A mulher ferida e a traição

 

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Ainda a respeito do Caminho de Santiago. No percurso de Vigo a Pontevedra, a Senda da Água, passava por uma povoação de nome “A traída”. Esse nome, de alguma forma, ressoou em mim, disse-me algo, e eu reflecti acerca do tema da mulher ferida. A mulher traída, enganada, desanimada, magoada, e todas as feridas que podem ser as de uma mulher. Pensei em toda a linhagem de mulheres atrás de nós, cada uma de nós, das gerações anteriores a nós. As nossas mães, avós, bisavós e todas as que lhes antecedem.

Pensei no corpo de dor da linhagem feminina, os abusos, os abortos, a violência de género que ainda acontece aos dias de hoje, e todas as formas de violência à mulher desde os primórdios da humanidade. Esse corpo de dor tem correspondência imediata com o corpo de dor do masculino, pois um não fere o outro sem estar também ele magoado de alguma forma, a sofrer de alguma forma, seja por inconsciência ou por desordens emocionais ou psicológicas.

A violência à mulher, mesmo a traição, é uma forma de violência contra si mesmo. A pessoa que trai está ela própria magoada, fere o outro, ferindo-se a si mesmo, de uma maneira ou de outra. A traição é uma forma de auto agressão, auto punição, vingança contra si mesmo. “Não gosto de partes de mim mesmo, como tal uso outra pessoa para me poder vir a sentir mal comigo mesmo, de forma a poder contemplar essa aversão que sinto por mim”. Podemos pensar que é o instinto do prazer imediato, que pode ser também uma forma de fortalecimento do ego, mas não é mais do que uma pilha vazia que precisa de carregar-se com alguma fonte de energia externa.

Às vezes a própria sensação de traição, ou engano, por parte da mulher pode derivar de uma relação que não está a ser satisfatória para ela, não correspondendo às expectativas ou ideais dessa mulher para a relação ou para o companheiro. Sobre esse assunto muito se poderia escrever. A minha percepção e análise é que essa mulher colocou uma carga grande sobre o companheiro de determinadas expectativas às quais ele não pode corresponder: ou porque não consegue, ou porque não pode ou porque não quer. Quer seja por personalidade, inconsciência relativamente aos seus processos internos ou por processos de dor que são incapacitantes para ele e que ele ou não quer ou não percebe que pode tratar.

O masculino escondeu-se, ao longo de toda a história da humanidade, das questões emocionais, tradicionalmente endereçadas à mulher. A mulher sempre contemplou, aceitou e viveu o mundo emocional como parte de si, o homem não. A mulher sempre pôde conversar sobre os seus sentimentos e angústias a outras mulheres, sempre pode manifestá-los, expressá-los, sempre lhe foi autorizado, de certa forma, fazê-lo. O homem não. Sabem disto, “homem que é homem tem de ser forte, valente”, “homem que é homem não pode chorar, ter sentimentos – e Deus nos livre – de os mostrar”.

Esse tratamento dado aos homens, não esperando mais deles, ou não os tendo educado para o mundo feminino das emoções e sentimentos, não os permitiu crescer. Milénios de história e inconsciência dos tempos antigos, de dominação do masculino sobre o feminino, não desaparecem de um pé para a mão. Os homens também precisam aprender a render-se ao mundo feminino, ao mundo dos sentimentos e emoções, uma parte deles que lhes tem sido negada até agora.

Sim, não são muitos os homens que se rendem ou pretendem fazê-lo. Quando falo em inconsciência falo disso mesmo: “não preciso, não tenho de o fazer, estou bem assim”. E nós, mulheres, também temos quota parte nas convicções que mantemos, nos comportamentos que temos tido de depreciação, desvalorização e ressentimento a respeito dos homens com quem nos podemos ter cruzado ao longo das nossas vidas. Nós também não correspondemos, muitas das vezes, ao que os homens idealizam e esperam – uma mulher sorridente, que os aceita, que os recebe bem, que trata deles, que não os critica nem julga.

E nestes processos de relacionamentos modernos, com projecção do passado evolutivo dos relacionamentos, fomos acumulando expectativas, ideais e convicções que são contraproducentes e contraditórios também. Todos queremos algo uns dos outros. Mas uma coisa é certa: todos queremos alguém que nos aceite e ame incondicionalmente, que esteja lá para nós em todos os momentos, que seja sensível, maduro, bem resolvido, etc. E nós, mulheres, somos capazes de dar isso também? Que parte sua está ferida e prejudica os seus relacionamentos? É essa a sua parte a ser trabalhada para que possa ter o relacionamento feliz e completo que procura.

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