Os tempos da inquisição moderna

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O tempo da caça às bruxas acabou, ou será que não? Dou por mim a abrir os comentários de publicações de várias pessoas, sites ou notícias, com temas controversos – e nada grita mais controvérsia do que política, ambiente, alimentação, saúde e maternidade, bem como todas as novas teorias que vão surgindo a cada dia para nos estafar a cabeça – com conteúdos extremamente violentos, mensagens de ódio, desejos de morte, etc. E eu nem quero acreditar…

Ficou algo de inquisição em cada um de nós, de delatar, de apontar o dedo, expor, denunciar, tudo o que é diferente, tudo o que não é suposto, tudo o que choca, tudo o que sai da “normalidade”, da convenção, do esperado. Somos livres de ter e expressar a nossa opinião, mas valha-nos Deus se o fazemos e ela vai contra a corrente! Somos esfolados vivos em haste pública. Já não se apedrejam os infiéis na praça da cidade, nem se enforcam ou cortam cabeças em praça pública, agora temos as redes sociais para isso.

Muito mais sanitário e antisséptico. A crueldade e crítica humana pode mudar de forma e de canal mas continua a existir. E eu penso: como se defende a inclusão nas escolas, dos meninos menos adaptados e com mais dificuldades, de elementos da comunidade cigana e outras etnias, dos jovens com dificuldades de adaptação e de comportamento, se nem os nossos pares conseguimos aceitar, quando fazem ou dizem algo com o qual não concordamos?

Há muita violência contida dentro de nós. Revolta, angústia, medos e todas as coisas que teimamos em calar, que calaram por nós, que nunca foram expressas, em anos, décadas e milénios, de opressão (do governo, da religião). Esse veneno acaba por ser destilado por quem nem tem nada a ver com essas formas de ódio que temos contidas no nosso sistema celular (ADN), que vem de antepassados, e de gerações antes de nós. Se não, de onde viria todo esse ódio, quando vivemos em tempos de liberdade de expressão e de inclusão?

Vejo meninas de 12 e de 13 anos chamarem p#tas umas às outras, quando uma de elas é ousada, gosta de namoriscar ou flertar. Ou mesmo quando põe algodão no sutiã porque acha que tem as maminhas pequenas. Miúdas que se chamam gordas umas às outras, só para se ofenderem. Adolescentes que dizem a alguém tímido ou introvertido que deveria de morrer, pois não faz falta nenhuma. Mas o que é isto? Que violência é esta? Miúdos que, à partida, têm tudo em casa, todos os confortos materiais, pais adultos e formados, andam à escola uma série de anos, sabem o que é o bullying, têm apoio psicológico se precisarem, andam em explicações, têm adultos e familiares que falam com eles e os aconselham… Porquê tanta dor? Tanta revolta? O que verdadeiramente falta?

Vivemos numa sociedade profundamente doente. No sistema escolar, no sistema jurídico, no sistema político, no sistema de saúde… No sistema onde vivemos. No sistema mental e emocional. Temos milénios para curar em nós. Milénios de dor. A sociedade avançou depois do holocausto, depois das grandes guerras, mas o corpo de dor está lá. O corpo de dor do planeta, das sociedades, da população mundial.

Todos partilhamos o mesmo ADN humano. Esse ADN está ferido, profundamente ferido. Que possamos, individualmente, curar o nosso próprio corpo de dor. Acredito que, um a um, possamos fazer a diferença. Um dia, quando o número suficiente de pessoas tiver feito o seu trabalho, o mundo muda. Porque nos cabe a todos fazê-lo. Todos somos responsáveis. Não são os outros, não é o governo. São as pessoas. Somos nós, cada um de nós. E isto é profundamente importante. Que o façamos. Em nós e nas nossas casas. O mundo está à espera. Nós somos aqueles de quem sempre estivemos à espera.

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