A culpa que aprisiona

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Tenho assistido a muitos casos em que a culpa se torna um cárcere. Pessoas que se mantém em relações ou situações menos felizes, por culpa, por dever, por remorso. Situações menos felizes em que essas pessoas não se sentem livres para fazer o que gostariam de fazer, terminar relações que gostariam de terminar, viver outras relações que seriam boas ou gostariam de viver plenamente, mas não conseguem.

Falo do caso do homem que acha que tem de ficar com a sua mulher porque ela sempre o perdoou situações de traição ou sempre teve presente em situações difíceis e o ajudou, de alguma forma; ou do homem que fica com a sua esposa porque nunca teve uma família unida e não suporta a ideia de abandonar a filha que têm em comum; ou mesmo do homem que até deixa a mulher mas não consegue assumir uma relação com outra pessoa integralmente porque ainda está preso a sentimentos de culpa por ter “deixado” a mulher.

Quando falo em “deixar”, falo em separações. Ninguém deixa ninguém. Esse verbo assim aplicado parece que alguém deixou outra pessoa para morrer, desprotegida, desvalida, sem apoio e sem protecção. Falamos aqui de pessoas adultas. Também vejo muitas mulheres a usarem esses sentimentos de culpa a seu favor, como ganhos secundários (ele sente-se culpado, volta para mim/mantém-se presente) e sentindo-se poderosas, de alguma forma, considerando que o sentimento de culpa pode ser utilizado como moeda de troca para ter por perto esse homem que não se quer deixar ir, seja por conforto, seja por orgulho.

Falo de homens presos a sentimento de culpa, como pode ser o inverso, mas estas são as histórias a que tenho assistido, normalmente de mulheres que mantêm relações com estes homens que acabam por ser terra de ninguém e de outras mulheres em simultâneo também. Homens que estão num limbo e não se conseguem afirmar perante nenhuma das relações. Por um lado estão seguros e confortáveis numa relação assumida com as suas companheiras formais, perante a família e perante a sociedade. Por outro, estão confortáveis no colo doce e gentil, sempre aceitante destas outras mulheres, que servem como escape da vida doméstica.

Todos, os homens e mulheres nestas situações, em quaisquer dos prismas, estão em sofrimento e permitem que esta situação se mantenha. A mulher que não aceita a separação, o homem que não se consegue separar efectivamente, a amante que se mantém por perto. Como deslindar esta situação? Alguém tem de tomar a coragem ou a iniciativa de terminar a situação em que se encontra. Alguém tem de dar o primeiro passo para fora deste enredo romântico. Seja quem for, cabe-lhe o penoso caminho de superar as suas próprias frustrações, orgulho, feridas, mágoas e expectativas defraudadas.

A mulher que esperava ter encontrado a pessoa “para sempre”, o homem que não se consegue posicionar, a amante que ainda acredita que o homem vai acabar por ficar com ela e serem felizes para sempre. Há esta ideia de príncipe e princesa incutida no cérebro de cada mulher e de cada homem. De histórias com um final feliz. E por não se conseguir resistir a um penoso fim, vai-se mantendo em situações menos felizes mas que não têm o merecido desfecho.

A todas estas pessoas é devida uma profunda reflexão e contemplação de para onde se está a ir e como se quer ir. Questões de autoestima e merecimento podem ser revistas, bem como padrões de relacionamento que se mantêm presos nestes moldes de dor, sofrimento, falta e carência. O medo da perda e o medo da solidão assolam a mente humana. Mas a perda é necessária para que outras coisas possam ser vividas e outras relações construídas. A solidão/solitude e necessária para se reconstruir de novo e reerguer novas fundações e estruturas mentais e emocionais para que nada disto se tenha de repetir. Trabalho interior é necessário, seja para partir, seja para ficar.

O amor não dói, o medo da perda sim.

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