O carrossel da bipolaridade e da ciclotímia

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Há pessoas que vivem dentro de uma banda sonora. Por um lado há danças frenéticas, alegres, entusiasmantes e energéticas. Logo depois, uma mistura de canções nostálgicas, melancólicas ou sofridas, de mágoa, tristeza e perda. E estas pessoas alternam entre estes dois estados, não conseguindo ficar o tempo suficiente entre eles, parando ou pausando por completo o carrossel de emoções para conseguir sair dele.

É uma luta constante, para quem sofre de uma destas perturbações do humor, descendentes da depressão e da mania (estados opostos) e englobando essas duas facetas. É como quem é submergido na água o tempo suficiente para quase se afogar, para logo ser levantado novamente para ganhar fôlego e ficar com a sensação que vai ficar tudo bem, para logo ser submergido novamente, sem perceber qual o gatilho entre estes dois estados distintos.

A bipolaridade já todos ouviram falar certamente. E a bipolaridade não é um dia estar bem e outro estar mal. Não. A bipolaridade é uma doença mental quem tem ciclos marcados de depressão e de mania, que duram de alguns dias, a algumas semanas ou meses cada ciclo.

Depressão é um estado de tristeza profunda, apatia, falta de interesse, falta de energia e quase não conseguir agir de forma funcional no dia a dia. Mania é um estado de  humor aumentado ou expansivo em que a pessoa sente que é capaz de tudo e pode, inclusive, entrar em gastos excessivos, em mudanças repentinas de vida, como querer despedir-se, abrir uma firma ou viajar pelo mundo, sem medir claramente as consequências disso.

Ciclotimia é uma perturbação mais ligeira do que a bipolaridade, assemelhando-se de alguma forma à bipolaridade mas com episódios menos marcados ou menos intensos, alternando com fases de relativo equilíbrio. Ciclotimia causa estados de humor melhorado também, boa disposição, energia, confiança e produtividade. Alterna, contudo, com períodos de ligeira depressão, que pode nem ser percebida pela pessoa como tal.

Estando numa fase hipomaníaca, que é a tal fase do humor de quase euforia, a pessoa pode ficar algo impulsiva, agitada, falando mais e mais depressa, saltando de assunto para assunto, tendo mais dificuldade em manter a atenção, querendo fazer muitas coisas ao mesmo tempo e não se cansando de socializar.

Na fase depressiva, pelo contrário, pode aperceber-se de mais pensamentos automáticos negativos, ficar com menos energia, maior necessidade de recolhimento e deixando de ter vontade de participar em programas sociais, cansando-se mais facilmente. Nesta fase o ciclotímico pode querer isolar-se, desligando-se de tudo e de todos. Podem surgir aqui sentimentos de culpa, vergonha e desvalorização por comportamentos tidos na fase hipotímica.

O que causa esta perturbação, tanto como muitas outras, são factores genéticos, biológicos, hereditários e hormonais, onde acontecimentos de vida stressantes podem ser precipitantes de uma alteração neuroquímica e de um temperamento mais propício a estas alterações e oscilações de humor que caracterizam estas perturbações.

Há muita informação sobre isto na internet, onde pode pesquisar mais sobre o assunto, nomeadamente sintomas específicos de cada fase e a diferença entre estas duas perturbações. O que é certo é que há tratamentos farmacológicos e terapia específica para se conseguir ajudar o bipolar ou ciclotímico. Estas são perturbações crónicas do humor, caracterizadas por oscilações de humor.

Para pessoas com estas perturbações, fica o conselho: não deixe de fazer terapia, mesmo quando se sente bem. Vá trabalhando em si, trabalhando as suas emoções, medos, vulnerabilidades, traumas e feridas, gerindo as suas fases com equilíbrio, aprendendo o que fazer em cada fase, ou como se proteger ou prevenir recaídas ou estados muito acentuados de mania ou depressão. Há sempre solução. Quanto mais sabe sobre o assunto, melhor se pode cuidar e lidar com a perturbação.

Quem sou eu depois do casamento?

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Há relações duradouras, de décadas, que acabam por definir os seus elementos. Principalmente quando são relações que começam na adolescência, o casal cresce junto. Aprendem a viver um com o outro, a tomarem as suas decisões conjuntamente e  a tornarem-se pessoas baseado naquilo que vivem um com o outro, e naquilo que cada um pode ser e expressar na relação. Constituem-se aí moldes importantes de relacionamento, repetindo-se modelos domésticos de pai e mãe de cada um dos elementos.

Muitas relações crescem e tornam-se saudáveis e equilibradas. Outras não. Quando falamos na adolescência, um dos elementos do par pode ser mais confiante, autoritário, pouco afectuoso, pouco empático ou outras características que, de uma forma natural, acabam por impedir ao outro de ser ele mesmo, quando esse outro elemento é mais tímido, inseguro, submisso ou pouco confiante, não querendo desafiar o outro, por medo do confronto, da perda ou da rejeição.

Tenho visto mais mulheres do que homens nessa posição, considerando que descendemos de gerações em que o homem era a figura que tomava as decisões e impunha a lei em casa e esses padrões ainda existem aos dias de hoje. As mulheres assumiam um papel secundário, com a condição natural de ter de cuidar das necessidades do marido e não contestar a sua opinião ou decisão. Quando falamos na adolescência, ou em relações que iniciam na adolescência, podemos observar esses padrões ainda. Se o jovem assume o papel de decisor, a jovem assume o papel daquela que segue e obedece.

Imaginemos a jovem rapariga, sedenta de amor, apoio e protecção e uma figura masculina que a empurre para a vida. O jovem rapaz, cheio de testosterona e toda uma sociedade e legado familiar cultural a ditar que o homem é que sabe, homem tem de ser forte, homem deve comandar, bem como as expectativas inconscientes de encontrar uma futura mulher que represente o ideal de esposa, como a sua própria mãe foi.

Os dois encontram-se, relacionam-se, decidem namorar e iniciar a vida de casal, casando ou vivendo junto. A jovem, sedenta de aprovação, vê naquele rapaz a salvação para todos os problemas do mundo: com ele pode sair, pode iniciar vida, pode escapar-se do espectro da solidão e corresponder às expectativas sociais, culturais e familiares de família, união e casamento.

O rapaz, com o peso dessa responsabilidade, e também querendo corresponder a esses ideais projectados na psique colectiva, bem como com todas as armaduras que muitas vezes o masculino ainda ostenta, por medo de ser vulnerável, ou por falta de consciência de que pode ser diferente, segue nessa relação como um soldado que tem de ser valente, preocupar-se em garantir o sustento e sendo orgulhoso nos seus afectos, ainda assim não mostre fraqueza à mulher, que deve obedecer e ser subserviente…

Percebem a ideia? Estou a extremar os comportamentos de um e de outro, apesar de ainda assistir muitas vezes a estes padrões em relacionamentos em várias idades. A mulher, naturalmente, intuitiva, sensitiva e emocional, e o homem feito razão, orgulho e menos dado ao lado emocional. O que acontece quando estes dois se juntam em tenra idade é que um assume o comando, ou a liderança, da relação. O outro, naturalmente, deixa-se levar e, muitas vezes, anular, sem se dar conta disso no início.

Os anos vão passando e aquele que tem a voz menos activa na relação, vai-se desgastando. Calando para evitar conflitos, fechando porque não se sente aceite ou compreendido. O outro, implicitamente, vai mantendo a armadura e o comportamento de não partilha de responsabilidades, afazeres e diálogo sincero e transparente sobre os seus medos, dúvidas ou sentimentos. E perto um do outro, vão-se afastando e deixando a relação à deriva.

Quando o elemento mais passivo ou submisso decide acabar a relação, o outro não compreende, não aceita e fica até incrédulo. “Como pode ser isso? Então mas não estava tudo bem?” Não, não estava. A pessoa que se calou quer agora ter voz activa. Grita por dentro para ser reconhecida, ouvida, apreciada. E disto que falo há imensas variações. Casais que funcionam muito bem e deixam de funcionar porque um dos elementos evolui em direcção diferente, por motivo de gostos e interesses distintos da contraparte.

Porque é isto: as pessoas mudam, evoluem, transformam-se. Ou, no fundo, desejam fazê-lo, e estando naquela relação não é possível o crescimento ou evolução desejada (há estagnação). Isto acontece porque um quer uma coisa, numa direcção, e o outro mantém-se na mesma posição, ou até na direcção oposta, sem vontade de fazer esse percurso ou a mudança que seja importante para a outra pessoa, ou mesmo para o casal. Quando é assim, penso que a missão daquela relação chegou ao fim. A missão daquelas duas pessoas juntas terminou.

Na minha opinião as relações tem a missão de nos fazer crescer e evoluir. De nos fazer perceber quem somos e onde temos de mudar para podermos atingir o nosso melhor potencial. É só na relação com os outros que podemos ver as nossas limitações, capacidades e incapacidades. Só através dos outros podemos observar-nos a nós, os nossos comportamentos, acções, atitudes e emoções. Com os outros podemos ser pessoa. Ter ideais, projectá-los no futuro. Ter sentimentos. Perceber as feridas que teimam em queimar dentro.

Se a relação chegou ao fim, não tema. Há vida depois disso. Sofre-se, recolhem-se os cacos, e pode reconstruir novamente a sua vida, demore o tempo que demorar. Procure ajuda se for preciso, para se reorganizar e reorientar novamente. Seguir os passos de outro, ou de uma vida desenhada a dois, e de repente ter de o fazer sozinha/o quando nunca foi assim, é desafiante mas também libertador. Há dúvida, há incerteza, mas todas as grandes mudanças trazem isso.

Se este é o seu caso, foque-se em como se quer sentir, quem quer ser daqui para  frente. Crie objectivos, faça coisas que são boas para si. Pense naquilo que é importante para si, o que quer criar na sua vida e o que é possível fazer a cada momento. Dê-se tempo e oportunidade de mudar e tornar-se uma pessoa independente novamente, ou mesmo pela primeira vez. Vai ver que vai ser bom e vai aprender a gostar dessa nova fase, quando estabilizada! Força. Há sempre vida após a morte de uma relação, porque você continua. É essa relação que deve valorizar daqui para a frente.

Responsabilidade emocional

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Já falei sobre este assunto por aqui? Não? Então é urgente. Falo muito deste conceito e acho-o fundamental nos relacionamentos e em relação a nós mesmos. Somos responsáveis pelo quê mesmo? Por nós. Pelos nossos sentimentos, pelas nossas emoções, acções, palavras, comportamentos e decisões. Como isso afecta o outro é outra história.

Se formos muito impulsivos ou agressivos, ou inactivos em situações que é necessária a nossa participação, podemos estar a interferir negativamente com o espaço e a liberdade do outro. Se formos assertivos, amorosos, compreensivos, benevolentes e gentis, e tudo o que fizermos for em prol de um bem maior, ainda que esse bem seja relativo a nós e ao nosso direito de sermos livres, autónomos e felizes, as nossas acções são justificadas mesmo que em contrário do que a outra pessoa possa desejar.

Nem sempre vamos poder agradar toda a gente, nem sempre vão concordar connosco ou aceitar as nossas decisões. Mas pense: é fundamental para mim eu tomar esta decisão? É importante para mim? Fará com que eu cresça e tenha a possibilidade de ser feliz? Então, contra tudo e contra todos, se for preciso, vá e conquiste o seu lugar ao sol.

Há quem vá acusar isso de egoísmo, mas fazer o que é bom para os outros pode ser considerado, no máximo, altruísmo. Uma pessoa ter a obrigação ou o dever em manter-se numa situação que não deseja e que consome os seus recursos naturais de energia, saúde e bem estar para fazer outra pessoa feliz? É egoísmo da parte de quem?

Altruísmo, ou solidariedade, é quando decidimos ajudar o próximo, fazer o bem. Manter-se numa situação indesejada pelo bem dos outros ou conforto dos outros é tortura e violência psicológica. Não vivemos mais na idade média, não precisamos fazer o “que é certo” por convenção social, cultural ou familiar. Temos o dom do livre arbítrio, somos todos livres até ao momento em que podemos decidir por nós ou por outros a nosso cargo. Tudo o resto são opiniões, desejos, projecções e expectativas dos outros.

Você é responsável, sim, pela sua felicidade. Por fazer o que pode e que consegue em cada situação. É responsável por outros a partir do momento em que tem filhos ou pessoas a seu cargo, e mesmo assim, foi ou deveria ser sua responsabilidade escolher se quer, pode, consegue ou não ter outros a seu cargo (familiares em situações de dependência ou velhice, por exemplo).

Como tal, decida o que a sua alma grita por fazer, viver e sentir. Há sempre aquela voz dentro de nós que nos diz o que que deveríamos estar a fazer, por onde deveríamos seguir, o que é importante que façamos. E isso pode envolver, de facto, afastar-se de pessoas, locais, relacionamentos e trabalhos que tenha mantido até então. Boa sorte. Se não consegue fazê-lo sozinho/a, procure ajuda.

O medo da perda e a co-dependência

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Falo hoje de um medo comum a todos nós: medo da perda de controlo, medo da perda de um ente querido (separação, afastamento ou morte), medo da perda de trabalho, medo da perda de poder, medo da perda de status, medo da perda de aprovação/carinho/amor, medo da perda material ou financeira, medo da perda de saúde, e todas as perdas que possam ser humanamente possíveis de ter.

A perda dá-nos medo, sem dúvida. Há a sensação do desconhecido que fica para além dessa perda, do que pode acontecer, de como nos podemos sentir, e, por causa disso, muitas vezes ficamos em situações de dependência relativamente a outros, a situações de emprego e relacionamentos pouco satisfatórios.

Por termos medo de perder, ligamo-nos ou queremos ligar-nos a outros. Queremos manter aquilo que nos é possível. O nosso mecanismo de sobrevivência activa-se e diz-nos que a segurança está onde é conhecido, independentemente do quão infeliz isso nos faça. Muitas vezes há a escolha, muitas vezes inconsciente, de preferir o ser infeliz ao habitar no desconhecido das águas da vida – do que há para lá daquilo que conhecemos.

Como tal, podemos levar anos a enganarmo-nos e a iludirmo-nos em relações que não nos podem trazer o que procuramos (normalmente harmonia, bem estar, felicidade, comunicação, diálogo, partilha, interesses comuns, etc.) mas, antes a monotonia, a apatia, o conveniente, ao corpo presente, do que nada.

Para a mente há duas opções: ficar ou morrer. Literalmente. Morrer é partir rumo ao desconhecido. Uma relação, por pior que possa ser, é território conhecido. Não estar na relação é a morte da pessoa que esteve naquela relação, a morte da própria relação e também do que se esperou dessa relação. São três mortes, ou três processos de luto.

Então co-dependência. Duas pessoas tornam-se dependentes uma da outra, de retro alimentarem dessa relação. Alimentarem esse vazio existencial com a presença uma da outra, ainda que seja desconfortável ou pouco satisfatório. Co-dependência é quando um não pode passar sem o outro (“não estou bem contigo nem sem ti”), e é também uma estagnação, um botão de pausa, um manter-se porque é demasiado ameaçador passar sem aquela pessoa.

Qualquer processo de perda ou separação é, no mínimo, desconfortável (para não dizer doloroso). E, a maior parte das vezes, as pessoas não querem passar por ele, fazer essa travessia do que é cómodo ou confortável, para a zona do medo (do desconhecido). Como tal, mantém-se. É uma escolha, até a não acção. E está certo também. Mas se quer crescer, ser independente, livre, há que questionar essas escolhas.

Vá, faça. Ouse, desafie-se. Pense, reflicta. Tire tempo para si, escolha por si, para o seu bem estar, saúde mental e emocional. Se filhos houver, precisam de ver em si um exemplo, de quem luta por valores elevados, como liberdade, felicidade, autonomia e independência. Se a família está contra, vá na mesma. Um dia eles vão aceitar e compreender. Faça o que é importante para si, de forma coerente, organizada e prudente, mas faça. Não é responsável por fazer os outros felizes.

Eu terapeuta (eu profissional)

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Não cheguei até aqui facilmente. Não foi só tirar o curso e pronto, somos profissionais da área. Precisamos percorrer um caminho enquanto estudantes, da matéria e da vida, de experiências pessoais e com as pessoas que nos procuram. Precisamos aprender, ler, reflectir, ouvir outros, pedir opinião, fazer trabalho pessoal de autodescoberta e auto aperfeiçoamento.

O ser terapeuta, ou ser profissional de uma área que escolhemos como o nosso propósito ou a nossa missão, quando esse papel é responsabilidade apenas nossa, e temos de dar a cara por ele – seja ser terapeuta, músico, escritor, cantor, decorador, consultor, ou o que seja – requer de nós confiança, segurança, disponibilidade, aceitação e trabalho contínuo.

Há coisas que não vão fazer por nós. Somos os nossos gestores, os nossos patrocinadores, os nossos agentes publicitários, somos assistentes e administrativos, somos consultores de autoimagem, decoradores, e todas as funções relativas a um negócio de uma pessoa só.

Somos também um ser humano com dúvidas, incertezas e inseguranças que têm de ser trabalhadas, bem como uma vida própria com os seus desafios, tal como qualquer outra pessoa. Como tal, temos de ser terapeutas de nós próprios também, conselheiros e amigos.

O meu eu terapeuta tem vindo a crescer. Ao princípio tinha receio e vergonha de emergir, de se assumir como tal. Tinha dúvidas como: será que vou ser bom? Será que as pessoas vão gostar do meu trabalho? Será que vou conseguir ajudar as pessoas? Será que o que eu sei é suficiente? Será que saberei o que fazer em todos os casos? E tantas outras questões.

Nem sempre vamos poder ajudar toda a gente. Nem todas as pessoas se vão identificar connosco, com o nosso trabalho ou a nossa forma de trabalhar. Temos de ser, também, gestores de expectativas – nossas e dos outros. Muitas vezes a nossa melhor vontade não é suficiente. Muitas vezes temos desafios, temos becos sem saída e temos de gerir as nossas frustrações, as nossas emoções reactivas ao que nos dizem, ao que nos fazem sentir.

Somos também vulnerabilidade, crítica e julgamento, e temos de trabalhar isso em nós continuamente. Temos de ser imparciais e neutros, é essa a nossa responsabilidade. Silenciar vozes críticas em nós, que personificam as nossas próprias experiências e opiniões pessoais.

Isto tudo para dizer, que todas as barreiras que possa ter relativas principalmente à questão do “será que serei capaz?”, medo da crítica dos outros e da opinião de terceiros, eu digo: vá, com ou sem medo, mas vá. A couraça da certeza de que faz o melhor que sabe e isso tem de bastar, e que tudo o resto pode ir trabalhando, em si, nas suas competências, forças e fraquezas, vai criando raízes que a irão suportar em todos os momentos.

A alma e o ego

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A consciência fala connosco suavemente, como uma voz doce, benevolente, gentil e paciente. A paciência é calma, procura apaziguar, harmonizar, levar a entendimento e procura viver no presente. O ego é intempestivo, caprichoso, amuadiço, infantil, birrento e impaciente. O ego quer já, quer agora e quer à sua maneira. O ego não quer sair da zona de conforto e quer ter sempre razão. É crítico, dita julgamentos a torto e a direito, é exigente e puramente mental. A consciência é a energia sábia do sentimento e da emoção, é mente superior. Quando ela fala, tudo se tranquiliza.

A alma e o ego encontraram-se um dia numa conversa. A alma começa a conversar e o ego dispara em acusações, críticas e dita as suas condições. A alma é conciliadora, chama o ego à razão de uma forma compreensiva. Ele choraminga, activado pelos seus medos, pela insegurança e incerteza. O ego tem medo da mudança, esperneia, resiste. A consciência, alimentada pela alma, dá a mão, pode levar o ego na encruzilhada da mente. E quando o ego pode desabafar tudo então, gritar, manifestar-se e expressar-se, a alma pode guiá-lo, levá-lo até ao seu destino, que é a evolução e a integração.

No fundo temos estas duas forças antagónicas em nós, que por vezes estão em conflito. Ego é mente, é resistência à mudança, é medo de perder o controlo, é alerta de tudo o que ameaça a nossa sobrevivência (ainda que emocional). A consciência é Verdade, é cristalina, é momento Presente, é intemporal, a tudo assiste, sabe esperar e sabe respeitar o tempo das coisas acontecerem, bem como os seus processos.

Se queremos funcionar em harmonia, não podemos banir o ego, assassiná-lo, desacreditá-lo a duras penas, sermos castigadores, críticos ou severos com ele. Não, o ego precisa ser aceite, compreendido, ser trazido à luz da consciência, olharmos para ele. Ouvirmos o que ele tem para dizer, deixarmos ele se manifestar integralmente, com toda a sua força e pujança. Este é um exercício da Consciência, permitir que ela assista, que ela contenha o ego, que ela abrace o ego.

Só assim estes dois podem coexistir em pacifica convivência. Um suporta o outro. Neste caso, a consciência concilia os receios do ego, sempre medroso mas disfarçado sob uma capa de arrogância, impertinência, astúcia e autosabotagem. O ego é criador de profecias de autorealização, sabota tudo aquilo que é importante, só pelo medo de poder não dar certo, porque ameaça a sua integridade, a sua independência, e a imutabilidade das coisas, onde ele é rei e senhor.

O seu caminho de evolução, autodescoberta e autodesenvolvimento não se faz sem a resistência do ego. Ele tem medo de perder o lugar, tem medo do desconhecido e da mudança. Como qualquer parte nossa, não quer deixar de existir. Mas a consciência é paciente, leva-o com ela. Amacia, conversa, dialoga, deixa-o Ser, deixa-o existir. Reconhece e sabe que ele faz parte da jornada humana. E só assim pode ser. Só assim conseguimos ser humanos e trabalhar em nós, acolhendo todas as partes envolvidas naquilo que somos e fazer com elas o melhor que sabemos.

A culpa que aprisiona

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Tenho assistido a muitos casos em que a culpa se torna um cárcere. Pessoas que se mantém em relações ou situações menos felizes, por culpa, por dever, por remorso. Situações menos felizes em que essas pessoas não se sentem livres para fazer o que gostariam de fazer, terminar relações que gostariam de terminar, viver outras relações que seriam boas ou gostariam de viver plenamente, mas não conseguem.

Falo do caso do homem que acha que tem de ficar com a sua mulher porque ela sempre o perdoou situações de traição ou sempre teve presente em situações difíceis e o ajudou, de alguma forma; ou do homem que fica com a sua esposa porque nunca teve uma família unida e não suporta a ideia de abandonar a filha que têm em comum; ou mesmo do homem que até deixa a mulher mas não consegue assumir uma relação com outra pessoa integralmente porque ainda está preso a sentimentos de culpa por ter “deixado” a mulher.

Quando falo em “deixar”, falo em separações. Ninguém deixa ninguém. Esse verbo assim aplicado parece que alguém deixou outra pessoa para morrer, desprotegida, desvalida, sem apoio e sem protecção. Falamos aqui de pessoas adultas. Também vejo muitas mulheres a usarem esses sentimentos de culpa a seu favor, como ganhos secundários (ele sente-se culpado, volta para mim/mantém-se presente) e sentindo-se poderosas, de alguma forma, considerando que o sentimento de culpa pode ser utilizado como moeda de troca para ter por perto esse homem que não se quer deixar ir, seja por conforto, seja por orgulho.

Falo de homens presos a sentimento de culpa, como pode ser o inverso, mas estas são as histórias a que tenho assistido, normalmente de mulheres que mantêm relações com estes homens que acabam por ser terra de ninguém e de outras mulheres em simultâneo também. Homens que estão num limbo e não se conseguem afirmar perante nenhuma das relações. Por um lado estão seguros e confortáveis numa relação assumida com as suas companheiras formais, perante a família e perante a sociedade. Por outro, estão confortáveis no colo doce e gentil, sempre aceitante destas outras mulheres, que servem como escape da vida doméstica.

Todos, os homens e mulheres nestas situações, em quaisquer dos prismas, estão em sofrimento e permitem que esta situação se mantenha. A mulher que não aceita a separação, o homem que não se consegue separar efectivamente, a amante que se mantém por perto. Como deslindar esta situação? Alguém tem de tomar a coragem ou a iniciativa de terminar a situação em que se encontra. Alguém tem de dar o primeiro passo para fora deste enredo romântico. Seja quem for, cabe-lhe o penoso caminho de superar as suas próprias frustrações, orgulho, feridas, mágoas e expectativas defraudadas.

A mulher que esperava ter encontrado a pessoa “para sempre”, o homem que não se consegue posicionar, a amante que ainda acredita que o homem vai acabar por ficar com ela e serem felizes para sempre. Há esta ideia de príncipe e princesa incutida no cérebro de cada mulher e de cada homem. De histórias com um final feliz. E por não se conseguir resistir a um penoso fim, vai-se mantendo em situações menos felizes mas que não têm o merecido desfecho.

A todas estas pessoas é devida uma profunda reflexão e contemplação de para onde se está a ir e como se quer ir. Questões de autoestima e merecimento podem ser revistas, bem como padrões de relacionamento que se mantêm presos nestes moldes de dor, sofrimento, falta e carência. O medo da perda e o medo da solidão assolam a mente humana. Mas a perda é necessária para que outras coisas possam ser vividas e outras relações construídas. A solidão/solitude e necessária para se reconstruir de novo e reerguer novas fundações e estruturas mentais e emocionais para que nada disto se tenha de repetir. Trabalho interior é necessário, seja para partir, seja para ficar.

O amor não dói, o medo da perda sim.