânico. São episódios que têm uma duração aproximada de 10 minutos.

Nada melhor do que procurar ajuda numa fase inicial para poder aprender estas técnicas e explorar melhor o que é a ansiedade e formas de a conter com alguém competente nessa área. Não precisa levar anos a passar mal com algo que se consegue resolver relativamente bem e de forma eficaz como os ataques de pânico.