A busca de significado

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Todos nós, a dada altura da nossa vida, queremos ter pessoas com quem nos identificarmos. No caso da adolescência, temos o grupo de pares, os colegas, os amigos, os primos. Começam aí os anos mais intensos de socialização e identificação. No secundário, temos de escolher uma área de estudos e, logo aí, tem de haver identificação intelectual ou cognitiva por determinadas áreas específicas que, normalmente, fazem parte dos nossos interesses, perspectivas futuras, idealização e competências que naturalmente temos.

Como por exemplo, estarmos mas inclinados para as artes, para as ciências, humanidades ou desporto. Porque queremos seguir uma dessas áreas futuramente, porque nos idealizamos a ter determinada actividade futura, ou ainda mais simples, sabemos que somos melhores em determinadas áreas e escolhermos essa área porque nos é mais natural ou mais fácil, como no caso de pessoas que escolhem humanidades para fugir às matemáticas, por exemplo.

Procuramos sempre a identificação. Na escolha de desportos ou hobbies, na escolha de amigos ou potenciais parceiros românticos. Vamos sempre pela via da identificação. Normalmente, e muito antes disto, identificamo-nos a partir de determinada altura mais pelo pai ou mais pela mãe, isso pode mudar com os anos (a esses fenómenos foram dados os nomes de complexo de Édipo e complexo de Electra, quando falamos no desenvolvimento psicossexual da criança).

Na adolescência temos o grupo de amigas ou de amigos, consoante somos rapazes ou raparigas, e normalmente andamos em bandos ou grupos. Quando saímos do secundário acontece uma individuação, perdemos esse bando ou grupo de pertença e ou começamos a trabalhar, ou vamos para um curso técnico ou ingressamos na universidade. Aí criamos novos grupos de pertença, e muitas vezes os amigos que deixamos para trás, de facto deixam de ficar tão próximos com o tempo, pois criamos laços e vínculos com outras pessoas que se tornam mais significativas para nós, não só porque passamos mais tempo com essas pessoas por convivência e proximidade, mas também porque há uma maior identificação intelectual, social e emocional com essas pessoas, por consequência.

E está tudo certo. Na idade adulta, depois dos estudos concluídos, depois de estarmos no mercado de trabalho, outra busca pode acontecer: a busca por sentido, por significação e aprofundamento das relações. O que é superficial sai, vai embora, não tem como ficar. Não há tempo para relacionamentos de circunstância, as vidas mudam, as rotinas e os hábitos também. Investe-se mais tempo na vida profissional e doméstica. Aqui noto o início também de uma procura de um mestre ou mentor.

Ainda que não seja claro, procuramos isto nas terapias, em aulas online, nos cursos e workshops, no trabalho de desenvolvimento pessoal e nos livros. Aqui percebo que andamos todos um pouco perdidos. Primeiro não temos consciência clara de que procuramos a mestria e que essa mestria acontece primeiramente com um mestre ou mentor, alguém que está mais evoluído que nós, seja em termos intelectuais, emocionais ou espirituais. Todos procuramos alguma coisa, alguém que nos ensine, que nos guie e mostre o caminho.

Nunca vivemos numa era que tivesse tantos gurus, mestres, professores, terapeutas, coaches, etc. Todos procuramos o mesmo nessa busca de sentido, de aprofundamento das nossas experiências pessoais e humanas. Queremos relacionamentos mais significativos, mais evoluídos, mais verdadeiros e sentidos. Então, de certa forma, andamos todos que nem baratas tontas à procura da próxima terapia, do próximo terapeuta, do próximo livro ou curso que nos leve lá, mais próximo de nós mesmos e do que queremos. E essa busca faz parte do caminho iniciático, em que o discípulo desperta para uma nova realidade. Sai para fora de si mesmo para se contemplar – os primórdios da consciência.

Então o ser que desperta é aquele que procura o sentido, o sentido da vida, de estar vivo. Qual o meu propósito? Porque estou cá? São as primeiras questões. E aí começa um caminho, uma jornada, que leva o discípulo cada vez mais longe de quem julgava ser. Acontece uma desconstrução, perceber que viveu numa ilusão o tempo todo. De quem era ou de quem tinha de ser, porque era o que se esperava dele, ou que ele esperava dele próprio, porque foi o que aprendeu, como aprendeu.

Nesta jornada, nesta busca de sentido e de propósito, o discípulo vai encontrar vários desafios, vários mestres e várias teorias/terapias. Vai cruzar-se com o trabalho de grupos (o sagrado feminino, o encontro com a guerreira ou deusa interior, a busca do poder pessoal, o PNL, o coaching, processos de liderança, yoga, etc.), vai fazer reiki (sessões e as iniciações), entra em contacto com uma série de terapias, como a leitura de aura, tarô, entre outras, e começa a despertar para a realidade espiritual, para as suas necessidades mais profundas e para o sentido mais profundo da vida.

Quando tiver esgotado essas hipóteses, essas terapias e livros relacionados com a espiritualidade e desenvolvimento pessoal, o discípulo, ainda assim, sente-se descontente, insatisfeito – quer mais. Mais de si. Significa que já incorporou toda a informação e todo o conhecimento. Significa também que já tem as suas práticas, que foi aprendendo com as terapias, os livros, os cursos e workshops que assistiu. Nessa fase, quer apenas uma coisa, uma linha por onde seguir: quer encontrar um mentor que o ensine, que ajude a organizar tudo o que foi adquirido até ali.

Neste momento o discípulo começa a esvaziar, começa a deixar de lado o que está a mais, o que está em excesso, o que não faz sentido e com o que não se identifica. Ainda assim sente que precisa de ajuda, precisa de um modelo, um exemplo a seguir. Alguém que lhe fale ao coração e alguém que já tenha feito esse processo e que já não esteja em busca. Aí tenta encontrar um terapeuta, um escritor, guru ou mestre espiritual, que o ensine a interiorizar todas as lições que aprendeu até ali.

Enquanto se debate com conhecimento e informação, ainda está no plano mental, na interpretação e na análise do sentido de tudo. Quando tiver absorvido tudo, quando sentir que não há mais que absorver, que não há mais espaço, há um momento ou fase de introspecção, de desidentificação e afastamento de todas as matérias que se estudou até então. O discípulo torna-se no modelo. Procura só o que é essencial, o que é fundamental. O que faz sentido no momento. Abandona todas as teorias, todo o conhecimento, e passa a viver no sentir, no intuir. Educou a sua mente, ela não comanda mais o processo. Algo superior passa a guiar. Há um funcionamento superior, subtil, gentil e suave. O discípulo deixa-se guiar pela vida, pelos relacionamentos. O discípulo deixa de buscar. Ele encontra em si o que sempre procurou fora. Ele vive em sabedoria e conexão.

Procuramos esses modelos porque, no fundo, muitas das vezes não tivemos modelos à altura. Os modelos que tivemos estavam em falta, de compreensão, de amor, de sabedoria, de intuição. Tivemos pais ou professores que nem sempre foram compreensivos, amorosos, gentis, presentes ou disponíveis. Nem sempre foram seres evoluídos e capazes na educação que foram capazes de nos passar, então cá estamos nós, à procura de um pai ou de uma mãe, um modelo feminino ou masculino de sabedoria, paz, elevação e amor incondicional. Será que esse modelo existe? Eu acho que existe em várias pessoas. Podemos encontrar isso e buscar isso em vários modelos. Todos eles, mesmo pai ou mãe, deixaram algo, mostraram algo bom. Vários terapeutas podem mostrar facetas do que buscamos. Mas o maior modelo e maior professor iremos ser sempre nós.

“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta.” Carl Jung.

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