Sinto, logo existo

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“Penso, logo existo”, célebre frase de Déscartes, que simboliza a ênfase dada na razão e na lógica, enquanto epítome do ser humano. Ou seja, porque penso, sou um ser dotado de inteligência e isso faz com que me conheça, me possa valorizar e possa intervir no mundo. Porque penso e tenho inteligência, posso observar-me como ser vivente. É isso que determina a minha existência: o próprio facto de me poder observar, que me faz ser (e sentir) vivo neste mundo.

Passada essa fase histórica, que baseava a nossa existência na lógica e no conhecimento, vivemos agora na era do “sinto, logo existo”, ou não seriam os animais considerados seres sencientes, que são capazes de sentir. Aqui a lógica é colocada na emoção, no sentimento. Porque sinto, vejo-me e reconheço-me como ser inteligente e valioso, pertencente a este mundo e merecedor de existir e ser reconhecido. A tónica agora é baseada no sentir, no mundo dos sentimentos e no mundo das emoções, que estão profundamente feridos na sua base.

Se só o pensar (a mente) não é suficiente para justificar a nossa existência, se só o sentir também é insuficiente, podemos perceber que somos ambos: pensar e sentir. Ambos justificam a nossa existência, fazem-nos sentir vivos, sentir humanos, inteligentes e capazes de intervir activamente no mundo. Mas lá está, estando o pensar e o sentir arraigados em eras de dor e sofrimento, milénios de crenças distorcidas, e emoções baseadas nesses sistemas de crenças, o que somos nós para além disso, se nos quisermos elevar para além dessa polaridade humana emoção-pensamento?

O “sinto, logo existo” representa também o raciocínio emocional: porque sinto é verdade; se estou a sentir, é porque estou certo. Ou seja, o próprio facto de estar a sentir, representa que tenho razão, e o que sinto torna-se então um facto. Tal como temos a racionalização, que é a nossa interpretação da realidade através do pensamento e raciocínio, temos também a “emocionalização”, que é acreditar no que sentimos como sendo a verdade, apesar dos factos ou das evidências apresentadas.

Nós psicólogos cognitivistas falamos em distorções cognitivas, como a generalização e a catastrofização. A  racionalização e o raciocínio emocional são outras delas. O tudo ou nada, os enunciados “deveria”, as conclusões precipitadas e o pensamento mágico são outras dessas distorções. Todas elas implicam uma forma de pensar, perspectiva ou conclusão que não está baseada nos factos ou na realidade em si, por si só, mas na nossa forma de interpretar e “ler” a realidade, de acordo com aquilo que acreditamos e somos capazes de avaliar a cada momento.

Considerando que a nossa capacidade de apreender a realidade é limitada, a realidade como um todo completo e complexo, é difícil fazermos sempre leituras correctas do que acontece à nossa volta, a respeito do comportamento, atitudes e palavras dos outros, visto que vamos analisar e a reagir a isso tudo baseando-nos nas nossas próprias experiências, expectativas positivas e negativas. Nem sempre o que vejo o outro a fazer, ou o outro a dizer, é realmente aquilo que o outro faz ou diz. Ao interpretar esses comportamentos posso estar a incorrer em viés de interpretação.

Como a minha realidade molda a forma como vejo e sinto, mais são as vezes em que tiramos ilações precipitadas ou erróneas, do que aquelas que vemos e sentimos com clareza. Dominar o pensar e o sentir a respeito dos outros não é tarefa fácil, porque para isso temos de nos “ler” e compreender bastante a nós próprios, para perceber em que momentos estamos a fazer raciocínios emocionais ou racionalizações a respeito do outro, e a projectar no outro as nossas próprias inseguranças ou fragilidades e a responsabilizá-lo por isso: “fizeste ou disseste isto ou aquilo, por isso querias dizer isto ou aquilo”.

Falemos então, aqui, das feridas emocionais. Só um ser ferido fica ferido com o que o outro diz ou faz. E, no fundo, quem não está ferido de alguma forma? Todos incorremos nestes erros ou viés de interpretação. Voltado às feridas, de que forma é que estas condicionam a nossa forma de interpretar a realidade? Normalmente lemos as situações de acordo com as nossas experiências, com aquilo que nos foi feito ou dito. Se tenho a ferida da rejeição, por exemplo, posso, muitas das vezes, interpretar o comportamento do outro com rejeição, ainda que o outro não me esteja a rejeitar.

Exemplo: convido um amigo para ir à praia. Esse amigo não quer, ou não lhe apetece, ir à praia nesse dia. Diz que não. Eu sinto-me rejeitado e excluído. Mas isso apenas porque a ferida da rejeição já lá está. Talvez o pai ou a mãe o tenham feito sentir-se excluído em criança. Agora, interpreta o comportamento do outro como rejeição, quando o outro, por algum motivo, não aceita algum convite. Estes e outros exemplos. Como tal, temos todos muitas feridas destas ao longo das nossas vidas. Várias pessoas nos fizeram sentir abandonados, excluídos, rejeitados, magoados, enganados, etc.

Na verdade, o comportamento do outro é apenas o comportamento do outro, independentemente das suas motivações. Nós é que o interpretamos e sentimos de determinada maneira, seja essa interpretação verdadeira ou não (correspondente ou não ao que o outro de facto fez). Confuso? Não é o que o outro faz. É como eu reajo ao que o outro faz. Como eu analiso ou sinto o que o outro faz. Mente e emoção. E a nossa mente está cheia de convicções, crenças e expectativas que podem ser facilmente feridas.

Para concluir, e voltando à questão acima: o que somos nós para além disso, se nos quisermos elevar para além dessa polaridade humana emoção-pensamento? Somos, ou podemos ser, observadores activos dos nossos próprios processos mentais e emocionais. Questionarmo-nos porque o outro realmente nos feriu. Investigar onde, em nós, está a ferida, para que a possamos transcender, deixando o outro ser o outro, e isolando a nossa ferida do que é comportamento alheio. Cuidando da minha ferida, o outro deixa de ter o poder, ou a capacidade, de me ferir.

 

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