Princípio da não reactividade

checkmate-1511866_960_720

Há um livro que se chama “Os Quatro Acordos”, de Don Miguel Ruiz. É um livro muito conhecido que fala em quatro verdades: seja impecável com as suas palavras, não tome nada como pessoal, não faça suposições, e faça sempre o seu melhor. O autor decompõe estes quatro princípios sucintamente, como um código de conduta para guiar as relações e evitar sofrimentos desnecessários.

Baseada num desses princípios, eu comecei a elaborar a teoria da não reactividade: não reagir ao que o outro diz, inspirada pelo princípio da observação e da atenção plena, técnica do Mindfulness. Ou seja, para evitar irritação, raiva, frustração sentir-se ofendido ou provocado, e mesmo para evitar ser impulsivo no seu comportamento, podemos criar um espaço entre o que o outro diz e o que nós fazemos ou dizemos.

Perante o comportamento dos outros nós temos sempre um posicionamento, atitudes, comportamentos ou algo a dizer. Muitas vezes, há pessoas e situações que nos deixam com os cabelos em pé, seja com o marido, o filho, a colega, a amiga, a mãe, a irmã, ou até com o condutor da frente. Nessas situações, muitas vezes, o que a pessoa diz ou faz não é com o intuito de nos ofender, magoar ou atacar. Muitas vezes reagimos ao que nos dizem ou fazem de acordo com a interpretação que damos a essa situação, e nem sempre estamos correctos (viés de interpretação).

Quando um filho faz uma birra, ele não está a fazer para nos prejudicar ou perturbar propositadamente, provavelmente está ali uma emoção que a criança não consegue digerir. Um condutor que vai atrás e buzina porque abrandámos ou quase parámos na estrada à procura de estacionamento, está a alertar-nos que deveríamos avisar com um pisca o que vamos fazer. Uma pessoa que está chateada com alguma coisa, ou está de mau humor, e responde de forma dura e seca, não está a fazê-lo porque não gosta de si e não o respeita. Alguém que passou na rua e não o cumprimentou, pode ir distraída e não ter reparado em si.

E tantos e tantos outros exemplos. A maior parte das vezes, a comunicação verbal, ou mesmo a não verbal, não passa a mensagem correcta devido a esse viés de interpretação que fazemos. A leitura emocional ou mental que fazemos do comportamento e das palavras dos outros, nem sempre corresponde à verdade ou à verdadeira intenção do outro. São apenas leituras e interpretações nossas.O que quer dizer que nos podemos enganar ao interpretar o que os outros nos estão a tentar dizer, ou o que os outros estão a fazer.

Independentemente das interpretações relativas aos outros, o que quero mesmo falar é nas nossas reacções ao outro, e ao que o outro faz ou diz. Podemos ficar calados, podemos reagir intempestivamente ou impulsivamente e dizer o que nos passa pela cabeça, sem filtro, ou podemos falar calmamente e ponderadamente. Podemos até responder de forma evasiva e sair airosamente da situação. Qualquer que seja a nossa escolha, ou comportamento, ele deve ser resultado disso mesmo: uma escolha.

O princípio da não reactividade assenta na atenção, na consciência e na escolha de palavra, atitude e comportamento. No fundo, adequar a nossa resposta ao outro de forma a usarmos a coerência e a ponderação. Nem sempre é fácil fazer isto, podemos não querer magoar o outro ou podemos não perceber que podemos ferir o outro com as nossas palavras, ou mesmo o tom que usamos, e normalmente nem sempre estamos cientes do efeito que as nossas palavras podem ter no outro (não estamos nele para sentir o que o outro sente quando ouve o que dizemos).

A comunicação é um processo mais complexo do que se pensa, e tem tantos leitores como interpretações. Quer isto dizer que para cada mensagem, existem imensas possibilidades de leitura da nossa parte e da parte do outro com quem nos comunicamos. Tem várias nuances, atenuantes e agravantes. A linguagem encerra em si imensos significados  e cada pessoa faz uso dela da forma mais pessoal possível. Somos todos tão diferentes e o que para nós é normal, para o outro pode ser ofensivo.

O melhor que há a fazer, quando quer ser o mais neutro e impassível possível, é isso mesmo. Ouvir o outro atentamente, estar atento aos seus processos mentais e emocionais, às suas próprias crenças e convicções, e poder dar uma resposta que não contenha julgamento, crítica, altercação ou projecção. No fundo, não reagir ao outro, ao que o outro diz ou faz, mas sim responder ou agir segundo a sua verdade e a sua consciência, sem ataque e sem ofensa, mantendo a sua estabilidade e a sua integridade.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s