Quem sou eu depois do casamento?

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Há relações duradouras, de décadas, que acabam por definir os seus elementos. Principalmente quando são relações que começam na adolescência, o casal cresce junto. Aprendem a viver um com o outro, a tomarem as suas decisões conjuntamente e  a tornarem-se pessoas baseado naquilo que vivem um com o outro, e naquilo que cada um pode ser e expressar na relação. Constituem-se aí moldes importantes de relacionamento, repetindo-se modelos domésticos de pai e mãe de cada um dos elementos.

Muitas relações crescem e tornam-se saudáveis e equilibradas. Outras não. Quando falamos na adolescência, um dos elementos do par pode ser mais confiante, autoritário, pouco afectuoso, pouco empático ou outras características que, de uma forma natural, acabam por impedir ao outro de ser ele mesmo, quando esse outro elemento é mais tímido, inseguro, submisso ou pouco confiante, não querendo desafiar o outro, por medo do confronto, da perda ou da rejeição.

Tenho visto mais mulheres do que homens nessa posição, considerando que descendemos de gerações em que o homem era a figura que tomava as decisões e impunha a lei em casa e esses padrões ainda existem aos dias de hoje. As mulheres assumiam um papel secundário, com a condição natural de ter de cuidar das necessidades do marido e não contestar a sua opinião ou decisão. Quando falamos na adolescência, ou em relações que iniciam na adolescência, podemos observar esses padrões ainda. Se o jovem assume o papel de decisor, a jovem assume o papel daquela que segue e obedece.

Imaginemos a jovem rapariga, sedenta de amor, apoio e protecção e uma figura masculina que a empurre para a vida. O jovem rapaz, cheio de testosterona e toda uma sociedade e legado familiar cultural a ditar que o homem é que sabe, homem tem de ser forte, homem deve comandar, bem como as expectativas inconscientes de encontrar uma futura mulher que represente o ideal de esposa, como a sua própria mãe foi.

Os dois encontram-se, relacionam-se, decidem namorar e iniciar a vida de casal, casando ou vivendo junto. A jovem, sedenta de aprovação, vê naquele rapaz a salvação para todos os problemas do mundo: com ele pode sair, pode iniciar vida, pode escapar-se do espectro da solidão e corresponder às expectativas sociais, culturais e familiares de família, união e casamento.

O rapaz, com o peso dessa responsabilidade, e também querendo corresponder a esses ideais projectados na psique colectiva, bem como com todas as armaduras que muitas vezes o masculino ainda ostenta, por medo de ser vulnerável, ou por falta de consciência de que pode ser diferente, segue nessa relação como um soldado que tem de ser valente, preocupar-se em garantir o sustento e sendo orgulhoso nos seus afectos, ainda assim não mostre fraqueza à mulher, que deve obedecer e ser subserviente…

Percebem a ideia? Estou a extremar os comportamentos de um e de outro, apesar de ainda assistir muitas vezes a estes padrões em relacionamentos em várias idades. A mulher, naturalmente, intuitiva, sensitiva e emocional, e o homem feito razão, orgulho e menos dado ao lado emocional. O que acontece quando estes dois se juntam em tenra idade é que um assume o comando, ou a liderança, da relação. O outro, naturalmente, deixa-se levar e, muitas vezes, anular, sem se dar conta disso no início.

Os anos vão passando e aquele que tem a voz menos activa na relação, vai-se desgastando. Calando para evitar conflitos, fechando porque não se sente aceite ou compreendido. O outro, implicitamente, vai mantendo a armadura e o comportamento de não partilha de responsabilidades, afazeres e diálogo sincero e transparente sobre os seus medos, dúvidas ou sentimentos. E perto um do outro, vão-se afastando e deixando a relação à deriva.

Quando o elemento mais passivo ou submisso decide acabar a relação, o outro não compreende, não aceita e fica até incrédulo. “Como pode ser isso? Então mas não estava tudo bem?” Não, não estava. A pessoa que se calou quer agora ter voz activa. Grita por dentro para ser reconhecida, ouvida, apreciada. E disto que falo há imensas variações. Casais que funcionam muito bem e deixam de funcionar porque um dos elementos evolui em direcção diferente, por motivo de gostos e interesses distintos da contraparte.

Porque é isto: as pessoas mudam, evoluem, transformam-se. Ou, no fundo, desejam fazê-lo, e estando naquela relação não é possível o crescimento ou evolução desejada (há estagnação). Isto acontece porque um quer uma coisa, numa direcção, e o outro mantém-se na mesma posição, ou até na direcção oposta, sem vontade de fazer esse percurso ou a mudança que seja importante para a outra pessoa, ou mesmo para o casal. Quando é assim, penso que a missão daquela relação chegou ao fim. A missão daquelas duas pessoas juntas terminou.

Na minha opinião as relações tem a missão de nos fazer crescer e evoluir. De nos fazer perceber quem somos e onde temos de mudar para podermos atingir o nosso melhor potencial. É só na relação com os outros que podemos ver as nossas limitações, capacidades e incapacidades. Só através dos outros podemos observar-nos a nós, os nossos comportamentos, acções, atitudes e emoções. Com os outros podemos ser pessoa. Ter ideais, projectá-los no futuro. Ter sentimentos. Perceber as feridas que teimam em queimar dentro.

Se a relação chegou ao fim, não tema. Há vida depois disso. Sofre-se, recolhem-se os cacos, e pode reconstruir novamente a sua vida, demore o tempo que demorar. Procure ajuda se for preciso, para se reorganizar e reorientar novamente. Seguir os passos de outro, ou de uma vida desenhada a dois, e de repente ter de o fazer sozinha/o quando nunca foi assim, é desafiante mas também libertador. Há dúvida, há incerteza, mas todas as grandes mudanças trazem isso.

Se este é o seu caso, foque-se em como se quer sentir, quem quer ser daqui para  frente. Crie objectivos, faça coisas que são boas para si. Pense naquilo que é importante para si, o que quer criar na sua vida e o que é possível fazer a cada momento. Dê-se tempo e oportunidade de mudar e tornar-se uma pessoa independente novamente, ou mesmo pela primeira vez. Vai ver que vai ser bom e vai aprender a gostar dessa nova fase, quando estabilizada! Força. Há sempre vida após a morte de uma relação, porque você continua. É essa relação que deve valorizar daqui para a frente.

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