O medo de acreditar que é possível

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Distimia. Quando a dor de viver se prolonga. A distimia é uma depressão que se prolonga no tempo. Não só, há temperamentos mais pessimistas. Pessoas que acreditam que não podem ter mais, que não é seguro desejar mais, ir mais além, porque a queda será maior. “Quanto mais feliz fores, mais fácil é desapontares-te. Como tal, melhor não seres (é mais seguro não seres)” é a crença base, ou o esquema mental de onde descendem pensamentos como: a felicidade é uma ilusão (enganadora), não posso senti-la (não devo), não é seguro, não me posso permitir sentir, etc.

Este tipo de pessoas escolhem, consciente ou inconscientemente, o caminho da tristeza, do pesar, do descontentamento, do sofrimento, da carga emocional. Carregam-na, e não parecem estar dispostas a largá-la. O peso é tal, que se convencem de que devem carregá-la, de alguma forma. Há uma certa forma de resignação até: “a vida é mesmo assim/estou destinada a sentir-me assim”. Existe uma auto limitação, uma auto sabotagem. Tal cancro que se alimenta de células saudáveis, de forma predatória, assim é esta identidade que nos ocupa, como tantas outras nos podem ocupar.

Há também distúrbios metabólicos, hormonais ou neurológicos que podem predispor a pessoa a esse tipo de sofrimento ou síndrome. As questões da saúde mental são complexas e, se um estado se prolonga no tempo, mesmo com terapia e muita vontade de mudar, é bom consultar um médico especialista em saúde mental, como um psiquiatra, um neurologista ou endocrinologista, e tomar medicação, caso necessário.

Há também variados tipos de traumas que podem provocar estas alterações. Uma vida sofrida, onde existiu violência, abusos, perdas, doença, instabilidade relacional ou profissional, etc. Perante um clima emocional de constante sofrimento, ou vários períodos de sofrimento, pode ser gerado, compreensivelmente, um estado de desesperança e desânimo permanentes. Se essa foi a sua realidade até aqui, como esperar melhor? Se aprendemos com a experiência, projectamo-nos no futuro com o mesmo grau de sofrimento ou insatisfação.

“Para quê entusiasmar-me se nada muda mesmo? E se volta a acontecer algo que me prova que a felicidade não é para mim?”. E surge a profecia de auto realização: “a vida prova-me aquilo em que acredito, trazendo-me mais dissabores. Como tal, tenho razão. Não posso ser feliz”. Sim e não. Tem razão, se continuar a acreditar assim. Não tem razão se trabalhar em si o suficiente, a pontos de modificar o seu sistema de crenças, a forma como interpreta as situações e a forma como age perante as várias situações. Há que desafiar-se, mudar rotinas, mudar a forma de pensar, de ver o mundo e a si também.

Essa identidade de dor que se criou, é uma parte sua. Uma parte que a acompanhou durante muito tempo, o que quer dizer que não vai desaparecer assim. Há que contactar essa dor, confortá-la e dizer-lhe que é possível, sim, a melhoria, a felicidade – que não é uma constante, verdade – mas que vale a pena sentir, e que é permitido sentir. E isto umas quantas vezes, até se convencer. E poder, então, sentir todas as emoções a que tem direito. Para além da tristeza, a alegria, a felicidade, o alívio, o bem-estar e a satisfação.

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