A neurose de colocar os outros sempre em primeiro lugar

tiredachy

Porque é que as necessidades dos outros são mais importantes do que as suas?

Atendo demasiadas pessoas com sentimentos de culpa, desgaste, exaustão e depressão por deixarem as suas necessidades de lado a favor de outros. Sendo uma situação temporária, em que se assiste um membro, ou mais, da família, percebemos que é algo circunscrito no tempo, apesar de trazer desgaste e cansaço na mesma, é um factor de stress agudo. Hoje quero falar de factores de stress crónico, prolongados no tempo.

Uma coisa é cuidar de filhos pequenos, outra completamente diferente é cuidar de pais ou outros familiares acamados ou com redução da autonomia, demência, cancro, ou doença de Parkinson. “Mas eles não compreendem que eu tenho a minha família… Não aceitam ajuda de mais ninguém, não querem estranhos lá em casa, não querem ir para uma instituição ou apoio externo…”.

Filhos que se mobilizam para acudir a tudo e todos, na sua vida pessoal e familiar, que têm as suas casas e problemas para gerir, ainda prestam assistência aos seus pais ou outros familiares, como os sogros, ou um irmão dependente, por exemplo. E até aqui tudo certo, se tem o tempo, a vontade e a disponibilidade financeira para tal.

Há quem largue tudo para assistir um familiar. Há quem deixe as suas próprias vidas pessoais e investimento na carreira, para se dedicar a um familiar. Mas a factura é pesada. O custo é grande. O desgaste, a exaustão e esgotamento acompanham. A depressão também. Então podemos deduzir que algo não está bem neste cenário. Se estivéssemos a fazer o que é certo para nós, não deprimiríamos. Sim, sofremos com o sofrimento dos nossos, é verdade, mas ninguém deveria ter de pedir, ou esperar, que outra pessoa deixe a sua vida para cuidar, indeterminadamente, de outra.

Não, não vivemos em um mundo perfeito, mas já há muitas respostas sociais, lares e unidades de cuidados continuados. Há centros de dia e apoio domiciliário. Há unidades de cuidados paliativos e unidades de reabilitação. Há a possibilidade do descanso de cuidador, para quem não conhece (até 90 dias de internamento numa unidade de cuidados continuados). Há apoio particular, pessoas que cuidam de idosos, fazem a higiene, limpam e cozinham, passam a noite. Se é ideal? Sim, para quem cuida.

Para o idoso, ou pessoa dependente, estas respostas não são o ideal. Por não querer sair da sua casa, por haver o sentimento de humilhação de ter de ser cuidado por pessoas estranhas, por julgar que os filhos devem cumprir com essa obrigação, por não querer assumir que está dependente, etc. Mas aqui o sacrifício acaba por calhar, muitas das vezes, sobre as filhas, ou filha. Quando há irmãos ou irmãs, há sempre um que acaba por ser o mais sobrecarregado. Raras vezes há uma partilha igualitária de tarefas. E muitas vezes, é esperado esse papel ser assumido pela mulher. Pela filha ou pela nora.

Sobre muitas mulheres recai o papel de cuidar. Ter de cuidar dos pais até ao seu falecimento, ter de cuidar de um irmão dependente, ter de cuidar dos sogros. É os casos que mais conheço. É esperada essa tarefa das mulheres, das filhas, das irmãs, das noras. E é esperado também que tenham a sua própria casa impecável, os maridos e os filhos cuidados, sem nada lhes faltar. Também precisam de trabalhar e conseguir o seu sustento. E, já agora, que arranjem também o tempo de pintar os brancos dos cabelos, fazer as unhas, e andarem arranjadas.

Quem consegue isto? Conseguem pois, pois as mulheres acham que podem ser super mulheres. Que têm que colocar os outros sempre antes delas mesmas. Esperam isso delas. Quem, perguntam vocês. Quem espera isso delas? Toda a gente. Os pais, os irmãos, os genros, os maridos, os vizinhos, os tios, elas mesmas… Todos têm o dedo apontados para elas. Parece que descemos ao mundo para cuidar. E historicamente assim foi. Desde os tempos da pedra. Mas os tempos mudaram. Antigamente as mulheres ficavam em casa, não trabalhavam. A sua missão reduzia-se aos trabalhos domésticos e, exactamente, cuidar dos filhos e dos maridos. Posteriormente, cuidar dos pais e dos sogros.

Mas o mundo mudou. As mulheres não ficam mais em casa. Contudo, elas continuam a achar que sim, que têm de ficar. Que têm de abdicar delas mesmas em prol dos outros, senão, Deus-nos-livre!, vão acusá-las de egoísmo, e ninguém quer essa sentença sobre as suas cabeças. E sim, muitas mulheres submetem-se a esse julgamento social e familiar.

Cobramos demasiado delas, esperamos demasiado. E elas quebram, elas correm aos médicos de família para tomar ansiolíticos, antidepressivos e medicação para dormir. Andam a toque de químicos. Recorrem a psicólogos porque estão deprimidas. E quando lhes apresentamos soluções, diferentes daquilo que tem sido as soluções até ali, recusam-se, ficam de cabelos em pé, pois sentem, desde logo, o peso da rejeição, da perda de afecto, da crítica, da culpa.

Os outros querem que elas continuem, apesar do seu sofrimento, do seu desgaste, da sua exaustão. Os outros estão confortáveis nas suas casas enquanto elas correm de um lado para o outro e abandonam, muitas das vezes, as suas próprias casas. Não, não acho justo. Não acho certo. Defendo a liberdade acima de tudo, o bem-estar acima de tudo. As respostas sociais acima da depressão e do esgotamento de outro ser humano.

Se acha que está nos limites das suas forças, independentemente da opinião do familiar, ou familiares, que estão a seu cuidado, eu digo: é sobre si que recai a decisão. É você que está a sair do seu ambiente de conforto para ajudar, para cuidar, para lavar, para cozinhar, para acompanhar, para fazer. Se acha que não aguenta mais, se se está a prejudicar em termos profissionais, em termos familiares (o marido e os filhos acusam a sua falta), e em termos da sua saúde mental, então requer uma pausa, um “já chega”, um “não aguento mais”.

Os outros podem não aceitar, podem não compreender. Mas é você quem precisa decidir o que é importante daqui para a frente. O que deve ou não fazer. Os outros ajustam-se a uma nova realidade, com maior ou menor aceitação, tal como você teve de se ajustar a uma nova rotina ao cuidar de esse outro alguém. O que é estranho deixa de ser estranho, o que é humilhante e inconcebível também deixa de ser com a continuação. Tudo é uma questão de hábito. Limites são necessários existir, ainda que perante um ente querido. Se é a sua altura, força. Peça ajuda para saber quais são as opções disponíveis, peça opinião a profissionais de saúde. Mas trate de si por favor. Senão não irá restar mais ninguém para o fazer.

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