E quando se concretiza o sonho?

depositphotos_130492750-stock-photo-woman-surprise-showing-product

E de repente estamos lá. Chegou o dia em que concretizámos um sonho. Pode ser qualquer coisa, casar, ter filhos, abrir o tal negócio que sempre se pensou, comprar aquela casa, ir a um determinado local, fazer determinada coisa… O que seja.

Quando levamos anos a fio imaginando e idealizando determinado evento ou acontecimento, e, de repente, ele se materializa, fica uma certa sensação de desconforto. De vazio, de medo, de incerteza. Fica no ar a questão: e agora? E agora o que acontece daqui para a frente? Será que vai correr bem? O que posso sonhar mais? Que mais objectivos posso estabelecer? O que ainda é possível fazer?

Nunca conseguimos viver tudo numa só vida. Talvez há quem consiga, não sei. Mas há sempre mais o que sonhar, mais o que viver, mais o que querer e o que sentir. Mas, e quando já se tem tudo? Então eu digo: é usufruir disso que se conquistou. Manter, estimar, fortalecer, aumentar se for possível e fizer sentido…

E porquê o vazio, depois que se conquista uma meta, um objectivo, ou um sonho de vida? Porque uma parte nossa, que acalentou essa ideia por tanto tempo, de repente deixa de existir – dando lugar a uma sensação de deslumbramento e irrealidade até: eu fiz isto! Eu finalmente consegui… Há estranheza e, se for preciso, tristeza também. Colapsamos sob o peso daquilo que conseguimos realizar.

Talvez quem atinja metas ou objectivos muitas vezes e rapidamente, não fique com esta sensação, porque o faz consecutivamente. Eu falo mesmo naquele sonho de vida, que parecia tão inacessível e distante, que muitas vezes nem sabemos se vamos conseguir chegar lá, como o vamos realizar ou quando.

Isto a propósito de eu abrir, finamente, o meu gabinete, ou consultório. Quando tive tudo no sítio, pronto a iniciar actividade, contemplei o espaço (e a minha existência) e isto foi o que senti: cheguei lá, e agora? Como vai ser daqui para a frente? O que existe mais? E rapidamente me lembrei de mais umas quantas coisas a fazer… E preenchi o “espaço vazio” que a concretização desse sonho deixou, com outras metas e objectivos. E a vida continuou.

Os movimentos do inconsciente

gears-1236578_960_720

Quando se faz hipnoterapia, os exercícios continuam a exercer o seu efeito para além daquele momento, daquela sala, daquela terapia, nas próximas horas e dias. O que acontece na hipnoterapia é também reprogramação, para além de evocação e simbolização. Evocação, ou regressão, diz respeito a ir buscar memórias, sentimentos, crenças e emoções. Simbolização é representar o que se sente sob a forma de uma imagem metafórica (tristeza = mancha negra, raiva = faca no peito, medo = pedra, por exemplo) ou sensação física/orgânica.

Vários são os exercícios realizados em cada sessão. Normalmente começa-se com uns exercícios de relaxamento, como práticas de respiração consciente, consciência corporal e relaxamento progressivo. Depois passa-se para as tarefas metafóricas, a tal simbolização e evocação de conteúdos a trabalhar, que, normalmente, foram discutidos e falados previamente. Então, a verdadeira (hipno)terapia começa.

É feito o trabalho interior de reconhecimento, questionamento, confrontamento e apaziguamento do que seja necessário. E isto tudo através de movimentos da mente, consciente e inconsciente. Ao trabalharmos neste plano, e a nível de profundidade, muitas peças são mexidas em nós, como os carretos numa engrenagem. Aqueles que estavam parados, calcificados, empoeirados, enferrujados ou empenados, voltam a girar e a trabalhar. A engrenagem ganha vida novamente. Peças são mudadas de lugar, outras desactivadas, substituídas ou eliminadas. É tornado mais eficiente, ou, por outras palavras, actualiza-se o mecanismo.

A mente como um todo é um mecanismo altamente complexo. O inconsciente é como uma engrenagem mais rudimentar, que parou, mais ou menos, no tempo, mantendo as crenças, comportamentos padrão, formas de reagir e pensar. Tudo isso tem de ser, necessariamente, mais estanque e mais profundo também. À superfície, ou parte superior da mente (consciente), tendo toda uma panóplia de mecanismos activos, como uma fábrica, uma zona de instrumentos tecnológicos, cheios de painéis a brilhar, écrans, cabos, ligações e interconexões, e vários operários atarefados de um lado para o outro.

Se vamos mexer neste mecanismo, nestas estruturas, é normal haver movimento e alterações (reprogramação), uma vez que estamos a dar instruções para uma nova forma de funcionamento. É quando os operários param, observam e aprendem a nova forma de fazer e processar a informação. Podemos até dizer que esses operários são, nada mais nada menos, de que os neurónios, a trabalhar nas várias zonas especializadas. Eu imagino os mecanismos todos a inverterem a marcha, os rolamentos a ficarem afinados e alinhados. Tudo mais orquestrado, eficiente e oleado, no fundo.

Mas esta é a minha visão da coisa… Quase Álvaro de Campos. Como tal, o inconsciente vai processar toda a informação trabalhada, de forma a “arrumar” tudo nos sítios certos, considerando que estivemos a “desarrumar” a casa, e a tirar coisas do sítio. Ainda que façamos esse trabalho na sessão, vai continuar a acontecer para além dela, porque essa foi a direcção ou instrução dada. Então, nos próximos dias, a terapia ainda vai continuar a “fazer efeito”, como uma medicação tomada. E esta é a minha melhor forma de explicar o processo que acontece no pós terapia, respondendo à pergunta: “isto fica a trabalhar depois de eu sair daqui?”. Fica pois…

Quando a mente deprime

girl-1098612_960_720

Quando se fala em “depressão crónica” o meu coração dispara. Imagino o que possa ser viver deprimido a maior parte do tempo durante anos. Mas o que percebo é, para além de óbvias e necessárias alterações metabólicas e neuronais, é o pensamento que está deprimido. A forma de pensar está saturada, o comportamento de manutenção de hábitos nocivos leva à perpetuação de um estado de humor cronicamente deprimido. Claro, se habitamos em ambientes tóxicos (trabalho, relações e forma de pensar habitual negativista) não podemos estar senão deprimidos.

Há outra forma de depressão: a causada por ansiedade excessiva por um longo período de tempo. Essa forma de depressão pode levar ao esgotamento, ou burnout, quando a pessoa já quebrou todas as resistências e ultrapassou todos os limites físicos, psicológicos e emocionais. E isto está a acontecer cada vez mais. Estamos a trabalhar demasiado, temos pouco tempo de descanso, as exigências diárias são mais que muitas, esperam muito de nós (e nós de nós mesmos também), precisamos estar sempre bem, o trabalho e as responsabilidades não param e não deixam de existir, independentemente da nossa condição física, mental ou emocional.

Não é à toa que surgiram tantas terapias, centros holísticos e terapeutas alternativos para compensar esta loucura de vida que vivemos diariamente, ano após ano, num registo e ritmo alucinante de tarefas, solicitações e obrigações. Eu não sei quanto a vocês, mas 22 dias de férias por ano parece muito pouco, para quem trabalha 5 ou 6 dias por semana, sem contar com o trabalho doméstico e tomar contra de nós. E é exactamente nesse ponto que quero tocar e elaborar.

Vocês tomam conta de vocês? De si mesmo/a? Sabe o que falo? Tomar conta de si? Desse ser que o/a habita? Sentir as necessidades desse ser, percebê-lo, dar-lhe o que ele precisa? Sem reprimendas, crítica ou julgamento. A forma como fala consigo importa, e importa muito. Mais que isso, determina a sua vida, o seu estado mental, o seu estado de humor, o seu sucesso e a sua felicidade. E esta? Sublinhe bem esta frase. O seu pensamento, como pensa, como fala consigo, DETERMINA, as suas vivências e a sua história de vida.

Voltemos ao pensamento deprimido. Quando uma pessoa só foca no problema, para cada solução apresenta outro problema, vive neste loop ou ciclo de vivenciar perpetuadamente ou continuamente o que está de mal na sua vida, preste atenção: a sua mente e corpo vão quebrar mais cedo ou mais tarde. Aparecem os tais sintomas psicossomáticos que a medicina não é capaz de explicar ou de determinar uma causa orgânica, mas a causa orgânica é você mesmo/a que a está a causar: a frequência do seu pensamento.

Não o faz propositadamente, mas se o seu humor está ou é deprimido, está na altura de uma reavaliação. Tal como se faz a revisão ao carro, tem de parar regularmente para se sentir a si. Perceber em que estado se encontra, o que precisa ajustar. Somos uma receita complexa, temos variadas necessidades. Parar e escutar o seu corpo e emoções são de suma importância e vitalidade. A depressão é um sintoma (ou sinal) em si, e a depressão normalmente espreita para perguntar: Hey, achas que estás a ir por um bom caminho? Se calhar é altura de fazer mudanças ou tomar decisões para o teu bem estar…