Sentar com as emoções

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A tristeza pede carinho, pede recolhimento, pede casa. Casa é colo. A tristeza pede colo, faz-nos querer recolher, isolarmo-nos, pensarmos, meditarmos, contemplarmos a nossa existência. A tristeza é um sentimento de profundidade, de contacto connosco, com a nossa realidade interior. Significa que uma parte nossa chora, está a sofrer por algum motivo. Essa parte pode estar a sentir-se rejeitada, sozinha, não compreendida, mal amada, ignorada, não pertencente a algo, em não sintonia com o todo ou com a própria existência.

Quando sentamos com a tristeza, é o mesmo que quando sentamos com o medo, como já tenho falado aqui. No fundo, quando sentamos com qualquer emoção “negativa”. Sentar com a emoção é prestar-lhe atenção, perceber o que essa emoção precisa. Normalmente precisa disso mesmo: colo, atenção e acolhimento. Quando lhe damos isso, a emoção transforma-se em algo diferente, como alívio, leveza, alegria ou mesmo preenchimento, plenitude ou gratidão.

Todas as nossas emoções nos pertencem, fazem parte de nós. Todas elas podem aparecer mais ou menos no decorrer do nosso dia-a-dia e das nossas vidas. Se há uma emoção recorrente, significa que essa emoção (ou o motivo que causa essa emoção constantemente) ainda não foi totalmente contemplada, cuidada ou reparada. Reparem que digo “sentar com as emoções”, e não “dormir sobre as emoções”.

Sentar é parar para escutar, ter tempo, dar atenção, permitir falar, permitir uma troca, um diálogo, uma partilha. Tal como sentamos com amigos. É uma actividade que envolve troca de ideias, envolve dinâmica, um movimento de dar e receber.  É algo prático. Não é adormecer ou esquecer ou empurrar para longe, como “dormir para resolver”. Não é a dormir que resolvemos alguma coisa, a não ser o cansaço. É confrontado aquilo que nos perturba, ainda que seja uma singela, e perturbadora, emoção.

Atrás dessa emoção vêm acontecimentos, coisas que nos marcaram, situações e pessoas que nos perturbaram por algum motivo. Atrás dessa emoção vem sempre uma dor. Dor de desapontamento, traição, perda, engano, desconhecimento, desprezo, indiferença, um mau trato, inveja, ciúme, o que seja. Pode ser real ou confabulado pela nossa mente, de acordo com as nossas fragilidades, vulnerabilidades ou carências emocionais.

Isto do trabalho de auto conhecimento e auto desenvolvimento não é só ter conhecimento e consciência das coisas, é trabalhar sobre elas. É conversar com elas, essas partes feridas, preocupadas ou amedrontadas. É confrontá-las, ressignificar as nossas crenças e pensamentos. Normalmente a emoção vem sempre a partir de um pensamento, e os pensamentos surgem baseados em sistemas de crenças. O que é certo ou errado, naquilo em que acreditamos ser justo ou não, que queremos ou não, que aceitamos ou não.

Então é isso. Por mais que surja o medo, a tristeza, a nostalgia, a saudade, não há que temer ou evitar. Receba essas emoções como quem recebe hóspedes queridos que vêm machucados, feridos ou angustiados. O que faz? Ouve-los, não é verdade? Escuta, aconselha, acalma. Eles sairão agradecidos e aliviados, e você também, porque pôde ajudar e ser útil, e também porque acalmou uma parte de si.

“Já que não se pode ver livre dos medos (das emoções), aprenda a viver com eles”.

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