Porque nos mantemos nas relações

casal-1697571_960_720

Há vários motivos que fazem as pessoas manterem-se em determinadas relações de falta ou excesso. Falta de carinho, compreensão, aceitação, comunicação, cumplicidade ou intimidade. Excesso de controlo, violência, ciúme, medo ou insegurança.

Falemos do medo: o medo origina quase tudo isso. A inconsciência e imaturidade sócioemocional também. Ora o medo pode ser de quê? Medo da perda, da rejeição, do abandono, da traição e da solidão. Medo de ficar sozinho, medo de mais ninguém gostar de si, medo de não encontrar mais ninguém, medo da desaprovação de outros, da crítica da sociedade ou da família, medo do que outros podem dizer, pensar ou achar, medo de desapontar, de desiludir… Medo de tudo e mais alguma coisa.

Há quem não se aperceba, não confie ou não acredite que há relações que podem ser boas, completas e harmoniosas. Há quem não conheça exemplos assim. Há quem tenha a convicção de que os relacionamentos são de uma determinada forma, como tal não podem ser diferentes desse modelo ou padrão e então vão-se mantendo. “Isto eu já conheço, como tal mais fale ficar aqui (é mais seguro)”.

Viemos de uma história de relacionamentos porque sim, de obrigação, de tradição, de obediência ao modelo sóciocultural, de dependência, de exigências e expectativas. Um modelo rígido e estanque que não promove a liberdade dos seus elementos. Temos ao nosso dispor histórias de dor e sofrimento, de submissão, de obediência, de separação e de conformismo. Separação de elementos que estão juntos fisicamente mas que emocionalmente estão completamente segregados, separados, distantes, não complementares.

A tradição de utilidade do casamento está obsoleta. Não precisamos mais casar ou viver juntos como forma de sobrevivência (salvo alguns casos que não vou mencionar aqui hoje). A mulher emancipou-se, os estudos até mais tarde e o investimento da carreira, associado à capacidade de adiar a maternidade, revolucionou a fórmula vigente dos relacionamentos. Já todos sabemos isso. Como tal, porque permanecer num relacionamento que, à partida, não apresenta benefícios, interesses em comum, cujos elementos estão distantes, não comunicam, não se gostam ou não se identificam já um com o outro?

Para além do medo, há questões ainda mais inconscientes que representamos nas nossas relações, padrões familiares, padrões de funcionamento, crenças e convicções, bem como comodismo. A nossa mente foi programada, ou habituada, a mantermo-nos naquilo que é conhecido. O que é conhecido, para nós, o que é familiar, é seguro. Representa manutenção da sobrevivência. Todas estas questões estão inculcadas nas nossas células primitivas, no nosso sistema límbico ou emocional. A nossa genética obriga-nos a ficar, a sentirmo-nos seguros e protegidos no seio de uma relação, ainda que infeliz.

O mecanismo de sobrevivência fala mais alto. Sobrevivência física e emocional. A componente física, económica ou funcional da nossa sobrevivência até se pode manter sem companheiro/a, mas e a emocional, como fica? O espectro da solidão paira sobre todos nós: “Quem vai cuidar de mim quando estiver doente? Quem me acompanhará na velhice? Quem estará comigo para me socorrer em caso de necessidade? Quem me vai ouvir quando estiver triste? Quem estará para mim quando precisar? Com quem falar quando chego a casa? Com quem posso partilhar a vida, os momentos?”. Tudo isto nos influencia.

Queremos manter-nos num determinado funcionamento, num determinado padrão conhecido, uma fórmula segura. Fomos ensinados que a dois era melhor apesar de, a maior parte das vezes, até podemos não ter constatado isso. Fomos ensinados que estar sozinho é mau, não é seguro. Fomos ensinados que precisamos sempre de alguém, a depender de alguém de alguma forma: sozinhos não é suficiente, não nos bastamos nem nos podemos bastar. Contudo, sozinhos vivemos se for preciso.

A dependência afectiva ou emocional do outro é tão grande que há quem se veja em situações indesejadas, infelizes e incompletas, durante mais tempo do que o esperado. O autoconhecimento, para mim, é a melhor forma de compreendermos estes padrões e porque se mantêm. Perceber as nossas carências, as nossas crenças e convicções, as nossas expectativas do que é possível ou não, do que esperamos ou não e do que acreditamos sermos merecedores ou não.

Que todos, sem excepção, possamos fazer essa jornada rumo ao nosso autoconhecimento e autodesenvolvimento para que possamos transformar as relações de hoje e amanhã, actualizando essas relações para modelos positivos, fortalecedores, harmoniosos e felizes. É possível. Todos, mais ou menos, estamos a fazer isso. Todos somos exemplo e todos temos a capacidade de mudar. Mudar a forma como pensamos e mudar a forma como nos relacionamos uns com os outros.

2 thoughts on “Porque nos mantemos nas relações

  1. Nas vilas mais pequenas até se “”enviam as filhas para a morte” isto é se uma filha diz aos pais que o marido lhe bate inclusive ao ponto de lhe partir um braço, algo de mal se passa, mas a vergonha do povo era mais forte, ao ponto de convencer a filha a voltar para casa para o marido, ora vejamos se a tratava mal, poderia um dia resultar em algo trágico, os pais sabiam disso, mas não ter uma filha separada do marido era uma vergonha para a família, mais do que a dor de perder uma filha. Foi um caso verídico ele acabou por estrangular a mulher na presença de um dos filhos. Passado alguns sai por bom comportamento não cumpre a pena toda e aí lembra se k tem filhos e quer os filhos. Caricata esta situação, na minha opinião matou então a pena de morte seria tb morrer,

    Gostar

    1. Verdade… Isso acontecia e continua a acontecer aos dias de hoje mesmo que não seja uma vergonha já a separação ou a família não estando envolvida. Muitos podem ser os motivos… Medo das consequências da separação. Não ter para onde ir. Vergonha, sentimentos de culpa, ameaças filhos pequenos, etc.

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s