Aos mantos vermelhos e pretos

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Alguém me dizia hoje que a depressão era como um edredom vermelho e, por vezes, também preto. Achei curioso. Normalmente a depressão é vista como uma nuvem negra ou um peso no peito e na cabeça. Estas são as formas mais comuns que encontro quando peço para simbolizar a depressão, tristeza ou mesmo medo. O objectivo deste exercício é dar forma ao que sentimos, olhar para essa forma e dialogar com ela. “Vê-la”, oficializá-la. Nas crianças há um exercício muito engraçado que é o BI do Medo, dando uma cara e um nome ao medo, junto com algumas características desse medo.

Há uma parte de um dos filmes do Harry Potter, numa das aulas de defesa contra as artes das trevas, em que os alunos tinham de confrontar o seu maior medo. Havia um “sem forma” que assumia exactamente a forma do medo dos alunos, e, nesse momento, em que essa criatura assumia essa forma, eles teriam de a ridicularizar. Um dos alunos imaginou uma aranha e logo a seguir patins nas patas da aranha, fazendo com que esta se desequilibrasse constantemente e não conseguisse atacá-lo. Ao rirem todos das figuras da criatura, ela perdia o seu poder (deixava de dar medo).

Aqui não é bem o caso. O que é certo é que olharmos para os nossos fantasmas nos ajuda a isso mesmo, que eles deixem de ser fantasmas e existirem de forma omnipresente e difusa no nosso ser, como algo incognoscível. Ao olharmos de frente para as nossas emoções, ou mesmo o nosso ego, fá-las perder tamanho. Perdem volume, são apanhadas em flagrante.

Já presenciaram aqueles cães queixosos que uivam languidamente, como se todos os males do mundo lhes tivesse caído em cima, e quando vamos ao pé deles e falamos com eles, eles se calam, ainda que com aqueles olhos de inocente acossado, mantendo um ar de quem foi atraiçoado, enganado ou injuriado? Ou mais ainda, quando uma criança faz birra mas é só encenação, para ter atenção de alguma forma? Pois bem, acho que assim já ficam com a ideia.

As emoções são sintomas do nosso corpo, tal como uma doença física, também ela podendo ser reflexo do nosso mundo mental e emocional (e muitas vezes, ou a maior parte das vezes, é). Mas emoções dolorosas que ficam tempo demasiado, convertem-se mesmo em doenças, doenças mentais, como as diagnosticadas no livro das doenças mentais que nós psicólogos usamos como base de estudo: a depressão, a ansiedade generalizada, o luto patológico, a perturbação do pânico, etc.

O que podemos fazer com esses “mantos” ou “edredons” de tristeza e depressão? Que nos fazem isolarmo-nos, fecharmo-nos, evitarmos a vida lá fora e a vida dentro de nós? Não nos habituarmos a eles. Tal como o inverno tem de acabar para dar início à primavera, também o inverno da alma tem de acabar. Devemos fazer como fazemos aos guarda fatos na mudança de estação: pegar nas mantas e roupas pesadas e mudá-las de sítio, para darmos lugar a roupas mais frescas e mais leves.

Dizer a esse edredom amigo e companheiro das noites sós e frias: “agradeço-te a companhia, mas habituei-me demasiado a ti. Sei agora que me pesas e olho para ti como o que tens sido – uma capa, uma protecção, um casulo. Quero sair agora. Agora sou grande, agora vejo o mundo lá fora. Agora quero sair, viver, e ser feliz. Agora estou pronto. Agora posso fazê-lo.”

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