Aos pais que nos deram a vida

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Devemos agradecer. Pelo simples facto de nos terem dado a oportunidade de existir, estar nesta terra, ter-nos sido dada vida, de viver e respirar. Ao pai porque pôs a semente, à mãe que foi o canteiro. A bênção de estar cá, de poder ser gente, de poder sentir, de ser carne e osso, corpo vivente. Conscientemente ou inconscientemente, de forma desejada ou não desejada, estamos cá. Somos gente, somos pessoa. somos existência e potencial. Somos material das estrelas, matéria divina, carne e osso, somos mente e emoção.

Aos pais que nos trouxeram a esta vida, ao mundo, um muito obrigada. Um reconhecimento e uma vénia. Hoje vos reconheço, hoje vos sinto como oportunidade, como intenção, como casal, como ventre, como vontade, como portal. Através de vocês vim, através de vocês conheci o mundo, conheci a vida, conheci a família, o sentimento, o cuidado, o carinho, a preocupação, a pertença. O primeiro contacto com o mundo foram vocês, a porta para a escola,  conhecimento e o crescimento. Através de vocês pude estudar e crescer, viajar, ser gente, ser pessoa. Ser alguém neste mundo.

Através de vocês estou aqui, estou cá, estou, sou. Sou uma mistura de quem me trouxe, quem me criou, quem me educou. E nesse reconhecimento, reconheço-me, as minhas partes, as minhas partículas, as componentes da minha personalidade e do meu ser como um todo. Todas as ramificações, o funcionamento da minha mente e da minha psique, o meu corpo, a minha genética, as informações lá codificadas, os anos e séculos de história, de linhagem, linguagem e pensamento.

Hoje vejo, hoje reconheço e hoje honro. Honro quem fui e quem sou, mas também quem posso ser mais, para além de tudo isso. Tanta coisa nos compõe, nos formula e desordena. Somos uma constelação de factores, de componentes, circunstâncias e informações que registamos, para o bem e para o mal. Com o tempo, com contemplação, com reverência e introspecção, conseguimos deslindar tudo isso e compreender, aceitar, integrar e agradecer por tudo isso.

Não se faz esse caminho sem descontentamento, revolta, indignação, incompreensão, rebeldia, resistência e rejeição. Primeiro constatamos as semelhanças ou divergências, depois entramos em estado de choque ou negação. A seguir revoltamo-nos com o que herdámos, seja em termos de temperamento, personalidade, características, situações de vida, dificuldades, faltas, carências ou excessos (de crítica, de protecção, de zelo, de ausência, perfeccionismo, autoritarismo, cuidado ou carinho). Vamo-nos apercebendo de tudo isto à medida que vamos crescendo e que vamos tomando mais e mais consciência do nosso comportamento ou padrões de funcionamento e pensamento.

Mas há uma altura para fazer as pazes com esse passado, legado ou herança. Somos quem somos, um conjunto daquilo que nos compõe. Somos a nossa família, somos os nossos pais, somos os seus antepassados. Somos os seus padrões mentais, emocionais e comportamentais. Temos o resto da vida para desconstruir transformar e transcende-los. Podemos fazê-lo. O primeiro passo é reconhecê-lo, o segundo é aceitá-lo, o terceiro é mudá-lo: ficar com o que é nosso e o que nos faz sentido, devolver o que não precisa de nos pertencer em termos de crenças, convicções e comportamentos, e integrar tudo na nossa verdade, em jeito de conclusão.

Juntar o que de melhor recebemos, transformar o que foi menos bom, é disfuncional, não funciona mais ou não é mais actual ou funcional para nós, e com isso construir a nossa identidade, junto com o novo que podemos introduzir para que a receita fique completa e possamos evoluir para lá do que foi aceite e conhecido como normal, como a norma, e que não tem de ser mais.

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