Os sonhos que não vivemos

dream-catcher-4065288_960_720

Onde se guardam? Onde existem? Onde ficam? As coisas que sonhámos, que idealizámos, que desejámos? As pessoas que acarinhámos e que viveram entre nós, connosco, que não existem mais? Onde guardar tanta coisa que fica para trás e não existe mais?

Dentro de nós há um espaço infinito onde cabem infinitas coisas. Onde cabemos nós, espremidos ao canto de caixas e caixas de memórias, sacos e sacos de mágoas e desilusões, caixotes e caixotes de recordações de momentos tristes, felizes, assim assim, e tudo o que lá couber dentro.

Dentro de nós também existem espaços vazios, terreiros mórbidos, lacunas, terrenos baldios, terras de ninguém. Terras para onde ostracisamos todos os fantasmas, tudo o que não queremos ver nem sentir. O que é certo é que todas essas figuras diminutas, minguantes, franzinas, continuam a existir, lado a lado com os sonhos que enxotamos para um canto da nossa existência e da nossa memória.

Os sonhos, tal animais abandonados, criam lugares onde habitar, onde continuar a existir, à espera de um dia serem descobertos, ou “desenterrados”. Cobrem-nos as areias do tempo, areias feitas de esquecimento, de “não posso”, “não consigo”, “não é certo”, “não pode ser”, “os outros não querem”, “os outros não deixam”. E vamos soterrando aquele sonho de ser bailarina, veterinário ou bombeiro, abrir aquela loja de fruta no centro da cidade, ou a loja de bijutaria feita por si. O sonho de ser pintor, escultor, carpinteiro. O sonho de ser pianista, astronauta. O sonho de escrever, ser artista de circo.

De quantos sonhos se compõe o mundo? De quantos sonhos perdidos o mundo sente a falta? Os sonhos são os dons ou os talentos que não reconhecemos nem usámos. Podemos até nunca os realizar ou concretizar, mas eles estão lá… Continuam a existir. O que queria ser quando era criança e os adultos lhe disseram que não podia ser? Que era melhor ser doutor ou doutora? Que era melhor estudar, formar-se nalguma coisa, trabalhar e depois logo vivia os sonhos, se restasse tempo?

Levamos a vida, tal Benjamin Button, a viver a vida ao contrário. Primeiro ocupamo-nos muito para sermos alguém nesta vida e neste mundo. Depois trabalhamos muito para poder ser pessoa, para poder ser essa pessoa a viver no mundo, junto dos demais, e, anos depois, apercebemo-nos que devemos dias e horas ao que gostamos de fazer. Devemos anos de vida à nossa paixão, ao que é natural em nós. Para quê? Para quem? Porquê?

Questione-se agora: estou a fazer o que gosto? O que faço apaixona-me? O que faço serve a um bem maior? Enriquece-me? Enriquece o mundo?

Tantas podem ser as questões. Faça-se a si as certas, as que o seu coração teima em martelar na sua cabeça quando está distraído. Permita-se sentir a sua vocação, a sua paixão. Os seus talentos estão debaixo da sua pele, nas suas células, no seu cérebro, naquilo que faz palpitar o seu coração. É aí que está a missão, é aí que está o propósito.

O propósito é, nada mais nada menos, do que ser feliz: com quem está, como está, a fazer o que faz. Alinhe esta verdade ao que faz neste mundo. A missão é evoluir. E só evoluímos se estamos felizes e a fazer o que é suposto estarmos a fazer. Os sonhos (o instinto, a intuição) existem para o guiar. Eles iluminam o caminho, só temos de seguir.

O tempo

andromeda-galaxy-755442_960_720

O tempo que nos escorre pelas mãos, que não conseguimos recuperar, controlar. Tantos os afazeres, tantas as solicitações, as tarefas, as responsabilidades e deveres e o tempo sempre estanque, rigoroso, não se importando se conseguimos ou não. Tirano, dá-nos aquelas míseras 24h, distribuídas igualitariamente. Não podemos comprar, negociar, não podemos pedinchar ou mendigar.

Tão injusto… O tempo que nos rouba, que nos tira segundos de vida, momentos que não voltam atrás, pessoas que não recuperamos mais, situações que não podemos salvar, pessoas, vidas que se perdem em instantes, e não podemos voltar atrás, nunca… A memória como a única coisa falha que podemos usar nesses momentos, para relembrar, para recordar, evocar o que foi.

Mas não volta atrás. Não há mais tempo do que o tempo que temos. Não podemos voltar atrás, parar, pausar, recuperar, acelerar ou abrandar. Podemos sim viver, integralmente, com o que nos é dado, fazendo a gestão dele o mais conscientemente possível. Na verdade não existe tempo… Existe uma medição da existência, em horas, segundos e minutos, que, todos juntos, se convertem em meses, dias e anos.

O Tempo é, existe, é um contínuo, é o Infinito em si. O Universo é o próprio Tempo, é matéria imaterial. O tempo é espaço, é energia, existe e existirá sempre, sempre existiu talvez. O tempo é história, é mistério, é água, é terra, fogo e ar. O tempo é Tudo, tudo o que vemos, tudo o que temos, tudo o que sempre existiu.

O tempo não é nosso, não nos pertence. Só nos podemos dar a nós. Só podemos fazer o que somos capazes, só podemos ser o que somos a cada momento. Não existe mais Nada para além disso. O Presente. O que somos a cada instante, o que pensamos e decidimos a cada momento, o que fazemos a cada momento. Dá para perceber?

Seja, viva. O tempo não vai esperar nem volta atrás. Sinta. O tempo urge.