A pessoa idealizada vs a pessoa real

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Expectativas. Quem as não tem? Relativamente aos outros, principalmente. Relativamente a familiares, nomeadamente mãe ou pai, relativamente a companheiros e companheiras, relativamente a colegas de trabalho, a amigos, e a todas as pessoas que significam algo para nós.

Queremos ser amados, aceites, respeitados. Queremos pertencer, queremos ser acarinhados, ter um colo, um porto seguro. Queremos estabilidade, acolhimento, entendimento, compreensão e que atendam as nossas necessidades, sejam elas físicas ou emocionais. Queremos gentileza, simpatia e amabilidade. Queremos  que sejam para nós o que nós achamos correcto.

Contudo, há relações familiares de vazio, frieza, distanciamento entre os elementos, de falta de afectos, expressão emocional, ou comunicação. Há famílias de gritos, discussão e violência. Há famílias de ausências, de negligência física ou emocional. Há famílias de exigências, autoritarismo, inflexibilidade, cobranças e carência. Há carência… Em todas essas representações, há sempre uma falta. Há sempre uma criança que foi refém de situações de falta de amor, carinho, entendimento, colo, presença, disponibilidade, compreensão, liberdade, respeito ou acolhimento.

E estas são as possibilidades menos felizes no campo das dinâmicas familiares. No campo dos relacionamentos afectivos ou íntimos, a história pode ser exactamente a mesma. Dentro desses padrões, o adulto pode também participar de relações que têm a mesma falta, ou carência. Relações felizes e harmoniosas, não são normalmente a norma, mas a excepção. De qualquer das formas, temos em nós representações mentais (ou esquemas mentais) de como devem ser as pessoas que amamos e estimamos, como se devem comportar e de como devem ser para nós.

Aí entra a expectativa, ou ilusão, que criamos, baseada em como gostaríamos que fosse a realidade, ou, no fundo, o comportamento da outra pessoa relativamente a nós. Esperamos que a pessoa corresponda ou vá de encontro às nossas expectativas, que ela ou ele se comporte de determinada maneira, tenha determinadas atitudes, consiga compreender, estar presente, ser consciente, etc. A lista é imensa.

Normalmente o que mais surge em consulta são duas situações: a minha mãe/a minha família não é como eu gostaria; o meu/minha companheiro/a não é como eu gostaria que fosse (não faz o que deveria fazer, não age como deveria de agir, etc.). Então aí entra a imagem idealizada de “como eu gostaria que fosse”, e a grande desilusão que é o facto de não poder ser assim. E somos capazes de levar a nossa vida a sustentar relacionamentos assim. Não só, a alimentar a crença, ou a expectativa, de que deveria ser diferente.

Conhecem outra fonte de sofrimento que traga este tipo de descontentamento, frustração, pesar, impotência, revolta ou angústia? A não ser a morte ou a separação não desejada de um ente querido, este é o motivo principal das nossas mazelas emocionais. Levar a vida à espera de uma coisa que não se pode concretizar, de facto se concretize. O movimento do “desapego” e do “deixar ir” não surgiu à toa. Surgiu, exactamente, desta fonte de sofrimento que são as expectativas: o ideal versus o real (o que está na nossa cabeça e o que, de facto, acontece ou pode acontecer).

Falei que a morte ou a separação não desejada de um ente querido era, além das expectativas, uma das maiores fontes de sofrimento da raça humana. E, se formos a ver bem, elas estão interligadas e são, de certa forma, uma e a mesma coisa: a expectativa da permanência, o desejo da continuidade, da correspondência do nosso ideal de sobrevivência – “eu gosto de ti, tu és importante para mim, logo, deves ficar e deves comportar-te como eu espero, porque se não, vais fazer-me sofrer, e eu não quero/não mereço sofrer”.

É absolutamente genial poder decompor as coisas assim. Dissecar a nossa expectativa de de sobrevivência. E porque falo em expectativa de sobrevivência? Porque para sobrevivermos emocionalmente, os outros precisam de nos dar o que nós queremos. E isto é uma expectativa puramente infantil, ou seja, originada na nossa infância, considerando que, enquanto bebés, nos foi dado tudo sem sequer pedirmos.

Alimentaram-nos, deram-nos banho, agasalharam-nos, deram-nos uma casa, uma cama, colo quando chorávamos, alimento quando tínhamos fome… Transferimos isso depois para a idade adulta. Interessante, não é? “Como eu preciso, tu tens de me dar”, “Como eu preciso, é suposto ser-me dado”, e estas são as crenças inconscientes geradas na nossa mais tenra idade, que são transpostas para o campo dos relacionamentos enquanto crescemos.

E para encurtar a história: não, ninguém tem de nos dar o que nós precisamos, por si só. Só nos dão se primeiro tiverem a capacidade para tal, e, segundo, a vontade plena de nos dar. A tal mãe ausente, distante, emocionalmente inapta; o companheiro inacessível, instável, narcísico, egocêntrico e orgulhoso; o pai austero, inflexível e irredutível; não vai poder fazê-lo. Não vai poder corresponder à expectativa de um modelo diferente, a menos que queira ou que consiga trabalhar-se o suficiente para funcionar de forma diferente.

Nestas e noutras situações, esperar que a pessoa mude, se torne diferente ou corresponda àquilo que queremos e desejamos, é uma prisão avassaladora. Somos nós que nos prendemos a conceitos do que é correcto e suposto acontecer.

Ninguém é responsável pela nossa felicidade. Ninguém pode dar-nos de bandeja o que precisamos a todos os momentos. Ninguém consegue sempre dar aquilo que esperamos, que desejamos e que queremos. Somo todos imperfeitos, todos temos as nossas limitações. Temos as nossas personalidades, temperamentos, e expectativas também. E nesse jogo sem fim de personalidades e expectativas, ferimos e somos feridos. Cabe-nos a nós, a penosa tarefa de desconstruir estes conceitos, poder dar e poder receber sem expectativas irrealistas.

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