O que verdadeiramente conta num relacionamento

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Comunicação. Respeito. Tolerância. Flexibilidade. Entendimento.

Quantos relacionamentos se perdem por falta destes atributos? Há relacionamentos à deriva, tal barcos desatracados que se deixam ir com a maré. E, quando dão por eles, migraram em direcções opostas. Quando voltam a olhar um para o outro, não se reconhecem.

Para fazer um relacionamento crescer e perdurar é preciso duas coisas fundamentais: inteligência e consciência. Poderia escrever cem textos sobre relacionamentos e ter sempre alguma coisa a acrescentar, porque é um tema de uma complexidade gigante. Ou talvez de uma simplicidade surpreendente, mas que as palavras são insuficientes para resumir. Talvez até existam demasiadas palavras para descrever o que não deveria ser tema de interpretação ou escrutínio. Mas nós somos assim, queremos clarificações, teorias, explicações e justificações.

Já escrevi em tempos um artigo sobre os atributos principais do amor, penso que eram cinco… Posso elaborar longas listas sobre atributos ou ingredientes necessários, mas no fundo, o que é verdadeiramente necessário, é saber olhar para nós. Ver o outro na sua essência e no seu funcionamento natural. Entendermo-no a nós e sabermos ler o outro tal como nos lemos a nós.

Isto leva a um sem fim de projecções, mas não tem mal, somos só seres humanos a jogar o jogo da vida na terra, do ser humano, com personalidade, feitio e temperamento, que reage à personalidade, feitio e temperamento do outro. Querem falar do Ego? Sim, ele existe para fazer reparos, para nos chamar à atenção. Existe para Reagir ao outro. Se não houvesse esse processo de reacção ao que nos dizem ou fazem, como evoluiríamos?

Não tem mal estarmos a aprender… Somos todos juvenis no que toca a amor e relacionamentos. Com quem seja, com os nossos animais, com filhos, com família, com colegas, com clientes, com maridos e mulheres. Temos de gerir (e digerir) as nossas emoções enquanto nos relacionamos com outros, também eles seres emocionais, seres mentais, seres com as suas limitações. Todos somos limitados no nosso entendimento, de certa forma. O nosso entendimento é pessoal, subjectivo, relativo a memórias, vivências e crenças.

Como ser flexível e benevolente num mundo de crítica e julgamento? Num mundo de máscaras, defesas e feridas? Trabalho interior. Ser todas essas qualidades, trabalhá-las na nossa relação connosco. Olhar benevolentemente para o outro, com atenção, com consciência plena. Serenar os nossos sentidos e mente. Ser gentil, mesmo quando a nossa mente grita impropérios. Ser compreensivos, praticar a tolerância e a subtileza da paciência. Respeitar o tempo de si e do outro, para evoluir, para aprender. Comunicar, falar, passar a mensagem – e não discutir, criticar, condenar ou julgar.

Neste entendimento, e nestes movimentos, podemos chegar mais facilmente ao outro e o outro a nós. Não se faz sem tensão, desafio, desacordos e dificuldade. Nem todos os momentos são rosas e arco-íris. Temos de passar por isso. Somos um veleiro a cruzar os mares das emoções e dos pensamentos, nossos e do outro. Porém, é bom saber que temos velas para ajustar aos ventos que sopram para nos testar. Que as saibamos manejar em proveito do crescimento mútuo.

Amor, tempo e morte

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“Amor, Tempo e Morte. São estas as três abstracções que conectam todos os seres humanos na terra. Tudo o que desejamos, tudo o que tememos não conseguir, tudo o que no fim acabamos por comprar, porque no final do dia, nós ansiamos por amor, desejamos ter mais tempo e tememos a morte.”

Filme com Will Smith, Kate Winslet e outros artistas de peso, fala-nos da morte de um ente querido e a revolta que isso traz. No fundo fala sobre a perda, sobre o vazio, sobre a solidão e sobre a desilusão, frustração e impotência relacionada com a impermanência: as coisas que amamos (ou queremos) nem sempre ficam ou permanecem.

No caso do filme, o actor principal passa pelo luto da filha de 6 anos e todo o processo de negação, dor e sofrimento. Escreve cartas para o Amor, para o Tempo e para a Morte. Como quem se revolta com Deus e com o Destino, rejeita o amor, questiona a morte e o tempo.

Todos nós nos podemos relacionar com este tema, com a importância que tem cada um desses conceitos. O amor que todos desejamos sentir e que sintam por nós – a aceitação, carinho e acolhimento que o amor nos traz. O tempo para poder ser, para poder desfrutar, para poder crescer e envelhecer. A morte que tudo leva, como um buraco negro, e que não podemos controlar – todas as pessoas que nos leva, o facto de ser inevitável para todos nós, o não saber o que vem depois, quando vai acontecer…

De facto, todas essas três coisas estão interligadas, conectam-nos, afastam-nos e amedrontam-nos. Nem sempre queremos olhar ao tempo que passa e ao tempo que resta – nunca sabemos quanto. Nem sempre nos conseguimos entregar ao amor, olhar de frente para ele e vivê-lo plenamente como ele merece – temos medo. A morte como libertação, como alívio do sofrimento – não a percebemos nem aceitamos, mas é o desapego máximo da vida.

Todos queremos ser plenos, sentir, ser felizes. Mas a falta de Amor dilacera-nos o coração, a falta de tempo não nos permite viver tudo o que gostaríamos como gostaríamos, e a morte leva-nos o controlo por absoluto. Vivendo em amor pleno, incondicional, vivendo em Aceitação Máxima do que É e pode ser a cada momento, vivendo com o Tempo que temos, morrendo a cada dia para o que pensávamos ser, é o desafio.

Que possamos viver em amor próprio e ao outro (aceitação e respeito ao outro e a nós, nos nossos variados momentos), na plenitude de cada momento (atenção plena no Presente), respirando cada morte de cada dia e de cada ser que decidiu partir (seja por plano de alma, seja por força das circunstâncias mundanas). Só assim podemos encontrar alguma decência na Vida.

Telegramas da mente

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Há palavrinhas que são como telegramas. Vêm para nos deixar uma mensagem e para se evaporarem logo depois. Falo de pensamentos, daqueles automáticos, e muitas vezes negativos, relativos a medos e preocupações. Vêm, deixam o alerta e vão embora. Mas nós, na nossa inconsciência, ficamos presos a esse pedaço de informação que chegou, e construímos-lhe uma história, damos-lhe pernas e braços e eles ganham vida, tal bonecos animados na nossa mente.

Essas personagens ganham corpo e volume, tornam-se caprichosas e arrogantes, ocupam espaço e sentem-se donas e senhoras. Ruidosas, começam uma narrativa muito própria. Decidem os contornos da história, segredam enredos e tramas. Deixamos de perceber de onde vem o quê. Mas essas personagens. da mesma forma que foram construídas, podem ser desconstruídas.

Temos de lhes adivinhar os contornos, ver onde se escondem e como se mascaram, perceber as suas origens, o que lhes deu corpo e vontade. A nossa mente tem insondáveis formas de nos fazer reféns. Estes telegramas, como lhes chamo, não precisam de passar disso mesmo: alertas da nossa mente, dos nossos sentidos e da nossa programação subliminar – aquele código com que nascemos. Podemos apanhar-lhe a informação que deixam, mas não a precisamos manter activa.

Para isso, há que desactivar a programação que analisa e interpreta ao detalhe cada pedaço de informação. Da mesma forma que detectamos cheiros ou sons, assim devem ser as preocupações da mente, não as deixar no ambiente de trabalho mais do que o tempo suficiente. Devem vir para termos atenção a algo e nós, ao captarmos essa informação, cabe-nos informar os “centros de detecção de fumo” da nossa mente: hey está tudo bem, eu estou a tomar conta da ocorrência, não é preciso alarme.

Princípio da não reactividade

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Há um livro que se chama “Os Quatro Acordos”, de Don Miguel Ruiz. É um livro muito conhecido que fala em quatro verdades: seja impecável com as suas palavras, não tome nada como pessoal, não faça suposições, e faça sempre o seu melhor. O autor decompõe estes quatro princípios sucintamente, como um código de conduta para guiar as relações e evitar sofrimentos desnecessários.

Baseada num desses princípios, eu comecei a elaborar a teoria da não reactividade: não reagir ao que o outro diz, inspirada pelo princípio da observação e da atenção plena, técnica do Mindfulness. Ou seja, para evitar irritação, raiva, frustração sentir-se ofendido ou provocado, e mesmo para evitar ser impulsivo no seu comportamento, podemos criar um espaço entre o que o outro diz e o que nós fazemos ou dizemos.

Perante o comportamento dos outros nós temos sempre um posicionamento, atitudes, comportamentos ou algo a dizer. Muitas vezes, há pessoas e situações que nos deixam com os cabelos em pé, seja com o marido, o filho, a colega, a amiga, a mãe, a irmã, ou até com o condutor da frente. Nessas situações, muitas vezes, o que a pessoa diz ou faz não é com o intuito de nos ofender, magoar ou atacar. Muitas vezes reagimos ao que nos dizem ou fazem de acordo com a interpretação que damos a essa situação, e nem sempre estamos correctos (viés de interpretação).

Quando um filho faz uma birra, ele não está a fazer para nos prejudicar ou perturbar propositadamente, provavelmente está ali uma emoção que a criança não consegue digerir. Um condutor que vai atrás e buzina porque abrandámos ou quase parámos na estrada à procura de estacionamento, está a alertar-nos que deveríamos avisar com um pisca o que vamos fazer. Uma pessoa que está chateada com alguma coisa, ou está de mau humor, e responde de forma dura e seca, não está a fazê-lo porque não gosta de si e não o respeita. Alguém que passou na rua e não o cumprimentou, pode ir distraída e não ter reparado em si.

E tantos e tantos outros exemplos. A maior parte das vezes, a comunicação verbal, ou mesmo a não verbal, não passa a mensagem correcta devido a esse viés de interpretação que fazemos. A leitura emocional ou mental que fazemos do comportamento e das palavras dos outros, nem sempre corresponde à verdade ou à verdadeira intenção do outro. São apenas leituras e interpretações nossas.O que quer dizer que nos podemos enganar ao interpretar o que os outros nos estão a tentar dizer, ou o que os outros estão a fazer.

Independentemente das interpretações relativas aos outros, o que quero mesmo falar é nas nossas reacções ao outro, e ao que o outro faz ou diz. Podemos ficar calados, podemos reagir intempestivamente ou impulsivamente e dizer o que nos passa pela cabeça, sem filtro, ou podemos falar calmamente e ponderadamente. Podemos até responder de forma evasiva e sair airosamente da situação. Qualquer que seja a nossa escolha, ou comportamento, ele deve ser resultado disso mesmo: uma escolha.

O princípio da não reactividade assenta na atenção, na consciência e na escolha de palavra, atitude e comportamento. No fundo, adequar a nossa resposta ao outro de forma a usarmos a coerência e a ponderação. Nem sempre é fácil fazer isto, podemos não querer magoar o outro ou podemos não perceber que podemos ferir o outro com as nossas palavras, ou mesmo o tom que usamos, e normalmente nem sempre estamos cientes do efeito que as nossas palavras podem ter no outro (não estamos nele para sentir o que o outro sente quando ouve o que dizemos).

A comunicação é um processo mais complexo do que se pensa, e tem tantos leitores como interpretações. Quer isto dizer que para cada mensagem, existem imensas possibilidades de leitura da nossa parte e da parte do outro com quem nos comunicamos. Tem várias nuances, atenuantes e agravantes. A linguagem encerra em si imensos significados  e cada pessoa faz uso dela da forma mais pessoal possível. Somos todos tão diferentes e o que para nós é normal, para o outro pode ser ofensivo.

O melhor que há a fazer, quando quer ser o mais neutro e impassível possível, é isso mesmo. Ouvir o outro atentamente, estar atento aos seus processos mentais e emocionais, às suas próprias crenças e convicções, e poder dar uma resposta que não contenha julgamento, crítica, altercação ou projecção. No fundo, não reagir ao outro, ao que o outro diz ou faz, mas sim responder ou agir segundo a sua verdade e a sua consciência, sem ataque e sem ofensa, mantendo a sua estabilidade e a sua integridade.

Necessidades da criança interior

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Pense nas necessidades de uma criança. O que quer uma criança senão sentir-se protegida, apoiada, amparada, compreendida, aceite, acarinhada e amada? O seu interior necessita exactamente das mesmas coisas. Não digo só do exterior ou dos outros entes queridos, mas de si para si.

Acolher a criança interior é um exercício de suma importância e que realizo sempre que posso nas minhas consultas. Penso que é o princípio do trabalho com a auto estima, abraçar as partes feridas que habitam em nós. Feridas, perdidas, zangadas, desprezadas, e todos os estados emocionais que conduzem a dor, mágoa e sofrimento.

Acontecem-nos demasiadas coisas ao longo da vida para as conseguirmos contabilizar. Muitas são boas, outras tantas trazem-nos medo, angústia, tristeza, raiva, revolta, etc. Todas essas situações que deixam marca emocional, ficam guardadas e gravadas em nós, de formas que nem sempre conseguimos compreender.

Anos após dada situação podemos perceber que ainda nos dói, ainda nos magoa, fere e perturba. Muitas vezes até podemos dizer: “mas isso não me marcou assim tanto…”, ou “mas já foi há tanto tempo…”. Não interessa, está lá. Cada coisa que nos feriu fica marcada em nós de formas subtis e duradouras, ainda que tenha sido há muito muito tempo.

A melhor forma de cuidarmos de nós, e dessas partes feridas e magoadas, é mesmo tomar contacto com elas. Nem sempre sabemos de onde vêm, o que foi ou quando foi, todas essas coisas que estão gravadas em nós e que nos impactam nos nossos relacionamentos, comportamentos, atitudes e crenças que mantemos.

A melhor forma que conheço de tomar contacto com as nossas partes, e com o passado que nos condicionou, é através de actividades meditativas e hipnose. Ou vamos lá sozinhos, ou vamos lá com um terapeuta que nos possa ajudar a navegar nessas águas emocionais e turvas da nossa mente e corpo emocional.

Iremos descobrir assuntos enterrados e esquecidos, histórias que nem nos lembrávamos já e que nem imaginávamos que seriam marcantes, mas todos somos um puzzle, ou labirinto, de informações, vivências, ligações e influências, de todas as pequenas coisas que nos acontecem. Como tal, sim, tudo nos impacta. Tudo nos marca de alguma forma, seja pela indiferença, pela comoção, alegria, tristeza ou revolta.

Nos exercícios com hipnose vamos tomar contacto com, e resgatar essas partes nossas, que assumem diversas idades, em diversas situações e contextos. E tudo o que lhe posso dizer para fazer é: faça essa criança sentir-se segura, amada, confortada, acarinhada e aceite. Ela agradece e vai ver que se sente muito mais em paz consigo mesmo e com tudo o que aconteceu na sua vida.

Resumindo, são estas as necessidades da sua criança interior:

  1. Segurança
  2. Conforto
  3. Carinho
  4. Aceitação
  5. Amor (abraços)

O carrossel da bipolaridade e da ciclotímia

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Há pessoas que vivem dentro de uma banda sonora. Por um lado há danças frenéticas, alegres, entusiasmantes e energéticas. Logo depois, uma mistura de canções nostálgicas, melancólicas ou sofridas, de mágoa, tristeza e perda. E estas pessoas alternam entre estes dois estados, não conseguindo ficar o tempo suficiente entre eles, parando ou pausando por completo o carrossel de emoções para conseguir sair dele.

É uma luta constante, para quem sofre de uma destas perturbações do humor, descendentes da depressão e da mania (estados opostos) e englobando essas duas facetas. É como quem é submergido na água o tempo suficiente para quase se afogar, para logo ser levantado novamente para ganhar fôlego e ficar com a sensação que vai ficar tudo bem, para logo ser submergido novamente, sem perceber qual o gatilho entre estes dois estados distintos.

A bipolaridade já todos ouviram falar certamente. E a bipolaridade não é um dia estar bem e outro estar mal. Não. A bipolaridade é uma doença mental quem tem ciclos marcados de depressão e de mania, que duram de alguns dias, a algumas semanas ou meses cada ciclo.

Depressão é um estado de tristeza profunda, apatia, falta de interesse, falta de energia e quase não conseguir agir de forma funcional no dia a dia. Mania é um estado de  humor aumentado ou expansivo em que a pessoa sente que é capaz de tudo e pode, inclusive, entrar em gastos excessivos, em mudanças repentinas de vida, como querer despedir-se, abrir uma firma ou viajar pelo mundo, sem medir claramente as consequências disso.

Ciclotimia é uma perturbação mais ligeira do que a bipolaridade, assemelhando-se de alguma forma à bipolaridade mas com episódios menos marcados ou menos intensos, alternando com fases de relativo equilíbrio. Ciclotimia causa estados de humor melhorado também, boa disposição, energia, confiança e produtividade. Alterna, contudo, com períodos de ligeira depressão, que pode nem ser percebida pela pessoa como tal.

Estando numa fase hipomaníaca, que é a tal fase do humor de quase euforia, a pessoa pode ficar algo impulsiva, agitada, falando mais e mais depressa, saltando de assunto para assunto, tendo mais dificuldade em manter a atenção, querendo fazer muitas coisas ao mesmo tempo e não se cansando de socializar.

Na fase depressiva, pelo contrário, pode aperceber-se de mais pensamentos automáticos negativos, ficar com menos energia, maior necessidade de recolhimento e deixando de ter vontade de participar em programas sociais, cansando-se mais facilmente. Nesta fase o ciclotímico pode querer isolar-se, desligando-se de tudo e de todos. Podem surgir aqui sentimentos de culpa, vergonha e desvalorização por comportamentos tidos na fase hipotímica.

O que causa esta perturbação, tanto como muitas outras, são factores genéticos, biológicos, hereditários e hormonais, onde acontecimentos de vida stressantes podem ser precipitantes de uma alteração neuroquímica e de um temperamento mais propício a estas alterações e oscilações de humor que caracterizam estas perturbações.

Há muita informação sobre isto na internet, onde pode pesquisar mais sobre o assunto, nomeadamente sintomas específicos de cada fase e a diferença entre estas duas perturbações. O que é certo é que há tratamentos farmacológicos e terapia específica para se conseguir ajudar o bipolar ou ciclotímico. Estas são perturbações crónicas do humor, caracterizadas por oscilações de humor.

Para pessoas com estas perturbações, fica o conselho: não deixe de fazer terapia, mesmo quando se sente bem. Vá trabalhando em si, trabalhando as suas emoções, medos, vulnerabilidades, traumas e feridas, gerindo as suas fases com equilíbrio, aprendendo o que fazer em cada fase, ou como se proteger ou prevenir recaídas ou estados muito acentuados de mania ou depressão. Há sempre solução. Quanto mais sabe sobre o assunto, melhor se pode cuidar e lidar com a perturbação.

Quem sou eu depois do casamento?

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Há relações duradouras, de décadas, que acabam por definir os seus elementos. Principalmente quando são relações que começam na adolescência, o casal cresce junto. Aprendem a viver um com o outro, a tomarem as suas decisões conjuntamente e  a tornarem-se pessoas baseado naquilo que vivem um com o outro, e naquilo que cada um pode ser e expressar na relação. Constituem-se aí moldes importantes de relacionamento, repetindo-se modelos domésticos de pai e mãe de cada um dos elementos.

Muitas relações crescem e tornam-se saudáveis e equilibradas. Outras não. Quando falamos na adolescência, um dos elementos do par pode ser mais confiante, autoritário, pouco afectuoso, pouco empático ou outras características que, de uma forma natural, acabam por impedir ao outro de ser ele mesmo, quando esse outro elemento é mais tímido, inseguro, submisso ou pouco confiante, não querendo desafiar o outro, por medo do confronto, da perda ou da rejeição.

Tenho visto mais mulheres do que homens nessa posição, considerando que descendemos de gerações em que o homem era a figura que tomava as decisões e impunha a lei em casa e esses padrões ainda existem aos dias de hoje. As mulheres assumiam um papel secundário, com a condição natural de ter de cuidar das necessidades do marido e não contestar a sua opinião ou decisão. Quando falamos na adolescência, ou em relações que iniciam na adolescência, podemos observar esses padrões ainda. Se o jovem assume o papel de decisor, a jovem assume o papel daquela que segue e obedece.

Imaginemos a jovem rapariga, sedenta de amor, apoio e protecção e uma figura masculina que a empurre para a vida. O jovem rapaz, cheio de testosterona e toda uma sociedade e legado familiar cultural a ditar que o homem é que sabe, homem tem de ser forte, homem deve comandar, bem como as expectativas inconscientes de encontrar uma futura mulher que represente o ideal de esposa, como a sua própria mãe foi.

Os dois encontram-se, relacionam-se, decidem namorar e iniciar a vida de casal, casando ou vivendo junto. A jovem, sedenta de aprovação, vê naquele rapaz a salvação para todos os problemas do mundo: com ele pode sair, pode iniciar vida, pode escapar-se do espectro da solidão e corresponder às expectativas sociais, culturais e familiares de família, união e casamento.

O rapaz, com o peso dessa responsabilidade, e também querendo corresponder a esses ideais projectados na psique colectiva, bem como com todas as armaduras que muitas vezes o masculino ainda ostenta, por medo de ser vulnerável, ou por falta de consciência de que pode ser diferente, segue nessa relação como um soldado que tem de ser valente, preocupar-se em garantir o sustento e sendo orgulhoso nos seus afectos, ainda assim não mostre fraqueza à mulher, que deve obedecer e ser subserviente…

Percebem a ideia? Estou a extremar os comportamentos de um e de outro, apesar de ainda assistir muitas vezes a estes padrões em relacionamentos em várias idades. A mulher, naturalmente, intuitiva, sensitiva e emocional, e o homem feito razão, orgulho e menos dado ao lado emocional. O que acontece quando estes dois se juntam em tenra idade é que um assume o comando, ou a liderança, da relação. O outro, naturalmente, deixa-se levar e, muitas vezes, anular, sem se dar conta disso no início.

Os anos vão passando e aquele que tem a voz menos activa na relação, vai-se desgastando. Calando para evitar conflitos, fechando porque não se sente aceite ou compreendido. O outro, implicitamente, vai mantendo a armadura e o comportamento de não partilha de responsabilidades, afazeres e diálogo sincero e transparente sobre os seus medos, dúvidas ou sentimentos. E perto um do outro, vão-se afastando e deixando a relação à deriva.

Quando o elemento mais passivo ou submisso decide acabar a relação, o outro não compreende, não aceita e fica até incrédulo. “Como pode ser isso? Então mas não estava tudo bem?” Não, não estava. A pessoa que se calou quer agora ter voz activa. Grita por dentro para ser reconhecida, ouvida, apreciada. E disto que falo há imensas variações. Casais que funcionam muito bem e deixam de funcionar porque um dos elementos evolui em direcção diferente, por motivo de gostos e interesses distintos da contraparte.

Porque é isto: as pessoas mudam, evoluem, transformam-se. Ou, no fundo, desejam fazê-lo, e estando naquela relação não é possível o crescimento ou evolução desejada (há estagnação). Isto acontece porque um quer uma coisa, numa direcção, e o outro mantém-se na mesma posição, ou até na direcção oposta, sem vontade de fazer esse percurso ou a mudança que seja importante para a outra pessoa, ou mesmo para o casal. Quando é assim, penso que a missão daquela relação chegou ao fim. A missão daquelas duas pessoas juntas terminou.

Na minha opinião as relações tem a missão de nos fazer crescer e evoluir. De nos fazer perceber quem somos e onde temos de mudar para podermos atingir o nosso melhor potencial. É só na relação com os outros que podemos ver as nossas limitações, capacidades e incapacidades. Só através dos outros podemos observar-nos a nós, os nossos comportamentos, acções, atitudes e emoções. Com os outros podemos ser pessoa. Ter ideais, projectá-los no futuro. Ter sentimentos. Perceber as feridas que teimam em queimar dentro.

Se a relação chegou ao fim, não tema. Há vida depois disso. Sofre-se, recolhem-se os cacos, e pode reconstruir novamente a sua vida, demore o tempo que demorar. Procure ajuda se for preciso, para se reorganizar e reorientar novamente. Seguir os passos de outro, ou de uma vida desenhada a dois, e de repente ter de o fazer sozinha/o quando nunca foi assim, é desafiante mas também libertador. Há dúvida, há incerteza, mas todas as grandes mudanças trazem isso.

Se este é o seu caso, foque-se em como se quer sentir, quem quer ser daqui para  frente. Crie objectivos, faça coisas que são boas para si. Pense naquilo que é importante para si, o que quer criar na sua vida e o que é possível fazer a cada momento. Dê-se tempo e oportunidade de mudar e tornar-se uma pessoa independente novamente, ou mesmo pela primeira vez. Vai ver que vai ser bom e vai aprender a gostar dessa nova fase, quando estabilizada! Força. Há sempre vida após a morte de uma relação, porque você continua. É essa relação que deve valorizar daqui para a frente.