Os 7 pecados capitais

bible-1058289_960_720

Sabe quais são? São eles: a gula, a luxúria, a inveja, a ira, a preguiça, a avareza e o orgulho. Sabem quando começou a ser elaborada uma lista de pecados? No século IV. Esta lista de 7 pecados foi apresentada no século XIII. E porque foi criada esta lista? Para fazer cumprir os 10 mandamentos que a igreja católica tinha como regras base de moral e conduta apropriada na vivência dos relacionamentos entre as pessoas.

Ainda hoje são vistos como pecados, e atributos ou características que não devemos ter. Cada pecado capital tem uma virtude oposta, a temperança, a castidade, a caridade, a paciência, a diligência, a generosidade e a humildade. Sabendo disto, percebemos claramente que não conseguimos viver só com as qualidades mais elevadas que podemos ter e que existem como possibilidade.

Nem sempre conseguimos ser pacientes, às vezes vamos estar zangados. Por vezes cobiçamos o que é dos outros, queremos igual. Gostamos dos nossos prazeres mundanos, como a comida e a bebida, que nos faz juntar com amigos e família. Por vezes gostamos de estar sem fazer nada, cedendo ao desejo da indulgência e da procrastinação. Muitas vezes ficamos feridos, magoados, e não queremos dar o braço a torcer. Também podemos ficar contentes e satisfeitos com conquistas nossas. Por vezes não queremos partilhar o que é nosso e queremos mais, somos ambiciosos, procuramos conquistar e ganhar mais do que temos actualmente.

Então eu digo, se vivermos sem isso, o que nos resta? O que é feito do nosso mundo emocional e corpo de desejos que herdámos quando chegámos a este mundo? É incompatível sermos o que somos e termos de rejeitar partes naturais ao ser humano. A ideia de pecado é uma ideia religiosa, e a religião foi criada para regular o comportamento humano, muitas vezes considerado como depravação, corrupção ou perversão.

Se não houvessem essas características consideradas como pecados, não haveria evolução tecnológica, médica ou científica. Todos tinham o mesmo, da mesma forma. Não haveria propagação da espécie, reprodução. Não teríamos nada a não ser valores e princípios. Viveríamos sem esperar mais nada, sem tentar mais nada.

Talvez esteja a exagerar, mas eu não sei como seria o mundo sem esses atributos naturais à espécie humana. Talvez fosse um mundo pacífico (só poderia ser), talvez fosse um mundo perfeito, mas nós não somos perfeitos, não podemos ser, não nos é possível. A própria humanidade contém em si a imperfeição, a impermanência, o defeito, a crítica, o julgamento, a dúvida, a insegurança, o medo. E isso faz-nos ter comportamentos ou condutas que nem sempre são as melhores. O medo de perder faz-nos fazer as coisas mais incríveis contra nós e contra outros. As guerras são filhas do medo, a divisão é filha do medo, a culpa e o castigo são filhas do medo.

E de medo em medo nós somos reféns, reféns de vícios que nos disseram que não poderíamos ter, mas procurar esses vícios é natural em nós. Então como resolver este dilema? Eu acho que se aprendêssemos a ser tolerantes, benevolentes e aceitantes de nós e das nossas emoções e necessidades (são elas que nos propulsionam a procurar os tais “vícios da carne” e da mente), poderíamos conseguir muito mais. A rejeição de atributos em nós não nos faz chegar mais longe. A aceitação e o acolhimento sim.

Que possamos fazer as pazes com os nossos vícios, olhar para eles, trabalhá-los, libertar o que está na origem de algumas dependências ou comportamentos que não são bons para nós nem para outros, como fumar, consumir drogas, beber em excesso, refugiar-se em corpos alheios, comer ou comprar compulsivamente, ser arrogantes e prepotentes, por exemplo. Tudo o que está em excesso ou em falta revela uma fragilidade, e é aí que podemos intervir. Não negar o que é nosso ou está em nós, mas aceitar que existe e que pode ser regulado de alguma forma, bem como transformado e até transcendido, se for preciso.

O parlamento da mente

394144

No parlamento da mente sentam-se várias vozes. As vozes da discórdia, da oposição e do contra, mas também as vozes que incentivam à mudança, que dizem que é possível e que se pode conseguir estas e aquelas coisas. Há as vozes enaltecedoras mas também as vozes críticas. Há o julgamento, o preconceito, a dúvida, a incerteza, a insegurança, mas também pode haver a alegria, o entusiasmo, a esperança, a fé e a calma. Tantas as vozes que é difícil contar. Umas vezes são umas que prevalecem, outras vezes são outras. Demasiadas vozes em nós.

É difícil, por vezes, fazer valer a voz da confiança e da determinação. Temos vários aspectos a coexistir em nós, a nossa mente traz vários argumentos e contra argumentos sobre uma variedade de situações. Muitas vezes não é só a mente e a parte racional a comandar, é também a parte inconsciente e emocional. O medo é uma das principais vozes do inconsciente, uma parte fundamental da nossa mente e que acaba por nos limitar imenso também.

O medo faz parte da nossa programação. É a voz que alerta para os perigos, que nos faz ser cautelosos. Mas ele começou a ocupar demasiado espaço em nós e nós permitimos que isso acontecesse. O nosso medo é a soma dos medos dos nossos antepassados, dos nossos pais, dos nossos amigos, do local onde moramos, da cultura a que pertencemos e das circunstâncias que nos envolvem. De criança nos ensinam a ter medo: “não vás por aí, não faças isso, cuidado com estranhos, não corras que tropeças, vê lá que te vais aleijar” e muitos exemplos destes. Aprendemos, então, a moderação, a contenção e a sensatez.

Há educações tais, de um perfeccionismo e controlo extremo. Os pais podem ser mais ou menos autoritários, mais ou menos controladores, o que é certo é que aprendemos sempre uma boa dose de medo. Mesmo que sejamos destemidos, ficam gravadas aquelas vozes, conselhos ou ameaças de que se andarmos completamente à vontade, algo de ruim pode acontecer. E isto é poderoso, todas as coisas que se armazenam no inconsciente e que se transformam em crenças, convicções ou padrões de funcionamento que nem sempre conseguimos ver de onde descendem.

O que é certo é que todas essas vozes que nos constituem são importantes, todas têm o seu lugar e todas têm o seu direito de existir e serem respeitadas, ouvidas e levadas em consideração. Não vale a pena tentar suprimir uma parte sua de forma agressiva, tentando ignorá-la, recalcando ou castrando. Essa voz, ou essa parte não desaparece. Pode ficar atrofiada, mas fica ignorada. Tudo o que fica ignorado, não desaparece nem deixa de ter um certo efeito em nós. Para sermos completos, inteiros, íntegros, isso não pode acontecer. Não podemos rejeitar partes nossas, é quase indecente.

Então o que podemos fazer? Regular a dominância de certas vozes sobre as outras. Todas se podem expressar livremente. O medo, a incerteza, a insegurança, a arrogância, a crítica, o pessimismo… Porquê? Eles fazem parte e só por fazerem parte já importam – são necessárias, senão não existiam. Mas para além dessas vozes, há as outras, a da determinação, da concretização, da superação, da gentileza, da aceitação… Há uma voz que sim, pode sempre fazer o trabalho de moderação, que é a voz firme da Consciência. Ela sim, central a todas as outras, regulando a participação de cada uma. A consciência trabalha lado a lado com a Presença, e juntas podem levar esse parlamento a bom porto e a um entendimento entre todas as partes.

“A perfeição não existe”

arms-3847498_960_720

Pois eu tenho cá para mim que sim, que existe. Existe nos momentos, em objectos, em certos alimentos ou bebidas (há pouco tempo soube de um concurso de barista para o melhor café do mundo, que seria tirado com a maior perfeição possível), em estados emocionais, em certas partes nossas ou qualidades que podemos ter e que nos valem em muitas situações, em relações que conseguimos estabelecer com certas pessoas que vão cruzando no nosso caminho, e, essencialmente, na natureza. E isto é o que me cruza a mente neste momento.

Existe uma cama feita perfeitamente, aquele bolo com a cobertura perfeita, o equilíbrio de sabores e texturas de algumas comidas, aquele chá delicioso, aquele pôr do sol ou saída com os amigos de doer a barriga de rir que nos faz chegar a casa tão mas tão saciados e satisfeitos, aquele dia de praia maravilhoso que nos deixa com uma sensação de paz e plenitude… Como não existe a perfeição no mundo? As flores, já olharam bem para elas? O universo, inteligentemente elaborado? O funcionamento do corpo humano? Ena, tantos os exemplos.

Onde não existe perfeição é em tudo o que podemos fazer ou ser. Não podemos ser sempre perfeitos, fazer sempre tudo bem feito, em todos os momentos. Não vamos encontrar a perfeição em tudo o que vemos, provamos ou sentimos. Não podemos ser constantemente perfeitos e conseguir sempre a perfeição, ter sempre momentos e sentimentos perfeitos, isso é que não é possível. Podemos tentar, mas isso vai desgastar-nos. Se podemos tentar fazer sempre o melhor possível em todos os momentos? Isso sim, para mim é perfeição suficiente. Estar presentes, conscientes, fazer o melhor, trabalharmos em nós, superarmos o que nos limita… Isso é fazer o melhor.

Afinarmos os nossos comportamentos e atitudes, respondermos da melhor forma possível aos outros e a nós, sabermos dividir o que é a esfera pessoal e a profissional, dividindo esses lados nossos de forma e vivermos um e outro plenamente quando é para viver um ou outro. A minha definição de perfeição é a aceitação de tudo o que é, tudo o que foi e tudo o que pode vir a ser.

Quando fazemos as pazes connosco, com os outros que nos magoaram, com o que já vivemos, da forma que vivemos, podemos alcançar uma certa forma de plenitude, e isso, para mim é viver em harmonia. Harmonia, para mim, é perfeição suficiente nesta existência. Isso e poder ver a perfeição das coisas vivas. Ter o prazer da contemplação, poder sentir o êxtase numa caminhada, num mergulho no mar, ou numa outra actividade prazerosa. Ter prazer na leitura, de apreciar uma tarde numa varanda ou terraço algures, aquele filme especial que mexeu connosco…

Tantas as formas de perfeição à nossa volta. Não chegam sempre, nem todos os dias. Não há constância ou permanência da felicidade nem na perfeição. Então eu digo: não tente atingir o inatingível numa correria desenfreada. Tudo o que tentamos agarrar com muita ânsia nos escapa. Tudo o que não procuramos por vezes nos acha. Permita-se viver no presente, usufruir do que tem, conquistar o que é importante para si e sentir o que é para sentir. E é esta a perfeição que nos é possível experimentar enquanto seres humanos nesta terra.

A mulher ferida e a traição

 

59986734_309128040009617_897058564638507008_n

Ainda a respeito do Caminho de Santiago. No percurso de Vigo a Pontevedra, a Senda da Água, passava por uma povoação de nome “A traída”. Esse nome, de alguma forma, ressoou em mim, disse-me algo, e eu reflecti acerca do tema da mulher ferida. A mulher traída, enganada, desanimada, magoada, e todas as feridas que podem ser as de uma mulher. Pensei em toda a linhagem de mulheres atrás de nós, cada uma de nós, das gerações anteriores a nós. As nossas mães, avós, bisavós e todas as que lhes antecedem.

Pensei no corpo de dor da linhagem feminina, os abusos, os abortos, a violência de género que ainda acontece aos dias de hoje, e todas as formas de violência à mulher desde os primórdios da humanidade. Esse corpo de dor tem correspondência imediata com o corpo de dor do masculino, pois um não fere o outro sem estar também ele magoado de alguma forma, a sofrer de alguma forma, seja por inconsciência ou por desordens emocionais ou psicológicas.

A violência à mulher, mesmo a traição, é uma forma de violência contra si mesmo. A pessoa que trai está ela própria magoada, fere o outro, ferindo-se a si mesmo, de uma maneira ou de outra. A traição é uma forma de auto agressão, auto punição, vingança contra si mesmo. “Não gosto de partes de mim mesmo, como tal uso outra pessoa para me poder vir a sentir mal comigo mesmo, de forma a poder contemplar essa aversão que sinto por mim”. Podemos pensar que é o instinto do prazer imediato, que pode ser também uma forma de fortalecimento do ego, mas não é mais do que uma pilha vazia que precisa de carregar-se com alguma fonte de energia externa.

Às vezes a própria sensação de traição, ou engano, por parte da mulher pode derivar de uma relação que não está a ser satisfatória para ela, não correspondendo às expectativas ou ideais dessa mulher para a relação ou para o companheiro. Sobre esse assunto muito se poderia escrever. A minha percepção e análise é que essa mulher colocou uma carga grande sobre o companheiro de determinadas expectativas às quais ele não pode corresponder: ou porque não consegue, ou porque não pode ou porque não quer. Quer seja por personalidade, inconsciência relativamente aos seus processos internos ou por processos de dor que são incapacitantes para ele e que ele ou não quer ou não percebe que pode tratar.

O masculino escondeu-se, ao longo de toda a história da humanidade, das questões emocionais, tradicionalmente endereçadas à mulher. A mulher sempre contemplou, aceitou e viveu o mundo emocional como parte de si, o homem não. A mulher sempre pôde conversar sobre os seus sentimentos e angústias a outras mulheres, sempre pode manifestá-los, expressá-los, sempre lhe foi autorizado, de certa forma, fazê-lo. O homem não. Sabem disto, “homem que é homem tem de ser forte, valente”, “homem que é homem não pode chorar, ter sentimentos – e Deus nos livre – de os mostrar”.

Esse tratamento dado aos homens, não esperando mais deles, ou não os tendo educado para o mundo feminino das emoções e sentimentos, não os permitiu crescer. Milénios de história e inconsciência dos tempos antigos, de dominação do masculino sobre o feminino, não desaparecem de um pé para a mão. Os homens também precisam aprender a render-se ao mundo feminino, ao mundo dos sentimentos e emoções, uma parte deles que lhes tem sido negada até agora.

Sim, não são muitos os homens que se rendem ou pretendem fazê-lo. Quando falo em inconsciência falo disso mesmo: “não preciso, não tenho de o fazer, estou bem assim”. E nós, mulheres, também temos quota parte nas convicções que mantemos, nos comportamentos que temos tido de depreciação, desvalorização e ressentimento a respeito dos homens com quem nos podemos ter cruzado ao longo das nossas vidas. Nós também não correspondemos, muitas das vezes, ao que os homens idealizam e esperam – uma mulher sorridente, que os aceita, que os recebe bem, que trata deles, que não os critica nem julga.

E nestes processos de relacionamentos modernos, com projecção do passado evolutivo dos relacionamentos, fomos acumulando expectativas, ideais e convicções que são contraproducentes e contraditórios também. Todos queremos algo uns dos outros. Mas uma coisa é certa: todos queremos alguém que nos aceite e ame incondicionalmente, que esteja lá para nós em todos os momentos, que seja sensível, maduro, bem resolvido, etc. E nós, mulheres, somos capazes de dar isso também? Que parte sua está ferida e prejudica os seus relacionamentos? É essa a sua parte a ser trabalhada para que possa ter o relacionamento feliz e completo que procura.