O caminho

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O caminho faz-se a caminhar não é verdade? Existem trilhos marcados que seguimos, com a intenção de chegarmos aonde eles nos levam. Podemos querer chegar mais ou menos depressa, desfrutar mais ou menos do percurso, irmos mais ou menos devagar, podemos ir distraídos, pensativos, meditando, apreciando… O que é certo é que, seguindo aquele caminho, todos chegamos ao mesmo sítio. A questão é como se caminha e como se chega.

Muitos são os momentos desesperantes, frustrantes, cansativos, em que estamos fartos de caminhar, cansados, desejando de chegar. Momentos de dor, de desespero, de angústia, em que nos apetece desistir e nos questionamos porque raio fomos por ali, ou porque nos propusemos determinado desafio ou conquista. E depois há outros momentos, de satisfação, orgulho pelo que conseguimos, a sensação de desafio superado, de descanso merecido, de encantamento pelas coisas que vemos, de êxtase pela maravilha de determinados momentos e paisagens, de locais e situações.

E depois há os momentos “uau”, de caída de fichas, de constatações, em que tomamos decisões, em que nos percebemos melhor, compreendemos determinadas situações que nos acontecem, e porque acontecem. Caímos em nós, caímos do pedestal onde por vezes nos colocamos em termos de certezas e dados adquiridos. Caímos à nossa verdadeira natureza, à humildade de perceber que, por vezes, nada sabemos, apenas julgamos saber.

Este texto hoje é especial, diz respeito a um desafio que me propus fazer, o Caminho de Santiago. Já fazia parte da minha bucket list (lista de desejos) há muitos muitos anos. Foram 6 dias de caminhadas intensas, sob chuva, vento, frio mas também sol e calor. Cada dia uma paragem numa localidade diferente, em albergues públicos ou privados, em que todos os dias se desfazia e fazia a mochila, eterna companheira de viagem, onde reunimos todos os nossos pertences para esses dias.

Cada dia uma aprendizagem, uma lição. Houve momentos de inspiração, momentos em que caminhei sozinha por quilómetros e outros em que caminhei em grupo. Houve momentos em que a minha mente reclamou sem parar, houve momentos em que me permiti não fazê-lo. O hábito da reclamação mental rouba-nos imensa energia. Quando não o fiz, e caminhei ao meu ritmo e ao meu tempo, e me permiti respeitar as necessidades do meu corpo, parando quando tinha necessidade, caminhando mais devagar se fosse necessário, comendo quando tinha fome e não quando o grupo iria parar para comer, o meu corpo (e mente) agradeceu.

O objectivo que me propus para o caminho foi mesmo esse: não ter pressa de chegar. Que é o que costumo fazer diariamente e em vários momentos da minha vida. Levamos o tempo a correr atrás de alguma tarefa, compromisso, solicitação, evento, momento, horário, que nos esquecemos de estar presentes, no aqui e no agora. Mesmo a nossa mente, saltita de coisa em coisa que tem de fazer, num emaranhado de pensamentos sobre uma variedade de assuntos.

Então “O Caminho” no fundo é o caminho da nossa vida, a forma como caminhamos, como vamos vivendo a experiência de estarmos vivos, como nos relacionamos com os outros e connosco também. A forma como nos relacionamos com a nossa mente: deixamos que ela domine e controle ou questionamo-la e moldamo-la a ser mais flexível, tolerante, gentil e compassiva? Com as nossas dores, as nossas sensações e emoções?

Eu falo muito em sermos pai e mãe das nossas emoções, acolhendo-as. Mas e dos nossos pensamentos? Igual… Os pensamentos despertam emoções, as emoções mais pensamentos, então temos de acolher directamente os pensamentos, o que eles nos dizem, o que eles sinalizam. E irmos falando com eles de uma forma benevolente, paciente, compreensiva, empática. Da mesma forma que falaríamos com alguém querido, que é o que costumo dizer.

Acerca do processo de morte e renascimento que podemos experimentar no Caminho, falarei outro dia. O meu caminho foi de Vigo a Santiago de Compostela e teve a duração total de 8 dias e foram cerca de 130km até regressar, com todas as voltinhas. Fiz o Caminho Português da Costa, Variante Espiritual. Paisagens lindas lindas, com muito verde, bosques e água a correr em todo o lado, relembrando-nos da abundância do norte no que toca ao elemento água. Vale a pena conhecer, nomeadamente Pontevedra, Santiago de Compostela e a Rota da Água e das Pedras que parte de Armenteira.

Os lugares de dor

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Há espaços de dor que só se podem abrir de dentro para fora. Há memórias em nós difíceis de quebrar, memórias celulares dos nossos ancestrais, memórias e registos de dor, de trauma, de tormento. A história pode ter-nos passado ao lado em certos aspectos, mas ela continua a viver em nós de certa forma. Não somos indiferentes a catástrofes que não aconteceram directamente connosco, e não só, somos também empáticos com o sofrimento de outros.

Há um sofrimento colectivo que está agregado em nós, nas nossas células, nas nossas memórias inconscientes, naquilo que os nossos pais, avós e familiares mais distantes vivenciaram. Temos padrões em nós ainda, que não fazem qualquer sentido actualmente, mas eles existem, e eu sei que sabem do que falo. Coisas que fazemos, pensamos e sentimos que parece que não correspondem com aquilo que somos actualmente. Nota-se mais quando somos pais ou mães, ou mesmo em algumas reacções que temos, que parecem não corresponder com os nossos ideais ou como decidimos colocar-nos perante determinadas circunstâncias.

Somos uma teia emaranhada de factores, registos, condicionamentos sociais, culturais e familiares. Tanta coisa em nós por decifrar, perceber e trabalhar. Libertar-nos desses condicionamentos e registos não se faz sem dor. Esses próprios padrões ou registos trazem dor, trazem-nos limitações. Limitações no dar, no receber, no agir, no conseguir, no fazer, no ir em frente, ultrapassar determinadas situações, o perdão, etc.

É importante ir dentro, ir fundo, fazer o trabalho de desenvolvimento pessoal, auto conhecimento, fazer introspecção, não nos ficarmos com o “molde” herdado ou criado. Somos tão mais para além desse molde, não podemos permanecer numa estrutura rígida de sofrimento ou limitação. Que possamos romper os moldes para podermos ser leves, flexíveis, libertos e livres enfim. Os lugares de dor são cárceres e carcereiros dos quais nos podemos libertar. Você tem a chave. Sempre teve.