O medo da perda e a co-dependência

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Falo hoje de um medo comum a todos nós: medo da perda de controlo, medo da perda de um ente querido (separação, afastamento ou morte), medo da perda de trabalho, medo da perda de poder, medo da perda de status, medo da perda de aprovação/carinho/amor, medo da perda material ou financeira, medo da perda de saúde, e todas as perdas que possam ser humanamente possíveis de ter.

A perda dá-nos medo, sem dúvida. Há a sensação do desconhecido que fica para além dessa perda, do que pode acontecer, de como nos podemos sentir, e, por causa disso, muitas vezes ficamos em situações de dependência relativamente a outros, a situações de emprego e relacionamentos pouco satisfatórios.

Por termos medo de perder, ligamo-nos ou queremos ligar-nos a outros. Queremos manter aquilo que nos é possível. O nosso mecanismo de sobrevivência activa-se e diz-nos que a segurança está onde é conhecido, independentemente do quão infeliz isso nos faça. Muitas vezes há a escolha, muitas vezes inconsciente, de preferir o ser infeliz ao habitar no desconhecido das águas da vida – do que há para lá daquilo que conhecemos.

Como tal, podemos levar anos a enganarmo-nos e a iludirmo-nos em relações que não nos podem trazer o que procuramos (normalmente harmonia, bem estar, felicidade, comunicação, diálogo, partilha, interesses comuns, etc.) mas, antes a monotonia, a apatia, o conveniente, ao corpo presente, do que nada.

Para a mente há duas opções: ficar ou morrer. Literalmente. Morrer é partir rumo ao desconhecido. Uma relação, por pior que possa ser, é território conhecido. Não estar na relação é a morte da pessoa que esteve naquela relação, a morte da própria relação e também do que se esperou dessa relação. São três mortes, ou três processos de luto.

Então co-dependência. Duas pessoas tornam-se dependentes uma da outra, de retro alimentarem dessa relação. Alimentarem esse vazio existencial com a presença uma da outra, ainda que seja desconfortável ou pouco satisfatório. Co-dependência é quando um não pode passar sem o outro (“não estou bem contigo nem sem ti”), e é também uma estagnação, um botão de pausa, um manter-se porque é demasiado ameaçador passar sem aquela pessoa.

Qualquer processo de perda ou separação é, no mínimo, desconfortável (para não dizer doloroso). E, a maior parte das vezes, as pessoas não querem passar por ele, fazer essa travessia do que é cómodo ou confortável, para a zona do medo (do desconhecido). Como tal, mantém-se. É uma escolha, até a não acção. E está certo também. Mas se quer crescer, ser independente, livre, há que questionar essas escolhas.

Vá, faça. Ouse, desafie-se. Pense, reflicta. Tire tempo para si, escolha por si, para o seu bem estar, saúde mental e emocional. Se filhos houver, precisam de ver em si um exemplo, de quem luta por valores elevados, como liberdade, felicidade, autonomia e independência. Se a família está contra, vá na mesma. Um dia eles vão aceitar e compreender. Faça o que é importante para si, de forma coerente, organizada e prudente, mas faça. Não é responsável por fazer os outros felizes.

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